sábado, 10 de agosto de 2019

terça-feira, 9 de julho de 2019

DA OLIGARQUIA POLÍTICA AO CAMPO DA DIREITA NEOLIBERAL


José Paulo



O Brasil padece da <doença da hiperimaginação política>. Um certo subjetivismo galopante guia a “análise” dos fenômenos políticos. O subjetivismo político vende o peixe de que há esquerda e direita bem separadas e irrevogáveis.  

A <pessoalização da política> é um aspecto estudado pelas ciências sociais do passado pré-universitário brasileiro. A pessoalização da política faz do indivíduo o centro da política. Aqui, a política aparece como uma linguagem subjetivista definindo, por exemplo, Dilma Rousseff como esquerda e Bolsonaro como direita. Mas entre D. e B. temos Michel Temer, Sérgio Cabral e quejandos aliados de Dilma no governo Dilma.

Temer administrou um golpe de Estado em Dilma; ele era o vice-presidente de Dilma e se tornou presidente.  Até Temer, esquerda e direita se misturavam no poder brasileiro sem drama. Era o reinado da pessoalização da política. Indivíduos se aliavam por cima de suas ideologias e  governam o país.

A lógica da pessoalização da política funciona pela cooptação dos indivíduos pelo poder brasileiro. As forças políticas metabolizavam a lógica supracitada em governos híbridos que confundiam a mente do pobre diabo professor de ciência política marxista.

Fernando Collor levou a lógica da pessoalização da política ao paroxismo. Com a vitória eleitoral assegurada sobre Lula com a ajuda do Grupo Globo, Collor esqueceu o plano do patriarca da sociedade de comunicação de massa. Para Roberto Marinho, Collor deveria ser o fator estatal de criação do campo das forças da direita. O sr. Roberto queria pôr a pessoalização da política encarnada por Collor, com esmero e gosto, a serviço da produção do campo das forças da direita. Marinho sabia que a pessoa não governa fora de um campo institucional de forças. Tinha certeza que a continuidade do poder brasileiro nas mãos da direita dependia da geração do campo de forças da direita.

O problema é que Collor nada sabia da teoria do sr. Roberto. Acabou enfiando os pés pelas mãos e caiu mediante um impeachment. Paradoxalmente, o primeiro presidente da democracia 1988 foi derrubado com a ajuda de Roberto Marinho.

Para a nossa política nacional, FHC significa a fabricação do campo da esquerda? FHC governou com a direita do Estado militar 1968 que sobreviveu como partido político. O plano de FHC consistia em uma democracia na qual o PSDB e o PT se alternassem no poder nacional, como partidos dirigentes de Estado. E hegemonizassem as forças da direita: hegemonia com dominação.  

Todos conhecem essa história em miúdos. Ao chegar ao poder nacional com Lula, o PT esqueceu o <tratado FHC> e quis criar o 3° Reich tupiniquim, a democracia petista dos mil anos. A lógica FHC foi aplicada no Chile pós-Pinochet com sucesso.

FHC criou o campo da esquerda via pessoalização da política. Ele aparece como um presidente carismático, e no lugar dele só poderia advir um outro presidente carismático: Lula.

Com Lula, o campo da esquerda incluiu forças da direita no poder do planalto central do país. No entanto, com FHC, o campo se sustentava sobre o artefato político povo brasileiro mestiço. FH não seguia Florestan Fernandes que substitui o povo brasileiro mestiço (Euclides da Cunha) pela raça na vida política prática em seu livro: “A Integração do negro na sociedade de classes”.

Com Lula, a fórmula FHC é aplicada no governo. O PT governa em aliança com a direita. Lula diz que não existe essa coisa de oligarquia. A direita era reconhecida pelo público como reino da oligarquia política. Lula altera a linguagem política para poder governar com a direita e a esquerda.

Lula elege Dilma, um “poste” no linguajar do herói operário do Sertão de Pernambuco. Dilma se esforçou para não ser o poste de Lula.  Conquistou o PT e se aliou com a direita do PMDB (MDB degradado) de um Sérgio Cabral, então governador do Rio de Janeiro. Com Dilma, o multiculturalismo (negro, mulher, LGBT) torna-se uma ideologia privada dos mass media seculares. Dilma conquista o Grupo Globo.

Há uma certa hesitação quanto a pôr o negro como significante-metre da política. Já em queda, as mulheres petistas gritavam: “Dilma guerreira do povo brasileiro”. O PT de Dilma não seguia Florestan Fernandes. Ele já se confundia com os partidos da direita aliados.

Em 2013, Serginho enfrenta o movimento de rua quase anarquista. O confronto traz à tona um Cabral despótico (aquele que transformou o Rio em uma societas sceleris, em um refúgio para criminosos políticos).

O cérebro demoníaco de Serginho faz Dilma promover uma lei antiterrorista para destruir o movimento de massas 2013. O movimento anarquista carioca foi esmagado sem piedade. Dilma não sabia, mas os fatos mostraram depois que aí nasce um campo da nova direita distinto da direita oligárquica. Como isso é possível?       


Dilma ressignificou a dialética nietzschiana na política brasileira:
“Nossas mentes rechaçam a ideia do nascimento de uma coisa que pode nascer de uma contrária, por exemplo: a verdade do erro; a vontade do verdadeiro da vontade do erro; ato desinteressado do egoísmo ou a contemplação pura do sábio, da cobiça. Tal origem parece impossível: penar nisso parece próprio de loucos”. (Nietzsche: 17-18).

Com a queda de Dilma, o campo da direita adquire um sentido distinto da direita oligárquica. A lógica neoliberal torna-se o fundamento desse novo campo. Temer e Moreira Franco (e um anônimo acessor) imprimem a marca neoliberal na política estatal. Esta inflexão se inicia com a Dilma de seu ministro neoliberal da economia Joaquim Levy.   

O Grupo Globo detém praticamente o monopólio ideológico dos mass media seculares. Com a vitória de Bolsonaro, a televisão desse grupo viu a oportunidade de desenvolver um modelo político combinando o manejo do multiculturalismo com o extremismo do governo Bolsonaro.

