quinta-feira, 14 de junho de 2018

O MARXISMO DE LIMA BARRETO


José Paulo 

Há uma gramática do passado republicano no Recordações do escrivão Isaías Caminha que pode iluminar o sujeito da gramática da atualidade? Já falei do lugar que o jornalismo ocupa na gramática do republicanismo. Trata-se de mostrar que o jornalismo é um gramático rhetor percipio no romance em tela.

Antes de prosseguir deixo assentado que o romancista mantém com o leitor uma linguagem de iniciados, iniciados no mundo e uma unidade histórica. Pressupõe conhecido o que tem a dizer, instala-se na conduta de um personagem e apenas apresenta ao leitor a sua marca, seu rastro nervoso e peremptório no que o cerca. (Merleua-Ponty: 80). Este é o caso de Lima Barreto com o personagem Plínio de Andrade enquanto tal personagem fala do jornalismo republicano.

O jornalismo republicano nasce capitalista rhetor percipio:
“São grandes empresas, propriedade de venturosos donos, destinadas a lhes dar o domínio sobre as massas, em cuja linguagem fala, e a cuja inferioridade mental vão ao encontro, conduzindo os governos, os caracteres para os seus desejos inferiores, para os seus atrozes lucros burgueses”. (Lima Barreto. v. 1: 146).

L. B. tem um modo cativante, encantador de falar do rhetor percipio brasileiro. Trata-se de um certo personagem do sincretismo religioso brasileiro de um livro comentado por nosso autor em tela. É Lelé, feiticeiro e sacristão, letrado a seu modo, rábula de câmaras eclesiásticas:
“Um tanto crente e um tanto impostor, aproveitando-se de epidemias e desgraças climatéricas, emprega o seu ascendente sobre o povo e também sobre os senhores de fazenda em cujo espírito o seu prestígio se tinha infiltrado, transforma a todos em fanáticos obedientes ao seu mando”. (Lima Barreto. v. 13: 146).

O leitor gramaticaliza, metaboliza a possível comparação entre o jornalismo republicano burguês e os mass media da atualidade? Ambos são capitalistas; ambos lidam com o caos de epidemias e desastres climáticos; ambos lidam com o caos para controlar as massas e a classe dirigente. Trata-se da repetição do Mesmo (da mesma gramática do republicanismo) com outros elementos.

 Cada gramática da sociedade do presente tira seu sentido de todas as outras gramáticas do tempo-espaço do passado. O sujeito da gramática do presente deve ultrapassar os signos do passado em direção ao sentido da presença presente. A gramática do presente não se contenta em prolongar o passado, arrumando para ele um lugar para si no mundo. Quer conservá-lo em seu sentido, mas recapitulá-lo, recriá-lo; a gramática do presente enreda-se em si mesma, retifica-se, reanima-se; a gramática da presença presente procura possuir-se, procura conquistar o segredo de suas próprias invenções; o homem não pinta a pintura, mas fala sobre a gramática.

Se a gramática é (como rhetor percipio) um equilíbrio de forças que se repete, então:
“Tudo esteve aí inúmeras vezes, na medida em que a situação global de todas as forças sempre retorna. Se alguma vez, sem levar isso em conta, algo igual esteve aí, é inteiramente indemonstrável. Parece que a situação global forma as propriedades de modo novo, até nas mínimas coisas, de modo que duas situações globais diferentes não podem ter nada de igual”. (Nietzsche: 439).

O gramático rhetor percipio retorna como diferença entre os elementos do passado e as propriedades de modo novo, em uma nova situação. O capitalismo jornalístico da republica nascente retorna em forma de novas propriedades buscando a articulação da hegemonia como gramático republicano burguês no século XXI.    

O marxismo de Lima Barreto foi um escândalo mudo ao abordar o jornalismo republicano burguês. Trata-se de um romance de relato marxista (que bebe no realismo europeu como todos sabem)  como centro virtual da escritura limabarretiana. O marxismo limabarretiano estabelece uma diferença capital entre o jornalismo monarquista (feito por indivíduos) e o jornalismo realizado por aparelhos capitalistas:
“Não é fácil a um indivíduo qualquer, pobre, cheio de grandes ideias, fundar um que os combata... Há necessidade de dinheiro; são precisos, portanto, capitalistas que determinem e imponham o que se deve fazer num jornal...Vocês vejam: antigamente, entre nós, o jornal era de Ferreira de Araújo, de José do Patrocínio, de Fulano, de Beltrano...Hoje de quem são? A Gazeta é do Gaffrée, o País é do Visconde de Morais ou do Sampaio e assim por diante. E por detrás dela estão os estrangeiros, senão inimigos nossos, mas quase sempre indiferentes às nossas aspirações...”. (Lima Barreto. v. 1: 146-147).   

De Francisco de Assis Barbosa, a primeira biografia de Lima Barreto nada fala sobre a linguagem marxista limabarretiano. De Lilia Schwarcz, temos livro de 2017 sobre Lima Barreto tratando o jornalismo no Recordações do escrivão Isaías Caminha.   

Lima Barreto fala da luta de classe no jornalismo. Há uma imprensa operária anarquista e marxista no eixo Rio-São Paulo com a qual Lima Barreto manteve ligações. Fundado em 1902, o segundo Partido Socialista Brasileiro é marxista tendo como lideranças Silvério Fontes, Ascendino  Reis e outros adeptos  da União Socialista de Santos. (Carone. 1970: 202).

O campo da luta de classes burguesia versus classe operária é uma realidade pujante e organizada no terreno ideológico. Pequenas e grandes greves ocorrem nas duas primeiras décadas do século XX; jornais são criados.  Pelo recenciamento do Rio de Janeiro, de 1906, numa população de 811 443 habitantes, 118 770 são operários: a maioria é de estrangeiros principalmente portugueses e espanhóis. (Carone. 1970: 191).

Em 1890, O Centro Artístico do Rio de Janeiro transforma-se em Partido Operário. Este faz greves políticas para derrubar os ditadores Deodoro da Fonseca e depois Floriano Peixoto, na véspera da Revolta da Armada. Em 1982, realiza-se o I Congresso Socialista do Rio, ao qual comparecem 400 militantes: dele resulta a fundação do Primeiro Partido Socialista Brasileiro, pelo mulato França e Silva. (Carone. 1970: 199-299).

Os personagens socialistas do Recordações... são um efeito na literatura da luta de classes realmente existente no eixo Rio-São Paulo. A linguagem marxista de Lima Barreto é o não dito no dito. L. B. fala de uma ideologia niilista nietzschiana da burguesia bancária e industrial como causa da I Guerra Mundial. (Lima Barreto. v. 13: 120-121); nosso autor usa o significante de Marx sociedade burguesa (Lima Barreto. v. 13: 136), e outros como exploração de classe e mais outros conceitos marxistas.

A literatura de Lima Barreto pode ser vista como um efeito da luta de classe. Como máquina de guerra gramatical, o discurso limabarretiano é luta de classe na literatura. A interpretação burguesa de L. B. fala em carreira literária. L. B. teria como objetivo fazer parte da República Burguesa das Letras da qual ele é foracluído. (Schwarcz: 211; 234). Lilia Schwarcz chega muito perto de falar abertamente de luta de classe na cultura:
“Entre acertos e erros, escárnio e mensagem dirigida, Lima mostrava suas garras diante da imprensa, e fazia dela uma plataforma de ataque à República das Letras e a tudo aquilo de que  se julgava excluído. A investida, forte, não foi em vão. No caso da imprensa, o silêncio foi o melhor contra-ataque”. (Schwarcz: 226).

A propósito, a carreira literária não é uma carreira burocrática na República das Letras. A rigor, não se trata de carreira,  e sim da vontade de saber como vontade de escritura gramatical literária contra a ordem burguesa realmente existente como hipótese repressiva da cultura, pois, a gramatologia da sociedade do republicanismo é tratada como um caso de polícia cultural colonial (Foucault. 1976: 35).

Em outro trecho, Schwarcz diz:
“Mas o malogro maior veio da atitude do Correio da Manhã. Principal alvo do ataque, o grande jornal simplesmente ignorou a existência do romance, e vetou o nome de Lima na sua redação e nas suas páginas. Como se dizia na época, foi um ‘silêncio olímpico’. Já os demais periódicos, fazendo coro a certa ‘ética de classe’, devem ter achado mais prudente calar, ao menos por um tempo, diante da obra considerada absolutamente ‘inconviniente’ “. (Schwarcz: 229).     

