José Paulo
Dialética e transdialética
gramatical
“Podemos discutir, mais tarde,
outras questões a forma de responde-las pode exigir de nós que revisemos
respostas já dadas. Esse procedimento de vai-e-vem não é raro”. (John Rawls:
63).
Na quase total derrota e
desorganização visível das ciências humanas, só se pode falar com um mínimo de
razoabilidade se o sujeito que fala, falar de uma posição de episteme, ou seja,
falar de um lugar no qual esteja claro qual é a estrutura da teoria: ciência
gramatical da política.
Falo do lugar ciências
gramaticais da política. Esta possui como lugar de episteme a transdialética
gramatical. A transdialética gramatical é para Merleau-Ponty a hiperdialética:
“A má dialética quase começa com
a dialética, só é boa dialética aquela que critica a si mesmo e, se ultrapassa
como enunciado separado; a boa dialética é hiperdialética. A má dialética é a
que não quer perder sua alma para salvá-la, que quer ser dialética
imediatamente, tornar-se autônoma e termina no cinismo, no formalismo, por ter
evitado seu duplo sentido. O que chamamos hiperdialética é um pensamento que,
ao contrário, é capaz de verdade, pois encara sem restrições a pluralidade das
relações e o que chamamos ambiguidade (...) O que se deve aqui apontar é que a
dialética sem síntese de que falamos não é o ceticismo, o relativismo vulgar ou
o reino do inefável. O que rejeitamos ou negamos não é a ideia da superação que
reúne, é a ideia de que ela redunde num novo positivo, numa nova posição. No
pensamento e na história, como na vida, conhecemos apenas superações concretas,
parciais, atravancadas de sobrevivências, sobrecarregadas de déficits; não há
superação de todos os aspectos que conserve tudo o que as fases precedentes
tenham adquirido, ela acrescenta a elas, mecanicamente algo a mais e permite
arrumá-las numa ordem hierárquica do menos ao mais real, do menos ao mais
válido. Mas, numa parte definida do caminho, pode haver progresso e, sobretudo,
soluções excluídas durante o percurso. Em outros termos, o que excluímos da
dialética é a ideia do negativo puro, o que procuramos é uma definição
dialética do ser, que não pode ser nem o
ser para si nem o ser em si – definições rápidas, frágeis, lábeis e que, como
disse Hegel muito bem, nos levam uma à outra – nem o Em-Si-para-si, que leva a
ambivalência ao máximo [uma definição]*, que deve reencontrar o ser antes da
clivagem reflexiva, em torno dele, no
seu horizonte, não fora de nós e não em nós, mas onde os dois movimentos se
cruzam, onde ‘há’ alguma coisa”. (Merleau-Ponty: 95-96).
Um dicionário à mão (o Aulete) me
diz que o prefixo hiper tem como
sentido gramatical ‘a mais’. E que o prefixo trans tem como sentido gramatical ‘além de’, transferência,
deslizamento, deslocamento. Além de e a mais se coadunam como duplo sentido da
gramática da boa dialética. Assim, hiperdialética é homóloga gramaticalmente à
transdialética que significa transliteratura, ou melhor, o deslocamento do
sentido literário para um campo extraliterário (Bakhtin: 29)). A transdialética
trabalha com o duplo sentido do ser: literário e extraliterário.
Na política, trata-se do
deslizamento do sentido da política estrito senso (política fática) para a
cultura pública da política. O ser da política é o cruzamento desse duplo
sentido gramatical. A cultura política se realiza no presente como o passado sobredeterminado
pelo presente.
SOBREDETERMINAÇÃO
(FREUD)
Em 1967, li o ensaio de Althusser Contradição
e sobredeterminação. Althusser transportou para a ciência da história a
sobredeterminação freudiana. Rigorosamente, não se trata mais da dialética
hegeliana ou marxista. Trata-se de um deslizamento transliterário da dialética
para um outro campo de saber fazendo pendant com outra realidade dos fatos. Há
uma lacuna no discurso de Althusser onde falta o significante gramatical capaz
de nomear o procedimento althusseriano com rigor, pois não se trata mais de
dialética.
Althusser não pensou que sua
dialética freudiana e leninista era um fenômeno novo, uma nova episteme no sentido
lacaniano. Uma nova posição de ver o campo de saber fazendo pendant com a
realidade dos fatos. Esta nova episteme explica a crise russa (deslocamento e
condensação de contradições em um ponto de fusão) e, portanto, a revolução
bolchevique como transdialética. A transdialética também contempla o sujeito gramatical
esquizo e os antagonismos de equilíbrio da Revolução mexicana.
