sábado, 22 de abril de 2017

DA LOUCURA NA IDEOLOGIA GRAMATICAL PAULISTA DA DEPENDENCIA ASSOCIADA

DA SÉRIE SOCIÓLOGO PAULISTA – FLORESTAN FERNANDES

A história da sociologia paulista gira em torno de 3 sujeitos gramaticais: a luta gramatical necessária com a sociologia historial populista hegemônica do PCB na lata cultura brasileira; a luta hostil tardia contra a sociologia carioca (ISEB E IUPERJ); a total ausência de Freud e de Lacan na pauta da construção da sociologia brasileira paulista e carioca. Parece que a sociologia brasileira ignorou intencionalmente a revolução da psicanálise na faculdade de imaginação das ciências sociais.

Se tomarmos um dos livros extraordinários (A imaginação sociológica) de Wright Mills, o Capítulo 8 - Uso da história trata da relação entre sociologia e psicologia (e a psicanálise). Ele se alinha com a tradição clássica da sociologia marxista e freudiana que tem como objetos gramaticais táticos: a biografia, a história e a sociedade. (Mills: 156).

A complexidade o capítulo dificulta um resumo mostrando a interseção entre as esferas da biografia, da história e da sociedade. No entanto, a “psicologia política dos eleitores” mostra o reducionismo psicológico encarcerando o homo sociologicus no homo clausus. Assim, a “psicologia sociológica” se torna estéril para tratar do problema da indiferença política da sociedade industrial de massas do burguês capitalista na relação desta com a indiferença política da sociedade do burguês liberal do modo de produção manufatureiro. (Mills: 162).

A relação da sociologia com a psicologia se define pela falta do inconsciente freudiano que na década de 1950 já era um importante artefato da sociologia freudiana da cultura de massas americana através da revista em quadrinhos, jornalismo e cinema e da crítica da escola de Frankfurt. (Jay: 205-251).

Porém, a sociologia marxista ocidental de Mills não evita Freud fazendo pendant com o marxismo ocidental de Gramsci a Adorno. Mills é historicista (como Gramsci), e não foraclui da cultura ocidental a revolução freudiana metabolizada (restaurada como problema de sociologia historial na existência da sociedade de luta de classes industrialis das massas de trabalhadores e de outros gêneros, por exemplo, massas estudantis) por Gramsci e a Escola marxista de Frankfurt.

A sociologia marxista americana ao pensar o passado historial sociológico não tem como universal a ideia de Marx de que sempre na sociedade moderna ocidental, o passado pesa como chumbo (no cérebro do vivos) na conjuntura sociológica gramatical historial do presente; é algo imanente da consciência americana que o passado não exista como um determinismo sociológico? Nesse aspecto, Mills talvez seja a andorinha dourada gauche, na sociologia historial, que faz do verão um relativismo sociológico?

Mill diz:
“A natureza da histórica de uma sociedade, num determinado período, pode ser tal que o ‘passado histórico’ só indiretamente tem relevância para seu entendimento”. (Mills: 169).
Mills viu que a ciência historiográfica (e suas explicações) era a fonte de produção de duas ideologias gramaticais mecanicistas: a conservadora e a radical. A primeira luta para preservar a gramática mecânica da tradição institucional; a outra para destruir qualquer gramática de instituição mecanicista, pois, esta é transitória:
“Ambas as opiniões se baseiam quase sempre num determinismo histórico, ou mesmo na inevitabilidade que pode, facilmente, levar a uma posição de aquiescência – e a um conceito errôneo de como a história tem sido feita e pode ser feita. Não desejo abalar o senso histórico que adquiri com dificuldade, mas também não desejo impregnar minhas explicações de usos conservadores ou radicais da noção de destino histórico. Não aceito o destino como categoria histórica, como mais adiante explicarei”. (Idem: 169).

Para qualquer iniciante em Freud, é fácil deduzir que a infância da humanidade não cabe como determinismo mecanicista causal na história moderna industrialis. Se Mills leu Marx como um psicanalista do século XIX (como eu já fiz) não tenho como saber. Se leu o Marx que faz do fantasma (fantasia) uma força da política, eis algo que não sei. Mas o Leitor pode ver este Marx da tradição freudiana no presente da política da modernidade no texto O Método da economia política:
“Mas a dificuldade não está em compreender que a arte grega e a epopeia estão ligadas a certas formas do desenvolvimento social. A dificuldade reside no fato de nos proporcionarem ainda um prazer estético e de terem ainda para nós, em certos aspectos, o valor de normas e de modelos inacessíveis.

Um homem não pode voltar a ser criança sem cair na puerilidade. Mas não acha prazer na inocência da criança e, tendo alcançado um nível superior, não deve ele próprio a reproduzir sua verdade? Em todas as épocas, o seu próprio caráter não revive na verdade natural da natureza infantil? Por que então a infância histórica da humanidade, precisamente naquilo em que atingiu seu mais belo florescimento, por que esta etapa para sempre perdida não há de exercer um eterno encanto? ”. (Marx. 1974: 131)  

A infância histórica encantada da biografia da humanidade é aquela da Europa e de suas colônias culturais políticas? Mills crê que a América não está ligada a tal infância histórica europeia? O Ocidente [europeu] não é um destino histórico da (e na) América?    