 Schwarcz é uma máquina de guerra intelectual burguesa, pois ela tem ligações familiares com  a Editora Companhia  das Letras do aparelho bancário  da família Moreira Salles. Schwarcz faz todo um trabalho de articulação da hegemonia burguesa no campo cultural indo da universidade, imprensa e mass media. Sua leitura competente de L.B. consiste em uma estratégia cujo objetivo é uma apropriação burguesa do discurso limabarretiano na terceira década do século XXI.

Schwarcz faz luta de classe burguesa na literatura limabarretiana.

O  discurso  limabarretiano é um  efeito da luta de classes na literatura assim como o  PCB  é efeito da luta  de classes na política nacional como decorrência da Revolução Russa marxista. (Carone. 1982: 19); Segatto: 15).
        
           
      


   
    
     
  

sexta-feira, 8 de junho de 2018

LIMA BARRETO: GRAMÁTICO DO REPUBLICANISMO

GRAMÁTICA DO REPUBLICANISMO BRASILEIRO


jose paulo
                                                         
                                                                          
A gramática de uma nação ou sociedade na era moderna jamais pode ser entendida por si própria, uma a uma. Uma a uma, nada significam; cada gramática expressa menos um sentido do que marca um desvio de sentido entre si mesmo e os outros. A gramática é feita de diferenças sem termos, ou mais, exatamente, os termos nela são engendrados apenas pela diferença que aparecem entre eles. (Merleau-Ponty: 38).

A gramática da sociedade brasileira em si é incompreensível. O Brasil nasce como colônia europeia, colônia portuguesa. Ao longo de sua história mantém laços gramaticais com nações europeias. Entretanto, o Brasil se afasta da regra da análise gramatical do Ocidente moderno. Portanto, trata-se de uma sociedade heteróclita em relação à sociedade moderna. O Brasil é uma gramática da sociedade que se declina de um outro modo distinto da Europa Ocidental.

A gramática da sociedade é objetiva e subjetiva. No lado objetivo, a gramática do Brasil se articula pela relação (signo a signo) singular entre o rural e o urbano. Isaías Caminha crê que o rural determina o urbano, que o modo de produção rural coronelista da política determina a política republicana da capital:
“Saíra de meus penates, cheio de entusiasmo, certo de que aquela carta, mal fosse apresentada, me daria, uma situação qualquer. Era essa a minha convicção, dos meus e do próprio coronel. Tinha-se lá, por aquelas alturas, em grande conta a força do doutor Castro nas decisões dos governantes e a influência do velho fazendeiro sobe o ânimo do deputado”. (Lima Barreto. v. 1: 85). Assim considera Isaias no romance Recordações do escrivão Isaías Caminha.            

Há uma extensa bibliografia sobre o coronelismo, mas ela pouco fala do coronelismo como fenômeno subjetivo. Mesmo quando fala do subjetivo, fala em uma linguagem objetivista. É o caso do coronel definido como psicopata por Sérgio Buarque de Holanda. (Holanda: 105).

Já o coronel do romance de Lima Barreto não se caracteriza como subjetivamente psicopático. Ele aparece como uma autoridade rural que influencia a política da capital como grande leitor e banqueiro dos políticos republicanos. Trata-se de uma autoridade que se põe e repõe pelos laços de amizade com seu rebanho rural, laço social funcionando a partir do favor (lógica do interesse) que o coronel presta a seus afilhados. O coronel do Isaías Caminha é um ser pacífico e quase indolente no seu exercício de autoridade, que estabelece e restabelece uma Ordem Política no mundo rural com extensão na política republicana urbana. Assim imaginava Isaías:  
“Não era ele o seu grande eleitor? Não era ele o seu banqueiro para os efeitos colaterais? E nós, lá na roça, tínhamos quase a convicção de que o verdadeiro deputado era o coronel e o doutor Castro um simples preposto seu”. (Lima Barreto. v. 1: 86).

O coronel é o gramático da política republicana no imaginário do coronelismo. Há uma bibliografia que se voltou para a problematização da passagem do modo de produção político do coronelismo para um modo de produção moderno da política. Tradicional versus moderno, moderno como tradicional (a famosa transação política brasileira explorada pelo historiador José Honório Rodrigues) são os signos de um campo literário ainda atual.

Por quê?

Porque o coronelismo permanece na política do século XXI através do significante oligarquia, como familismo político (Freyre:19; 23), oligarquia política, classe política oligárquica. O Congresso até 2018 é uma instituição sob controle de um certo coronelismo político com ares de modernidade da universidade de Harvard. No entanto, o imaginário político do coronelismo está restrito ao sertão do Nordeste. Mas, há um coronelismo no Nordeste (na relação poder local e poder central) que vai além do sertão. (Bursztyn: 49-52).  

Há efetivamente uma mudança na gramática da determinação do urbano pelo rural. No romance em tela, o deputado Castro tem sua autonomia política relativa em relação ao seu coronel. Algo estava mudando no Brasil republicano. Isaías sofre por conta de tal mudança. O engenho de cana-de-açúcar do Vale do Paraíba vai deixando de ser o paradigma da política brasileira da capital da república. A fazenda de café toma o lugar do engenho e a indústria manufatureira do Sudeste altera a subjetividade da gramática política do Brasil como coronelismo:
“Conversavam; discutiam os casos políticos e os de polícia, enquanto eu lia. Num dado momento, na segunda página, dei com esta notícia: ‘Parte hoje para São Paulo, onde vai estudar a cultura do café, o doutor H. de Castro Pedreira, deputado federal. Sua Excelência demorar-se-á... ” . (Lima Barreto. v. 1: 101).

Octávio Ianni pensou a passagem do mundo tradicional para o mundo moderno:
“Nas últimas décadas, à medida que se intensificava a industrialização e a urbanização, expandia-se o capitalismo no campo. Agricultura, pecuária, extrativismo, agroindústria, artesanato rural passaram à influência crescente do capital industrial; transformaram-se em ‘indústria’. À medida que se ‘formou’ o setor industrial, no âmbito do subsistema econômico brasileiro, a agricultura passou a ser cada vez mais subordinada às exigências do capital industrial. Ao ‘formar-se’ o capital industrial no Brasil, o que ocorre é a interiorização de uma parte desse capital, que exercia predomínio sobre a agricultura brasileira a partir de fora. Na prática, o campo passa a articula-se, tanto ao capital localizado no Brasil como ao localizado nos centros dominantes estrangeiros”. (Ianni. 1984: 160).     

Talvez seja útil para a explanação explorar a relação do aparelho de estado com o coronelismo através da polícia.

A sociedade é constituída por redes de poder as quais traçam uma linha vertical entre os sujeitos que defendem interesses e aqueles em dívida com os sujeitos supracitados. A relação de Isaías Caminha com o gerente do Hotel, do Rio, é um conflito de interesses (devedor-credor) mediado pelas autoridades, pelo Estado. Na sociedade moderna, a relação devedor-credor obedece à uma lógica abstrata a ser resolvida no aparelho de Estado; na gramática da sociedade brasileira, a relação supracitada é vivida em uma tela gramatical sociológica na qual o laço social é a amizade do gerente do hotel com a polícia:
“Uma vez – narrou ele – depois de uma longa hospedagem, um hóspede quisera furtar-se ao pagamento. Não tivera dúvidas, fora ao delegado auxiliar, um seu amigo, o doutor Felício, contara-lhe o caso e o homem teve que pagar, se quis tirar as malas”. (Lima Barreto. v. 1: 86).

Sérgio Buarque de Holanda diz que o Estado é uma abstração da vida familiar, em descontinuidade e oposição à família:
“A indistinção fundamental entre as duas formas é prejuízo romântico que teve os seus adeptos mais entusiastas durante o século décimo nono. De acordo com esses doutrinadores, o Estado e as suas instituições descenderiam em linha reta, e por simples evolução da Família. A verdade, bem outra, é que pertencem a ordens diferentes em essência. Só pela transgressão da ordem doméstica e familiar é que nasce o Estado e que o simples indivíduo se faz cidadão, contribuinte, eleitor, elegível, recrutável e responsável, antes as leis da cidade. Há nesse fato um triunfo do geral sobre o particular, do intelectual sobre material, do abstrato sobre o corpóreo”. (Holanda: 101).