O modelo remete ao grupo Roberto Marinho. Este foi o aparelho ideológico privado do Estado militar que faz sua programação com membros do PCB e artistas da esquerda brasileira. Quem usava quem? A esquerda via como ocupação da televisão aquilo que o dr.  Roberto via como cooptação da esquerda.

A conversão do trotskista Paulo Francis (um ensaísta inigualável, romancista bissexto, jornalista culto, cientista social extra -universitário) ao neoliberalismo foi o troféu exibido por Marinho aos seus amigos da direita ortodoxa. O restante pouco importava, a não ser transformar a programação da Globo em algo palatável para a classe média patrimonial.  

Todo campo de forças é habitado pela direita, pântano, esquerda. O jornal das 6 horas da Globo News é a direita, O jornal das 10 horas é o pântano e o Studio i (13 horas) é a esquerda da direita do capitalismo subdesenvolvido pós-moderno. Daí essa impressão de que  a televisão não tem unidade textual, sendo uma anarquia de posições individuais. Professores da PUC do Studio i, certamente, na PUC, são considerados professores de esquerda. Na Globo, eles são ressignificados, eletronicamente, como a esquerda da direita, simplesmente.            

No governo Bolsonaro, o modelo Roberto é usado mais uma vez. A televisão carioca tem uma programação voltada para fazer propaganda aberta do governo Bolsonaro. A televisão planeja a expansão do campo das forças da direita (ela organiza ideologicamente o campo da direita) com cooptação da esquerda. Não tem outro sentido a tática de atrair artistas da esquerda e intelectuais progressista para preencher sua programação.

O Grupo Globo vai se organizando e organizando o campo da direita neoliberal do capitalismo subdesenvolvido através de suas estrelas do jornalismo pós-moderno como Leila Sterenberg e Adréia Sadi.

Andreia Sadi se especializou em fazer programas com os ministros ideológicos do governo Bolsonaro. Ela é a jornalista intima dos poderosos do campo da direita no planalto central do país. Sua lealdade ao poder extremista (civil e militar) é compensada por um lugar de poder nos mass media. Ela quer se tornar uma jornalista temida. Ela pode convencer o poder extremista quais são os alvos no mundo progressistas, não óbvios, a serem combatidos policialmente.

Leila é a face do jornalismo pós-moderno. Ela tem como função manipular a linguagem da realidade para que esta não apareça como ela realmente é: linguagem do capitalismo subdesenvolvido neoliberal.

Na linguagem de Leila, há países de renda média seja qual for o continente, pois, trata-se de um abstração estatística sem força gramatical de realidade dos fatos realmente existente. Essa linguagem já está sendo substituída entre os líderes mundiais ocidentais pela linguagem na qual os países em desenvolvimento ou emergentes aparecem como países subdesenvolvidos. Há muita estrada para andar nessa nova linguagem econômica do século XXI. O jornalismo brasileiro não usará a linguagem do real mundial, pois, tem o hábito de manipular a consciência gramatical da audiência e do leitor. Esta é a diferença entre o Brasil (subdesenvolvido) no plano do uso da língua e a Europa desenvolvida no domínio da cultura. 

O Grupo Globo é uma peça chave na expansão do campo da direita neoliberal. Ansiosamente, as jornalistas de economia falam da necessidade das reformas do Estado para que a economia volte a crescer. O papel do Grupo Globo consiste no controle da linguagem econômica para que a sociedade civil não se veja como sociedade civil do capitalismo subdesenvolvido neoliberal.  Trata-se de uma estratégia de manipulação consciente de editores, âncoras, repórteres ou soldados do exercito mass media. 

Não tem crescimento no subdesenvolvimento neoliberal.

O campo da direita pós-moderno põe e repõe a religião no lugar da raça em um processo de destruição da secularização que forjou a modernidade brasileira. A televisão neoliberal (e a imprensa em geral) é o lugar da secularização em colapso. Ela não pode servir a dois senhores. Assim, ela cria as aparências de semblância de uma secularização nas nuvens, quando na terra a realidade é o avançar da religiosidade na vida política prática.

O brasileiro com mais de 40 anos se define assim; “papa-mama, quero aparecer na televisão”.    

NIETZCHE. Além do bem e do mal. SP: Hemus, 1981              




    

    

       

    



terça-feira, 28 de maio de 2019

BOLSONARISMO E FASCISMO EUROPEU


José Paulo



Trabalhei durante algum tempo com a categoria de fascismo para pensar a conjuntura bolsonarista. Neste texto recorro a Poulantzas para iluminar tal comparação.

Poulantzas diz:
“O processo de fascização e a instauração do fascismo correspondem a uma situação de aprofundamento e de exacerbação das contradições internas entre as classes e frações de classe dominantes: é este um elemento importante da crise política em questão”. (Poulantzas.1974:77). 

O fascismo é um fenômeno política da sociedade de classes industrial europeia. Ele não se define por uma crise da própria sociedade de classes. Já o bolsonarismo é um acontecimento como efeito da decomposição gramatical da sociedade de classes industrial.

O fascismo significa a incapacidade de uma classe, ou fração de impor a sua hegemonia, a incapacidade da aliança no poder em ultrapassar por sua própria conta as suas próprias contradições exacerbadas. A <incapacidade de hegemonia> dentro do bloco no poder (aliança específica de várias classes e frações de classe) liga-se também à crise de hegemonia que atravessa o bloco no poder e os seus membros no que diz respeito, agora, à sua dominação política sobre o conjunto da formação social capitalista. (Poulantzas. 1974: 78-79).

O bolsonarimso se define por uma incapacidade hegemônica da classe dominante de sustentar a modernidade da formação social brasileira. Isto quer dizer que há transformações na sociedade (sociedade civil e Estado) que afetam a forma da própria classe burguesa.

O biolsonarimos é um evento que significa o aprofundamento da destruição da formação social moderna burguesa. O aspecto principal do processo em tela denota que no lugar de uma burguesia moderna entra uma burguesia tribal africanizada. Por ora, o tribalismo enlaça o nível econômico burguês do Brasil como efeito do tribalização do mundo.

