terça-feira, 21 de agosto de 2018

PERCEPÇÃO ESTRATÉGICA E FUTURO


José Paulo



O futuro não é algo que faça parte da gramática do mercado. A gramática da política pode ter o futuro como objeto. Aí se põe e repõe o problema da percepção e da consciência histórica, como saber ler gramáticas e saber tecer gramáticas e situações (Gadamer: 73).

A percepção pode ser: uma pessoalização do mundo; uma coisificação do mundo; uma percepção ideológica; uma percepção tática e/ou estratégica.

A percepção-pessoalização remete o sujeito para o sentir o mundo:
“O problema é compreender estas relações singulares que se tecem entre as partes da paisagem ou entre a paisagem e mim como sujeito encarnado, e pelas quais um objeto percebido pode concentrar em si toda uma cena, ou tornar-se a imago de todo um segmento de vida. O sentir é esta comunicação vital com o mundo que o torna presente para nós como lugar familiar de nossa vida. É a ele que o objeto percebido e o sujeito que percebe devem sua espessura”. (Merleau-Ponty: 64-65).     

  O sentir é essa comunicação vital com o mundo que o torna presente como lugar familiar de nossa vida; o sentir e a percepção sgrammaticatura (contradição em termos) e o espaço da espontaneidade perceptiva das massas; a gramática da percepção começa com uma certa apropriação conceitual do mundo. A percepção-pessoalização é 90% sgrammaticatura e 10% gramática. Ela subssume a conceitualização do mundo ao sentir. No Brasil, ela é conhecida como percepção do homem cordial, pois remete para uma inscrição no mundo pelo campo de afetos (Holanda:102-107).

A percepção-coisa é aquela percepção do mundo como coisificação. A gramática da mercadoria capitalista estrutura o sujeito como metafísica da coisa e o mundo como physis econômica. Assim, o mercado capitalista é incapaz de pensar o futuro do planeta, para além da era fóssil.

A coisificação da consciência é um mal atroz para os homens, mulheres e crianças:
“˂O movimento da sociedade que é o seu próprio movimento, diz Marx, toma para eles a forma de um movimento das coisas a cujo controlo se submetem, em vez de as controlarem>”. (Lukács: 62).

A percepção tática é aquela das classes dominantes visando a apropriação da riqueza da nação ou a privatização capitalista desta. Portanto, a percepção tática é incapaz de pensar o futuro do planeta ou da nação. 

A percepção ideológica estrutura a relação entre significante e significado social (laço ideológico entre as classes sociais e suas facções e partidos políticos) e político (laço ideológico entre representante e representado na soberania popular) como avesso da relação arbitrária entre significante/significado, em Saussure. (Saussure: 81).

A percepção estratégica se constitui como uma percepção gramatical do futuro; trata-se da consciência histórica capaz de pensar os limites de existência das gramáticas do presente e ser capaz de criar as gramáticas do futuro.

Hegel fala da percepção estratégica com  a única forma  de percepção:
“11 – (Die unmittelbare). A certeza sensível não se apossa do verdadeiro, já que a verdade dela é o universal, mas a certeza sensível quer captar o isto. A percepção, ao contrário, toma como universal o que para ela é o essente. Como a universalidade é seu princípio em geral, assim também são os universais seus momentos, que nela se distinguem imediatamente: o Eu é um universal, e o objeto é um universal”. (Hegel.1992: 83)

                                                                                      II  

É razoável estabelecer laços entre as Minas Gerias do Brasil do século XVIII e o fim da era fóssil?
Em sua prosa maravilhosa, Euclides da Cunha fala, no artigo “Garimpeiros”, fala  da percepção do garimpeiro  e de império português na exploração das jazidas de ouro.

O forasteiro chegando das Minas Gerais teria uma percepção estratégica da sociedade do ouro, pois, veria que tanto o garimpeiro como a Coroa portuguesa tinham uma visão tática de apropriação extrativista mercantil do ouro:
“E se conseguisse abarcar de um lance a multidão doudejante e inquieta, que atestava as vielas e torvelinhava nas praças, teria a imagem estranha de uma sociedade artificial, feita de elementos díspares transplantados de outros climas e mal unidos sobre a base instável, dia a dia destruída, ruindo solapada pela vertigem mineradora – da própria terra em que pisavam –” (Euclides da Cunha: 146).  

A sociedade artificial extrativista mercantil é o actrator no horizonte de um Brasil petrolífero, pois, o Brasil está longe do peak oil (ápice da extração).  Assim, espera nosso país uma situação histórica que guarda equivalência com a sociedade artificial extrativista do ouro do século XVIII. 

Na sociedade do ouro, há o conflito e a luta (que toma conta das Minas Gerais) entre a Coroa e os garimpeiros, com a instalação de um Estado totalitário na região das minas de ouro e diamantes, com monopólio militarizado da exploração através de um Urstaat cesarista colonial (Vianna: 185) Era de se esperar que o império português usasse o ouro e os diamantes estrategicamente para construir, prematuramente com a acumulação primitiva grandiosa de capital: o ersatz de sociedade capitalista.

Ao contrário, a Coroa tinha a mesma percepção tática do garimpeiro da exploração do ouro e diamantes:
“É que a terra, desentranhando-se nos minérios anelados, não era um lar, senão um campo de exploração predestinado a próximo abandono quando as grupiaras ricas se transmudassem nas restingas, e fossem avultando, maiores, mais solenes e impressionadoras, sobre a pequenez dos povoados decaídos, as Catas silenciosas e grandes – montões de argila revolvidos tumultuando nos ermos à maneira de ruína babilônicas... (Euclides da Cunha: 147).

A exploração das minas de ouro e diamantes das Minas Gerais possuía um limite natural como valo-de-uso; como valor-de-troca a exploração possuía um limite econômico, pois, Portugal se definia com uma sociedade artificial extrativista mercantilista, voltada para a apropriação patrimonialista da riqueza natural pela família real e aristocracia parasita.  
                                                                                            III  

Hegel diz: “a história universal é o progresso na consciência da liberdade”. (Hegel. 1995: 25). E vai além: “Na história universal só se pode falar dos povos que formam um Estado. É preciso saber que tal Estado é a realização da liberdade”. (Hegel.1995: 39).

Há uma relação da filosofia com o Estado que ilumina a história universal:
“Também a filosofia precisa surgir na vida do Estado, já que, como foi mencionado, é por meio de um conteúdo que se obtém a cultura, a qual é a forma inerente ao pensamento. A filosofia, que nada mais é do que a consciência dessa forma, o pensar do pensar, prepara, com isso, o material singular para a estrutura ainda em formação”. (Hegel. 1995: 64).

A história universal acaba quando a consciência histórica fica reduzida à consciência do garimpeiro ou à consciência do império português de Euclides da Cunha.

O marxismo fez da sociedade civil (sociedade das classes sociais) o palco da história no lugar do Estado. A filosofia cedeu seu lugar maravilhoso para o campo de saberes da consciência de classe constituída na história das lutas de classes. Como forma inerente do pensamento, a cultura doa seus conteúdos para a consciência de classe como forma da cultura.

A gramática do capitalismo neocolonial existe como um poder de violência simbólica de destruição da cultura, da consciência de classe, da luta de classe, da sociedade nacional (existência de classes sociais sem sociedade de classes), do partido político (substituído pela facção política) - onde os fenômenos supracitados se realizam. A causa desta destruição é o surgimento de problemas para os quais a classe dominante não tem solução:
“A barreira que faz da consciência de classe da burguesia uma ‘falsa’ consciência é, pois, objectiva; é a própria situação de classe. É consequência objectiva da estrutura econômica da sociedade e não algo de arbitrário, de subjetivo ou psicológico, pois a consciência de classe da burguesia, mesmo que possa reflectir o mais claramente possível todos os problemas da organização desta dominação, da revolução capitalista e da sua penetração no conjunto da produção tem necessariamente que se obscurecer a partir do momento em que  mesmo no interior da experiência da burguesia, surjam problemas cuja solução está para além da sociedade burguesa”. (Lukács: 68).

A situação que vivemos se define como: “surjam problemas cuja solução está para além da sociedade burguesa”?

Os problemas dizem respeito aos limites da physis natural em junção com a physis econômica da gramática capitalista fóssil. O capitalismo mundial entrou em sua última etapa, a saber: a do capitalismo neocolonial.

O capitalismo neocolonial é o declínio material do capitalismo, pois, o peak oil é um fator de desenvolvimento desigual das nações, regiões e continentes geoeconômicos no uso da energia fóssil.

Este declínio deixa de ser um fenômeno pensado pela cultura burguesa.

Com Donald Trump, a consciência burguesa ambientalista sofreu um golpe mortal, pois, o problema do peak oil deixa de existir como fenômeno cultural, como algo a  ser pensado pela consciência de classe burguesa. Também, os efeitos maléficos do regime fóssil de acumulação são foracluído do âmbito da cultura mundial: efeito estufa, aquecimento global, mudanças climáticas etc.