Como é sabido, o Estado patrimonialista moderno é a continuação política da família real, da casa real. O Império português colonial é um Estado patrimonialista. Ele não é o Estado moderno burguês, Estado burocrático moderno (impessoal, racional) ao qual se refere Sérgio: Estado burguês industrial sem laço social com a família burguesa, pois, com laço gramatical com a classe social burguesa.

A gramática do Estado patrimonialista não distingue o privado do público, a família real do Estado fiscal, a riqueza da casa real da riqueza do Estado como riqueza pública; o funcionário patrimonial não é o funcionário público ou burocrata moderno:
“No Brasil, pode-se dizer que só excepcionalmente tivemos um sistema administrativo e um corpo de funcionários puramente dedicados a interesses objetivos e fundados nesses interesses. Ao contrário, é possível acompanhar, ao longo de nossa história, o predomínio constante das vontades particulares que encontram seu ambiente próprio em círculos fechados e pouco acessíveis a ordenação impessoal”. (Holanda: 105-106).

Isaías Caminha diz que o Estado republicano tem a gramática da pessoalização das relações políticas. Pessoalização significa amizade com os poderosos e entre os poderosos. Rigorosamente, o Estado republicano não e constituído por aparelhos que significam impessoalização das relações políticas, política racional: modernidade.

O que é a gramática do Estado republicano brasileiro?

“A opinião de que um indivíduo um indivíduo filiado a determinado partido político assumiu, pelo fato dessa filiação, compromissos que não pode romper sem felonia, pertence de modo bem distinto a um círculo de ideias e princípios que a ascensão da burguesia urbana tenderia a depreciar cada vez mais. Segundo tal concepção, as facções são constituídas à semelhança das famílias, precisamente, das famílias, de estilo patriarcal, onde os vínculos biológicos e afetivos que unem os chefes os descendentes, colaterais e afins, além da famulagem e dos agregados de toda sorte, hão de preponderar sobre as demais considerações. Formam, assim, como um todo indivisível, cujos membros se acham associados, unas aos outros por sentimentos e deveres, nunca por interesses ou ideias”. (Holanda: 47).

No regime colonial: “os centros urbanos brasileiros nunca deixaram de se ressentir fortemente da ditadura dos domínios rurais”. (Holanda: 57). Tal ditadura se define por uma gramática na qual: “A família patriarcal fornece, assim, o grande modelo por onde se hão de calcar, na vida política, as relações entre governantes e governados”. (Holanda: 53).

No Isaías Caminha, a polícia republicana é uma instituição pessoalizada pela lógica da amizade daqueles possuidores de prestígio com os poderosos, com o doutor delegado. Trata-se de uma polícia oligárquica?

O gerente do hotel explica para Isaías a gramática policial republicana:
“Nada de justiça, de pretorias...Qual! Com a polícia a cousa vai mais depressa, a questão é ter amigos bons e ele tinha-os excelentes; e, em seguida, interrogando-me diretamente: O Senhor não viu, ontem, aquele homem gordo que jantou na cabeceira? É o escrivão ‘X”. Os escrivães, fique o senhor sabendo, é que são as verdadeiras autoridades. Os delegados não fazem senão o que eles querem; tecem os pauzinhos e... E o italiano rematou com um olhar canalha aquela sua informação sobre a omnipotência dos escrivães”. (Lima Barreto: 87).

Trata-se de uma republica na qual a polícia não se submete ao poder do juiz. Época na qual a relação entre o homem comum e o Estado se realiza através da polícia como rede de poder das amizades dos que tem prestígio com o doutor delegado: Estado policial fático! Não existe a abstração moderna caracterizada pelo poder do juiz entre o homem comum e o Estado: Estado policial constitucional, legal!  No Isaías Caminha, a república é um Estado policial que gera terror (fobias nas pessoas comuns) nas pessoas sem a proteção da amizade do policial de plantão:

Diz Isaías sobre um conhecido seu:
“Evitava-o, fugia-lhe, mas não tinha coragem para lhe dar a entender francamente que não queria a amizade. Aceitava-lhe as homenagens, os refrescos, conversava, mas sempre com um pequeno medo de que ele metesse nalguma embrulhada com a polícia”. (Lima Barreto: v. 1: 93). 
Morei minha adolescência em um bairro da periferia de Bangu, na década de 1960. Nesse tempo, a polícia era a mesma polícia do romance Recordações do escrivão Isaías Caminha. Como todos os meus vizinhos, moradores comuns, eu me via possuído por um medo irracional da polícia e dos amigos do doutor delegado ou do policial do camburão.   

A amizade republicana em Lima Barreto aparece como um sucedâneo, um ersatz da amizade oligárquica colonial em Oliveira Vianna: 
“Do espírito faccioso dos chefes de clãs, da sua influência sobre as autoridades públicas, principalmente quando eletivas, tomava muitas vezes conhecimento a Metrópole e várias ordens e providências foram dadas de lá para corrigir-lhes aqui os malefícios – e eram leis, cartas régias, medidas administrativas. Exemplo: em São Paulo, já nos começos do século IV, pelo alvará de 13 de maio de 1813, o Príncipe Regente resolveu policiar melhor a cidade, que lhe parecia mal administrada e em desordem. Para isto, criou-lhe um juizado de fora, substituindo o juiz eletivo, ordinário, da Câmara. Pois bem, entre as várias razões justificativas deste ato estava a alegação de que os ‘juízes ordinários eletivos, pelas relações de parentesco e amizade de força, contraídas no país da sua habitação não praticavam os seus deveres e obrigações do cargo com exatidão e imparcialidade que convém à pública utilidade’. E deu àquela cidade então um juiz forâneo. Quer dizer: estranho à pressão dos clãs locais”. (Vianna. Instituições, v. 1: 208).

A amizade oligárquica (clânica) mediava a relação entre a ditadura latifundiária e os camponeses:
“Estes clãs, realmente, influíam muito na administração do município. Saint-Hilaire, como um eco de séculos anteriores, nos descreve o modo, por exemplo, por que os ‘dizimadores’, que eram homens de largos haveres, impunham-se pela força do seu clã parental e dos amigos aos pequenos agricultores desamparados”. (Idem: 208).

A amizade oligárquica ou clânica é um elemento da gramática colonial que continua por outros meios (meios da relação do rural com o urbano) na República. Ela atravessa: a República Velha; a era populista de Getúlio Vargas (trata-se afinal de um populismo oligárquico); a democracia 1946-1964 (trata-se de uma democracia oligárquica); o Estado militar ou ditadura militar (trata-se de um Estado militar oligárquico); é gloriosa no governo Sarney (Sarney dizia que todos os ministros de seu governo eram seus amigos e chega a ser parte do regime constitucional 1988.
                                                                                                      II                                                                                                                                                                                                                         
Os capítulos 5 e 6 estabelecem a gramática do republicanismo brasileiro. No mundo rural, o coronel é o signo do poder da sociedade caipira; na capital da República, o delegado é o signo do poder de uma sociedade urbana aristotélico. Trata-se do poder do Estado com potência de mover (Aristóteles: v. 2: 496) a multidão, na rua, na imaginação sentimental do delegado, segundo o narrador Isaías articula assim:
“O delegado pareceu-me um medíocre bacharel, uma vulgaridade com desejos de chegar a alta posições; no entanto, havia na sua fisionomia uma assustadora irradiação de poder e força. Talvez se sentisse tão ungido de graça especial de mandar, que na rua, ao ver tanta gente mover-se livremente, havia de considerar que o fazia porque ele deixava”. (Lima Barreto. v. 1: 115).

Outro poder de mover o poder estatal é a imprensa. No diálogo de Isaías com o delegado, o poder da imprensa é acentuado pelo delegado:
Isaías – O meu conhecimento mais íntimo é o doutor Ivã Gregoróvitch Rostólff – conhece?
- Oh! Como não? Um jornalista, do O Globo não é?
- Esse mesmo.
- Porque não me disse logo? Quando se está em presença da polícia, a nossa obrigação é dizer toda a nossa vida, procurar atestados de nossa conduta, dizer os amigos, a profissão, o que se faz, o que não se faz...
- Não sabia que era homem importante, por isso...
- Pois não! Um jornalista é sempre um homem importante, respeitado, e nós, da polícia, temo-le sempre em grande conta...
Não diga nada ao doutor Rostóloff – sabe? Ele pode publicar e ambos nós temos que perder ...[Idem: 123].