A transdialética (ou dialética
com sobredeterminação) é a mudança do passado no presente como produção da
contemporaneidade. A transdialética leninista não alterou o curso gramatical
historial do século XX? O passado do capitalismo capitalista e representativo
democrático do século XIX foi alterado em seus múltiplos sentidos dialéticos
por um sentido transdialético único, tendo como causa o confronto e diálogo com
o leninismo da revolução russa. A transdialética mexicana é um recurso
simbólico para se chegar a compreensão da política do século XXI?
O capitalismo capitalista passou
a ser um movimento gramatical transdialético de ruptura consigo próprio. O
capitalismo capitalista adquiriu a forma do capitalismo monopolista de Estado
dissipando a fronteira entre o privado e o público: na economia, cultura e
sociedade. O capitalismo se misturou com o Estado na articulação do ser da
economia internacional do século XX.
O globalismo neoliberal da década
de 1990 é um movimento transdialético gramatical, onde o passado gramatical do
século XX é modificado por um novo presente, por uma nova maioridade gramatical.
Trata-se da tentativa de refundar o capitalismo capitalista do século XIX? Com
efeito, o neoliberalismo tem o capital fictício no comando da economia fazendo
pendant com o capitalismo corporativo mundial. Se aproximando da década de
2020, há a crise transdialética do movimento do globalismo neoliberal. No
momento, o presente começa seu trabalho de sobredeterminação gramatical sobre o
passado. A crise se define também como o velho que não quer morrer e o novo que
ainda não saiu do útero. O globalismo neoliberal foi rechaçado pela transdialética
gramatical mexicana até pouco tempo atrás.
No caminho visível da
transdialética mundial, a gramática da guerra em narração reflexiva na cultura
mundial torna-se vapor barato, articulação da realidade dos fatos por delírios
psicóticos de governantes-crianças mimadas.
O livro sobre a sobredeterminação
de Althusser é de 1965 (Pour Marx). Althusser não era um leitor atualizado das
publicações em filosofia, assim como não leu O Capital, de Marx. O livro O
visível e o invisível (Merleau-Ponty) é de 1964, pela editora Gallimard.
Trata-se de um livro que traz a transdialética gramatical freudiana no
território da ontologia, antes de Althusser, portanto. Encerro citando um longo
trecho sobre a criação parisiense da transdialética gramatical freudiana no
terreno da episteme da filosofia de Merleau-Ponty, para a reflexão do leitor:
"De sorte que o Ser, pela própria
exigência de cada uma das perspectivas do ponto exclusivo que o define,
torna-se um sistema de várias entradas; não pode, portanto, ser contemplado de
fora e na simultaneidade, devendo ser efetivamente percorrido; nessa transição,
as etapas passadas não são simplesmente passadas, como trecho da estrada
percorrido, mas chamaram ou exigiram as etapas presentes exatamente no que têm
de novo e desconcertante, continuam, pois, a ser nelas, o que quer dizer também
que retroativamente são por elas modificadas; aqui não se trata, pois, de um
pensamento que segue uma rota preestabelecida, mas de um pensamento que abre
seu próprio caminho, que se encontra a si próprio avançando, provando a
viabilidade do caminho, percorrendo-o – esse pensamento inteiramente
subordinado a seu conteúdo, de quem recebe incentivo, não poderia conceber-se
como reflexo ou cópia de um processo exterior, é engendramento de uma relação a
partir de outra. De forma que, não sendo testemunha estranha e muito menos
agente puro, está implicado no movimento e não o sobrevoa”. (Merleau-Ponty:
91-92).
A Revolução mexicana é o passado
retroativamente no presente (já passado) sobredeterminado pelo sistema político
do Partido de massas de Estado?
II
A transdialética gramatical é o
recurso mais apropriado para se pensar uma realidade política
(Latino-Americana) que se funda na era moderna a partir do colonialismo
cultural. Dois livros (e talvez outros) tentam dar uma resposta epistêmica e
política ao problema do colonialismo cultura europeu na A-L. O de Pablo
Casanova é de 1965 (A democracia no
México). O outro de Caio Prado Jr. (A
revolução brasileira) é de 1966. Caio Prado, provavelmente, não leu
Casanova, pois, o livro desse mexicano foi publicado no Brasil em 1967. No
entanto, há essa coincidência significativa entre os dois livros: são uma
demolição crítica do colonialismo intelectual soberano na alta cultura,
principalmente marxista, no México e no Brasil.
Pablo e Caio pensam o moderno
latino-americano a partir do passado. O passado de Caio é aquele colonial
luso-brasileiro. O passado de Pablo é o passado da sociedade tradicional
mexicana que desagua na Revolução Mexicana do início do século XX. Se Caio
Prado fala de uma Revolução brasileira que não aconteceu, Pablo Casanova fala
da Revolução Mexicana que é um fato marcante na paisagem da política de seu
país no século XX e na contemporaneidade do século XXI na forma da autocracia representativa
realmente existente!