Na periferia do capitalismo, a tribalização do econômico nos envia para o privatismo da ideologia econômica do dominante que altera o fundamento da formação social baseada no contrato social e propriedade privada capitalista. O privatismo introduz a propriedade tribal burguesa como propriedade da própria sociedade:
“o combate é o mesmo que possibilita assegurar a privatização da sociedade, garantir-se a propriedade dessa sociedade”. (Maffesoli: 69).

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Corte no fluxo temporal das determinações políticas. No interior da história universal, Bolsonaro é um caudilho miliciano ou um chefe de bando. Weber diz:
“En las dos mayores figuras del pasado, la del mago y profeta por un lado y la del príncipe guerrero escogido, del jefe de banda y condotiero por el otro, el cudillaje ha aparecido en todos los terrenos y em todas as épocas históricas”. (Weber. 1058).

Os ricos proprietários da sociedade não se submetem às leis do Estado. Eles sonegam impostos (em trilhões de reais), praticam absenteísmo fiscal, recebem incentivos fiscais volumosos, em suma, se apropriam en masse do excedente fiscal. Eles não se comportam como uma classe social burguesa moderna que divide uma parte da mais valia com a população na forma do excedente fiscal. Para eles não é um problema moral  ser dirigidos por um chefe de bando miliciano.  

Em outro texto já tratei da contradição entre a burguesia tribal africanizada e a Ordem Republicana constitucional 1988.

O que me interessa aqui é saber como a burguesia tribal mantem sua dominação, ou seja, sua hegemonia sobre o conjunto da sociedade. A contradição entre tribalização burguesa acelerada e modernidade brasileira aponta para a necessidade de uma reorganização do bloco no poder, sob a direção intelectual dos mass media.  

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O fascismo foi o estabelecimento da hegemonia de uma nova fração de classe no seio do bloco no poder: a do capital financeiro, e mesmo do grande capital monopolista. (Poulantzas. 1974: 79). Após uma etapa de incapacidade hegemônica do bloco no poder, o fascismo no poder estabelece a hegemonia política de uma fração que, até então não tinha detido esse papel. No bolsonarismo, o capital financeiro já é a fração hegemônica da República 1988.   

No bolsonarismo, o bloco no poder tem os proprietários da sociedade como hegemônicos sob a égide do capital financeiro. A articulação da hegemonia se deve em boa parte aos mass media como formadores políticos da opinião pública, um fenômeno generalizado nas formações capitalistas (Offe: 142). Mais adiante tratarei da hegemonia dos mass media. Por enquanto, assiná-lo a hegemonia no domínio dos jornais e revistas de papel.

O mais importante semanário brasileiro, a revista VEJA reorganiza a hegemonia cultural do rico proprietário da nossa sociedade. Em um editorial, ela diz:
“Assim como o Plano Real, a reforma da Previdência proposta pelo governo de Jair Bolsonaro evidentemente não será uma panaceia para todos os males da nação. Mas sua aprovação, no menor espaço de tempo possível, pode desencadear o círculo virtuoso de que o país tanto precisa para voltar a crescer. Trata-se da sinalização que os empresários daqui e do exterior esperam para liberar investimento congelados diante do atual cenário de incerteza. No futuro, poderemos olhar para trás e identificar este momento como um divisor de águas em nossa história”. (VEJA; 14).

O bolsonarismo se distingue do fascismo em um sentido claro. No fascismo, a luta política do bloco no poder contra as massas populares detém o papel principal em relação à luta econômica. (Poulantzas. 1974:78) No bolsonarismo, a luta econômica contra as massas detém o papel principal.

A luta econômica contra as massas começou, sistematicamente, no governo Michel Temer com a <Reforma Trabalhista> que transformou o trabalho assalariado em trabalho precário. Temer é bolsonariismo antes de Bolsonaro/Paulo Guedes por <sobredeterminação freudiana>. Nesta, o significante-mestre aparece (bolsonarismo) e sobredetermina, retroativamente, o passado historial da cadeia de significantes políticos. Também, a Dilma Rousseff de Joaquim Levy é bolsonarismo, antes de Bolsonaro.

O ministro da Economia Paulo Guedes confeccionou um modelo de Reforma da Previdência que significa a precarização da vida dos aposentados e pensionistas. Ele estabelece uma lógica de força com o parlamento (que tem a palavra final na aprovação de Reformas) na qual Guedes quer através de um golpe de força bolsonarista aprovar reformas sem negociar com o Congresso, que vive do voto das camadas proletarizadas.

Paulo Guedes diz que ou o parlamento aprova sua reforma ou é o caos econômico:
“A proposta prevê mudanças que gerariam uma economia de até 1,2 trilhões de reais aos cofres públicos nos próximos dez anos. É, de acordo com a equipe econômica, a senha para o Brasil deixar a crise de lado e impulsionar o crescimento. O contrário disso seria o caos, que pode, segundo o ministro, ocorrer já em 2002”. (VEJA: 46).

Com efeito, a  luta bolsonarista gira em torno da apropriação tribal da sociedade do rico, do excedente fiscal. A constituição do Partido Extremista de massas no campo da direita é um efeito da luta econômica da sociedade do rico contra as massas manuais e intelectuais da modernidade brasileira.

