domingo, 23 de abril de 2017

Senatspräsident Schereber- A LOUCURA BIOGRÁFICA PESSOAL COMO CASO DE POLÍCIA PSIQUIÁTRICA PÚBLICO-PRIVADA



                                                            PRIMEIRO TEXTO

O meu problema não é pôr em questão o conceito científico-médico de psicose em Freud (ou em Lacan), mas buscar o momento, o estado e a conjuntura [gramatical] no qual ele se transforma em um significante gramatical dissipador na cultura europeia, a saber: a ideologia gramatical dissipadora de invasão e/ou absorção organizada e sistemática (através de instituições públicas médicas [psiquiátricas e psicanalíticas), basicamente) pelo real da sociedade da classe simbólica europeia e americana.
A ideologia gramatical dissipadora é o artefato da alta cultura de pescaria-invasão do real constituído por valas, riachos, igarapés, rios, enfim, os sulcos criados pela psicose imperator romana etc. no espaço do real da sociedade dos fatos.
Freud transformou o discurso do DENKWÜRDIGKEITEN em um cânone universal mundial de discurso psicótico. Em minha profissão de professor das ciências gramaticais da política do século XXI, o DENKWÜRDIGKEITEN é observado como o inconsciente do discurso do político do juiz presidente do Tribunal de Apelação Schereber (1893) que fez a Exposição de sua loucura (delírio paranoide de emasculação) ao Tribunal de Apelação em julho de 1901 (Freud. v. XII: 47).
O caso Schereber, hoje, não é mais tratado como um crime psiquiátrico, uma ameaça à sociedade e, portanto, sujeito ao encarceramento, ao banimento da pessoa da vida em sociedade?
Como Freud nos faz saber, sem nenhum drama pessoal ou profissional, Schereber estava encarcerado em uma instituição que para o esquizo Althusser seria o equivalente de um aparelho policial-psiquiátrico de Estado, do Estado alemão do início da primeira década de 1900. Tratava-se de um Estado alemão autocrático ou liberal?
Para Freud e a psicanálise – que sempre se gabou de ser uma ciência de estado liberal da sociedade civilis– a transformação do doente dos nervos de Deus Senatspräsident Schereber, um Deus que exigia de Schereber a transformação dele em mulher.
Hoje tal fato não é tratado mais como um caso policial de psicose = loucura. Lutas intensas e extensas retiraram da loucura o caráter policial e estatal que ela possuía até pouco tempo atrás na Europa e nos EUA. Infelizmente no Brasil, o psicótico continua sendo objeto de um Estado policial foucaultiano, Estado que através do discurso de Foucault invadiu o real da sociedade dos fatos psicológicos (transformados em artefatos psicóticos [estatal] por instituições psiquiátricas e psicanalíticas).
Considerando que as instituições psicanalíticas são instituições da sociedade civil (só psicólogos e médicos-psiquiátricos tem o direito de clinicar) me parece de extrema gravidade que psicanalistas (com canudo de cientistas sociais ou de filosofia e etc.) mantenham um silêncio sepulcral dessa identidade entre loucura e psicose que pode ser estudada em vários autores, mas especialmente, no canônico “História da Loucura”, de Michel Foucault.
Freud diz sem um pingo de certa inquietação liberal dramática:
“No sistema de Schereber, os dois elementos principais de seu delírio (sua transformação em mulher e sua relação favorecida por Deus) acham-se vinculados na adoção de uma atitude feminina para com Deus. Será parte inevitável de nossa tarefa demonstrar que existe uma relação genética essencial entre esses dois elementos. De outra maneira, nossas tentativas de elucidar os delírios de Schereber conduzir-nos-iam à posição absurda descrita no famoso símile de Kant na Crítica da Razão Pura: seriamos como um homem a segurar uma peneira debaixo de um bode, enquanto alguém o ordenha”. (Freud: 52).
FREUD. Obras Completas. v. XII. 1911-1913. NOTAS PSICANALÍTICAS SOBRE UM RELATO AUTOBIOGRÁFICO DE UM CASO DE PARANÓIA (DEMENTIA PARANÓIDES) [1911] RJ. Imago, 1969
SCHREBER, Daniel Paul. Memórias de um doente dos nervos. SP: Paz e Terra, 1995

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