Ainda com Donald Trump, os problemas se retiram do domínio do pensamento e tornam-se um problema do princípio utilitário (Bentham: 9-10) a ser vivido conforme eles se manifestem como dor (desprazer ou prazer) para homens, mulheres e crianças. A narrativa utilitária da dor define a consciência dos mass media que ocupa o lugar da consciência de classe burguesa; esta consciência não é um fenômeno cultural, pois, incapaz de pensar os problemas sem solução que surgem no capitalismo neocolonial.

O marxismo brasileiro faz pendant com a consciência da cultura que pensa o problema da não-solução dos problemas do capitalismo neocolonial como totalidade histórica:
“Ora, é tarefa de uma análise histórica muito meticulosa mostrar claramente, graças a categoria de possibilidade objectiva, em que situação efetiva se torna possível desmascarar realmente a ilusão e penetrar até à conexão com a totalidade”. (Lukács: 66).

A totalidade é a própria gramática capitalismo neocolonial. Esta gramática significa um estado de insegurança catastrófica do meio ambiente, alimentar, habitacional e de saúde. Claro que o peak oil global não significa já o fim do capitalismo neocolonial, pois, o território subjetivo dos discursos dos mass media (de papel, eletrônico e digital) se tece como um evangelho milenarista às avessas.

Não se trata mais de salvar o capitalismo por uma revolução capitalista, pois, este recurso evolutivo deixou de existir. O capitalismo agora existe pela sua última gramática: capitalismo neocolonial. Se trata de beber até a última gota ideológica a vida da gramática capitalista neocolonial. Trata-se de beber até a última gota o gozo vida finita capitalista, individualmente, e como classe burguesa neocolonial. O milenarismo neocolonial dos mass media de salvação individual e grupal prega o gozo (Hegel. 1992: 131) da vida finita frente ao senhor absoluto, ou seja, a morte. (Hegel. 1987: 119).

 A gramática dos mass media metabolizou o estado de insegurança supracitado como um fato natural da história do homem. Não é mais possível proteger a natureza do capitalismo e  homens, mulheres e crianças de uma natureza catastrófica produzida pelo capitalismo como ˂natureza objetiva> distinta da ˂natureza em si>. (MacCarthy:139).

O estado de insegurança em tela gerará “o mal” que pode chegar na forma de migração de grandes massas populacionais. A burguesia americana crê que pode criar uma barreira policial e militar contra este mal. A União Europeia se divide, por nações, em como tratar este mal. A migração ainda não é um efeito global direto do estado de insegurança gerado pelo capitalismo neocolonial, mas ainda será.

A burguesia americana neocolonial se vê como um fenômeno hegeliano:
“A América é, portanto, a terra do futuro, na qual se revelará, em tempos vindouros, o elemento importante da história universal - talvez a disputa entre a América do Norte e a do sul. É uma terra de aspirações para todos os que deixam o museu das armas históricas da velha Europa. Menciona-se que Napoleão tenha dito: ‘Cette Vieille Europe m’ennui’. Cabe à América abandonar o solo sobre o qual se tem feito a história universal. O que nela aconteceu até agora nada amis é do que o eco do Velho Mundo, a expressão de uma vida estrangeira. (Hegel.1995 79)   

As migrações latino-americanas para os EUA são uma forma de guerra civil econômico-demográfica regional dos povos latinos conta o Tio Sã. Elas foram uma alavanca (consciência americana tomada pelo medo, pelo temor da migração latina) para Donald Trump se apoderar do poder americano. A história americana não começa uma outra época da história universal, pois, se encontra sob o domínio do capitalismo neocolonial americano!   

Os países desenvolvidos funcionam como um atractor para as massas da migração catastrófica. Porém, há um limite natural para a absorção dessas massas migratórias. As massas migratórias agem como um fenômeno político que o capitalismo neocolonial metaboliza como necessidade de pôr um fim na história universal hegeliana como caminho para a liberdade.

O Brasil é a décima economia do mundo. Portanto, ela pode funcionar como um atractor para as massas migratórias catastróficas, ao lado dos EUA. No entanto, a migração venezuelana para o Brasil (oriunda da catástrofe político do bolivariano) mostra um Brasil despreparado para abrigar os povos latinos destroçados por situações catastróficas.

A não-resolução dos problemas brasileiros mais elementares (reversão das estrutura de emprego e profissões em desintegração, sistema de transporte caótico, condições de higiene, saúde popular, condições de vida em geral, megalópoles tomadas por organizações criminosas e violência real generalizada) pesa como chumbo na subjetividade a na consciência da população. O povo brasileiro tornou-se insensível ao destino dos povos vizinhos, pois, crê que seu próprio destino é a dos povos da América Central. O brasileiro crê que o êxodo encontra-se no horizonte de sua história no século XXI.

As eleições 2018 se apresentam como um espetáculo políticos de candidatos que não falam da situação verdadeira atual. Os candidatos vivem o processo eleitoral como candidatos de facções políticas, pois, não representam partidos políticos. Um partido político é um agregado de pessoas que formam constelações de grupos rivais. No entanto:
“Os partidos ultrapassam as facções porque se baseiam não apenas em interesses. E não apenas em afetos (a ‘afeição’ de Hume), mas também, e principalmente, em princípios comuns”. (Sartori: 29)

Para Burke:
“˂O partido é um grupo de homens unidos para a promoção, pelo seu esforço conjunto, do interesse nacional com base em algum princípio com o qual todos concordam>”. (Sartori: 29).

A facção política é um efeito da gramática do capitalismo neocolonial do terceiro-mundo. Isto significa que a devastação da economia nacional não será gramaticalizada como um problema a ser resolvido. Encerro com um problema cadente!

O petróleo só pode entrar no mercado (ou seja, no mercado de petróleo e nos mercados de futuros) e nele ser negociado se a matéria-prima for extraída do subsolo e apropriada. O ato de valorização primária do petróleo pressupõe o controle das jazidas, a concessão de direitos implementáveis de propriedade, quer dizer, também a exclusão legal (não necessariamente legítima) de pretensões alheias”. (Alvater: 255).

Uma história política do petróleo brasileiro criou a consciência nacional de que o petróleo era um problema de segurança nacional energética. O monopólio da extração e refino do petróleo em solo brasileiro é um dos grandes fatos da formação de uma consciência nacional.

O monopólio do petróleo foi quebrado pelo general-presidente Geisel, sob pressões formidáveis dos EUA. A América negociou a permanência do Estado militar brasileiro em troca da quebra do monopólio do petróleo. No regime 1988, o petróleo torna-se alvo da corporatocracia (governo autocrático econômico das corporações capitalistas mundiais). Candidatos presidenciais já falam da privatização da Petrobrás. O modelo a ser adotado é o da indonésia, onde o petróleo é monopólio da corporatocracia.

Onde a corporatocracia fóssil governa, os territórios petrolíferos formam uma espécie de ˂Estado no  interior do próprio Estado>. Rigorosamente, a corporatocracia fóssil se estabelece como um poder real (econômico, político, cultural) na gramática do campo de poderes nacionais. Com as facções políticas neocoloniais, todo um campo de poderes neocoloniais se ergue a céu aberto. Para as facções políticas só importam criar condições para que elas participem da pilhagem da riqueza nacional junto com as facções econômicas capitalistas locais e as facções dos mass media – que dominam a nossa política.

As eleições 2018 se constituem como um momento no qual as facções brasileiras (seguindo a gramática neoliberal, neoconservadora e neocolonial) disputam os poderes estatais para adquirirem posições para melhor usufruto da riqueza nacional.  

ALTVATER, Elmar. O fim do capitalismo como o conhecemos. RJ; Civilização Brasileira, 2010
BENTHAM. Pensadores. Uma introdução aos princípios da moral e da legislação. SP: Abril Cultural, 1974
EUCLIDES DA CUNHA. Obra Completa. v. 1. RJ: Nova Aguilar, 1995
GADAMER, Hans-Georg. El problema de la consciencia histórica. Madrid: Tecnos, 1993
HEGEL. Fenomenología del  espíritu. México: Fondo de Cultura Económica, 1987  
HEGEL. Filosofia da história. Brasília: UNB, 1995         
HEGEL. Fenomenologia do espírito. Petrópolis: Vozes, 1992
HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. RJ: José Olympio, 1988
LUKÁCS. História e consciência de classe. Lisboa: Escorpião, 1974
MAcCARTHY, Thomas. La teoria crítica de Jürgen Habermas. Madrid: Tecnos, 1992
MERLEAU-PONTY. Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard, 1945
SARTORI, Giovanni. Partidos e sistemas partidários. RJ/Brasília: Zahar Editores/UNB, 1982
SAUSSURE, Ferdinand. Curso de linguística geral. SP: Cultrix, Sem Data
VIANNA, Oliveira. Populações meridionais do Brasil. v. 1. Belo Horizonte/Niterói: Itatiaia/UFF, 1987
       

  
      
        
     
  

domingo, 19 de agosto de 2018

ELEIÇÃO 2018 E PETRÓLEO


josé paulo 



A economia mundial fóssil encontra-se no comando das economias dos países produtores e consumidores de energia petrolífera. A contradição econômica entre países produtores e países consumidores de energia fóssil vai estabelecer o território objetivo das relações internacionais como lutas e conflitos da primeira metade do século XXI.