A Revolução mexicana é um
significante da gramática em narração lógica da política mexicana. A política
mexicana padece do mesmo problema brasileiro identificado por Oliveira Vianna: o idealismo da Constituição. Trata-se do
sentido virtual da política em um contraste clamoroso com o duplo sentido que
articula cultura política privada e/ou pública com política estrito senso.
A gramática da política mexicana
é resumido por Pablo assim:
“A ANÁLISE de todas as instituições
implantadas no México segundo o modelo de governo da teoria política
euro-americana revela que há um partido preponderante, dependente e auxiliar do
próprio governo, que o movimento operário encontra-se em condições semelhantes
de dependência, que o Congresso é controlado pelo presidente, que os estados
são controlados pela Federação, que os municípios são controlados pelos estados
e a Federação, e, em resumo, que não ocorre o modelo dos ‘três poderes’, ou do
sistema dos ‘contrapesos e balanças’, ou do governo local dos vizinhos
eleitorais, idealizado pelos filósofos e legisladores do século XVIII e
princípio do século XIX, mas uma concentração do poder: a) no governo; b) no
governo central; c) no Executivo e d) no presidente. Exceção feita às limitações
que a Suprema Corte impõe, em casos particulares e na defesa de interesses
particulares e direitos cívicos, se só fossem analisados estes elementos, o
Presidente do México apareceria gozando de um poder ilimitado”. (Casanova. 1967:
35-36).
A Constituição liberal
anticlerical de 1917 é uma Constituição idealista se cotejada com a gramática
supracitada. A sociedade política mexicana não é liberal. Trata-se de uma
sociedade política autocrática representativa caudilhesca e do caciquismo
envelopada por uma cultura política privada (quase invisível) do
latifundiarismo eclesiástico. (Casanova. 1967: 43-45). Nesse meu vai-e-vem
textual, a secularização da cultura eclesiástica e do mundo-da-vida mexicana é
um fato tático essencial para a leitura gramatical do presente mexicano da
atualidade.
A gramática da política tem como
sujeito idealista o cidadão da Constituição de 1917. Na realidade dos fatos o
cidadão é substituído por: caudilho e cacique regional e local; exército;
clero; latifundiário; empresários nacional e estrangeiro. (Casanova. 1967: 36).
No texto O idealismo na evolução política do Império e da República (1922),
Oliveira Vianna resume o contraste entre o ideal constitucional e o real do ser
da política brasileira:
“O trabalho de construção do
aparelhamento político tem, no Brasil, um processo inteiramente oposto ao
seguido, na sua organização política e na sua estruturação constitucional,
pelos grandes povos da antiguidade, como o romano, ou pelos grandes povos
modernos, como o inglês, o japonês, o norte-americano, o alemão da fase imperial.
Entre nós, com efeito, não é no ‘povo’, na sua estrutura, na sua psicologia, na
sua economia íntima e nas condições particulares de sua psyché, que os organizadores brasileiros, os elaboradores dos
nossos códigos políticos vão buscar ao materiais para as suas formosas e
soberbas construções: é fora de nós, é nos modelos estranhos, é nos exemplos
estranhos, é nas jurisprudências estranhas, em estranhos princípios, em
estranhos sistemas que eles se abeberam e inspiram – e parece que é somente
sobre estes paradigmas forasteiros que a
sua inteligência sabe trabalhar com perfeição”. (Vianna. 1922: 7-8).
A política brasileira tem esse
sentido virtual em tela constitucional no Império e na República do século XX.
Trata-se da política do idealismo constitucional do sujeito gramatical
oligarquia virtualmente liberal brasileira. No século XX mexicano, qual sujeito
gramatical ocupa o lugar da oligarquia brasileira no real do ser da política da
sociedade dos fatos? O caudilhismo fazendo pendant com o caciquismo?
A oligarquia intelectual
brasileira se constitui por uma gramática importada da alta cultura europeia. A
do México também é semelhante na formação da sua ciência política?
Oliveira Vianna diz sobre o
Brasil imperial [e republicano]:
“Há também que assinalar, no período
da independência e do Império, a aparição de um novo fator, de um novo
modificador da estrutura política, ao lado dos fatores já estudados. É a
influência das ideias exóticas, a repercussão, na América, das novas teorias
políticas, que então agitam e renovam, desde os seus fundamentos, o mundo
europeu: o Liberalismo, o Parlamentarismo, o Constitucionalismo, o Federalismo,
a Democracia, a República”. (Vianna. 1933: 252).
Trata-se do festejado autocolonialismo
cultural, pois, a ciência política europeia é metabolizada espontaneamente pela
oligarquia intelectual brasileira (e latino-americana) gerando uma cultura
política virtual ficcional (que é usada para fazer Constituições) que jamais se
atualiza faticamente. Há essa decalagem entre teoria e prática, uma unidade
entre teoria e prática virtual, hiperficcional que leva Joaquim Nabuco a falar
de uma cultura política democrática do simulacro no século imperial. (Nabuco: 988).
