José Paulo
O SÉCULO XXI – PERIFERIA R.S.I.
Minha longa jornada sobre o
discurso do político do psicótico em Freud, Lacan e SCHREBER, finalmente, se
transformou em campo de guerra gramatical. Trata-se da Ilíada gramatical. Por
quê? Freud e Lacan são a realeza troiana que subtraiu Helena dos gregos. Lacan
completou o sequestro/subtração do cânone da mulher mais bela da cultura
ocidental universal com sua teoria/leitura de que Helena = não-todo. Um objeto
estético não-toda, a impossibilidade de se constituir como um objeto estético,
pois, a urgência de todo objeto é sua invasão do real do ser como todo na
cultura da sociedade dos fatos estéticos.
Meu cerco a Troia (campo
freudiano) começa a dar resultados após no mínimo uma década. Em Freud
encontrei a parte da muralha feita como um castelo de areia na praia do Leblon.
E vamos em frente que atrás vem gente, ou seja, o exército que vai invadir a
cidadã-fortaleza da Tróia do freudismo lacaniano.
É provável que leve Helena de
volta prostituída, leve o objeto estético belo degradado pela posse carnal e amorosa
dos troianos, transmutado em um objeto feio aos olhos dos gregos e da cultura
ocidental. Como Marx diz em consonância com a ideologia gramatical
dominante-dirigente da visão de mundo moderna, na qual a mulher é não-toda:
“Não é suficiente dizer, como fazem os franceses, que a nação fora tomada de
surpresa. Não se perdoa a uma nação ou a uma mulher o momento de descuido em
que o primeiro aventureiro que se apresenta as pode violar”. (Marx. 1974: 339).
As pode violar como o belo estético da cultura universal ocidental como o uso
que ao nazista fizeram do belo para cimentar a política como persuasão das
massas de trabalhadores, como estética psicótica da política de massas dos
jovens alemães. (Richard: 19). Os fascistas alemães beberam em uma fonte
cristalina e consistente como vontade de potência estética:
“A cultura da Igreja católica é o
signo da organização canônica da ideologia gramatical, pois, ela alcança a
ideia da religião como fato do mundo da cultura como persuasão estética das
massas. A fantasia-estética do sofrimento (o inconsciente é a linguagem do
sofrimento estético na Igreja) como ideia popular adquire força de direito
(força de realidade, força gramatical no real do seer da realidade das massas
populares.) ”. (José Paulo).
Assim, o belo foi retomado pela
publicidade do americanismo como mulher-brinquedo a ideologia gramatical que
invadiu e/ou foi absorvido como ideologia gramatical no real do seer da mulher
não-toda (aos pedaços = peitos, lábios, bunda, pernas, mamilos enrijecidos...)
da sociedade de consumo do americanismo na década de 1950. Foi o auge da
mulher-brinquedo (Gramsci. v. III: 2148), pois, a mulher-brinquedo se tornou
consumo das massas da classe média do americanismo. O movimento hippie foi a
primeira reação en masse à
massificação gozosa da mulher-brinquedo do americanismo da elite no poder.
Gramsci que parece ignora a escuridão negra das aguas das profundezas de
Freud, diz:
“A sexualidade como função
reprodutiva e como esporte: o ideal ‘estético’ da mulher oscila entre a
concepção de reprodutora’ e de ‘brinquedo’; mas não é só na cidade que a
sexualidade se tornou um ‘esporte’; os provérbios populares: ‘o homem é
caçador, a mulher é tentadora’, ‘quem não tem melhor, vai ao leito com a
mulher’, etc., mostram como está difundida a concepção esportiva também no
campo e nas relações sexuais entre elementos da mesma classe”. (Gramsci. 1980:
390).
II
A muralha de areia da praia do
Leblon encontra-se no Capítulo II do Notas
psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranoia (dementia
paranoides). Trata-se do famoso Caso Schreber.
Leitor do livro Ética a
Nocômacos, Freud parece se debater e enfrentar Aristóteles sobre a fronteira a
partir da qual atravessada faz da psicanálise um discurso que perde sua
legitimidade não só científica, mas, verdadeiramente ética segundo a ética
aristotélica.
Freud leva a sério Aristóteles ao
ponto de Lacan dedicar vários seminários para pensar uma ética psicanalítica
distinta da ética aristotélica. No Seminário 7, A ética da psicanálise, Lacan
define uma ética do desejo (uma governo que se normalize como um abrir de quase
todas as comportas para o desejo sexual) para o campo freudiano que destrói
qualquer possibilidade do cerco a Tróia para resgatar o belo-mulher-toda, ou
melhor, trata-se de um cerco para tomar de volta o objeto estético grego (o
belo = objeto estético mulher toda) mesmo que tal objeto tenha se tornado um
objeto obsceno, perverso, pois, possuído pelos quase-bárbaros troianos em carne
e almour (alma + amor).