DO PARTIDO DEMOCRATA DE MASSAS.
O Partido Extremista de massas 26M (26 de maio) instaurou a dialética gramatical (dialética entre sujeitos políticos realmente existentes) de si com um outro sujeito político: o Partido Democrata de massas 15M (15 de maio).
Maio é o mês da articulação de um novo campo de poderes gramatical e luta política no Brasil. O Partido Democrata 15M é um partido da continuação do regime democrata constitucional 1988. Já o Partido Extremista 26M significa uma potência de ruptura com a Ordem Democrática 1988.
Como conteúdo econômico do regime 1988, o excedente fiscal é o objeto da luta do Partido Extremista com o Partido Democrata. O excedente fiscal 1988 foi usado para a construção de um Brasil a partir da ciência brasileira, escola pública de qualidade (com ressonância na escola privada de escol), universidade estatal com padrão ocidental (esta universidade ocidental serviu de modelo para a universidade da sociedade industrial asiática do século 21), e alta cultura.
Os mass media seculares se servem desse ambiente supracitado para fazer sua programação diária, sem se privarem na sua agenda de ataques à modernidade da sociedade brasileira. Os mass media em geral funcionam como aparelhos ideológicos do Partido Extremista de massas do campo da direita brasileira em ascensão.
Outra convocação das massas 15M está em processo. Nota-se que os dirigentes do !5M não tem consciência das camadas de significações que fazem do 15M um passo palpável na construção do primeiro partido de massas como Partido Democrata de massas gramaticalizável como sujeito grau zero autocrático.
A dialética gramatical articulada em maio é um efeito do sistema de partidos políticos institucionais em decomposição gramatical. {trata-se da decomposição gramatical no campo dos sujeitos]. Os partidos políticos institucionais continuarão existindo como efeito da soberania popular e do funcionamento institucional do parlamento e dos governos. Todavia, a cena política dos partidos políticos se articula como hegemonia a partir da dialética gramatical (dialética dos novos sujeitos políticos) entre o Partido Extremista de massas da direita e o Partido Democrata de massas do centro-esquerda.
Os partidos supracitados são um efeito da atualização de uma gramática da política com resistência empírica da realidade dos fatos políticos. Assim, cabe as massas manter ou desfazer a dialética em tela.


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Um fenômeno excessivamente contemplado hoje á a crise da democracia representativa. Ela aparece como crise do laço representantes/representados e ascensão do Partido Extremista de massas mundial no campo da direita.  
Poulantzas diz:
“A conjuntura dos fascismos e o início do processo de fascização correspondem, no que se refere aqui ao bloco no poder, àquilo que designaremos por uma crise de representação partidária: elemento absolutamente notável da crise política em questão. Por outras palavras, verifica-se uma ruptura da relação, simultaneamente na ordem de representação – no sistema estatal – e na ordem de organização, entre as classes e frações de classe dominantes e os seus partidos políticos. (Poulantzas. 1974:79-80).
 Com efeito, há uma crise de representação, entre nós, que significa a decomposição gramatical dos sujeitos políticos institucionais no campo formal dos sujeitos. Um dos efeitos é a fragmentação parlamentar e seu corolário: falta de partidos hegemônicos na cena política institucional. Todavia, a decomposição gramatical é um efeito da relação entre partidos políticos e soberania popular. Ela é parte da história dos partidos políticos a partir da corrupção generalizada (exposta a céu aberto por um poder judicial como o força prática do Partido Extremista em latência) do sistema político partidário.      

O Partido Extremista de massa quer se impor aos partidos do regime 1988 como força hegemônica na cena política em extensão (cena política na qual entram as massas). Todavia, há um a diferença capital entre a conjuntura fascista e a conjuntura bolsonarista.
Diz Poulantzas:
“Tratou-se, antes, de uma profunda desorientação política do bloco no poder, no quadro da qual, seguindo diversa etapas e viragens, o partido fascista, abertamente apoiado pela fração do grande capital monopolista, veio preencher o vazio deixado pela ruptura do laço representantes-representados com os partidos políticos clássicos. Em consequência do que, o conjunto da burguesia e dos seus aliados assistiu passivamente à eliminação destes partidos pelo partido fascista. (Poulantzas: 1974: 80).

O Partido Extremista de massas 2019 quer destruir a Ordem Republicana 1988 articulada a partir da distribuição do excedente fiscal para as massas.  [Ela quer estabelecer o grau zero da vinculação orçamentária]. Ele quer submeter os partidos clássicos, sem destruí-los. A Ordem Republicana 1988 é aquela de um Estado social de massas proletarizadas e das massas que compõem o Estado apelidadas, pejorativamente, de massas corporativas de Estado.

O regime 1988 também consagrou um Estado-cientista (Châtelet: 606-611) advindo da evolução da história econômica da sociedade industrial (que toma impulso definitivo na década de 1950) - que o bolsonarismo, em sua luta econômica pelo excedente fiscal, quer aniquilar. O parlamento aparece como uma força de resistência empírica ao bolsonarismo como força antimoderna e antisecular da burguesia tribal africanizada da revista VEJA.

O horror que o bolsonarismo traz aos modernos se deve muito mais ao tribalismo econômico da burguesia do que ao comando da política burguesa se encontrar nas mãos de um caudilho miliciano. A burguesia tribal se sente representada, no campo de poderes estatizados, pelo chefe de bando miliciano, sem drama, como mostra o apoio da revista VEJA (tradicional semanário da burguesia moderna paulista) a Bolsonaro com Paulo Guedes.

Uma luta política em aberto pode acontecer com os partidos clássicos voltados para restaurar a sua direção sobre a cena política - em choque com o Partido Extremista de massa 26M e em aliança com o Partido Democrata  de massas 15M.

Nota-se o aparecimento deum populismo vulgar na relação direta líder-massas. O mundo digital é um veículo do novo populismo extremista. Porém, a coisa em questão vai mais longe com o aparecimento da economia miliciana carioca, guardando uma semelhança aparente com o fascismo europeu clássico:
“O redobramento institucional destes partidos por toda uma série de circuitos paralelos ocultos, funcionando como correias de transmissão real do poder e decisões: o que vai do aparecimento de grupos de pressão e de milícias privadas como núcleos de reorganização política até a instalação de verdadeiros circuitos paraestatais”. (Poulantzas. 1974: 81).

Rigorosamente, o bolsonarismo é um efeito de grupos de pressão e milícias privado-estatais do <Criminostat> (Paul Virilio:54-55) e do <capitalismo criminoso> (Platt:39,41).