O século imperial foi pós-modernista antes do pós-modernismo baudrilladriano.
(Baudrillard: 177-178).
A revolução mexicana é uma
revolução de frações do caudilhismo e do caciquismo, que veio a diminuir a
presença do exército na política da autocracia representativa realmente
existente com aparência de semblância virtual democrática representativa na
Constituição. (Casanova:38,40). A gramática revolucionária tem seus percussores
intelectuais na alta cultura familial (cultura do pessoalismo cultural)
mexicana? Sim! Mas ela vai além disso!
III
Para efeito do uso da gramática
transdialéticos, escolho um dos sujeitos gramaticais do México até a década de
1960. Trata-se da Igreja católica que atravessou, como política clerical, o
período colonial e permaneceu como um fator muito influente na política e no
mundo-da-vida do México.
No século XX, o México atravessa
um período de urbanização, industrialização e modernização com o aumento da
população de incrédulos. Porém, tal secularização da cultura política
privada/público não diminuiu o poder simbólico clerical sobre a política lato
senso. Há um campo de estatização poder, no qual o clericalismo é bem
influente:
“O clericalismo do século XIX e
princípios do século XX explica-se também em função de todo um sistema social,
no qual o latifúndio, o caciquismo e o militarismo são seu complemento. O de
hoje (1960) insere-se numa estrutura bem diferente”. (Casanova: 48).
Na conjuntura da Guerra Fria
década de 1960, outra situação de cultura política econômica, outro imaginário
religioso tradicional/moderno, outra situação psíquica aponta para uma
gramática trans-subjetiva em narrativa cristã e anticomunista:
“No México atual, e em zonas
relativamente vastas do país, nota-se uma estreita vinculação do clericalismo
tradicional com a guerra fria, do cristianismo
político com um anticomunismo que manipula símbolos primitivos, os temores da
sociedade tradicional, para provocar verdadeiros fenômenos de pânico e de agressividade
entre a população mais ignorante e fanática, seja camponesa ou de classe média.
A manipulação destes temores e
fobias da sociedade tradicional e sua vinculação com a guerra fria, mediante
campanhas de boatos, acusações, convocações alarmantes; as histórias e
fantasias de medo que se fazem circular no campo, nos povoados e até nas
cidades; o uso de instrumentos religiosos – amuletos, exorcismos e sinos que
tocam de improviso -, de profetas e profecias, de apóstolos e santos, de
imagens supersticiosas do monstruoso, e conceitos populares do demoníaco,
vinculados e comparados ao comunismo como entidade infernal e diabólica, no
sentido tradicional do termo; ligados a uma ação política cada vez mais
efetiva, na qual os sacerdotes vão substituindo os professores como líderes das
comunidades e dos ejidos – para
formular demandas, levantar protestos e organizar manifestações
político-religiosas – provoca um medo perfeitamente racional entre os próprios
políticos – governantes, deputados, líderes -, ameaçados sempre de serem
acusados de comunistas, com a conotação mágico-diabólica do termo e as fobias brueghelianas que desperta”. (Casanova:
50-51).
Trata-se da estatização do campo
de poder distinto do final do século XIX e início do século XX. Neste novo campo
de poder o comunismo e a guerra fria ocupam lugares de internalização da
política das massas gramaticalizáveis pelo cristianismo político. É uma nova
gramática em narrativa tradicional-moderna que se derrama para fora da nação
mexicana como trans-sujeito gramatical em narrativa transdialética, onde há a
junção da sociedade tradicional com uma recente sociedade moderna:
“Que os extremos desta política
encontram-se localizados em certas regiões mais atrasadas do país, que a
conceituação mágica e medieval do anticomunismo cede lugar em estratos
superiores a uma propaganda menos primitiva, que os setores liberais e de
pensamento mais continuam dominando a situação nos povoados, e que, inclusive
nas universidades federativas onde mais se acusa este fenômeno há grande número
de camponeses com terras, de ejidatarios
revolucionários, que apoiam as elites liberais e ajudam-nas a manter o poder,
são fatos indubitáveis. Não impedem, entretanto, que hoje o clero
tradicionalista represente uma das forças mais vivas e atuantes na política
mexicana, e constitua um dos grupos de pressão mais poderosos e diversificados,
que os governantes devem levar em conta em suas decisões, umas vezes como
aliado frente às exigências populares que fazem perigar sua força ou seus
interesses, outras como inimigo que tenta derrubá-los e substituí-los”.
(Casanova. 1967: 51).
Qual a posição do cristianismo no
século XXI mexicano?