III
Freud desfaz o laço psicótico (na
nota 1 da página 55) que o Dr. Weber faz em seu relatório sobre Schreber tendo
como causa a linguagem forte da espécie mais ofensiva (ao estilo popular das
lavadeiras de roupa no rio do sertão). Por quê? Porque tal fato liga a psicose
à cultura?
A evolução da psiquiatria e da
psicologia ia em direção à construção do muro que criava a fronteira entre o
psíquico autônomo de um modo absoluto em relação à cultura da sociedade dos
fatos? Ao contrário, a única ligação com a psicose para Freud é o choque de
fatos sobre o homo clausus, pois, a
psicose depende do evento factual traumático que lança a biografia do indivíduo
no surto psicótico.
Com o caso Schreber Freud pensou
em construir a fronteira entre o psicótico e o normal:
“Pois, quando isso acontece,
temos apenas de seguir nossa técnica psicanalítica habitual – despir a frase de
sua forma negativa, tomar o exemplo como sendo a coisa real, ou a citação ou
glosa como a fonte original -, e encontrarmo-nos de posse de que estamos
procurando, a saber, uma tradução da maneira paranoica de expressão para a normal”. (Freud. v. XII: 550.
O objeto da análise clínica não é
o falar de Schreber, e sim o discurso do AUTOR Schreber, ou melhor, sua écriture lacaniana ≅
gramática para as ciências
gramaticais da política universal. Então Freud tem uma política de
restrição psicanalítica (Freud: 55) para abordar
o objeto, agora, não mais o sujeito da fala, mas o sujeito-autor, o escritor
publicado.
Freud não está lidando com o
ouvinte de sua analítica terapêutica, mas com um sujeito que não escuta o
analista, que não tem como conversar desejando-o como o novo maître que traz o
novo discurso- como no caso Dora. E, assim, como Dora é o primeiro sujeito
teórico/prático gramatical da neurose histérica, Schreber é a Dora da psicose!
Mas trata-se da passagem da
escuta para a leitura.
Aparentemente, Freud inventa com
sua faculdade de imaginação científica, ele cria com sua faculdade imaginativa
médico-psicológica o psicótico (no lugar do doente dos nervos de Deus) na leitura de um discurso que é o discurso do
político do psicótico o Dr. Senatspräsident- juiz SHCREBER. Não poderia ser por
um outro viés, um viés sartreano, tal invenção freudiana (Sartre: 240) - invenção
da imaginação da ideologia gramatical em narrativa lógica freudismo.
Então Freud, ele põe e repõe até
o encerramento final do campo freudiano a legitimidade do discurso freudiano na
abordagem da psicose, pois, trata-se de uma “escuta” não do falar do paciente,
e sim uma escuta do dito que é uma écriture
(Philonenko: 184-185). E a écriture
se diferencia da fala, sendo esta parcela do real que se encontra no campo da
guerra, estando aquela, pois, no campo do simbólico onde encontra-se o espaço
público procedural da luta (confronto) e do diálogo (diplomacia).
Por esta razão, Freud diz que
deve ser diplomático com Schreber, evitar o decretar como inimigo no sentido da
teologia secular política de Karl Schmitt (Schmitt: 51-63). A psicanalise não
deve determinar o psicótico como um sujeito gramatical hostil à sociedade dos
significantes neurótica. E nem o perverso! E, contudo, o psicótico acaba por
ser transformado em um criminoso psiquiátrico sujeito ao aparelho psiquiátrico
de Estado. Tal criminalização atinge o perverso homossexual, pois, há algum
tempo atrás o gay era condenado a trabalho forçado na democrática Inglaterra.
Freud é bem claro sobre o sentido
de transformar o doente dos nervos Schreber em um psicótico. Se falhar em seu
empreendimento, o campo freudiano desaba como um castelo de areia na muralha de
Tróia:
“Dou-me perfeitamente conta de
que um psicanalista necessita de certa quantidade de tato e reserva sempre que,
no decurso de seu trabalho, vai além dos casos típicos de interpretação, e de
que seus ouvintes ou leitores (e a
polícia psiquiátrica) só o seguirão na medida em que a familiaridade deles
com a técnica analítica lhes permita. Tem ele toda razão, portanto, de
guardar-se contra o risco de que uma exagerada exibição de perspicácia de sua
parte se fazer acompanhar de uma diminuição na certeza e fidedignidade dos seus
resultados. Assim, é apenas natural que determinado analista tenda
demasiadamente para a cautela e outro excessivamente para a ousadia. Não será
possível definir os limites precisos da interpretação justificável até que se
tenham realizado muitos experimentos e que o assunto se tenha tornado o mais
conhecido. Trabalhando no caso de Schreber, uma política de restrição me foi
forçada pela circunstância de que a oposição a que ele publicasse as Denkwürdigkeiten foi eficaz, a ponto de
afastar do nosso conhecimento considerável parte do material – a parte também
que, com toda probabilidade, teria lançado a luz mais importante sobre o caso”.