As reservas de petróleo são um dado geoestratégico da história universal do mundo contemporâneo. Os países petrolíferos ocupam um lugar privilegiado na política mundial da atualidade.  O Brasil aparece como um dos países com reservas petrolíferas a serem exploradas pelas corporações capitalistas mundiais. O futuro econômico do Brasil parece ser o de uma nação mercantil neocolonial de commodities fóssil.

O que se disputa nas eleições 2008 é a posse do poder político (governo composto pela presidência da República e o Congresso nacional) que irá governar a nação petrolífera e/ou fóssil.

O Brasil não tem partidos políticos, e sim poderosas facções políticas. A eleição petrolífera é o espaço de uma luta (e conflitos velados), onde o controle do poder político significa aprofundamento do “privatismo capitalista” desenfreado e desordenado (privatização sem limite dos recursos naturais, econômicos e humanos).      

A luta das facções políticas que pretendia reservar a renda da extração do petróleo para setores sociais (do Estado social) torna o Estado social um alvo da geopolítica da luta faccional no Brasil. A geopolítica privatista capitalista petrolífera nacionalizada significa uma geopolítica capitalista no lugar da geopolítica do Estado-nação.

A contradição principal geopolítica não é mais a expansão das fronteiras geográficas dos Estado-nações. A contradição principal é aquela entre a apropriação e uso da renda do petróleo pelas facções política, econômica, dos mass media e o uso da renda petrolífera para a construção de uma sociedade nacional, que exige um Estado ampliado com investimento em escola, universidade, cultura, saúde do povo, engenharia de infraestrutura para exploração e consumo de água e esgoto e comunicação via transportes etc.

Convenientemente, as poderosas facções políticas eleitorais não debatem a questão do petróleo relacionando-o à construção da sociedade nacional. Não debatem o problema da desindustrialização nacional. Este tema é muito difícil de ser abordado claramente considerando o nível cultural e consciência do eleitor brasileiro?

A gramática do regime de acumulação capitalista mundial estabeleceu a desindustrialização dos países como Brasil, Argentina, México, EUA, Europa etc. e a revolução industrial do século XXI em países como China e Índia. China e Índia são dois imensos consumidores de petróleo pelo andar da carruagem da economia mundial da atualidade.

Porém, Donald Trump resolveu mudar tal geoeconomia com a tentativa atabalhoada de reindustrialização da América. Obama já pôs os EUA como um dos grandes produtores de petróleo. OS EUA não dependem mais, de um modo absoluto, da OPEP para o seu abastecimento industrial e de consumo da sociedade. De qualquer modo, a política industrial de Trump faz dos EUA um consumidor ávido de petróleo fora do poder da OPEP. Assim, o Brasil entra na narrativa americana como produtor de petróleo geoestratégico para os EUA. Recentemente, a facção americana do setor de defesa veio ao Brasil para estabelecer laços gramaticais com facções política, econômica e dos mass media que controlam o poder brasileiro.

A China já faz uma política de amizade com o Brasil através do capitalismo de commodities brasileiro. Ela precisará do capital brasileiro de commodities petrolífero. Ela tem uma amizade estreita com a Venezuela petrolífera e, por consequência, é um país que sustenta o bolivariano Maduro no equilíbrio global de forças que inclui Rússia, Europa ocidental e EUA.

O Brasil será a Venezuela do amanhã! A China aposta suas cartas no bolivariano brasileiro (que pragmaticamente professa, na realidade oculta aos olhos do público, uma ideologia pró-chinesa). O vice da chapa do PT é do PCdoB que tem um passado de linhagem ideológica pró-China. A eleição brasileira faz parte do equilíbrio global de forças geoestratégico desenvolvendo as contradições entre China e EUA.

Graças à gramática caipira dos nossos mass media, aa gramática das relações de forças internacionais não são nacionalizadas no espaço da cultura brasileira. No entanto, as nossas poderosas facções políticas capitalistas neocolonias possuem um saber geoestratégico sobre a gramática das relações internacionais, que elas ocultam da população. No espaço da cultura, as facções políticas dos mass media fazem o trabalho de manter o povo (classes médias e classes subalternas) na mais negra miséria de saber geoestratégico - que tem como objeto a gramática das relações  internacionais.

O fenômeno brasileiro (e latino americano) supracitado põe e repõe o problema do desenvolvimento desigual no espaço da cultura nas Américas. O capitalismo neocolonial latino existe em um grau de civilização e consciência (relações entre nações culturais) abaixo do Canadá e EUA. Com o monopólio do domínio da cultura nas mãos das poderosas facções culturais dos mass media, o Brasil (Argentina, México etc.) é submetido ao poder da ideologia da classe dominante predatória, com suas facções políticas da direita e da esquerda.

O limite da natureza para o privatismo do capitalismo neocolonial, praticamente, não existe no Brasil. Os ambientalistas lutam para impor limites e são assassinados como moscas no coco do cavalo do bandido. O limite econômico para a acumulação de capital neocolonial se perde no horizonte dos próximos 50 anos. O limite social já está sendo preparado para o deslocamento de sua fronteira com o estabelecimento do Estado neoliberal pelo Congresso neoliberal e neocolonial bárbaro nas eleições 2018!

O Brasil encontra-se sob o domínio de uma plurivocidade de facção (na economia, política, cultura, no direito e mundo-da-vida) que detém autotelicamente o poder brasileiro. O teatro privilegiado para se entender a dominação do Brasil pela plurivocidade de facção é o funcionamento do Senado federal.

Antes de tudo, não se trata de uma instituição, ideologicamente, nacional. Como uma escola de política para o eleitor, o Senado inexiste. Ele persiste no ser da política da sociedade nacional como uma escola para a cooptação dos senadores para a vida das facções políticas.  

O Senado se debruça sobre questões insignificantes, como rotina, do ponto de vista da vida nacional (por exemplo, aprovação de nomes de embaixadores, cônsules e membros da alta burocracia estatal) e questões municipalistas de interesses eleitoreiros dos senadores.

A radiografia da política brasileira não é mais aquela do conflito e conciliação ou transação, somente. Ela é aquela do desaparecimento do partido político no comando da política e a emergência das poderosas facções (da política, da economia, da cultura, do direito, do mundo-da-vida) no comando da vida brasileira em geral.  
   
                 
         

      


sábado, 18 de agosto de 2018

DA ONU NEOCOLONIAL


José Paiulo


O mundo-da-vida é sustentado pela physis econômica ou materialidade econômica do mundo. (Marx. 1977. V. 1: 12-13). A materialidade do mundo tem a sua metaphysis: a mercadoria como Deus mortal no capitalismo neocolonial.

A physis passa por mutações, pois, o princípio de funcionamento da gramatica do campo de poderes econômicos capitalista mundial é: “tudo que é sólido desmancha no ar”. (Marx. 1975. V. 1: 25).
Qual é a estrutura da physis capitalista do século XXI?

Há uma mutação em desenvolvimento gerada a partir da crise da gramática de acumulação financeira de 2008?

A gramática em tela funciona pela senhoriagem do dólar em uma “economia monetária” no comando da “economia real”. Trata-se da hegemonia cum dominação material dos EUA sobre o planeta. Nesta dominação econômica, o princípio econômico da balança comercial (que valoriza as vantagens concorrenciais da “economia real” dos territórios geopolíticos, onde a moeda funciona como meio de circulação de mercadorias e serviços) é subsumida pelo balanço de capitais, onde são expressos os atrativos comparativos das respectivas “praças financeiras, onde a moeda funciona como de pagamento, como crédito. ”. (Altvater: 207). 

O funcionamento da physis econômica dos países, regiões econômicas, continentes econômicos é ligado ao regime de senhoriagem do dólar. Não se pode interpretar a inflação de um país sem articulá-lo ao regime de senhoriagem que tem como pedra angular o aumento da taxa de juros para a estabilização da moeda nacional. As taxas de juros nominais podem ser um fato/artefato (Lacan. 200: 15) de uma política de atores políticos e/ou de atores privados. Elas estão engolfadas pela concorrência intermonetária que implica a gestão das taxas de câmbio, entregues aos atores privados em mercados financeiros globais, aos bancos, às corporações capitalistas mundiais, às agências de rating e ao sujeito suposto saber econômico analistas, que operam em escala internacional.

A hegemonia da gramática em tela é o inferno econômico dos países na periferia do capitalismo mundial. No Brasil, a política se define pelas experiências governamentais de tratar com a hegemonia da senhoriagem evitando um determinismo absoluto desta sobre a economia nacional e a sociedade brasileira. Trata-se de uma luta na qual o país evita o pior da política do “Consenso de Washington” que receita o neoliberalismo com Estado mínimo. Isto significa uma verdadeira contrarrevolução mundial com uma transformação radical na sociedade de classes, que deixa de ser uma sociedade nacional.