Uma outra periodização ocorre com
o significante gramatical KRIMINOSTAT (Virilio: 55-54) e a narco cultura
política privada. Novamente, o passado que persiste no real do ser da sociedade
mexicana será retroativamente transmutado pelo presente. O que aconteceu com os
sujeitos gramaticais e significantes gramaticais modernos da década de 1960 como
o empresário fazendo pendant com o capitalismo a mexicana, urbanização, modernização
e secularização? Qual estatização do campo de poderes se instalou na vida
mexicana após o Kriminostat? A
gramática da insegurança do território (Virilio) tornou-se soberana, no
mundo-da-vida popular, na sociedade civil e sociedade política?
IV
No Norte do México, o estado de
San Luis de Potosí é o estado gramatical como alavanca da revolução mexicana
1910-1917. A revolução depõe o porfiriato (regime autocrático
hiperpresidencialista representativo de Porfírio Díaz [1977-1911]), com a
eleição de Francisco I. Madero (1911). Homem do liberalismo oligárquico, hacendado e homem de negócios que
dirigiu o Partido Nacional Antirreleicionista (1910-1911), que triunfará com a
derrocada de Porfírio Díaz por meios violentos.
Em San Luis Potosí, um punhado de
famílias acaudaladas, frequentemente
em cooperação com homens de negócios estrangeiros, dominaram a vida econômica,
política, social e cultural político (caciquismo, caudilhismo). Trata-se de um
sistema de interesses econômicos no qual a cidade, la mina e a hacienda,
ligados por um laço gramatical a ser dito, tendiam a incrementar a
industrialização, a monopolização, a mecanização, a exploração e participação
do capital estrangeiro.
A americanização econômica do
México é um dos elementos da gramática em narrativa lógica que explica a
história desse país (Cockcroft: 25). A revolução de 1910 é uma luta política
contra o porfiriato e uma luta contra o americanismo no comando da economia mexicana.
A luta tem como fração dirigente de San Luis de Potosí uma família oligárquica
aburguesada decadente representada pelo engenheiro liberal nacionalista Camilo
Arriaga. (Cockcrofot: 23).
A gramática da política mexicana
tem como sujeito gramatical esquizo da transdialética equilíbrio de
antagonismos. Gilberto Freyre articulou o equilíbrio de antagonismos (Freyre:
6,7) para pensar a formação do nosso povo no Brasil colonial. Na física de
Heráclito, encontramos a transdialética do equilíbrio de antagonismos:
“51, Idem, ibidem, IX, 9.
Não compreendem como o divergente
consigo mesmo concorda; harmonia de tensões contrárias, como de arco e lira”.
(Heráclito: 84).
Há no México a transdialética
gramatical do equilíbrio de antagonismos, de
arco e lira? A oligarquia familial aburguesada mexicana é um sujeito
esquizo liberal e autocrática, do americanismo e do nacionalismo em terras e
território trans-sujeito gramatical Potosí povoados por lutas articuladas por
uma ambivalência econômica, política e cultural política como as lutas que
desabrocham na revolução mexicana 1910-1917. A Constituição 1917 fecha o ciclo
revolucionário em tela. A ambivalência (Cockcrofot:
26) significa a colaboração econômica com o americanismo (amor à América) e o
rechaço nacionalista à burguesia e ao imperialismo EUA (ódio oligárquico
familial à América).
Se o sujeito esquizo é um
fenômeno virtual, o ersatz de industrial não estrangeiro do estado de San Luiz
de Potosí Pedro Barrenechea é uma atualização inequívoca. Ele enviou uma fiança
de dez mil pesos para libertar Madero da prisão do regime de Díaz. Um ano mais
tarde se postularia para governador contra o candidato de Madero. Ele
representava um mal-estar crescente para os homens de negócios independentes e
desenvolvimentistas. Havia enriquecido colaborando com o capital americano e a americanização
da economia oligárquica ersatz de economia capitalista se mantendo fora do
domínio do monopólio do capital estrangeiro. Em 1914, funda uma companhia petrolífera
controlada totalmente por homens de negócios de San Luis Potesí, não muito
depois que o governo de Madero “estableció una política de no concesión y un
impuesto especial del timbre sobre petróleo crudo. Hasta el régimen de Díaz
había advertido el aumento del sentimento antiextranjeiro entre la alta
burguesía cundo en 1908 había hecho arreglos para que la nación comprara la
mayoría de los intereses ferrocarrileros – aunque Esquivel Obregón entre otros,
sostiene que las negociaciones eran fraudulentas. El control por parte del
gobierno sobre los ferrocarriles, dice Esquivel Obregón, sólo era uma
protección ‘meramente ideal’, y ‘las empresas yanquis estaban detrás del
negócio’”. (Cockcroft: 42).