Com o aparecimento dos partidos de massas advém uma transformação do campo de poderes estatizados. No fascismo europeu temos:
“Um alargamento do papel do próprio aparelho de Estado – exército, polícia, tribunais, administração -que põe em curto-circuito o papel do governo formal, torneando de forma característica a ordem jurídica estabelecida e deslocando o poder real do lugar onde ainda se exprimem estes partidos (transformados em simples “agrupamentos”), isto é, do Parlamento, para o aparelho de Estado em sentido estrito”. (Poulantzas. 1974:81)

O aparecimento de um Estado de polícia e da judicialização da política significa um deslocamento do poder político real do domínio do sistema partidário para o aparelho repressivo de Estado. Assim, surge a diferença gramatical entre poder formal e poder real que especifica a crise política do bolsonarismo.

No entanto, esse processo não deverá ser reduzido a uma simples transmutação das relações legislativo/executivo, ou melhor, a uma simples passagem de um “Estado-parlamentar’ a um Estado forte, com predominância do executivo apoiado nas massas do campo da extrema direita.
A propósito, a fusão das organizações civil/militar, secular/religiosa, em um partido único da burguesia tribal encontra-se no horizonte da conjuntura bolsonarista. O leitor já deve ter observado que os partidos clássicos se acantonam em objetivos relevando unicamente a luta econômica da apropriação do excedente em geral e do excedente fiscal em particular. Eles já perderam de vista os meios concretos de alcançar o interesse político geral dos dominantes e das massas. Vivemos uma conjuntura que os interesses particulares dos dominantes (como privatismo da sociedade) se chocam com o Bem Comum nacional. A destruição programada pelo governo 2019  da Floresta Amazônica (Bem Comum planetário) põe o dominante contra os interesses das fortes nações econômicas mundiais.  
Antes do fascismo no poder, a classe política é possuída por delírios paranoicos: “situação que, antes da instauração do fascismo, dá, aliás, muitas vezes origem a situações de uma loucura sem precedentes”. (Poulantzas. 1974:82).

A crise brasileira também vive, dramaticamente, em delírios paranoicos do evangélico do Partido Extremista 26M e situações de loucura instrumental do bolsonarismo e, ainda, de retardo político generalizado do dominante.  Isso é um sintoma larvar da crise ideológica da nossa formação social.
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A  crise ideológica generalizada é característica da conjuntura fascista. Temo aí simultaneamente uma crise da ideologia dominante e uma crise da ideologia da principal força social dominada (ideologia marxista-leninista). No Brasil do presente, temos uma crise da cultura econômica do capitalismo misto (Evans: 236; Baer: 240, 245, 249) sob ataque da ideologia do livre mercado absolutista do americanismo de Paulo Guedes;  e temos também uma crise da ideologia secular multiculturalista sob ataque da ideologia evangélica do bolsonarismo em uma guerra de posição que tem como objetivo tático a destruição do Brasil moderno.
No fascismo: “Precisamente, um dos efeitos, e não dos menores, desta situação foi a ruptura do laço representantes-representados entre estas classes e frações e os seus partidos políticos, e a falência organizacional destes partidos; um outro foi a característica espetacular da transferência dos ‘cães de guarda’ do bloco no poder – a da casta de seus ‘funcionários da ideologia’ credenciados – para a ideologia fascista e o seu ataque sistemático contra a ideologia burguesa tradicional. Esta conversão dos ‘funcionários da ideologia’ burguesa, conjugada com a crise ideológica no próprio seio da classe dominante, foi um dos fatores importantes da passagem franca e definitiva da burguesia para o fascismo”, (Poulantzas> 1974). 84-85). 
 A passagem franca e aberta da burguesia para o bolsonarismo tem como fato crucial a adesão dos mass media seculares ao Partido Extremista de massa 26M. Antes de abordar a relação entre hegemonia sobre as massas e os mass media, faço uma citação da relação dos <funcionários ideológicos> com o fascismo:
“Pode mesmo dizer-se que esta crise ideológica, sob as formas que assume no próprio seio da classe dominante, está na origem de um elemento suplementar da crise política: a ruptura entre os representantes políticos – partidos e pessoal político – da burguesia e os seus representantes ideológicos – os seus funcionários da ideologia =-cães de guarda. Estes últimos parecem adotar e preconizar o fascismo muitas vezes, pelos seus ataques contra os ‘partidos’ e os ‘políticos’, em conflito agudo com eles. E não foi por acaso que o laço da burguesia com seus ‘funcionários da ideologia’ se revelou o mais forte”. (Poulantzas. 1974:85).  

Entre nós, os <funcionários da ideologia> da burguesia (Mercado financeiro, especialmente) fazem pesados ataques aos partidos políticos institucionais e aos políticos. Eles jamais atacam a burguesia, sistematicamente; e os jornalistas dos mass media se apresentam como os funcionários da ideologia econômica dominante do livre mercado absolutista do americanismo.

Os mass media seculares possuem a confiança das massas de classe média e proletarizadas. Assim, eles são capazes de pôr as massas contra o parlamento na defesa da ideologia econômica dos proprietários da sociedade.  Os mass media defendem reformas do Estado cujo objetivo é a destruição do Estado social das massas 1988 e do próprio Estado cientista da classe média. Como isto é possível? como os mass media põem as massas contra si próprias? 

Os mass media encontram-se no front político da ideologia da estética de massa. Aqui, eles articulam a hegemonia dos proprietários da sociedade sobre as massas. Há uma razão dos mass media:
“A estética realiza, nesse sentido, uma função essencialmente propedêutica, processando e diluindo a matéria crua da vida das sensações para seu eventual controle nas mãos da razão. É como se, na estética, a razão atuasse lado a lado com os sentidos, inscrevendo-os formalmente, a partir de dentro, como uma espécie de quinta-coluna em campo inimigo, e ao mesmo tempo ensaiando para nós os estados mais elevados da verdade e do bem para os quais estamos caminhando. De outra forma, como criaturas imersas degeneradamente em nossos desejos, tenderíamos a experimentar os decretos da razão como desagradavelmente absolutos e arbitrários e não nos dobraríamos a eles. Schiller reconhece sutilmente que as determinações rigidamente deontológicas de Kant não são o mecanismo ideológico mais eficaz para subjugar o mundo material recalcitrante; o Dever Kantiano, como um monarca absolutista paranoide, mostra muito pouca confiança na generosidade instintiva das massas em se conformar a ele. Esse déspota rudemente desconfiado necessita assim de toque de simpatia populista se pretende assegurar sua hegemonia”. (Eagleton. 1993: 80).