A era do bolivariano se autroproclama como guiada por uma ideologia de autonomia nacional  econômica em relação às instituições do capitalismo mundial: FMI, Banco Mundial, governo americano, OMC etc. Lula e o PT  se arvoravam em maîtres do desenvolvimento capitalista, entre nós, que usavam o aumento da taxa de juros como meio de estabilização do valor da moeda nacional, visando evitar uma suposta ameaça iminente inflacionária. O aumento extravagante  das taxas de juro nominais, fixadas pelo  Banco Central, leva a uma situação  orgânica de contração de credito. Assim, a estabilização da moeda na economia monetária se define como princípio de destruição da economia capitalista real. Possuído pela religião capitalista da economia monetária mundial, o Brasil se deixa mover por uma gramática econômica  extemporânea.

A gramática de articulação da hegemonia cum dominação da physis capitalista mundial tem como fundamentos: o domínio da physis pela globalização do capital-dinheiro fictício (Marx. 1985. Livro 3. V. 5: 540-541), e a corporatocracia da globalização das empresas transnacionais. Um elemento desta gramática é que os EUA não seguem o “Consenso de  Washington”, apesar dos  déficits estruturais no balanço de transações correntes e no orçamento público. Ele não se encontra submetido ao poder coativo da realidade econômica do capitalismo  mundial. Assim, os EUA não se veem obrigados a efetuar adequações estruturais como as impostas pelo FMI aos países endividados do capitalismo neocolonial do terceiro-mundo> Pois, os EUA estão  endividados em sua própria moeda. Um outro fundamento da dominação do capitalismo mundial é o endividamento (uma dívida impagável) dos países, principalmente do capitalismo neocolonial do terceiro-mundo.

O endividamento significa um poder monetário real da gramática do capitalismo mundial sobre os países endividados. Com dívidas impagáveis, os países do terceiro-mundo têm sua política tour court transformada em uma realidade fantasmagórica na qual não existe autonomia relativa em relação ao poder coativo da gramática do capitalismo mundial.  A política se torna um efeito (determinismo econômico) do funcionamento da economia monetária capitalista mundial.  A política nacional torna-se uma ficção; torna-se uma estrutura de ficção da verdade (Lacan. 2008: 186) do capitalismo neocolonial do terceiro-mundo.

A gramática dos mass media sustenta o discurso da necessária dominação do capitalismo mundial sobre o Brasil e a América Latina. E sustenta o direito dos EUA como país privilegiado na physis econômica monetária. O imaginário dos EUA como “potência mundial única’ se deve a sua posição de um país dotado de privilégios extraordinários no concerto das nações; ele desfruta de ambas as vantagens, a de credor e a do devedor, e evita todas as desvantagens; assim, graças a senhoriagem da moeda americana, a América convive confortavelmente com déficits no orçamento público e no balanço de transações correntes; o imperialismo econômico americano é um efeito da sua hegemonia monetária no real da economia capitalista mundial.

Então:
“O discurso que se sustenta é aquele que pode manter-se por muito tempo sem que vocês tenham razão para lhe pedir que explique sua verdade”. Lacan. 2008: 42). 
                                                                          II

No entanto, há uma mutação qualitativa na gramática da vida americana. Antes da mutação, ela  causava inveja aos olhos dos  europeus, pois:
“Na condição de devedores, os EUA tiram proveito das desvantagens da senhoriagem, pois podem, à diferença de outros países endividados, conviver bem com déficits no orçamento público e no balanço das transações correntes. Os cidadãos norte-americanos podem permitir-se o elevado padrão de consumo – vale dizer, o American way of life -, embora estejam altamente endividados nos planos exterior e interno. Além disso, as dívidas dos EUA são em grande parte públicas, sendo o fiador a nação mais poderosa do planeta tanto em termos políticos quanto militares. Contudo, o pressuposto disso é, em primeiro lugar, uma quota de poupança elevada em outras regiões do mundo, que permite aos EUA e seus cidadãos ultrapassarem os limites. Em segundo lugar, os mercados financeiros devem funcionar de modo que a poupança mundial seja canalizada para os EUA. Um mecanismo é o déficits norte-americano na balança comercial e no balanço das transações correntes; outro, os estímulos à exportação de capitais aos EUA. Estes consistem em rendimentos e juros atraentes e na garantia oferecida pela potência política e militar superior”. (Altvater: 212).

O declínio do American way of life no século XXI primeiro levou ao poder americano um marginal na estrutura dominante do partido democrata. Barak Obama é eleito presidente contra a burguesia democrata. Em seguida, o declínio supracitado levou ao poder americano um marginal na estrutura dominante do partido republicano, pois Donald Trump é um capitalista que não sai das fileiras da burguesia republicana.

No poder americano, Donald Trump se guia por uma ideologia econômica de reterritorialização do regime industrial tout court, usando a guerra de manobra comercial e. assim, corroendo a gramática do globalismo neoliberal. A política econômica de Trump parece um raio caído de um céu azul. E, contudo, ela se volta para a desmontagem do Estado social do partido democrata de Obama. O princípio da precariedade para a saúde das massas não parece ser um problema  de consciência  para o republicanismo Trump. O primeiro governo Trump é um ensaio sério de  invasão da vida americana do Amercan way of life pelo capitalismo neocolonial americano.

No domínio das relações internacionais, a invasão da China pela gramática do capitalismo neocolonial asiático entra em um antagonismo transdialético com a gramática  do  capitalismo neocolonial americano no comando  da economia mundial. Hoje, vivemos em uma nova época, a saber: aquela do comando da economia mundial pelo capitalismo neocolonial.

Desfazer a gramática do globalismo neoliberal tira o tapete do poder chinês, pois, graças a esta gramática o poder chinês se definiu como uma engenharia geoeconômica de conquista geopolítica do terceiro-mundo e também do segundo-mundo e primeiro-mundo dos países desenvolvidos.

A geoeconomia chinesa é o ersatz da gramática geopolítica asiática para o mundo (que tem como fundamento a sintetização maoísta de socialismo e capitalismo), que o gramático Trump põe por terra. O desaparecimento da geoeconomia da globalização neoliberal associado à guerra comercial mundial americana inclina o império asiático em direção à encenação do confronto militar com os EUA, em uma era na qual a lógica do simulacro de simulação perdeu força de realidade.      

A época que nos assombra agora já aparece na consciência dos intelectuais do capitalismo  neocolonial americano. Uns poucos falam que o capitalismo da era Trump contém o germe da autodestruição do capitalismo mundial. É como se agora a ideia leninista da etapa superior (e última etapa) do modo de produção e circulação capitalista, finalmente, se anunciasse, como uma fantasia lacaniana, no horizonte.  
                                                                                  III

Em algum momento da globalização neoliberal, a gramática do capitalismo neocolonial veio a luz fazendo pendant com o regime de acumulação do capital financeiro mundial. O capitalismo neocolonial expande as fronteiras para a reprodução do capitalismo mundial com a simultaneidade de globalismo e neonacionalismo economicista dos EUA.

As fronteiras são deslocadas para a acumulação se realizar como privatização de bem púbicos, como a privatização das reservas em divisas em dólares dos países do capitalismo neocolonial emergente, que chegou a 3 trilhões e 400 bilhões de dólares em 2004. As reservas são uma  tática do capitalismo neocolonial para se armar  contra as crises financeiras, embora, as reservas em divisas constituem um bem público nas mãos dos bancos centrais como um território monetário à espera  de sua privatização pelo regime de acumulação financeira mundial neocolonial.

As reservas acumuladas aparecem como uma estratégia de sentido econômico-técnico de evitar o colapso financeiro dos países emergentes. A expectativa é estar preparados contra ataques especulativos à sua moeda e poder defender a sua taxa de câmbio.

Depois as reservas passam a fazer parte da gramática de acumulação do capital do capitalismo neocolonial. AS reservas têm um sentido político no regime de acumulação do capitalismo neocolonial. Elas são reservas para a acumulação ampliada do capitalismo neocolonial. Assim, reservada, elas não podem ser usadas para investimento industrial, ou gastos sociais, ou investimentos públicos em infraestrutura, ou na melhoria das condições de vida da população, ou para elevar para patamares mais elevados o consumo.

Uma outra fronteira a ser deslocada é o da destruição do Estado social no capitalismo neocolonial americano, no capitalismo neocolonial europeu e no terceiro-mundo de países como o Brasil. A certeza de que a gramática do capitalismo neocolonial não sofrerá ataques destrutivos pelas massas subalternas é a condição para realizar a acumulação de capital usando a aparência de semblância de democracia em países regidos por regimes de bonapartismo soft.

O capitalismo neocolonial torna intenso os antagonismo (e desenvolve as contradições) que giram em volta da apropriação da riqueza nacional pelas facções da elite política e econômica, locais. Lutando entre si dramaticamente, as facções precisam conviver em um bloco-no-poder (Poulantzas: 125-131) para governar as massas, e a si próprias. No entanto, as facções têm que governar para o regime de acumulação neocolonial e sua ideologia neoliberal. Isto implica em  transformar a esfera pública em um território econômico de acumulação  de capital visando a estabilidade da economia. Isto inclui a privatização da Floresta Amazônica pelo capitalismo neocolonial de commodities.  No  horizonte, encontra-se a destruição do Estado ampliado e sua substituição por um Estado mínimo autocrático neocolonial que seria o ersatz de um Estado totalitário:
“L’Etat totalitaire n’est pas un maximum d’Etat, mais bien plutôt, suivant la formule de Virilio, l’Etat minimum de l’anarcho-capitalisme”. (Deleuze: 578).  