(Freud. v. XII: 55).
O efeito do caso Schreber é a
passagem (antecipada) do campo freudiano para o campo lacaniano. Passagem da
escuta do inconsciente freudiano estruturado como uma linguagem paro a leitura
do inconsciente lacaniano: lalangue. Este inconsciente não é aquele da fala, e
sim o da escritura topológica matemática lacaniana: “L’inconscient est ce qui se
lit”. (Lacan. S. XX; 29). Aquilo que se lê como sofrimento na biografia do
indivíduo. Assim, Freud estava atrás da gramática do sofrimento discurso de
Schreber, pois,
NO SEMINÁRIO XX, LACAN FALA DA ESCRITURA
TOPOLÓGICA MATEMÁTICA COMO LALANGUE E NÃO DESTRONA A ESCUTA DA FALA (DORA) EM
FUNÇÃO DA LEITURA DA ÉCRUTURE DE SCHREBER? (Lacan. S. 20: 44; 45; 108; 109;
110; 116; 118).
“Vous voyez qu’à conserver ce comme, je m’en tiens à l’ordre de ce que
j’avance quand je dis que l’inconscient est estructuré comme um langage. Je dis comme
pour ne pas dire, j’y reviens toujours, que l’inconscient est structuré par une
langage. L’inconscient est struturé comme les essemblages dont il s’agit dans
la théorie des ensembles sont comme des lettres”. (Idem: 46-47).
Não é possível ignorar a
consistência no real do ser da psicanálise do inconsciente matemático lacaniano
(Lacan. S. XX: 108-110; 116; 86) Trata-se de uma revolução lacaniana, pois; Ce
que j’avançais, en écrivant lalangue
en un seul mot, c’est bien ce par quoi je me distingue du structuralisme, pour
autant qu’il intégrerait le langage à la sémiologie – et ça me parît être une
des nombreuses lumières qu’a projetées Jean-Claude Milner”. Comme l’indique le
petit livre que je vous ai fait lire sous le titre du Titre de la lettre, c’est bien d’une subordination du signe au
regard du signifiant qu’il s’agit dans tout ce que j’ai avance”. (Lacan. S. XX:
93).
A hipótese que funda o campo
lacaniano (tendo como sujeito gramatical o psicótico) é:
“Le langage est une élucubration
de savoir sur lalangue”. (S. XX: 125). E que é lalangue?
S2, j’appelle ça. Il faut savoir
l’entendre – est-ce bien d’eux que ça
parle? Il est généralement énoncé que la langage sert à la communication.
Communication à propôs de quoi, fault-il se demander, à propos de quel eux? La
communication implique la référence. Seulement, une chose est claire, le
langage n’est que ce qu’élabore le discours scientifique pour rendre compte de
ce que j’appelle lalangue.
Lalangue sert à des toutes choses
qu’à la comunication. C’est ce que l’expérience de l’inconscient nous a montré,
en tant qu’il est fait de lalangue, cette lalangue dont vous savez que je
l’écris en un seul mot, pour designer ce qui est notre affaire à chacun,
lalangue dite maternalle, et pas pour rien dite ainsi.
Si la communication se reproche
de ce qui s’exerce effectivement dans la joussance de lalangue, c’est qu’elle
implique la réplique, autrement dit le dialogue. Comme je l’ai autrefois
articulé, rien n’est moins sûr. (Idem; 126).
Passagem do inconsciente
estruturado como uma linguagem para o inconsciente estruturado por uma linguagem
matemática, sem exagero, a linguagem matemática lacaniana (S. XX: 46-47).
Passagem do inconsciente do discurso da lógica do significante do político da
Dora para o inconsciente topológico matemático do político do Schreber?
Dora deseja um mâitre! Schreber
deseja ser não-todo! Ele deseja ser a bela Helena, mesmo como objeto sujo por
ter passado pelas mãos dos troianos como troféu da superioridade de persuasão
troiana sobre os gregos?
IV
A propósito, a política mundial
se encaminhou para as periferias lacaniano, as circunferências Real, Simbólico,
Imaginário ou R.S.I. (Real/Simbólico/Imaginário) fazendo da clínica homo clausus (do tratamento do neurótico) um
fenômeno da sociedade dos significantes do psicótico às avessas:
“Cela pour vous montrer qu’ils ne
serrent au plus près qu’à la lumière des catégories que j’ai essayé de dégager
de la pratique analytique, nommément le symbolique, l’imaginaire et le réel”. (Lacan.