Os mass media fazem a estética das massas schillerniana. Assim, eles conciliam a contradição ente sentido e razão:
“A obra estética da maturidade de Schiller é preparada pelos seus primeiros pensamentos. Para ele, o belo é manifestação da humanidade ideal. Segundo Kant, há oposição dos sentidos e da razão. Para Schiller, há uma manifestação em que essa contradição é resolvida. A reconciliação, a catharsis, está na contemplação, em que o homem verdadeiramente não deseja e em que, por isso, não tem de lutar em nome da moral”. (Bayer:302).

A estética de massa ancora a audiência no sofá da sala. A audiência é um ersatz do homem contemplativo em uma permanente catarse e, assim, livre de viver lutas da moralidade pública. O espectador vive a reconciliação entre sentido e razão ao não desejar a práxis. A audiência é o avesso das massas como sujeito grau zero gramaticalizáveis para o agir na rua.

Rigorosamente, os funcionários da ideologia dos mass media não param de não funcionar como representantes dos interesses das massas. Eles não sabem que sabem?

Os mass media funcionam como aparelho de hegemonia do Partido Extremista de massa do campo da direita.

BAER, Werner. A industrialização e o desenvolvimento econômico do Brasil. RJ: FGV, 1985
BAYER, Raymond. História da estética. Lisboa: Estampa, 1979
CHATELET & PISIER-KOUCHENER. Les conceptions politiques du XX° siècle. Paris: PUF, 1981
EAGLETON, Terry. A ideologia da estética. RJ: Jorge Zahar editor, 1993
EVANS, Peter. A tríplice aliança. As multinacionais, as estatais e o capital nacional no desenvolvimento dependente brasileiro. RJ: Zahar Editor, 1980  
MAFESSOLI, Michel. A transfiguração so político. A tribalizaçâo do mundo. Porto Alegre: Sulinas, 1997
OFFE, Claus. Problemas estruturais do Estado capitalista. RJ: Tempo  Brasileiro, 1984
PLATT, Stephen. Capitalismo criminoso. SP: Cultrix, 2017
POULANTZAS, Nicos. Fascisme et dictature. Paris: Seuil/Maspero, 1974
WEBER, Max. Economía y sociedade. México: Fondo de Cultura Económica, 1944
VIRILIO, Paul. Vitesse et politique. Paris: Galilée, 1977

OUTROS.
VEJA. 29/MAIO/2019.
        




           

         




   
      

                 
   


         

  


 

     

       


       

quarta-feira, 22 de maio de 2019

PARTIDO EXTREMISTA DE MASSAS 2019


José Paulo



Ainda não chegou à consciência nacional a existência do <Partido Extremista>, cujo chefe visível é o presidente da República Jair Messias Bolsonaro em simbiose com seu clã político familial.

O partido extremista não é um raio em um céu azul. Ele é o efeito de uma narrativa que tem raízes na vida política da primeira metade do século XX. Os escritores Plínio Salgado e Gustavo Barroso foram os chefes do Integralismo, primeiro partido extremista de massas no campo da direita brasileira.

A facção militar do partido extremista realizou um golpe militar contra o presidente da República Getúlio Vargas e fracassou. Getúlio os rechaçou com tiros de um revólver particular, salvando a si e sua família no que hoje é o Museu da República, então, sua moradia.

Na conjuntura da década de 1960, o partido extremista apareceu sob uma nova forma, sob o comando militar das massas de classe média urbana dos generais Geisel e Golbery do Couto e Silva. No Estado militar 1964, general Golbery criou o SNI (polícia secreta) ou mais apropriadamente a parte clandestina do novo partido extremista da direita brasileira. Este partido se constitui como um partido do americanismo sendo o responsável na formação ideológica do americanismo das F.A. Golbery e Geisel eram os intelectuais hegemônicos do partido extremista como uma figura da história narrativa das F.A. republicana. Foram figuras de destaque no Estado militar 1968 extremista.

O partido extremista militar não se constitui como um partido de massas. O Estado militar 1964 manteve em funcionamento o sistema de representação partidária sob controle de velhas oligarquias rurais/urbanas. Todavia, ele deixou para a vida nacional a ideia da necessidade de um partido secreto, um partido sob comando da polícia secreta.

Quando Fernando Collor assumiu a presidência da República, ele dissolveu o SNI. Collor tinha clareza da força desestabilizadora do partido extremista secreto.  Em 1999, o presidente Fernando Henrique Cardoso, recriou legalmente o partido extremista secreto. Na era Lula, não se tocou no partido extremista secreto.

O partido extremista como tal se desenvolveu a partir da confecção da legislatura (chamada de leis contra o terrorismo) extremistas que surge como efeito, no Estado, das lutas de massas 2013. Dilma e Sérgio Cabral (governador do Rio) deram uma resposta extremista às massas urbanas que se apossaram da rua das grandes capitais brasileiras.

Um efeito da luta de massas 2013 foi o surgimento dos massa media extremistas que combaterem implacavelmente as massas no Rio (maior movimento de massas do país) e em São Paulo.  A partir daí, os mass media passaram a fazer parte do Partido Extremista.

A lógica política que levou os mass media a elegerem Bolsonaro é aquela do Partido Extremista. O Partido Extremista já estava presente nas F.A. e no aparelho extremista evangélico (de um Bispo Macedo), e precisava conquistar o executivo dos estados mais importantes, legislativos estaduais, Câmara de deputados nacional, Senado e presidência da República.