A gramatica republicana de Isaias fala de um Estado racista através do comportamento da personagem do delegado com Isaias no primeiro interrogatório. No segundo interrogatório, o delegado muda de comportamento e trata Isaías com cordialidade. Trata-se de um modo de agir da autoridade urbana.

Isaias diz:
“Esses arrependimentos, essas voltas atrás são frequentes e fatais no modo e agir das nossas autoridades”. [Idem: 122].

Leitor de Lima Barreto, Oliveira Vianna interpreta o dito supracitado como contradição entre a ideologia e o comportamento:
“Não se dá o mesmo com os demais povos, principalmente os povos latino-americanos, dominados pelo ‘complexo de inferioridade’ em face da cultura europeia ou anglo-americana. Estes povos pertencem ao grupo dos ‘povos que imitam’, que pedem sempre às naçõeseuropeias ou à América do Norte soluções para os seus problemas, inspiração para as suas leis, modelo para os seus códigos. Daí os desconformismos e a contradição dos comportamentos com a ideologia das suas ‘Chartas’ e Códigos surgirem invariavelmente como a forma, por assim dizer normal, da sua vida jurídica ou constitucional. [Vianna. Instituições: 71].         

Retomando o problema racial, na gramatica de Foucault do mundo moderno, o racismo é uma técnica de poder, que não é o desprezo ou ódio das raças umas pelas outras: “Também estamos muito longe de um racismo que seria uma espécie de operação ideológica pela qual os Estados, ou uma classe, tentaria desviar para adversário mítico hostilidades que estariam voltadas para [eles] ou agitariam o corpo social. [...] A especificidade do racismo moderno, o que faz sua especificidade, não está ligado a mentalidades, a ideologias, a mentiras do poder. Está ligado `a técnicas de poder, tecnologias do poder”. [Foucault: 309].

A desigualdade racial atravessa o discurso de Isaías como mentalidade, ideologia ou cultura política a Oliveira Vianna? É necessária uma investigação de toda a obra de Lima Barreto que nos leve ao caminho desta interrogação!

O racismo esclarece o comportamento autoritário da autoridade [delegado] em relação ao homem comum pobre, mestiço ou negro. A cordialidade ilumina o comportamento doce do poder estatal em relação ao povo supracitado e uma espécie de biopodeno século XX Getulista. Trata-se do biopoder tropicalista como técnica de proteger, organizar, multiplicar. [Foucault: 3o8].

Da gramática do republicanismo de Lima Barreto, o poder do delegado foi amenizado pelo poder do juiz definido claramente na Constituição 1988. O juiz faz uma mediação entre o Estado policial e o homem comum em geral. Há uma desigualdade jurídica entre nós já que a elite do poder tem direito a ser julgada no STFnão passando ela pelas outras instâncias do poder.Logo, ela fica fora do alcance do Estado policial fático que cuida do homem comum.

A nossa gramática republicana não obedece a regra da igualdade diante da lei [Montesquieu: 168]. Trata-se de uma república na qual a ideologia constitucional virtual encontra-se em contradição clara com estrutura da política oligárquica regulada pelo princípio da justiça sofística, segundo Platão: fazer o bem aos os amigos, e o mal ao inimigo. [Platon: 863-864].
Este texto e um capítulo de meu livro sobre Lima Barreto.    
        

quinta-feira, 31 de maio de 2018

LIMA BARRETO: o homem revoltado



   José Paulo
                                                                                I
A ideia da guerra de posição gramatical permeia os estudos sobre literatura brasileira. Ela faz da ideia de Gramsci sobre guerra de posição na cultura um artefato gramatical. A ideia supracitada faz parte do discurso universitário moderno com a tese de mestrado de Lia Wyler. Antes encontramos a ideia em tela em um crítico literário da direita ilustrada como um Wilson Martins e no marxismo brasileiro do PCB de um Nelson Werneck Sodré.

Lia Wyler fala de um colonialismo cultural franco-lusitano no Brasil:
“No Brasil o que ocorreu desde o início foi uma dupla exposição cultural, a portuguesa e, por seu intermédio, a francesa, que durou mais de três séculos e foi decisiva para formar nossa visão de mundo”. (Wyler: 57).

A coisa foi séria, pois:
“Por todo o século XIX e primeira metade do século XX, sucederam-se as missões artísticas, literárias, científicas e militares francesas que ajudaram a fundar e a dirigir estabelecimentos de ensino e pesquisa brasileiros. (Wyler: 60).

Do colonialismo cultural francês saiu a USP. E do neocolonialismo francês permanece as escolas lacanianas do campo freudiano.

Na tradução de obras de outras nações, a guerra de posição gramatical de brasileiros começa em fins do século XVIII em Portugal. Daí temos um longo percurso, pois, no Rio do início do século XIX: “As livrarias existentes continuavam proibidas de publicar livros de títulos exceto daqueles controlados pela polícia”. (Wyler: 76).

A abolição da censura prévia de livros ocorre no império de d. Pedro I e o desenvolvimento da cultura do livro no império de d. Pedro II:
“No Rio de Janeiro, de 1808 a 1890, as tipografias se multiplicaram de uma (Impressão Régia) para setenta e sete; as livrarias, de duas para quarenta e cinco; e, pelo levantamento que fizemos em 1995, os tradutores centuplicaram. A cidade, sede da corte, atraía os talentos literários e intelectuais do país e os produtos de suas editoras não somente gozavam de prestígio nacional, como também estabeleciam um padrão a ser imitado”. (Wyler: 84).

A tradução no Brasil foi um território trans-subjetivo articulado pelo longo processo de guerra de posição gramatical contra o colonialismo luso-franco da classe dirigente brasileira:
“Até quase a segunda metade do século XX a tradução escrita teve predominantemente o caráter de exercício acadêmico ou prazeroso e de ocupação temporária para as elites intelectualizadas. Concorreram para construir e prolongar tal situação, além da consolidação tardia do português como língua nacional (1923), as políticas aplicadas no Brasil pela metrópole portuguesa com relação à educação e à imprensa”. (Wyler: 51).

A guerra de posição gramatical se realiza, no território trans-subjetivo, pela luta para tornar o português uma língua nacional. A língua era concebida como instrumento político na guerra de posição política da classe dirigente repartida regionalmente:
“Não faltam registros de bi/plurilinguismo em nossa história, mas Honório Rodrigues aponta dois registros particularmente eloquentes: o primeiro, de um século mais tarde, 1755, em que se comentava que a língua portuguesa fora banida de São Luiz e Belém; o segundo, que sem saber o nheengatu era impossível alguém se integrar na Amazônia do século XVIII. (Wyler: 40).

A língua portuguesa falada no Brasil nacionalmente foi o efeito de lutas de ocupação (às vezes) gramatical na trans-subjetividade dos povos que viviam no Brasil. Trata-se de uma história gramatical épica à qual o discurso de Lima Barreto é um ponto de inflexão combatido pela classe dirigente da República das Letras, de um Wilson Martins.       
                                                                                 II

Na pedagógica radiografia que Wilson Martins faz do período que Lima Barreto escreveu e além, a literatura é um palco de uma guerra verbal e gramatical, uma guerra simbólica (no campo do simbólico lacaniano) articulada por um instinto de morte ou desejo de matar o inimigo literato. Na radiografia em tela, Lima Barreto inexiste.

W.M. cita Alcides Maia como uma personalidade do mundo literário, o mesmo Alcides Maia que fizera uma crítica do Recordações de Isaías Caminha dizendo que o livro pecava pelo excesso de personalismo. W. M. diz algo ainda sobre o naturismo, literatura socialista. (Martins: 397). W. M. faz de José Veríssimo um dos grandes estudiosos da cultura brasileira. E existe uma carta de Veríssimo a Lima Barreto sobre o Isaías caminha. Volto mais tarde sobre este ponto.

O livro de W.M. mostra claramente que o campo literário era vivido como guerra literária, pessoal e gramatical. Em especial, o leitor pode conferir o ataque que Herméto dos Santos faz a Machado de Assis. Não se trata de crítica, mas de atentados, quase niilista, à pessoa e ao discurso machadiano. (Martins: 400-404).