Farei uma citação longa de Alvater de 2005 sobre a gramática neocolonial de estatização do campo de poderes, ressaltando-se, descritivamente, o criminostat (Virilio: 55) e seu capitalismo criminoso (Platt:20):
“A expressão do crime organizado mostra o quanto o capitalismo de arbitragem e especulativo, também denominado ‘capitalismo desastroso’ (Fidler 2005), desandou. No nexo de desregulamentação, liberalização, e privatização, por um lado, e minimização do Estado, por outro, os mercados privados passaram a ocupar o proscênio dos acontecimentos, em detrimento das instituições públicas e das organizações da sociedade civil. Apagam-se as fronteiras entre a busca legal do lucro, as transgressões ilegais do marco legal e a exploração criminosa dos novos espaços de atuação. Eron, Wordcom, Parmalat, o contrabando de drogas, pessoas e armas, a corrupção em grande escala, a chantagem política etc. já não são mais fenômenos marginais. Aproximadamente 15% do comércio mundial ou cerca de 5% do PPIB mundial são gerados de forma ilegal e criminosa. Destroem-se assim os recursos morais internos do sistema capitalista – em consequência da abertura neoliberal dos mercados, da desregulamentação e expulsão do Estado dos processos no âmbito da economia. Os atores econômicos orientam-se segundo os sinais emitidos pelo mercado. Quando rendimentos de dois dígitos emitem o sinal e, por conseguinte, são a medida, isso sugere apenas que é recomendável atender, mesmo que com métodos criminosos, ao sedutor canto das sereias,  que promovem  rendimentos elevados.
As tendências de crise dos mercados financeiros globais e o lado negro do crime organizado, da lavagem de dinheiro, da corrupção e das fraudes devem  ser interpretados como indícios do  acirramento  das  contradições internas do  capitalismo moderno. Em virtude da desigualdade extrema num mundo cindido em credores e devedores, elas já comprometeram e minaram os recursos morais (Pogge 2005) necessários para um mínimo de coerência num mundo  globalizado. Uma das suas consequências é também uma  frenagem na dinâmica do sistema capitalista. Se ela for acompanhada do golpe externo da desestabilização, conforme enfatiza Fernand Braudel, é bem possível que o capitalismo, tal como o conhecemos, esbarre nas suas fronteiras”. (Altvater: 218).  

A gramática da estatização neocolonial do campo de poderes mundial põe e repõe, lado a lado,  e simultaneamente, poderes privado e público, legal e ilegal, judicial e criminoso, civil e militar, secular  e religioso, Estado constitucional e criminostat, sociedade gramatical e comunidade tribal (Maffesoli: 219) regida pela sgrammaticatura do  sentimento, e campo de animus  como efeito do regime de acumulação ampliada do capitalismo neocolonial, simultaneamente, mundial e nacional. 
Um exemplo clamoroso da falta de moral do capitalismo neocolonial é a invasão  da ONU no processo eleitora presidencial brasileiro.  O Comitê de Direitos Humanos da ONU exige, moralmente, que o judiciário brasileiro reestabeleça os direitos políticos de um criminoso comum: Lula. O Comitê supracitado já é um órgão moral do capitalismo neocolonial. O uso cínico da moral mundial (Sloterdijk: 124) aparece com todo a sua potência no cenário político das instituições multilaterais do capitalismo neocolonial em sua relação com as nações como enclaves.

A ONU não sabe que sabe que liberar Lula para concorrer à presidência da República  significa uma alteração radical no equilíbrio geral de forças com um efeito catastrófico na  vida brasileira:
“Tudo esteve aí inúmeras vezes, na medida em que a situação global de todas as forças sempre retorna. Se algum vez, sem levar isso em conta, algo esteve aí, é inteiramente indemonstrável. Parece que a situação global forma as propriedades de modo novo, até nas mínimas coisas, de modo que duas situações globais diferentes não podem ter nada de igual”. (Nietzsche: 439)    

A ONU não sabe que sabe que, assim, trabalha para o avanço estratégico do criminostat no Brasil e na América Latina? Este mínimo detalhe da situação global de força 2018 é a prova que estamos vivendo uma situação global neocolonial de forças.

Uma mínima coisa é a candidatura de Bolsonaro. Ela parece remeter para a situação global de força  1964, se Bolsonaro é a representação política  das Forças  Armadas brasileiras. Com efeito, ele representa as massas que desejam a repetição de um Estado militar 1964. No entanto, as forças armadas não se incluem em uma gramática de Estado militar da terceira década do século XXI. Assim, Bolsonaro é a condensação de um fenômeno da nova situação global de forças: bonapartismo de chumbo cum Okhrana!  

A destruição da democracia 1988 vai no sentido da autocracia do capitalismo neocolonial do terceiro-mundo. Esta espécie de regime político é a forma extrema da política como instrumento de acumulação capitalista mundial da gramática da estatização do campo neocolonial de poderes. A gramática em tela significa a quebra (spaltung) do mundo (physis e mataphysis) tal como o conhecemos!

ALTVATER, Elmar. O fim do  capitalismo como o conhecemos. RJ: Civilização Brasileira, 2010
DELEUZE & GUATTARI. Capitalisme et schizophrénie. v. 2. Mille Plateaux. Paris: Minuit, 1980
LACAN, Jaques. O Seminário. De um Outro ao outro. Livro 16. RJ: Zahar, 2008
LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 18. RJ: Zahar, 2009
MARX. Obras Escogidas de Marx y Engels. Tomo 1. Madrid:  Fundamentos, 1975
MARX.  Le capital. Livre premier. Paris: Éditions Sociales, 1977
MARX. O capital. Livro 3. V. 5. SP: Difel, 1985
MAFFESOLI, Michel. A transfiguração do político. A tribalização do mundo. Porto Alegre: Sulina, 1997
NIETZSCHE. Os Pensadores. SP: nova Cultural, 1999
PLATT, Stephen. Capitalismo criminoso. SP: Cultrix, 2017
POULANTZAS, Nicos. Pouvoir politique et classes sociales. v. 2. Paris: Maspero, 1975
SLOTERDIJK, Peter. Crítica de a razón cínica. v. 1. Madrid: Taurus,1983
VIRILIO, Paul. Vitesse et politique. Paris: Galilée, 1977    
                                       

   




quarta-feira, 15 de agosto de 2018

BONAPARTISMO DE CHUMBO → AUTOCRACIA NEOCOLONIAL


José Paulo



O Brasil deixou de fazer parte das redes marxistas europeias de investigação do desenvolvimento capitalista mundial. A nacionalização de tais redes exige um trabalho de publicação de livros em inglês, mericano e alemão. Há um declínio visível no setor editorial capitalista (de ideologia capitalista ilustrada, ou bolivariana, ou editora universitária pública) capaz de traduzir e publicar o debate sobre crescimento, capitalismo da sociedade fóssil, natureza e adaptação do capitalismo à época atual. Também a crise do marxismo na América Latina (não há publicação em espanhol dos materiais marxistas europeu ou americano) é uma causa do fenômeno supracitado. 

As altas temperaturas do verão londrino fazem os mass media falarem de uma situação anormal  no clima da Terra como uma fatalidade. Por quê?

Em Marx, os spaltungen são cisões, cortes que traduzem: “ora a incapacidade de compreender a estrutura do real e as relações internas que o organizam, ora a incapacidade de ocultá-los graças a sistemas de mistificação”. (Labica: 69). O trabalho executado de resolução da quebra (spaltung) do mundo (Labica: 113) leva aos spaltungen. O capitalismo moderno do século XIX é uma quebra do mundo que a economia política clássica não dá conta. Ao contrário, Marx fala do surgimento da sociedade capitalista industrial colonialista no comando da economia, política, cultura, vida.

A quebra (spaltung) do mundo da sociedade capitalista é descrita pelo formidável marxista alemão Elmer Altvater, que faleceu na primeira metade do ano 2018:
“Na longa história do sistema mundial capitalista nunca existiu uma fase tão dinâmica como aquela entre o fim da Segunda Guerra Mundial e meados da década de 1970. Mas a ‘Era de Ouro” chegou a um fim abrupto com a crise do petróleo, o desemprego em massa e o surgimento de um setor informal, com discursos sobre a ‘ingovernabilidade’ e a ‘crise da democracia’ e, sobretudo, com o colapso do sistema monetário mundial de Bretton Woods. O  intervencionismo do Estado nacional de matriz keynesiana, determinante ao menos nos países industrializados durante o período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial,  foi destruído a partir do início da década de 1970 pela  ‘contrarrevolução neoliberal’, proclamada já em 1962 por Milton Friedman”. O conceito de ‘destruição’ (para não usar o conceito benjaminiano de ‘destroçamento’ – ver no  capítulo I) não é nenhum exagero, e, apesar disso, essa destruição praticamente não foi percebida como  tal pelos contemporâneos. Ao contrário: foram empreendidas tentativas insuficientes de reviver o keynesianismo, embora o fundamento de seus negócios já tivesse se perdido. Refiro-me à soberania do Estado-nação na política econômica, ao compromisso corporativista de classes entre o trabalho assalariado e o capital,  e ao primado do lucro na economia real  diante dos rendimentos monetários”. (Altvater: 175).