Nas eleições 2018, à guerra de posição se somou a guerra de manobra (ou movimento) do partido extremista. Ao conquistar o aparelho repressivo de Estado e a quase totalidade dos aparelhos ideológicos religioso e secular, o partido extremista passou a atacar as instituições seculares da cultura como tal, ciência e universidade pública da nossa modernidade secular.

Ao atacar a vida de milhões de jovens da nossa vida escolar e universitária estatal, o partido extremista esperava uma reação espetacular dos jovens como luta de massas na rua das capitais brasileiras. Foi o que aconteceu! Então, o partido extremista preparou sua próxima jogada, orientado pelos estrategistas militares das F.A. Não saiu da cabeça oca de Bolsonaro (este é um pateta como estrategista) a convocação das massas bolsonaristas digitais e evangélicas.

Da polícia secreta militar/civil saiu a ideia de erguer um movimento de massas do Partido Extremista 2019, em um momento no qual o clã Bolsonaro se encontra sob fogo cruzado do <Estado de polícia brasileiro>. É verdade que Bolsonaro cedeu largas parcelas do poder civil para os militares. Hoje, é impossível separar os generais de pijama no governo das tropas das F.A.


O que a oposição legal não percebe é que a conjuntura política tem como sujeito o Partido Extremista de massas em formação, se impondo no proscênio da cena política. A cena política se transformou com o sistema partidário formal em colapso. Agora, a cena política se caracteriza pela formação de partidos em filosofia no sentido de Lenin. Para o revolucionário russo, os dois grandes partidos da cena política mundial eram o Partido do materialismo versus o Partido do idealismo. (Lenin:270) Ou ainda a ideia do sujeito político realmente existente, em Tocqueville: partido radical, partido do centro esquerda, oposição dinástica (Tocqueville: 64-65).

O último domingo de maio será um momento decisivo para o partido extremista se transformar em um Partido Extremista de massas. As massas podem criar um círculo de proteção efetivo para o família Bolsonaro frente aos avanços do  Estado de polícia e o poder parlamentar?

LENIN. Materialismo y empiriocriticismo. Barcelona: Grijalbo, 1975
TOCQUEVILLE. Lembranças de 1848. As jornadas revolucionarias de Paris. SP: Companhia das Letras, 2011      

    


             

         



sábado, 18 de maio de 2019

POULANTZAS E BOLSONARO


José Paulo

DA CRISE DO ESTADO BRASILEIRO

Em uma favela do Rio, uma boca-de-fumo é assaltada por uma gangue de ladrões comuns. Qualquer carioca de dez anos sabe que existe uma ordem infrapolítica nas comunidades, mantida pelo poder do tráfico. A perda de <respeito> por esse poder armado, feroz, implacável denota um estágio avançado de uma crise de Estado ampliado, pois, a comunidade popular urbana pertence ao domínio do Criminostat, ou Estado noir.
O “Fascismo e ditadura, de Nicos Poulantzas, é um livro maravilhoso e muito útil para se refletir sobre a nossa situação política, em maio-junho, de 2019.

O governo Bolsonaro 2019 é a vontade infrapolítica de governar por decretos. O Decreto n° 9.794, de 14 de maio publicado no Diário Oficial é uma declaração de guerra contraconstitucional ao movimento de rua, de 1 milhão de jovens estudantes, em todo o país contra o corte de capital público para as universidades públicas, institutos federais, escolas públicas etc.

O Decreto 9.794 permite a um general do governo da Casa Civil fazer uma intervenção direta, aberta, nas Universidades federais (assessorado pela polícia secreta do general Heleno) para a escolha de reitores e quadros do segundo e terceiro escalão da administração universitária. Este decreto é um ataque aberto ao Artigo 207 da Constituição Federal 1988, que garante autonomia à universidade:
“Artigo 207. As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial e observarão o princípio de indissolubilidade entre ensino, pesquisa e extensão”.

Bolsonaro tem a seu dispor estrategistas militares (generais no governo do aparelho de Estado), formados pela ESG e aparelhos de ensino superiores das Forças Armadas. O governo Bolsonaro tem uma relação orgânica com as F.A., categoria burocrática que vai funcionando como casta-apoio, pois, de privilegiados, do governo messiânico (de Jair Messias Bolsonaro). Então, começo pelo Estado legal nacional.

DA CRISE DO ESTADO

O Estado é composto de aparelho repressivo (ditadura) e aparelhos ideológicos (hegemonia). O aparelho repressivo compreende ramo especiais como exército, a polícia, a administração, os tribunais, o governo. Os aparelhos ideológicos são: Igreja/igrejas (aparelho religioso), os partidos políticos (aparelho político), os sindicatos (aparelho sindical), as escolas e a Universidade (aparelho escolar), os meios de “informação” (jornais, rádios, cinema, televisão, em suma, o aparelho de informação), o domínio “cultural” (a edição), a família sob um certo aspecto.

O governo 2019 é um governo familial (família que funciona como um clã político no poder central). O Ministério Público carioca encontra-se em uma investigação do filho-senador Flávio Bolsonaro atribuindo a este a categoria do código penal chefe de uma organização criminosa. Trata-se da organização criminosa acusada pelo assassinato da parlamentar carioca Marielle Franco. É atribuído a Flávio vários crimes, entre eles, lavagem de dinheiro etc. Assim, Flávio aparece como um agente econômico do <capitalismo criminoso>. (Platt: 39-41).

Há em desenvolvimento uma contradição entre um ramo do aparelho policial e o governo central. Esta contradição afeta a essência do aparelho repressivo, pois, este se caracteriza por ter uma certa unidade burocrático-administrativa definida pelo monopólio da violência real. O decreto do governo extremista 2019 de legalização do porte de armas (para cerca de 19 milhões de consumidores) significa a quebra do monopólio da violência real pelo aparelho repressivo de Estado.O monopólio da violência real nas mãos do aparelho repressivo é um fato natural da nossa cultura política.

O Estado é uma condensação de uma relação de forças conjuntural entre grupos dominantes e as massas em luta aberta. O problema é que ele constitui a unidade política dos grupos dominantes, ele instaura certos grupos como dominantes. Os partidos políticos e o conjunto dos aparelhos (repressivo e ideológicos) desempenham a função de organização e unificação da burguesia e do bloco no poder. (Poulantzas.1980: 145-146).