V
O esplendor em cultura política
econômica da revolução mexicana podes ser observado pela formação do bloco
político formal composto por várias classes sociais (oligarquia decadente de
San Luis de Potosí, a pequena burguesia rural arruinada de Zapata, frações em
revolta da classe média intelectual e do proletariado intelectual etc.) e pelo
bloco ideológico informal constituído por intelectuais orgânicos das famílias
oligárquicas dissidentes do porfiriato, intelectuais pequenos burgueses de
grupos de baixo status, pelo PLM (Partido Liberal Mexicano). Este partido
político foi a principal força política do movimento precursor da revolução.
O PLM dirigia uma coalizão cultural política econômica de operários, camponeses, pequenos comerciantes, e
um amálgama de classe baixa e classe média baixa. Como a coalizão de Madero, o
PLM possuía um dirigente intelectual e uma imprensa influente, embora
clandestina. O PML é uma força política em contradição com o bloco político
formal de Madero; podemos ver aí o correlato das contradições no seio do povo
que se opõe ao porfiriato. A vontade de potência política do PML acabou
produzindo efeitos na Constituição de 1917, por exemplo, o artigo 123
‘declaração dos direitos’ dos trabalhadores retirado do programa do PLM de
1906.
A gramática da política mexicana
era um desenvolvimento desigual e combinado de autocracia representativa realmente
existente que sob os efeitos das lutas cultural política econômica se abria
para períodos de “democracia política”, como nos governos de Madero e do
general Cadernas. Tais períodos de “democracia” cultural política econômica não
subtraia a repressão do Estado autocrático mexicano as lutas dos de baixo:
"De 1911 a 1913, bajo el régime
del presidente Madero, los mineros de Matehuala, La Paz, El Catorce y de otras
partes intrépidamentre sostuvieran una casi ininterrumpida serie de huelgas. El
Gobierno ‘revolucionario’ envió tropas con frequencia y bastante mineros fueran
asesinados”. (Cockcroft: 49).
Uma palavra a mais sobre o PLM.
O Partido liberal Mexicano é um
sujeito gramatical esquizo de uma transdialética cultural política econômica esplendorosa
do extremo-ocidente latino-americano. O PLM se formou na conjuntura das lutas
contra o regime autocrático-ditatorial de Porfírio Diaz. Ricardo Flores Magón
foi o chefe do anarquismo mexicano que com outros intelectuais criaram o PLM.
Tal partido revolucionário manteve ligações com a esquerda americana criadas na
época da comunidade dos exilados mexicanos nos EUA. Foi perseguido pela empresa
de detetives Pinkerton que também persegui durante anos os militantes da
esquerda americana. Um sistema internacional de espionagem foi criado para
vigiar, molestar, perseguir e aprisionar os chefes do PLM nos EUA e no México.
O PLM formou-se, no início, com
intelectuais das famílias oligárquicas e intelectuais sem nenhuma linhagem
familial. A coalização contra o porfiriato unia o PLM e Madero e outros
oligarcas dissidentes. Na sua evolução, o PLM se transformou em um partido
anarquista e socialista de massas populares participando (e dirigindo)
rebeliões, revoltas e o que no Brasil se chamaria de revoluções populares. A
partir de um determinado período optou em seu Programa pela revolução violenta
de um exército revolucionário para derrubar Porfírio Díaz e implementar uma
política sócio econômica favorecendo os camponeses pobres, os operários, a
reforma agrária e o direito obreiro.
Madero escolhe confrontar Díaz
pela via pacífica eleitoral. Ele contava com o fim da instituição reeleição que
perpetuava Porfírio Díaz, durante décadas, no poder nacional mexicano com apoio
dos EUA. Quando Madero teve certeza que Díaz ía permanecer no poder pela
reeleição fraudulenta, Madero chegou a conclusão da necessidade da revolução
violenta para depor o tirano Porfírio.
Na luta armada contra o regime
mexicano, O PLM e forças de Madero combateram lado a lado. Trata-se da transdialética
dos antagonismos de equilíbrio do sujeito gramatical esquizo. Depois Madero
deflagrou a guerra civil contra os exércitos populares do PLM (e de Zapata) e
usou o exército constituído na era do porfiriato para desarmar os maderistas em
armas com violência real desproporcional e implacável.
Na gramática da cultura política
mexicana, a violência é um elemento gramatical inelutável. Madero usou o
exército nacional mexicano para conter a revolução da esquerda e depois foi
deposto por um golpe de Estado dos mesmos generais que serviram a seu
propósito. Blanquet, Huerta e Reyes foram os principais dirigentes do golpe de
Estado contra Madero, em fevereiro de 1913. Madeiro morreu assassinado assim
como o presidente Carranza (1920) que favoreceu a tessitura da Constituição
revolucionária virtual 1917.
A Constituição 1917 tem elementos
do Programa do PLM como a reforma agrária e o código direito obreiro, artigos,
respectivamente, 27 e 123. Se a Constituição é a concepção política gramatical
de um país, a Constituição 1917 foi um efeito virtual da guerra civil revolução
mexicana (1910-1917).