A destruição de Altvatter significa spaltung do mundo capitalista gramaticalizado por Marx.
Afinal, o que foi destruído?

O capitalismo se desvinculou de qualquer moral. Ele se tornou um ser social de Maquiavel como fenômeno econômico. Em Maquiavel, a política com autonomia absoluta em relação à moral define o condottiere, o Príncipe da política pós-feudal. Trata-se também de uma quebra (spaltung) do mundo político como era vivido na cultura:
“Le discours de Machiavel procède à une lente et méthodique destruction de l’enseignement politique traditionel”. (Lefort: 399).  

Maquiavel diz:
“Ainda que não se possa considerar ação meritória a matança de seus concidadãos, trair os amigos, não ter fé, não ter piedade nem religião, com isso pode-se conquistar o mando, mas não a glória”. (Maquiavel: 42).

O Príncipe cultiva as aparências da semblância, pois sem elas, é destruído:
“Os meios que empregar serão sempre julgados honrosos e louvados por todos, porque o vulgo é levado pelas aparências e pelos resultados dos fatos consumados, e o mundo é constituído pelo vulgo, e não haverá lugar para a minoria se a maioria não tem onde se apoiar. Um príncipe de nossos tempos, cujo nome não convém declarar, prega incessantemente a paz e a fé, sendo, no entanto, inimigo acérrimo de uma e de outra. E qualquer delas, se ele efetivamente a observasse, ter-lhe-ia arrebatado, mais de uma vez, a reputação ou o Estado”. (Maquiavel: 81).

                                                                                 II

O capitalismo neocolonial é um Príncipe econômico? Ele é um ser desvinculado da moral, embora tenha a aparência de semblância de uma religião.  (Altvater: 178). O capitalismo neocolonial é o novo evangelho das massas, uma espécie de religião secular da mercadoria como Deus. Tal capitalismo é o ersatz do Estado como Deus mortal (Hobbes: 110) da modernidade heteróclita e compósita do século XXI. E ele precisa da gramática dos mass media para a tecelagem das aparências de semblância onde a mercadoria é o Deus mortal e o evangelho das massas no século XXI.

A gramática dos mass media trabalha com o princípio doa narcisismo das pequenas diferenças (Freud. v. XXI: 136), e se não trabalhar assim, perde a reputação ou seu lugar como um centro de poder cultural na gramática de estatização dos poderes. Mesmo um autor brasileiro obscuro pode ver que os mass media são uma máquina de narciso sedutora (Sodré: 14-17) do mundo como aparências de semblância e resultado dos fatos consumados.
  
O capitalismo neocolonial é a mercadoria como Deus mortal: a percepção de que o mundo é uma mercadoria planetária. Em Weber, o espírito do capitalismo como fenômeno religioso faz pendant com a ética protestante. Sobre o espírito:
“Se puder ser encontrado algum objeto ao qual este termo possa ser aplicado com algum significado compreensível, ele apenas poderá ser uma individualidade histórica, isto é, um complexo de elementos associados na realidade histórica, que unimos em um todo conceptual do ponto de vista de um significado cultural”. (Weber.  1981: 28).

Lendo Weber por Marx, espírito é uma categoria metafísica com sinônimos como espectro, fantasma. (Marx. 1974: 371). Weber fala do capitalismo como um todo conceitual como significado cultural metafísico.  Com Marx, o capitalismo é um fenômeno da física:
“Le physicien, pour se rendre compte des procédés de la nature, ou bien étudie les phénomènes lorsqu’ils se présentent sous la forme la plus accusée, et la moins abscurcie par de influences pertubatrices, ou bien il expérimente dans des conditions qui assurent autant que possible la régularité de leur marche. J’étudie dans cet ouvrage le mode de production capitaliste et les rapports de production et d’échange qui lui correspondente”. (Marx. 1977: 12).  

No século XXI, ele é um fenômeno econômico da física (o capitalismo neocolonial como determinismo sobre os agentes econômicos) e metafísico: religião da mercadoria
Como ser heteróclito e compósito, o capitalismo coloniza a subjetividade como efeito de LALANGUE:
“La mathématisation seule atteint à un réel – et c’est en quoi elle est compatible avec notre discuors, le discours  analytique – un réel qui n’a rien à faire avec ce que la  connaissance traditionnelle a supporté, et qui n’est pas ce qu’elle croit, réalité, mais bien fantasme.
Le réel, dirai-je, c’est le mystère du corps parlant, c’est le mystère de l’inconscient”. (Lacan. 1975: 118).


Assim, ele é o capitalismo neocolonial, pois coloniza topologicamente a última fronteira do humano: o inconsciente. Ele matematiza o inconsciente dando prosseguimento à matematização galileniana da natureza:
“Mais dans la mathématisation galiléenne de la nature désormais c’est la nature même qui, sous la direction de la nouvelle mathématique, se trouve idéalisée: elle devient elle-même, pour employer une expression moderne, une multiplicité mathématique”. (Husserl: 27).     

A matematização do inconsciente é o lucro e a racionalidade europeia instrumental do cálculo contábil no comando da economia, política, cultura e vida. Trata-se de um fenômeno para além  do bem e do mal. Ele tem como princípio de funcionamento de sua gramática a transdialética nietzschiana:
“ ˂Comment une chose pourrait-elle procéder de son contraire, par exemple la vérité de l’erreur? Ou la volonté du vrai de la volonté de tromper? Ou le désintéressement de l’égoisme? Ou la pure et radieuse contemplation du sage de la  convoitise? Une telle genèse est impossible; qui fait ce rêve un insensé, ou pis encore; les choses de plus haute valeur ne peuvent q’avoir une autre origine, un fondement propre. Elles ne sauraient dériver de ce monde éphémère, trompeur, illusoire et vil, de ce tourbillion de vanités et d’appétits. C’est bien plutôt au sein de l’être, dans l’impérissable, dans le secret de Dieu, dans ˂la chose en si> que doit résider leur fondement, et nulle part ailleurs>. Ce genre de jugement constitue le préjugé typique auquel on reconnaît les métaphysiciens de tout les temps. (Nietzsche.1971: 22).   

A metafísica do capitalismo adquiriu uma outra forma nos países desenvolvidos como, por exemplo, na administração da grande empresa europeia ocidental: um novo espírito para a segunda metade do século XX. Uma metafísica (com ideologias materiais) capitalista foi estabelecida por Boltanski e Chiapello:
“Ela também pretende, através desse exemplo histórico, propor um quadro teórico mais geral para compreender o modo como se modificam as ideologias associadas às atividades econômicas, contanto que se dê ao termo ideologia não o sentido redutor – que tantas vezes lhe foi dado pela vulgarização marxista – de  discurso moralizador voltado a velar interesses materiais e incessantemente desmentido pelas práticas, mas sim o  sentido – desenvolvido, por exemplo, na obra de Louis Dumont – de conjunto de crenças compartilhadas, inscritas em instituições, implicadas em ações e, portanto, ancoradas na realidade”. (Boltanski: 33).

O novo espírito do capitalismo pode ser compreendido como uma nova gramática transdialética capitalista com suas ideologias, com lugar para o espectro, para a fantasia de Marx a Lacan (Lacan. 1975:75):
“Todos os  dispositivos associados ao novo  espírito do capitalismo  - quer se trate da terceirização,  quer da proliferação nas empresas de centros autônomos de lucros, de círculos de controle de qualidade ou das novas formas de organização do trabalho – de fato vieram, em certo sentido, atender às demandas de autonomia e responsabilidade que se fizeram ouvir no início da década de 70 em tom reivindicativo: os  executivos desligados de  suas linhas hierárquicas para assumirem ‘centros autônomos de lucro’ ou para realizar ‘projetos’ e os operários subtraídos às formas mais divisionárias de organização do trabalho em linha  de montagem, realmente perceberam que  seu nível de responsabilidade aumentou, ao mesmo tempo que era reconhecida sua capacidade para agir de maneira autônoma e para demonstrar criatividade. (Boltanski: 430).    

A nova gramática do capitalismo do primeiro-mundo é uma forma de resistência à invasão dos centros desenvolvidos pelo domínio da gramática do capitalismo neocolonial, e um modo de transformar as ideologias administrativas em fator de aumento da produtividade. É também um meio de evitar a luta de classe na empresa e na sociedade civil.  No capitalismo neocolonial, a velha burocracia weberiana é a forma de administração dominante com sua rígida hierarquia e triste coação real do trabalho pelo capital.       

                                                                                   III

Qual o lugar do empresário no capitalismo neocolonial?

A gramática do capitalismo da modernidade tem a empresa capitalista como motor do desenvolvimento e/ou do crescimento:

O impulso fundamental que inicia e mantém o movimento da máquina capitalista decorre dos novos bens de consumo, dos novos métodos de produção ou transporte, dos novos mercados, das novas formas de organização industrial que a empresa capitalista cria”. (Schumpeter: 112).