Qual o sentido de tal guerra? W. M. nada fala sobre tal sentido. Tudo leva a crer que se trata de uma fogueira de vaidades. Daí o sentido da literatura está submetido à ditadura luso-bragantina.  W.M. se refere à “batalha linguística de 1902” na qual a ditadura luso-gramatical sai vitoriosa. (Martins: 356).

Martins se refere a uma vassalagem linguística na qual o discurso gramatical do maître bragantino coage o escritor brasileiro a escrever por uma gramática mais gramatical do que a gramática portuguesa. (Martins: 356). Para qualquer leitor de Gramsci, o problema se põe como a falta de vontade de potência voltada para a guerra de posição gramatical contra o colonialismo bragantino. Não existe efetivamente uma estratégia gramatical para se tecer uma cultura nacional popular como na Itália de Gramsci.

A República das Letras é um caminho que W. M. explora para pensar a cultura brasileira como guerra gramatical (Martins: 776-874) enquanto Nelson Werneck Sodré já explora a questão direta do colonialismo cultural.           

 No capítulo A República das Letras, Wilson Martins apresenta uma fotografia gramatical da invenção do intelectual brasileiro no século XX. Bourdieu ajuda na compreensão de tal fenômeno:
“O intelectual constitui-se como tal intervindo no campo político em nome da autonomia e dos valores específicos de um campo de produção cultural que chegou a um alto grau de independência em relação aos poderes (e não, como o político com forte capital cultural, com base em uma autoridade propriamente política, adquirida à custa de uma renúncia à carreira de valores intelectuais”. (Bourdieu: 150-151). 

A relação entre intelectual e classe dirigente no Brasil é um estudo do sociólogo Sérgio Miceli no qual a ideia de guerra gramatical visava articular a classe dirigente. (Miceli: 23). Em W.M., há a criação de uma tela gramatical intelectual com seus partidos em gramática da sociedade:
“Gilberto Mendonça Teles, autor da proposta, afirmou então que ‘a técnica de ficção é também uma forma de interpretar uma realidade e, às vezes, muito mais eficaz, uma vez que o ficcionista, ao criar um simulacro da sociedade, está criando uma Realidade maior e muito mais profunda, pois, nela, além de elementos verossimilmente coordenados, se condensam e se manifestam as forças inconscientes da linguagem”. (Martins: 806-807).

Daniel Pécaut fala de um partido intelectual articulando a hegemonia através da cultura política na política tout court. (Pécault: 257, 181, 192, 66).  Assim, os escritores em geral integrados na vida da classe dirigente deixam de aparecer como parte de uma cultura diletante sem utilidade na vida política do país. Agora, os intelectuais criam a ideologia (orgânica ou inorgânica) da cultura política nacional ou cosmopolita.

A ideologia nacional é uma ideologia orgânica que fará parte da vida política brasileira com a Revolução de 1930. O próprio PCB viria a ser um efeito de tal ideologia. Dois partidos em cultura se chocam virtualmente ou realmente a partir de duas ideologias orgânicas. De um lado, o partido em literatura colonialista e, de outro, o partido em literatura nacional.

Nelson Werneck Sodré vê a história cultural brasileira como uma dialética dos partidos supracitados? Parece ser este o caso, pois, uma formação intelectual moderna minimamente nacional em choque com o mundo intelectual colonialista surge na passagem do século XIX para o século XX como força prática intelectual. (Sodré:489-504).

N.W. Sodré localiza Lima Barreto como o signo do choque da velha cultura com a nova cultura. No entanto, ele não vê o discurso limabarretiano como efeito da revolta, de um certo niilismo do mestiço construído na passagem da sociedade colonial imperial para a sociedade de classes da nossa primeira modernidade. (Sodré: 506). 

Nas primeiras décadas do século XX, a sociedade de classes em São Paulo e no Rio já conta com uma classe média e uma classe operária ligadas à formação cultural da cidade. No Rio, a imprensa anarquista e socialista se espraiava pelos subúrbios. Lima Barreto bebeu na energia da revolta política do movimento anarquista e socialista. (Barbosa: 142-143).

Há um niilismo brasileiro que se constitui na junção da revolta popular de classe com a revolta do homem de cor, não-branco?

Quanto ao niilismo gerado pela integração do negro e do mulato na sociedade de classes moderna, Florestan escreveu um livro em dois volumes:
“Dentro de semelhante contexto econômico, psicossocial e sócio-cultural, as humilhações, os ressentimentos e os ódios, acumulados pelo escravo e pelo liberto sob a escravidão e exacerbados de forma terrível pelas desilusões recentes, lavraram destrutivamente o ânimo dos negros e mulatos”. (Fernandes: 48).

L. B vem de uma família de escravos mestiçada com português. (Barbosa: 7). Seu pai chegou a fazer parte da baixa classe média de funcionário público do império e da república. O pai teve como padrinho um importante político do império, o nobre Ouro Preto. Na queda do império, o pai ficou doente da mente pela primeira vez; depois já na república (sendo almoxarife das Colônias de Alienados na Ilha do Governador) mergulhou na doença e foi aposentado; L. B. cuidou do pai daí para adiante.

L.B teve estudos regulares e chegou a cursar a Politécnica do Largo de São Francisco. Tratava-se de um curso superior para formar engenheiros. Ela era parte da sociedade do rico carioca ariano. L.B. não conseguiu tirar o diploma e viveu tal fato como provindo do problema da integração do mulato na sociedade de classes quase moderna. Daí sua frase célebre revoltada: é triste não ser branco.

O niilismo brasileiro literário é uma corrente periférica do niilismo europeu? Ou romance Recordações do escrivão Isaías Caminha é a clareira do homem revoltado brasileiro? A revolta  literária de Lima  Barreto foi considerada como um romance à clef, subliteratura, desprezado como gênero literário nobre durante a vida do autor e décadas depois. (Barbosa: 175-177). O História da literatura brasileira (N.W. Sodré, 1938) transforma o discurso limabarretiano em um signo da dialética da nova cultura nacional contra a velha cultura bragantina (da gramática lusitana). A articulação da hegemonia cultural pela crítica literária marxista subtraiu Lima Barreto da foraclusão da alta cultura brasileira.

Do marxismo da USP, Alfredo Bosi inscreveu Lima como um criador do nosso romance social (romance da sociedade de classes modernas) de um socialismo maximalista pré-modernista. Porém, Lima não é um homem da modernidade carioca:
“É verdade que apontaram contradições na ideologia de Lima Barreto: o iconoclasta de tabus detestava algumas formas típicas de modernização que o Rio e Janeiro conheceu nos primeiros decênios do século: o cinema, o futebol, o arranha-céu e, o que parece grave, a própria ascensão profissional da mulher! Chegava, às vezes, a confrontar o sistema republicano desfavoravelmente como regime monárquico no Brasil”. (Bosi: 358).

O que não está claro para Bosi é a criação do romance social do homem mulato revoltado se integrando as correntes  literárias europeias como corrente periférica cultural da revolta cultural:
“O romance nasce ao mesmo tempo que o espírito de revolta, e traduz, no plano estético, a mesma ambição”. (Camus: 297).

Leitor de Nietzsche, Lima Barreto deplora o niilismo vulgar que cai como ideologia nietzchiana da alta filosofia europeia tendo como original Nietzsche:
"Não gosto de Nietzsche; tenho por ele ojeriza pessoal. Acuso-o, a ele e ao Esporte, como causadores do flagelo que vem sendo a guerra de 1914.
Ele deu a burguesia rapace que nos governa uma filosofia que é a expressão de sua ação. Exaltou a brutalidade, o cinismo, a amoralidade, a inumanidade e, talvez, a duplicidade.
Nenhum outro homem, mesmo em tom de ironia, falou tão mal da caridade e da piedade; entretanto, Dona Albertina, a pags 35 de seu seu soberbo livro, pede piedade para ele. Eu lha dou, de bom grado; mas continuo". (Lima Barreto. v. 13: 119).   
                                                                III

O homem revoltado limabarretiano é mais, exatamente, a máquina de guerra gramatical em sua guerra de manobra e guerra de posição contra a forma da sociedade de classes moderna em relação ao preto e ao mestiço; também uma guerra popular contra a forma ditatorial da republica de Floriano Peixoto. Defender a democracia monarquista contra a ditadura republicana é algo que o aproxima de Antônio Conselheiro e da máquina de guerra sertaneja de Canudos, rebelada contra a ditadura republicana e, portanto, a defesa o aproxima da narrativa do livro Os sertões, de Euclides da Cunha.