Como presidente, Carranza violou sistematicamente a
Constituição, como no caso da supressão dos sindicatos durante 1916-1920 e da
não realização efetiva dos mandatos constitucionais de reforma agrária. Carranza não é uma exceção!
Hoje, a violência mexicana dos
cartéis de drogas não é uma continuação por outros meios (do governo do
invisível) da violência política do período da revolução mexicana e antes dela?
O partido
governante de Estado
Durante décadas o México foi
governado por um partido dominante de massa, partido de Estado por excelência
(Poulantzas: 259-268). Tal partido é o sujeito gramatical do estatismo
autoritário na forma da autocracia representava realmente existente. Tal
partido é um sujeito estratégico/tático na constituição e funcionamento da
gramática política mexicana antediluviana.
Um partido que é o anverso do PLM.
Os presidentes são escolhidos
pelo partido oficial, desde sua fundação em 1929 e “regularmente” eleitos e
reeleitos. Em 1979, como partido oficial, o nome PRI comemorou a supremacia
civil sobre o poder militar em uma América Latina que foi dominada durante
décadas pelo Estado militar.
O Exército federal de Porfírio
Díaz foi desmantelado em 1914-1915. Inicia-se o reino dos senhores da guerra. A cultura política passa a ter como sujeito
gramatical o caudilho militar territorial, cada um senhor de um exército
não-profissional. Entre os mais notáveis temos Huerta, Obregón, Carranza, Villa
e Zapata. Com exceção de Huerta, o contrarrevolucionário, todos os outros,
assim como os chefes, os generais, e os oficiais superiores eram civis. O
antimilitarismo burocrático de Villa era o sintoma dessa era pós-revolucionária
(Rouquié: 239).
Gera-se a estatização de um campo
de poderes desburocratizado, onde as rivalidades políticas violentas e a
multiplicidade aberta ao caudilhismo desagregam o Estado mexicano oficial. Há
inúmeros Estados dentro do Estado. A reconstrução do país passava pela
contenção dos “generais” conturbadores e pela unificação das forças
centrífugas. Obregón e mais ainda Calles - o caudilho, por excelência, presente
na política mexicana de 1924 a 1935 - ambos serão os fundadores da gramática
moderna da política em tela.
A eliminação violenta dos
senhores da guerra não metabolizáveis pelo campo de poder estatizado moderno
será um recurso que leva ao assassinato de Zapata (1919) e Villa (1923). Assim,
se subtrai da gramática os caciques regionais e, ao mesmo tempo, abra-se a
janela de oportunidade para se criar um Exército burocrático profissional e
instituições políticas centralizadas. Desmilitarizar a política significava
militarizar o exército burocrático.
O partido de Estado de massa
estava destinado a ganhar eleições através da ausência de competição, e teve
como primeira tarefa tática gramatical unificar os partidos armados e
dominá-los. O partido oficial torna-se a pressuposta arena política legítima na
qual as forças revolucionárias devem dialogar e se combater em torno de
interesses particulares e/ou comum. A transferência do centro do campo de
poderes para o PRI só pode se realizar depois que Calles consegue disciplinar
os militares e passar a usar o exército burocrático para impor seu domínio
sobre a nação durante dez anos. O triunfo do Estado sobre as forças centrífugas
impôs a dominância do PRI sobre o Exército, após a fundação desse partido.
O partido oficial de massas associado
à revolução mexicana compreende, na era Cárdenas (1934-1940), os seguintes setores:
camponês, operário, popular (um conjunto heterogêneo) e militar. Os militares
são politizados e isto significa a desmilitarização da política e a
despotencialização do exército como força de golpe de Estado. São absorvidos no
campo de estatização dos poderes como sujeito gramatical grau zero de exercício
do poder central do Estado burocrático. A desmilitarização da política levou à desmilitarização
do Estado nacional. Nessa gramática, os militares se constituem, até certo
ponto, ao lado do PRI, da presidência e dos sindicatos parte do bloco-no-poder.
Nesse México, o Estado militar (patrocinado pelos EUA) não vinga, pois, um
Exército burocrático fraco - ao invés de dominar a gramática do sistema
político – é seletivamente integrado ao PRI através de transações onde o
clientelismo domina.
A gramática pós-revolucionária
tem como um sujeito gramatical a corrupção das famílias do governo
plenipotenciário presidencialista. (Castañeda: 298). Em 1946, o PRM (Partido da
Revolução Mexicana) se transformou em PRI (Partido Revolucionário
Institucional), durante a presidência de Ávila Camacho. Assim, o poder político
partidário dispôs do dispositivo institucional que permitiu controlar a vida
política e cultural política do país e dirigir a transformação econômica da
sociedade de significantes mexicana pós-revolucionária: “ O PRI é, pois, uma
forma de Estado mais do que um partido político”. (Touraine: 213).