Uma nova gramática no comando do capitalismo transforma a economia mundial na década de 1930:
“La interpenetración entre el Estado y los monopolios nacionales en la década de 1930 condujo al capitalismo monopolista de Estado y a la eliminación de la frontera, en el terreno económico, entre el capital público y el capital privado; la tecnocracia estatal se funde, a la vez, con la tecnocracia empresarial y con la oligarquía financeira. Surge, pues, una nova clase dominante produto de esa fusión y que será hegemónica hasta el final de la Segunda Guerra Mundial”. (Fioravante: 126).

Na gramática em tela, a lógica da destruição criativa é o aspecto comum entre as gramáticas capitalistas do século XIX e XX:
“A abertura de novos mercados – estrangeiros ou domésticos – e o desenvolvimento organizacional, da oficina artesanal aos conglomerados como a U.S. Steel, ilustram o mesmo processo de mutação industrial – se me permitem o uso do termo biológico – que incessantemente revoluciona a estrutura econômica a partir de dentro, incessantemente destruindo a velha, incessantemente criando uma nova. Esse processo de Destruição Criativa é o fato essencial acerca do capitalismo. É nisso que consiste o capitalismo e é aí que têm de viver todas as empresas capitalistas”. (Schumpeter: 112-113).
Talvez a alteração da lógica da destruição criativa seja o mistério que assombra o capitalismo neocolonial. Há uma captura da lógica da destruição criativa por um pequeno grupo de países desenvolvidos do primeiro-mundo?

Os economistas burgueses chamam de 4° revolução industrial a mutação na produtividade capitalista via destruição criativa. O aumento da produtividade exige que um número crescente de trabalhadores seja substituído e liberado pelo capital. A sociedade digital faz pendant com a 4°revolução industrial, pois ela permite a liberalização dos trabalhadores do processo de trabalho; ela é parte da destruição criativa do século XXI. No entanto, para evitar a invasão dos centros capitalistas desenvolvidos pelo ser social da sociedade neocolonial, se faz necessário um novo processo da ciência e da técnica capitalista pós-digital que afete a produtividade capitalista.

Uma nova gramática econômica é anunciada no processo de destruição criativa, deixando para trás a velha gramática da revolução industrial tout court:
“De onde vem a mania do crescimento? A resposta é: do cerne das sociedades capitalistas e do uso engenhoso das fontes fósseis de energia. Antes da Revolução Industrial, o crescimento do produto social assentava em primeiro lugar no aumento da população, que, por sua vez, dependia do aumento de bens  e serviços para assegurar a subsistência e a reprodução das pessoas, sobretudo mediante estratégias de apropriação por meio  de desapropriação,  conforme foi mostrado antes (capítulo III). Contudo, desde a Revolução industrial crescimento não depende mais sobretudo do aporte de mão-de-obra e de fertilidade dos solos, mas sim do aumento da produtividade do trabalho industrial. Esse aumento é uma consequência do aproveitamento sistemático da ciência e da técnica para o desenvolvimento das forças produtivas (ferramentas, máquinas etc.) da organização social da produção capitalista da mais-valia e – por fim, mas não em último lugar – de uso maciço de fontes de energia fósseis de  energia para o acionamento das ferramentas e máquinas da era industrial. (Altvater: 158).

A gramática do capitalismo neocolonial é o anverso de uma globalização como destruição criativa:
“O conjunto formado pela desregulamentação, pela liberalização e pela privatização é o reverso da globalização, da qual também se fala desde meados da década de 1970. O mercado ‘desarraiga-se’ da sociedade. Isso significa apenas que o cálculo do capital antes mencionado (Max Weber) – ou o princípio do lucro – determina a ação dos agentes econômicos, não a moral baseada em princípios fundamentais de natureza ética, solidariedade na sociedade global ou o comportamento agradável aos olhos de um ‘ser superior’” (Altvater: 177).           


No capitalismo neocolonial, a grandes empresas mundiais se constituem em centros de poder privados de uma gramática de estatização às avessas do campo de poderes econômicos mundiais:
En definitiva, pensamos que antes de que acabe el  siglo, si no media un proceso revolucionario que conduzca al final de la oposición entre el capital y el trabajo,  existirá un capitalismo internacional universal donde los Estados nacionales guradarán una función honorífica y el mundo aparecerá dividido por las grandes empresas, no em naciones ni em zonas de influencia, sino en ramas de producción distintas, que interpenetrarán unos países con otros en función de la nueva estructura económica que surja de la actual competencia internacional entre las grandes empresas mundiales”.  (Fioravanti: 422).        

No capitalismo neocolonial, o Estado realiza a profecia sociológica de Giddens e se redefini:
“Todas as organizações têm perfis políticos, mas apenas no caso de Estados é que envolve a consolidação de um poder militar em associação ao controle dos meios de violência dentro de uma extensão territorial. Um Estado pode ser definido como uma organização política cujo domínio é territorialmente organizado e capaz de acionar os meios de violência para sustentar esse domínio. Tal definição é próxima daquela de Weber, mas não destaca uma reivindicação ao monopólio dos meios de violência ou o fator de legitimidade”. (Giddens.2001: 45).

Na gramática do capitalismo neocolonial, o Estado constitucional não é o espaço-tempo da política como monopólio da violência real ou como produção de legitimidade. A legitimidade não se constitui como vínculo necessário entre governante e governado; a representação  política torna-se uma produção arbitrária do laço entre representante e representado, uma relação saussuriana entre significante e  significado (Saussure: 81-83). Por um lado, temos aí o princípio de funcionamento saussuriano da gramática da estatização do campo de poderes.  Por outro lado, sgrammaticatura (falta de gramática) torna-se, também, um fator de vínculo entre representante e representado; a soberania popular é afetada pela quebra (spaltung) do mundo da política democrática da modernidade.

O capitalismo neocolonial não trabalha com o princípio da destruição criativa, e, assim, os países que ele domina deixam de ser centros do poder industrial da economia mundial, levando à corrosão e corrupção do Estado-nação.  

                                                                                    IV

A dúvida sobre o marxismo brasileiro gramatical se dilui assim:
“18. ˂Eu sei> significa frequentemente: tenho razões fundamentais para a minha afirmação. Assim, se o outro conhecer o jogo de linguagem, admitirá que eu sei. O outro, se conhecer o jogo de linguagem, tem de ser capaz de imaginar como é que alguém pode saber esse tipo de coisa”. (Wittgenstein: 19).

A quebra (spaltung) do mundo capitalista é parte da história do século XX. Trata-se da quebra da gramática apogeu capitalismo, estabelecida por Werner Sombart. A Spaltung da gramática capitalista tem um fato histórico como causa. Trata-se da luta na URSS por uma industrialização rápida e pela prioridade dada à indústria pesada. O Plano Quinquenal significa que o socialismo passa a operar com um fenômeno da gramática apogeu do capitalismo:  ACELERAÇÃO. (Sombart: 49; Betelheim. Deuxième période, 1923-1930: 441).

Em 1929, há o que muitos  consideram como  a formação  de uma classe burguesa na URSS:
“Il ajoute que, désormais, ˂toutes les rênes de l’administration de la vie économique de l’usine doivent être concentrées entre les mains du directeur de l’usine>. (Bethelheim. Troisième période, 1930-1941. Les dominants: 186).

Há uma homologia entre o diretor soviético da empresa e o diretor de sociedades anônimas, pois, ambos estão livres de toda preocupação pela própria fortuna. (Sombart: 45).  O especialista no funcionamento da empresa capitalista forma uma camada burguesa da gramática apogeu do capitalismo, também, na URSS; ele está desvinculado da propriedade do capital. (Sombart: 31).

 Aceleração da vida econômica e empresa capitalista na URSS constituem o fator externo que levará a quebra da gramática apogeu. Trata-se de uma sintetização socialismo e capitalismo. (Zizek: 219).

Trata-se:
“de la conjunción de todos los hechos económicos que se realizan simultánea o sucesivamente en una economía hacia una unidade abstracta, la cual aparece después como el portador de los actos económicos aislados  y lleva una vida propria que sobrepasa en duración a la vida de los indivíduos”. (Sombart: 50).

Qual é a gramática apogeu capitalista que sofre a spaltung?

Trata-se da cultura capitalista no comando da vida econômica. De que se trata?

Falamos de uma junção do desejo frenético de lucro ou ganancia (obter um  excedente acima  do gasto), sede de poder econômico e afán  pela ação capitalista. Na cultura capitalista, o tempo supera o espaço: time is Money. A racionalidade econômica instrumental é um fato europeu ocidental, que mede o tempo econômico com precisão de um relógio suíço.

Falar de um espírito capitalista secularizado como ersatz da religião (Sombart: 43) explica muito a sedução metafísica capitalista, inclusive sedução da URSS stalinista:
“3. Este espíritu capitalista que ha llegado interiormente ala pureza total, esta rara mezcla de pasional impulso ilimitado y fria reflexión racional, se extiende (exteriormente) cada vez con mayor amplitude. Y esta realización intensiva y extensiva del espíritu capitalista es precisamente el signo capitalista que distingue la época de apogeo del capitalismo de la del nacimiento. La generalizaciòn extensiva debe entenderse en múltiples sentidos: primeramente alcanza a todos los empresarios; después se contagian de ella los empleados, y finalmente círculos cada vez más amplios de los trabajadores. Por último, la extensión se realiza en sentido geográfico; toda la tierra – hasta el interior de Africa, India y China,  queda sometida al demonio del espíritu capitalista". (Sombart: 41). 