Só espíritos acacianos podem atacar a ideologia de Lima Barreto por causa de tal fato discursivo.

Recordações do escrivão Isaías Caminha é o caminho da literatura do homem revoltado. É a construção da máquina de guerra gramatical limabarretiana em um ataque frontal à classe dirigente carioca. Tal classe dirigente compunha o Estado burguês (Saez: 349-354). Lima ataca a imprensa burguesa, pois, por algum caminho, ele não sabia que sabia, que o Estado burguês era articulado por um bloco no poder (Poulantzas: 52) oligárquico. Como classe apoio desse bloco no poder se encontra uma fração da classe dirigente aristocrática (= oligárquica): os jornalistas e os literatos da imprensa burguesa em um contraponto ao jornalismo socialista e anarquista da classe operária.

A tela gramatical nacional virtual da sociedade brasileira supracitada produz como efeito o discurso do homem revoltado ou máquina de guerra gramatical limabarretiano:
“Resolvi, portanto, publicar alguma coisa que atraísse atenção sobre mim, que me abrisse as portas, como se diz, que me fizesse conhecido, mas queria pôr nessa obra alguma cousa das minhas meditações, das minhas cogitações, atacar em síntese os inimigos das minhas ideias e ridicularizar as suas superstições e ideias feitas. Pensei em diversas formas, procurei modelos, mas me veio, ao fim dessas cogitações todas, a convicção de que o romance ou a novela seria o gênero literário mais próprio, mais accessível a exprimir o que eu pensava e atrair leitores, amigos e inimigos”. (Lima Barreto. 1956: 169).

O trecho supracitado define que a estratégia de L.B é a do agir literário de uma máquina de guerra gramatical em uma guerra nacional literária para conquistar amigos e inimigos. Gramsci fez a translação da arte da guerra tout court para a arte da guerra política, da máquina de guerra militar para a máquina de guerra política. A gramatologia marxista ocidental faz a translação da arte da guerra política para a arte da guerra gramatical. Citaremos Gramsci como nosso ponto de partida:
“Sobre a comparação entre conceitos de guerra manobra e guerra de posição na arte militar e os conceitos correspondentes na arte política, deve-se recordar o opúsculo de Rosa, traduzido para o italiano em 1919 por C. Alessandro (traduzido do francês). No opúsculo, são teorizados um pouco apressadamente – e também superficialmente – as experiências históricas de 1905: Rosa, com efeito, negligenciou os elementos ‘voluntários’ e organizativos que, naqueles eventos, foram muito mais difundidos e eficientes do que Rosa podia crer, já que ela era condicionada por um certo preconceito ‘economicista’ e espontaneísta. Todavia, este opúsculo (e outros ensaios do mesmo autor) é um dos documentos mais significativos da teorização da guerra manobrada aplicada à arte política. O elemento econômico imediato (crises, etc.) é considerado como a artilharia de campo que, na guerra, abria a brecha na defesa inimiga, brecha suficiente para que as tropas próprias irrompessem e obtivessem um sucesso definitivo (estratégico) ou, pelo menos um sucesso importante na diretriz da linha estratégica”. (Gramsci. 2014: 72).

Lima Barreto é a máquina de guerra gramatical que ataca, no campo literário, o inimigo crendo que havia fissuras no bloco no poder cultural? Este estava tão fechado em suas defesas táticas (editora, imprensa burguesa, magistratura, sociedade do rico carioca) quanto o bloco no poder cultural das primeiras duas décadas do século XXI.

A Editora Companhia das Letras na atualidade é a editora Livraria Garnieur da época de Lima Barreto. Só tinham acesso a esta Editora os filhos da classe dirigente e seus apadrinhados arianos ou clarificados. A crise no elemento econômico (crise do modo de produção servil e passagem para o modo de produção manufatureiro urbano, passagem da sociedade escravocrata para a sociedade de classes do assalariamento) não fora suficiente para abalar a natureza aristocrática moral, estética, intelectual colonial ariana da classe dirigente:
“Naturalmente, na ciência histórica a eficácia do elemento econômico imediato é considerada bem mais complexa do que a artilharia pesada na guerra de manobra, já que este elemento era concebido como tendo um duplo efeito: 1) abrir a brecha na defesa inimiga, depois de ter desbaratado o próprio inimigo e de levá-lo a perder a fé em si, em suas forças e em seu futuro; 2) organizar de modo fulminante as próprias tropas, criar os quadros ou, pelo menos, colocar com rapidez os quadros existentes (criados pelo processo histórico geral) em seu lugar de enquadramento das tropas dispersas; 3) criar de modo fulminante a concentração ideológica da identidade do fim a alcançar. (Gramsci. 2014: 72).

A crise épica econômica do Brasil não abriu brechas na defesa inimiga. No entanto, o leitor não julgue que Lima Barreto nada fez para se tornar uma máquina de guerra cultural em uma guerra de manobra. Além de trabalhar na pequena imprensa (inclusive socialista) ele trabalhou na imprensa burguesa onde adquiriu os conhecimentos empíricos para atacar a imprensa burguesa. Ele criou um grupo de amigos e aliados, depois de perder a ilusão sobre publicação na grande editora, em torno da revista Floreal para a publicação de seus romances.  (Barbosa: 146-147, 149). Ele conseguiu chamar a atenção de um crítico literário da grandeza aristocrática de José Veríssimo. Em uma carta enviada a L. B., Veríssimo diz:
“Eu que isto lhe digo, eu mesmo me deliciei, com a sua exata e justa pintura da nossa vida jornalística e literária, mas não por boa a emoção que ela me causou”. (Barbosa: 173).
O romance Isaías Caminha é uma sátira impiedosa que atingiu, em cheio, o quartel-general do mais poderoso jornal da época, o Correio da Manhã, onde L. B. havia trabalhado. (Barbosa: 168). A demolição da aristocracia literária e jornalística, que andavam de mãos dadas, não se traduziu no escândalo o qual objetivava o mulato pequeno funcionário público L.B.

Nosso autor não conseguiu publicar no Brasil e foi publicar seu livro em Lisboa. O livro vendeu bem, porém um silêncio glacial da crítica literária jornalística enterrou L.B. no cemitério dos vivos da sociedade das letras. No cemitério dos vivos, Lima continuou produzindo e hoje sua obra é encontrada em 17 volumes pela Editora Brasiliense.
                                                                                       IV

Lima Barreto conhecia a literatura niilista germânica. (Lima Barreto. v 13: 58). Ele se preocupava com a diferença entre niilismo e a moral do revoltado. Em uma conferência, L.B. lê o personagem Raskólnikoff do romance O Crime e o castigo, de Dostoiévski:
“Furtá-lo? Não podia porque a imunda agiota não arredava o pé da pocilga de seus imundíssimos negócios. Como obtê-lo, então? Só matando-a. É um crime; mas – pergunta ele de si para si – todos os benfeitores da humanidade e os seus grandes homens em geral, diretamente ou indiretamente, não praticaram ou não autorizaram a prática de crimes, para a plena realização de sua obra? Napoleão não foi um deles e, como ele, tantos outros? (Lima Barreto. v. 13: 60).

Raskólnikoff vê sua revolta como crime niilista:
“Depois de consumado o crime, é em vão que procura fugir dele. O testemunho da consciência o persegue sempre e Raskólnikoff se torna, por assim dizer, o remorso dele mesmo. Quer o castigo; não pode sentir-se bem na vida sem o sofrer, porque as suas relações com o resto da humanidade já são outras e ele se sente perfeitamente fora da comunidade humana, cujos laços com ela, ele mesmo rompera”. (Lima Barreto. v. 13: 61).

A conferência de Lima Barreto faz parelha com o livro O homem revoltado, de Camus. Trata-se de um livro que discute a dialética entre a revolta e o niilismo como fenômeno histórico. Camus conclui que: “A consequência da revolta, pelo contrário, é recusar a legitimação do assassinato, já que, em seu princípio, ela é protesto contra a morte”. (Camus: 328).
O que me interessa é deixar claro que Lima Barreto põe a revolta como fenômeno literário da periferia da alta cultura europeia. Assim, o discurso limabarretiano rompe com a tradição do niilismo brasileiro supracitado. 