S. 20: 97), como periferia que articula um mundo planetário!
Assim, a periferia R.S.I. sintetizou
o homo clausus com a cultura da
política mundial da civilização arcaica do século XXI da sociedade do discurso
do transpolítico às avessas do psicótico. Para o psicótico não haverá centro, e
sim apenas periferia. Schreber quer ser periferia onde o enlace das circunferências
faz laço gramatical em o ser do real da sociedade como não-todo.
a)
Há
uma época da bipolaridade política mundial: EUA versus URSS. Acaba tal era em
1989-1990, acaba a ideia do planeta sob domínio de dois polos políticos.
b) Depois
vem a era do mundo monopolar: domínio absoluto dos EUA, centro do planeta.
c) Agora
é a era do grau zero da polaridade. Os tolos chamam de multipolaridade, pois,
não suportam ter que conviver com o fim da ideia de centro e com a subtração do
centro factual
d) A cidade-estado de Ur (Urstaat) é o lugar de surgimento do ESTADO ARCAICO (URSTAAT) na civilização arcaica. É muito provável, quase certo, que a FORMA Estado universal arcaica não sobreviva ao fim da ideia arcaica de civilização do século XXI.
d) A cidade-estado de Ur (Urstaat) é o lugar de surgimento do ESTADO ARCAICO (URSTAAT) na civilização arcaica. É muito provável, quase certo, que a FORMA Estado universal arcaica não sobreviva ao fim da ideia arcaica de civilização do século XXI.
A civilização arcaica tem um outro fenômeno que a constitui: o CAPITAL RENTISTA que hoje domina a civilização arcaica (pois sem polos, apenas constituída por periferias) do século XXI.
O capital rentista sobreviverá ao
fim da ideia de civilização no século XXI como soberano das periferias (circunferências) lacanianas?
Periferia
Substantivo feminino
1.
geom. linha que delimita uma
superfície; circunferência.
"p. de um círculo"
2.
geom. superfície de um sólido
V
O problema da interseção da periferia RSI na política mundial é o problema tático fatal que será perseguido sem êxito pelos povos do século XXI. O que vai enredar os povos, em tela, será apenas o capital rentista.
Na atual atualidade, não é o trabalho político representativo moderno que articula a configuração periférica, é o trabalho às avessas do transpolítico (este é o trabalho mais real que o próprio trabalho político do real) que é o trabalho menos real que o próprio trabalho político do menos real - que é o próprio real fazendo pendant com o irreal. Trata-se do objeto irreal (agir como ersatz de gramática em narração topológica lacaniana) como sujeito gramatical quase transcrito no inconsciente do discurso do transpolítico às avessas como ator-político imaginário real fazendo pendant com o irreal:
“ l’acte d’imagination nous
venons de le voir, est un acte magique. C’est une incantation destinée à faire
apparaître l’objetc auquel on pense, la chose qu’on désire, de façon qu’on
puisse en prendre possession”. (Sartre: 239).
No mundo da soberania periferia lacaniano do século XXI, a faculdade imaginação prática transpolítico às avessas subtrai do saber o lugar de significante S2 gramatical no discours du maître?
No mundo periferia, o objeto
estético belo é tão irreal quanto o real objeto estético feio! Helena é tão irreal quanto qualquer objeto
real feio industrialis do imaginaire da SOCIEDADE DA BÜROCRATIE POST-CAPITALIST
DA PERIFERIA LACANIANA, como o infeliz e feio (na imaginação da polícia
psicanalítica-psiquiátrica) Schreber.
Observe-se que o trabalho irreal/real da produção do Estado BÜROCRATIE POST-CAPITALIST DA PERIFERIA LACANIANO é o caminhante que faz seu caminhar – sem a menor resistências das democracias ocidentais - seja na Turquia seja no Brasil.
GRAMSCI, Antonio Maquiavel, a política e o Estado moderno. RJ:
Civilização Brasileira, 1980
---------------------- Quaderni del cárcere. v. III. Quaderni
12-29 (1932-1935). Torino: Einaudi, 1977
LACAN, Jacques. Encore. v. XX.
Paris: Seuil, 1975
MARX. Os Pensadores. SP: Abril Cultural, 1974
PHILONENKO, Alexis. Essais sur la philosophie de la guerre. Paris: J. VRIN, 1988
PHILONENKO, Alexis. Essais sur la philosophie de la guerre. Paris: J. VRIN, 1988
SARTRE. L’imaginaire. Paris:
Idées/Gallimard, 1940
SCHMITT, Carl. O conceito do
político. Petrópolis: Vozes, 1992
.
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