Aos 4 meses de governo, a intervenção aberta e ilegal (inconstitucional) do governo no aparelho escolar gerou um movimento de massas da pequena burguesia e camadas do proletariado que pode envolver milhões de jovens, pois, o governo ataca interesses vitais (e a felicidade) da juventude urbana nacional. Cerca de um milhão de jovens se manifestaram nas ruas das capitais de todo o país, e, foram qualificados pelo presidente da República de “idiotas inúteis” e imbecis. A fala presidencial teve o efeito de pôr as instituições público e privadas (as famílias dos estudantes em milhões de pessoas) de diferentes campos contra o governo. A fala se tornou um  combustível capaz de incendiar a alma do Estado e da Nação. A fala presidencial é um componente essencial do governo extremista em colapso.

O governo conta com um bloco no poder conservador formado pelo Mercado Financeiro, economia de commodities, mass media jornalístico e as Forças Armadas. O governo em tela é um ersatz de governo militar ditatorial.  As F.A. funcionam como categoria social-apoio -burocratismo- (Poulantzas. 179: 179) do governo extremista miliciano.

As F. A. dão caução a um governo que é um efeito de uma certa economia política miliciana que faz pendant com o capitalismo criminoso e o criminostat (Virilio:54-55). A corrupção das F.A. aparece como o capítulo, por excelência, da corrupção política da burocracia pública. O grupo-apoio público armado do bloco no poder aparece como aliado de uma facção miliciana política carioca. O general chefe da Defesa chegou a defender a economia miliciana. Tais relações se encontram expostas na tela do aparelho de informação e aparelho cultural nacionalmente e internacionalmente.

O bloco no poder conservador atravessa uma crise larvar do aparelho político (sistema de partidos políticos).  Tal sistema está em colapso permanente, pois, a corrupção judicial o atingiu globalmente. As eleições de 2018 introduziu partidos inéditos como o PSL miliciano e o Novo extremista de Minas Gerias e do Rio Grande do Sul. Ao contrário do PSL, o NOVO se apresenta como partido não-corrupto capaz de reorganizar a hegemonia, de certos grupos dominantes, no bloco no poder. O NOVO é um efeito da Lava Jato, de Sergio Moro, e representa os interesses da economia de commodities da mineração em Minas Gerais. No Sul, ele representa a cultura política de terno, de olhos azuis, e gravata de uma específica cultura política formal com características fascista tupiniquim.

Sem sombra de dúvidas, há uma crise da hegemonia complexa que o governo 2019 aprofunda. O fascismo miliciano carioca é a causa principal do da hegemonia em colapso na conjuntura 2019:
“No caso do processo de fascização e do fascismo, nenhuma classe ou fração de classe dominante parece capaz de impor, seja pelos seus próprios meios de organização política, seja por intermédio do Estado <democrático-parlamentar>, a sua ‘direção’ às outras classes e frações do bloco no poder”. (Poulantzas. 1978:78).  

O governo extremista se apoia nas F.A. para jogadas que signifiquem o domínio da ditadura (dominação) sobre a articulação da hegemonia na conjuntura da terceira década do século XXI. Uma ditadura militar por dentro da democracia 1988 é um tour de force, que Bolsonaro acredita poder realizar. Mas, “Greta Garbo acabou no Irajá”.  

Uma F.A. em colapso na escala de valores públicos é aquilo que mais preocupa a consciência nacional. As F. A. vão se tornando, irreversivelmente, uma máquina de guerra institucional do Criminostat via capitalismo criminoso. Os fatos que envolvem militares no mercado de armas [ilegais] do Exército e a ligação com a economia política miliciana constituem os sintomas mais terríveis, escandalosos, para uma nação a beira da ruína iminente.

O impeachment começa a adquirir consistência e, talvez, a saída  de Bolsonaro seja o estelionato eleitoral escandaloso. A solução é governar com a lógica do toma-lá-dá-cá do velho  sistema político velho. 

Um player que ainda não deu o ar de sua graça na crise dos dominantes é o STF. Trata-se de uma incógnita, pois, não se sabe com quem a maioria do STF encontra-se aliada.

o Estado tem como função econômica (Poulantzas. 1978: 323) organizar a economia política nacional, principalmente, encontrando solução para a economia em colapso. Esta função econômica   governamental está deslizando, aos poucos, para o aparelho congressual. É um novo elemento da crise do Estado com consequências imprevisíveis.

A propósito. Bolsonaro convocou uma manifestação de rua para o dia 26/05/2019. trata-se de uma tática presente nas páginas de Max Weber:
"Nas figuras mais importantes do passado - do mago e profeta, por um lado, e a do príncipe guerreiro eleito, do chefe de bando e do condottiere, por outro, o papel de líder existiu em todas a s regiões e em todas as épocas históricas". (Weber: 527).

Bolsonaro é claramente a figura histórica chefe de bando [miliciano] com poder de um discurso demagógico que interpela a emotividade das massas. Ele quer transformar os parlamentares em prebendado políticos que façam parte de seu séquito. Com a  democracia miliciana de rua: "Pode-se muito bem chamar o atual estado .de coisas de 'ditadura' baseada no aproveitamento da emotividade das massas". (Weber: 553).


As massas na rua bolsonaristas podem significar a entrada em uma nova conjuntura política. Logo saberemos!        


POULANTZAS, Nicos. Pouvoir politique et classes sociales. Paris: maspero, 1975
POULANTZAS, Nicos. Fascismo e ditadura. SP: Martins Fontes, 1978
POULANTZAS, Nicos. O Estado, o poder, o socialismo. RJ;  Graal, 1980
PLATT, Stephen. Capitalismo criminoso. SP; Cultrix, 2017   
WEBER. Max. Economia e sociedade. v. 2. Brasília: UNB, 1999
VIRILIO, Paul. Vitesse et politique. Paris: Galilée, 1977