                                                                                                  V

No capítulo 1 do Isaías Caminha, Isaías narra a vida em uma pequena cidade do mundo rural sob o poder do coronelismo. Isaías resolve ir para o Rio e seu tio o carteiro Valentim (pai simbólico, pois, o pai real vigário morrera na infância de Isaias) o leva na casa do coronel para pedir um favor. Pedir uma carta e recomendação para o apadrinhado do coronel no Rio, o doutor-deputado Hermenegildo Castro. Isaías segue o caminho já percorrido pelo também pobre de origem o doutor Castro.

O bovarismo caipira de Isaías vem de uma identificação com o pai culto para os valores rurais em um contraste com a mãe analfabeta cultural. O caminho do estudo até o título de doutor abriria as portas para a sociedade dos privilegiados republicanos, sociedade de casta republicana. A fotografia da gramática da sociedade republicana revela toda a veia irônica de L.B.:
“Quantas prerrogativas, quantos direitos especiais, quantos privilégios, esse título dava! Podia ter dois empregos apesar da Constituição; teria direito à prisão especial e não precisava saber nada. Bastava o diploma. Pus-me a considerar que isso devia ser antigo... Newton, César, Platão e Miguel Ângelo deviam ter sido doutores”. (Lima Barreto. v. 1: 55).      
A mãe para Isaías significa a vida subjetiva sentimental simples, humilde, o amor incondicional dela pelo filho, a humanidade caipira de Isaías.
Isaías imagina que para a mãe, ele era como uma moça casta que seria corrompida pela sedução da rua; note-se o contraste entre a casa e a rua que aparece no Sobrados e Mucambos (Freyre:30-56):
“eu era como uma rapariga, do meu nascimento e condição, extraordinariamente bonita, vivaz e perturbadora...Seria demais tudo isso; cercá-la-ia logo o ambiente de sedução e corrupção, e havia de acabar por aí, por essas ruas...”. (Lima Barreto. v. 1: 56).

O capítulo 2 é a viagem de trem e de barca para o Rio. O centro gramatical do capítulo é a parada em uma estação onde Isaías desce, e o caixeiro de um pequeno balcão de café e bolo dispensa um tratamento grosseiro para Isaías enquanto dispensa um tratamento delicado para um rapazola ariano, alourado. Isaías fica com raiva se pergunta por que a diferença de tratamento. Ele conclui que além de ter mãos fidalgas:
“Mesmo meu rosto, se bem que os meus traços fossem extraordinariamente regulares, eu não era hediondo nem repugnante. Tinha-o perfeitamente oval, e a tez da cor pronunciadamente azeitona”. (Idem: 60).

O leitor já sabe que Isaías é um mestiço. Isaías parece ignorar a racialização das relações sociais e do mundo-da-vida brasileiros. Ele se vê de um modo metafísico muito positivo:
“Demais, a emanação da minha pessoa, os desprendimentos da minha alma, deviam ser e mansuetude, de timidez e bondade...Porque seria então, meu Deus? ”. (Idem: 60).
O capítulo 2 deixa claro que Isaías não metabolizara as correntes gramaticais subterrâneas do niilismo colonial dos de baixo; Isaías é mulato, pobre e, no entanto, não sofre do ódio ao mundo do rico ariano. Na subjetividade de Ananias não há traços da gramática colonial da desigualdade racial. Não há vestígios do niilismo caipira pobre branco moderno onde a violência é institucionalizada:
“A incidência regular e a institucionalização das manifestações de violência correram simultâneas com a acentuação normativa dos conteúdos de ruptura e tensão”. (Franco: 50).

A violência caipira da vizinhança é um subproduto da tradição do niilismo colonial:
“ Pode-se prosseguir nessa linha de interpretação e propor, mesmo, que a violência seja uma forma rotinizada de ajustamento nas relações de vizinhança. Isto se confirma quando a troca de facadas e bordoadas resulta de contatos passageiros, aguçados sem nenhum incidente de importância tenha ocorrido”, (Franco: 28).

A violência caipira de Maria Sylvia se remete ao niilismo lumpesinal do homem branco pobre livre como código do sertão. Isaías viveu em uma vizinhança de coronelismo onde aparentemente o lumpesinato branco pobre não contamina a comunidade com seu niilismo tradicional. Na vizinhança caipira de Isaías não há violência institucionalizada entre vizinhos. Trata-se de uma construção do imaginário do autor sobre a vida de seu herói? O se trata de acentuar que o autor (na pele de Isaias) se define como um homem fora das correntes do niilismo brasileiro?           

No restante do capítulo, há o contraste entre a paisagem exuberante da chegada ao Rio e a feia cidade que é um choque no imaginário caipira de Isaías. Parece que o imaginário caipira modelado inicialmente pela diferença entre o mundo da casa e o mundo da rua (do Rio) é um personagem importante no início do romance. No imaginário, o Rio é belo e grandioso; na realidade a grande cidade é feia e pequena aos olhos do viajante que chega nela.

No capítulo 3, Isaías narra sobre o jornalismo e a política. Os estudiosos do romance em tela dão uma grande importância à mistura na narrativa entre personagens e pessoas reais. Falam em personagens como caricatura (não como metáfora) de celebridades jornalística e literária da vida carioca. É o caso de João do Rio na pele do personagem Raul Gusmão, uma mistura de suíno e símio. É o caso do repórter Costa Rego na pele do personagem Oliveira do O Globo (Correio da Manhã), um repórter analfabeto em geografia brasileira. Estes personagens são conhecidos do padeiro Laje (homem comum) que sabe tudo sobre a vida jornalística carioca, como um embriagado pela vida da imprensa burguesa. (Lima Barreto. v. 1: 69). Isto é puro elemento gramatical da intriga na narrativa do romance.

Ao fazer pendant do real com o ficcional pela narrativa do personagem caipira Isaias, Lima Barreto faz da intriga o centro gramatical tático do romance da modernidade brasileira:
"Com a narrativa, a invocação semântica consiste na invenção de uma intriga que é, ela também, uma obra de síntese: virtude da intriga, objetivos, causas, acasos, são reunidos sob unidade temporal de uma ação total e completa. É esta síntese do heterogêneo que aproxima a narrativa da metáfora. Nos dois casos, o novo – o ainda não-dito, inédito – surge na linguagem: aqui a metáfora viva, isto é, uma nova pertinência na predicação, ali uma intriga fingida, uma nova congruência no agenciamento dos incidentes”. (Ricoeur: 9-10).
O romance Isaías é o inédito na literatura brasileira pelo uso da intriga como centro tático da narrativa (o ainda não-dito ficcionalmente) que usa a ficção para falar do real da gramática da capital da República. Os personagens Raul Gusmão e Oliveira não são caricaturas, e sim metáforas vivas das pessoas reais supracitadas.

Os personagens são incidências do real sob suspeita do narrador. A suspeita do narrador sobre o padeiro Laje (o homem comum que tudo sabe sobre a República jornalística) é um elemento determinante da narrativa como intriga fingida. O padeiro é na verdade o autor que viveu sua vida trabalhando, ou na pequena imprensa, ou na imprensa burguesa: Correio da Manhã.

Há intriga fingida na metáfora viva do jornalista da ilustração carioca do personagem Gregoróvitch, metáfora viva de Mário Cataruzza. Trata-se do personagem que maneja dez línguas desencontradas, é um mito maníaco ou um bovarista como tal, cínico vulgar e sarcástico. (Lima Barreto: 80-83).

Gregoróvitch é uma escola de jornalismo que alcançou como metáfora viva o jornalismo do século XXI? Eis a intriga fingida que é uma fantasia lacaniana como princípio de realidade ao qual o sujeito é atacado pela doença da ficção como princípio de realidade, seduzido pela verdade como estrutura de ficção (Lacan.2008: 186).  
“Ce fantasme où est pris le sujet, c’est comme tel le support de ce qu’on appelle expressément dans la théorie freudienne le principe de réalité’. (Lacan. 1975: 75).