O capitalismo neocolonial transforma a secularização do espírito capitalista (realização da fantasia lacaniana capitalista) em uma religião da mercadoria, como já foi dito. O sujeito econômico aparece agora como efeito do Deus mortal mercadoria.

Tal efeito altera o significado do homem como sujeito econômico:
“Sin embargo, sería un imperdonable error admitir que en este mundo mecanizado la significación de la personalidad humana queda dismunuída. Exactamente ocurre lo contrario; la significaión del hombre, naturalmente del prominente, es hoy mayor que nunca en la vida económica”. (Sombart: 54).

O homem desaparece como parte da secularização da metafísica do capitalismo. Ele cede seu lugar para a coisa:
“Há uma relação física entre coisas físicas. Mas, a forma mercadoria e a relação de valor entre os produtos do trabalho, a qual caracteriza essa forma, nada têm a ver com a natureza física desses produtos nem com as relações materiais dela decorrentes. Uma relação social definida, estabelecida entre os homens, assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas”. (Marx. 1996: 81).
                                                                                           V           
 

O capitalismo neocolonial tem um funcionamento fático; ele possui uma autonomia quase absoluta em relação à esfera do direito. Desregulamentação da economia da globalização financeira neoliberal. Nova burguesia financeira neocolonial faz pendant com os novos ricos (Alvater: 176) e se distingue da oligarquia financeira de Lenin, pois, seu laço gramatical com o  capital industrial é de uma outra espécie:
“Une part toujours croissante du capital industrial, écrit Hilferding, n’appartient pas aux industriels qui l’utilizent. Ces deniers n’en obtiennent la disposition que par le canal de la banque, qui est pour eux le représentant des propriétaires de ce capital. D’autre part, force est à la banque d’investir une part de plus en plus grande de ses capitaux dans la industrie. Elle devient ainsi, de plus en plus, un capitaliste industriel. Ce capital bancaire – c’est-à-dire ce capital-argent – qui se transforme ainsi en capital industriel, je l’appelle ˂capital financier>. ˂Le capital financier est donc un capital dont disposent les banques et qu’utilisent les industriels>”. (Lenine:245).    

A burguesia financeira neocolonial é um fenômeno econômico criminoso (Platt: 20) e de pilhagem de nações inteiras (Altvater:  177).
Na gramática apogeu, o legislador capitalista opera fazendo um mínimo de leis que criem obstáculo ao desenvolvimento do capitalismo. (Sombart: 46). No capitalismo neocolonial, a atividade criminosa se desenvolve como parte da acumulação primitiva do capital, e a legislação burguesa não consegue criar leis que tipifiquem os crimes da acumulação primitiva do capital neocolonial do terceiro-mundo.

A contradição entre o desenvolvimento do capitalismo neocolonial e o Estado constitucional é a causa da corrosão da democracia moderna. A autocracia neocolonial encontra-se no horizonte da destruição da democracia constitucional como a forma bonapartista do presente e do futuro.

Domenico Losurdo pensou o bonapartismo soft americano como cânone do regime presidencialista no mundo:
“O bonapartismo soft se configura como um regime não só em virtude da sucessão ordenada e indolor de um líder para outro, mas também pelo fato de que a competição se desenvolve com base numa plataforma substancialmente unitária e comum aos diversos candidatos que concorrem ao cargo de guia e intérprete supremo da nação.
É o que se verifica em particular nos Estados Unidos” (Losurdo: 303).

Na terceira década do século XXI, o bonapartismo soft é substituído por um bonapartismo de chumbo: a autocracia capitalista neocolonial.  

O capitalismo neocolonial funciona pelo princípio do narcisismo das pequenas diferenças (Freud. v. XXI: 136)), que eclode, sem disfarces, na questão da migração de povos do terceiro-mundo para o primeiro-mundo! O capitalismo neocolonial é o ersatz do Estado como racialização da política (Foucault: 96); ele é   racialização das relações sociais e do mundo (Ianni: 201).

Um fenômeno do capitalismo neocolonial em  sua forma extrema de capitalismo do terceiro-mundo é a destruição do  significante sociedade capitalista (Marx) como palco  da luta de classes. Não se trata de desarraigamento da sociedade (Altvater: 178), e sim da destruição do conceito de sociedade como teoria e prática sociológica atualizada:
“Finalmente, cumpre mencionar a tendência generalizada de estender a todas as formas de totalidade social características que, de fato, são específicas das sociedades modernas enquanto nações-Estados”. (Giddens.1989: 134).   

A sociedade neoliberal já não é uma sociedade? É a metáfora de uma sociedade realmente existente, sociologicamente moderna?

Derrida expõem um problema rousseauniano quanto à sociedade:
“A formação das sociedades desempenhou um papel compensador na economia geral do mundo. Nascida da catástrofe, a sociedade apazigua a natureza desencadeada. Cumpre que ela tenha, por sua vez, este papel regulador sem o qual a catástrofe teria sido mortal. A própria catástrofe obedece a uma economia”. (Derrida: 316).

O lugar do homem na gramatologia remete para a história universal:
“e o homem é aos olhos de Rousseau o único animal capaz simultaneamente de falar, de viver em sociedade e de cozinhar o que come”. (Derrida: 317).

O homem é o único animal que faz a guerra dos homens:
“A guerra dos homens tem por efeito reduzir a guerra dos elementos naturais. Esta economia marca bem que a degradação surgida da catástrofe deve ser, como verificamos em outro lugar, compensada, limitada, regularizada, por uma operação suplementar cujo esquema havíamos destacado. ‘Sem isso, não vejo como o sistema poderia subsistir’”. (Derrida:316).

A gramática do capitalismo neocolonial faz junção da guerra entre os homens com a guerra contra a natureza. Ela não pede que uma plurivocidade de gramática substitua a gramática capitalista no comando da economia, política, cultura e vida?   

ALTVATER, Elmar. O fim do capitalismo como o conhecemos. RJ: Civilização Brasileira, 2010
BETTELHEIM, Charles. Les luttes de classes en URSS. 2ème période. 1923-1930. Paris: Seuil/Maspero, 1977
BETTELHEIM, Charles. Les luttes de classes en URSS. 3ème période. 1930-1941. Les dominants. Seuil/Maspero, 1983
BOLTANSKI & CHIAPELLO, Luc e Ève. O novo espírito do capitalismo. SP: Martins Fontes, 2009
DERRIDA, Jacques. Gramatologia. SP: Perspectiva, 1973
FIORAVANTI, Eduardo. El capital monopolista internacional. Barcelona: Ediciones Península, 1976
FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade. SP: Martins Fontes, 1999
FREUD. OBRAS Psicológicas Completas. v. XXI. RJ: Imago, 1974
GIDDENS, Anthony. A constituição da sociedade. SP: Martin Fontes, 1989
GIDDENS, Anthony. O Estado-nação e a violência. SP: EDUSP, 2001
HOBBES. Pensadores. Leviatã. SP: Abril Cultural, 1974
HUSSERL. La crise des sciences européenes et laa phénoménologie transcendental. Paris; Gallimard, 1976
IANNI, Octavio. A era do globalismo. RJ: Civilização Brasileira, 1996
LABICA, Georges. As “teses sobre Feuerbach” de Karl Marx. RJ: Jorge Zahar, 1990
LACAN, Jacques. Le Seminaire. Livre XX. Encore. Paris: Seuil, 1975
LEFORT, Claude. Le travil de l’ouevre Machiavel. Paris: Gallimard, 1972
LENINE. Oeuvres. v. 22. Moscou/Paris: Edition du Progrès/Edition Sociales, 1977
LOSURDO, Domenico. Democracia ou bonapartismo. RJ/SP: UFRJ/Unesp, 2004

MARX & ENGELS. La ideologia alemana. Barcelona: Grijalbo, 1970
MARX. Le capital. Livre premier. Paris: Edition Sociales, 1977
MARX. O capital. Livro 1. V. 1. RJ: Bertrand Brasil, 1996
MAQUIAVEL. Pensadores. O Príncipe. SP: Abril Cultural, 1973
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PLATT, Stephen. Capitalismo criminoso. SP: Cultrix, 2017
SAUSSURE. Curso de linguística geral. SP: Cultrix, Sem Data
SCHUMPETER. Capitalismo, socialismo e democracia. RJ; Zahar Editores, 1984
SODRÉ, Muniz. A máquina de narciso. SP:  Cortez, 1990
SOMBART, Werner. El apogeo del capitalismo. México: Fondo de Cultura Económica, 1946
WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. SP/Brasília: Pioneira/ UNB, 1981
WITTGENSTEIN. Da certeza. Lisboa: Edições 70, 1990  
ZIZEK, Slavoj. Mao. Sobre a prática e a contradição. RJ: Zahar, 2008

    

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

MARXISMO BRASILEIRO

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domingo, 15 de julho de 2018

BRASIL: GRAMÁTICA E HISTÓRIA

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