Arnaldo Córdova faz um resumo claro
da relação do Estado com a paisagem política:
“El Estado de la Revolución
mexicana se caracteriza, entre otros de sus rasgos peculiares, por una extraordinaria,
permanente y progressiva concentración de facultades constitucionales en la
instituición presidencial. Con mucho, se trata del elemento más importante, el
que domina a todos los demás y el que define, en su esencia y en su funcionamiento,
al actual Estado mexicano”. (Casanova. 1990:543).
A falta de gramática da política estrito senso hoje
As forças do cultural político
econômico do pluralismo partidário (que puseram um fim na gramática da política
em tela PRI instaurando uma democratização da autocracia representativa
realmente existente) não contavam com a emersão de um novo fenômeno mundial que
estacionou no território da trans-subjetividade territorial mexicana como um
dilúvio. Me refiro ao Kriminostat fazendo pendant com a cultura política
privada do narcopoder e a lúmpen-elite lumpesinal dos de baixo.
A nova política em reprodução
ampliada mexicana mundial articula uma gramática militar R.S.I.
(Real/Simbólico/Imaginário) onde o que está em cima é igual ao que está em
baixo. Onde o governo visível é também governo do invisível. Onde o governo do
invisível gera uma nova espécie de autocracia representativa realmente
existente.
O que se pode afirmar sobre a
gramática RSI mexicana é que ela é a gramática militar da insegurança
gramatical do território. A verdadeira nova guerra instalada pelo Kriminostat
(complexo industrial militar, serviços de espionagem da Okhrana mundial,
oligarquia financeira mundial sem regulamentação estatal, máfias italianas,
narcopoder e outros fenômenos em expansão) tem um correlato com a gramática
alemã da primeira metade século XX:
"En supprimant les frontières, la
guerra totale abolit les franges protectrices des réalités nationales; ce qui
se passait sur les fronts linéaires se passe à l’ntérieur. C’est avec une sorte
de sombre entrain que la population allemande va s’installer dans une réalité
qui, chaque jour, disparaît. ˂La question morale ayant été laissée de côte>
(général Harris), les schémas industriels et
militaires réalisant à domicile la grand vision ascétique et amputatrice
de l’Occident, sa ˂croisade>, comme dit Eisenhower”. (Virilio. 1976.35).
A linha de força gramatical
autocrática representativa se apossa também da União Europeia, e a gramática da
insegurança do território da democracia representativa se expande. A Europa
mantém sua fachada de democracia representativa, uma aparência de semblância
criada e recriada pela cultura política autocrática do jornalismo, dos partidos
políticos de fachada, e dos governos de fachada democrática. A fachada
democrática oculta a invasão do governo do invisível no espaço da gramática da
política da Europa Ocidental.
DA FRANÇA
AUTOCRÁTICA HOJE
O Congresso da França fez uma lei
que substitui o estado de emergência. Trata-se de uma lei que dá poderes
excepcionais policiais de vigilância e repressão aos prefeitos do país.
A França está em uma transição da
democracia representativa para uma autocracia representativa realmente
existente. O terrorismo islâmico doméstico é o fator que põe o cidadão francês
contra si próprio. E desarma a vontade de potência democrática da oposição das
massas populares a tal destruição da democracia representativa.
Aos poucos, o cidadão francês
perde seus direitos de liberdade para um Estado de polícia e vigilância brutalmente
racista ariano. Tal Estado é um efeito do antagonismo gramatical irremediável
entre a população muçulmana, na França, e a sociedade branca francesa. A
República revolucionária francesa se tornou a República ariana dos prefeitos.
A Espanha caminha a passos largos
para a autocracia representativa monárquica com um estado de sítio permanente a
Catalunha.
Uma linha de força gramatical
narrativa lógica autocrática representativa vai desenhando a paisagem política
da Europa Ocidental na União Europeia, que assiste impassível a tal fenômeno
cultural político econômico com vontade de potência universalizante.
Allons enfants de la Patrie
Le jour de gloire est arrivé
Contre nous de la tyrannie
L'étendard sanglant est levé
L'étendard sanglant est levé:
Entendez-vous dans les campagnes
Mugir ces féroces soldats!
Ils viennent jusque dans vos bras
Égorger vos fils et vos compagnes
Aux armes citoyens
Formez vos bataillons
Marchons! Marchons!
Qu'un sang impur
Abreuve nos sillons
Que veut cette horde d'esclaves
De traîtres, de rois conjurés?
Pour qui ces ignobles entraves
Ces fers dès longtemps préparés
Ces fers dès longtemps préparés
Français, pour nous, ah quel
outrage
Quel transport il doit exciter!
C'est nous qu'on ose méditer
De rendre à l'antique esclavage
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