Ainda no capítulo 3, a narrativa se debruça sobre a política republicana, na capital da República, no olhar do imaginário caipira de Isaías.
O Imaginário político de nosso narrador tem uma estrutura ficcional que compara a política do império com a política republicana. O imaginário político faz pendant com uma cultura política artificial colonialista. O parnasiano Oliveira Vianna resumiu este fenômeno para seus leitores:
“Há também que assinalar, no período da independência e do Império, a aparição de um novo fator, de um novo modificador da estrutura política. Ao lado de velhos fatores já estudados. É a influência das ideias exóticas, a repercussão, na América, das novas teorias políticas, que então agitam e renovam, desde os seus fundamentos, o mundo europeu: O Liberalismo, o Parlamentarismo, o Constitucionalismo, o Federalismo, a Democracia, a República”. (Vianna. 1933:252)  

A intriga sobre a política como metáfora viva consiste na legitimidade da política real pela aceitação bovina da representação política como indiferença pela atividade parlamentar. O carioca não se interessa pelo funcionamento da Câmara dos deputados; é indiferente a ela; toda a linguagem política supracitada (em Oliveira Vianna) aparece como um fenômeno desvinculado da vida política do homem comum, como diz Oliveira Vianna. (Lima Barreto. v. 1: 80). Para o eleitor republicano, a soberania popular é um fenômeno extravagante de outras terras, enfim, de uma outra cultura política.

Não há na quase terceira década do século XXI, um desencaixe entre a linguagem política de origem europeia (que funciona como laço social artificial das nossas instituições políticas) falada no Brasil e o povo eleitor? Tal fenômeno não e uma das causas importantes da crise de representação política na atualidade?

Entre nós, a linguagem política europeia parece não funcionar como cultura política viva, realmente existente. Ela faz parelha com a cultura política familiar artificial e escolar caipira do narrador:
“Passando, subia a escada da Câmara dos Deputados da República dos Estados Unidos do Brasil. Ao transportar a porta que dava para a galeria, vieram-me recordações dos grandes nomes que aquela instituição vira. Primeiro, as grandes figuras dos Andradas, orgulhosos e soberbos, no meio daquela agitação dos nossos primeiros anos de vida política”. (Lima Barreto. v. 1: 76).

E L. B. prossegue:
“Com mais insistência, em seguida as conversas caseiras fizeram-me ver ali vultos mais próximos dos meus dias. Deles, me falava meu pai, em raros dias, quando deixava a reserva eclesiástica e narrava paternalmente à minha infância curiosa, cenas e fatos da vida política do Império”. (Idem: 77).

Em contato com os deputados na Câmara, o narrador tem um choque de realidade, pois, os deputados exercem uma atividade insignificante (pois, realizada por insignificantes incultos), e são medíocres funcionários, anódinos e obscuros, da política de então, fazendo suas leis desprovidos de um saber sobre a vida brasileira. (Idem: 77-79).     

                                                                                     VI

Raízes do Brasil é o livro, da década de 1930, que tem como objeto a gramática do Brasil na passagem do país tradicional rural, para o país urbano moderno. É um livro excepcional sobre a gramática da subjetividade da classe dirigente moderna com sua raiz em uma sociedade tradicional oligárquica. Para efeito da leitura do nosso romance em tela, retiro o significante homem cordial presente na narrativa do livro Recordações do escrivão Isaías Caminha.

Há uma certa cordialidade na capital da República. A cordialidade do povo é sincera, a da classe dirigente em relação ao povo é “falsamente paternal”, é aparência de semblância da classe política. (Lima Barreto. v. 1: 101).

O narrador fala de uma cordialidade popular metade-do-copo; ela favorece a atitude de provir informação correta ao estrangeiro na capital da República, e ao mesmo tempo, ela convive com atitudes insignificantes, incivilizadas no bonde que atravessa os bairros da cidade. Falo do safanão que Isaías recebe no bonde, uma atitude de vizinho de bonde já modelada pela na abstração gramatical da cidade grande. (Idem: 103).

A cordialidade popular citadina é uma continuação por outros meios do homem cordial:
“A crise que acompanha a transição do trabalho industrial aqui assinalada pode dar uma ideia pálida das dificuldades que se opõem à abolição da velha ordem familiar por outra, em que as instituições e as relações sociais, fundadas em princípios abstratos, tendem a substituir-se aos laços de afeto e sangue”. (Holanda: 102-103).

A rua da capital é regulada por uma gramática civilizada = cordialidade/incivilizada se diferenciando da gramática civilizada européia, que durou séculos para ser construída, até chegar a gramática da subjetividade como autocontrole individual. (Elias: 193). A diferença entre Brasil e Europa ocidental estabelece o Brasil como portador de uma gramática heteróclita, gramática que se afasta da análise gramatical da sociedade europeia ocidental.

A gramática brasileira tem uma aparência de semblância de polidez de uma realidade na qual a miséria da vida do povo tem tudo para desembocar em um niilismo revolucionário terrorista, segundo a imaginação do narrador Isaías Caminha. (Lima Barreto. v. 1: 103). Ao contrário, a vida popular foraclui o niilismo.

O niilismo aparece como o problema cadente do romance em tela. A vida popular urbana não herda nenhum traço gramatical do niilismo caipira supracitado, ela fabrica o povo como as massas do imbecil lacaniano (Lacan. R.S.I: 4):
“Idiotas que vão pela vida sem examinar, vivendo quase por obrigação, acorrentados às suas misérias como galerianos à calceta! Gente miserável   que dá sanção aos deputados, que respeita e prestigia! Porque não lhe examinam as ações, o que fazem e para que servem? Se o fizessem... Ah! Se o fizessem! Que surpresa! Riem-se, enquanto do suor, da resignação de vocês, das privações de todos tiram ócios de nababo e uma vida de sultão...Veio-me um assomo de ódio, de raiva má, assassina e destruidora; um baixo desejo de matar, de matar muita gente, para ter assim o critério da minha existência de fato. Depois dessa violenta sensação na minha natureza, invadiu-me uma grande covardia e um pavor sem nome; fiquei amedrontado em face das cordas, das roldanas, dos contrapesos da sociedade; senti-os por toda parte, graduando os meus atos, anulando os meus esforços; senti-os insuperáveis e destinados a esmagar-me, reduzir-me ao mínimo, a achatar-me completamente...”. (Lima Barreto, v. 1: 102).      

A gramática da sociedade política republicana sempre foi uma gramática presidencialista, oligárquica, caríssima. A gramática republicana e o povo imbecil que metaboliza tal gramática é a causa da tempestade perfeita de niilismo terrorista no território da subjetividade de nosso narrador-herói.

A propósito, o dispositivo de reconhecimento do sujeito ideológico althusseriano aparece nitidamente como um elemento da narrativa da gramática limabarretiana:
“Bati. Quem é? – perguntou uma senhora do alto da escada, à soleira da entrada. Que podia responder?! Quem era eu? Sei lá...Dizer o meu nome?... Como responder?...Afinal, disse bem imediatamente: Sou eu. Suba, respondeu-me ela”. (Lima Barreto. v. 1: 98).

Althusser diz:
“a categoria de sujeito (que pode aparecer sob outras denominações: como em Platão por exemplo, a alma, Deus, etc.) é a categoria constitutiva de toda ideologia, seja qual for a determinação (regional ou de classe) e seja qual for o momento histórico uma vez que a ideologia não tem história. (Althusser: 110).

E Althusser continua sua análise marxista estruturalista:
“toda ideologia tem por função (é o que a define) ‘constituir’ indivíduos concretos em sujeitos”. (Althusser: 110).

E prossegue explicando que o reconhecimento do indivíduo em sujeito é o elemento tática da gramática da ideologia:
“Tomando um exemplo bastante ‘concreto’, quando nossos amigos batem à nossa portam, quando perguntamos, através da porta fechada, ‘quem é? eles respondem que ‘é ele’. Com efeito reconhecemos que ‘é ele’ ou ‘ela’. Abrimos a porta, e ‘verdadeiramente era ele quem batia’. Tomando um outro exemplo, quando reconhecemos na rua alguém do nosso (re) conhecimento, demonstramos que o reconhecemos (e que reconhecemos que ele nos reconheceu dizendo-lhe ‘alô, como vai? ’ apertando-lhe a mão (prática ritual material do reconhecimento ideológico da vida cotidiana, ao menos na França; em outros lugares, outros rituais)”. (Althusser:111-112).

Isaías Caminha bate na casa do deputado Castro e é reconhecido como sujeito ideológico das relações do deputado doutor Castro. Por quê?

Interrompo o ensaio aqui. A bibliografia, o restante do capítulo 4 e dos capítulos que vão do 5 ao 14 constituem o original que ficará, provavelmente, para a crítica roedora dos ratos.