Mills -:
“A natureza histórica de uma sociedade, num determinado período, pode ser tal que o ‘passado histórico’ só indiretamente tem relevância para seu entendimento. 
É, evidentemente, bastante claro que para compreender uma sociedade que se movimenta lentamente, presa por séculos num ciclo de pobreza e tradição e moléstia e ignorância, temos de estudar o terreno histórico, e os mecanismos históricos persistentes de sua terrível limitação pela sua própria história. A explicação desse ciclo, e da mecânica de cada uma de suas fases, exige uma análise histórica profunda. O que se deve explicar, acima de tudo, é o mecanismo da totalidade do ciclo”. (Mills: 169).

Este passado pode estar gramaticalmente associado ao Ocidente como no caso da América Latina, ao contrário da América! 

Mecanismo é a palavra chave para tais sociedades encarceradas no passado. Mas como ou é uma palavra ou um conceito sociológico logo é esquecida, pois, não tem força de realidade, isto é, força de lei, força gramatical no real. DERRIDA fala de uma força violenta, injusta, sem regra, arbitrária (Derrida: 20). Trata-se da força do passado como significante no presente como força gramatical no real, força que pesa como chumbo sgrammaticatura na vida do território da subjetividade territorial gramatical dos vivos como fantasma do passado. Nas ciências gramaticais da política mecanismo não tem força gramatical sociológica de habitação no real?  É claro que sim, se mecanismo for o Sg1 (Significante gramatical 1) do passado (no presente-futuro) de uma formação social bem determinada pelas ciências gramaticais da política universal.

Mills -:
“Mas os Estados Unidos, por exemplo, ou as nações do noroeste da Europa, ou a Austrália, em sua atual condição não estão encurraladas em nenhum ciclo da  história. Esse tipo de ciclo – como no mundo deserto de Ibn Kahldoun – não os afetas. Todas as tentativas para compreendê-los nesses termos, parece-me, fracassaram, e tendem na verdade a se tornarem uma insensatez trans-histórica.
A relevância da história, em suma, é, ela mesma, sujeita ao princípio da especificidade histórica. “Tudo’, na verdade, pode ser considerado como ‘vindo do passado’, mas o sentido dessa frase – ‘vindo do passado’ – é o que está em jogo. Por vezes, há coisas totalmente novas no mundo, o que vale dizer que a ‘história’ se repete e não se repete: depende da estrutura social e do período de cuja história nos ocupamos”. (Mills: 169-170).

Hegel, Marx e Freud são interlocutores quase ocultos de Mills sobre a natureza da repetição histórica na biografia de um indivíduo, ou de uma nação, ou de um povo? Mills não nega o princípio da repetição.  No entanto, a repetição não é um determinismo causal universal como lei geral da causalidade (Bunge: 15). Não se trata do princípio causal onde a causa (o passado) produz sempre o mesmo efeito (o presente como repetição do passado). O causalismo histórico não se constituiu como um fantasma científico da sociologia gramatical marxista americana: tudo tem uma causa; nada sucede no mundo sem causa; nada pode de existir ou deixar de existir sem causa; tudo o que chega a ser, nasce por obra de alguma causa; quando tem começo deve ter uma causa no passado historial. (Bunge: 16).

Mills com uma simplicidade desconcertante, desfaz, descostura (o axioma gramatical de Marx que costura na totalidade gramatical O 18 Brumário de Luís Bonaparte) apenas como axioma universal, não como o axioma que articula (como causalidade da repetição historial) a conjuntura sociológica gramatical da política bonapartista de 1848-1852:
“Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”. (Marx. 1974: 335).


Se trata de pensar a história da América feita como a quiseram fazer os americanos, pois, o passado, ou melhor, a tradição de todas as gerações mortas não oprimia como chumbo o cérebro dos vivos. A tradição não existe e persiste no real da fundação da história americana como o significante gramatical 1 em sua repetição perpétua como um pesadelo na mente dos americanos. Estranho? Inconcebível? E na atualidade há um passado republicano revolucionário que atormenta a mente americana na política 2017?

NO Brasil, o mais notável sociólogo gramatical da nossa historiografia Caio Prado Jr diz em 1976:
“Essa falta de análise econômica em nosso país se observa, nos dias que correm, inclusive em muitos daqueles que embora reconhecendo uma tal subordinação da economia brasileira, não vão, contudo, às suas derradeiras e mais profundas consequências. E destaco esses economistas porque dos demais porque dos demais nem é bom falar. São os ortodoxos da Economia que rezam fielmente e exclusivamente pela cartilha dos consagrados autores norte-americanos e assemelhados, e que infelizmente ainda são os teóricos de maior influência e poder de decisão na política econômica do país. Estes sonham num mundo keynesiano (ou neokeynesiano, como preferem designar-se) modelado à imagem das grandes potências capitalistas, como se o Brasil fosse qualitativamente seu semelhante com apenas um PIB modesto”. (Prado Junior: 346).  

Eis aí detectado. por um leigo, o inconsciente do discurso do político do economista psicótico brasileiro (como se o Brasil fosse a América econômica) que faz andar, rodar a roda do moinho colonial da ideologia gramatical econômica mecanicista psicótica no real da sociedade dos fatos econômicos - no Brasil        

Em 1970, Fernando Henrique Cardoso fala de uma ruptura modernista com o passado colonial na sociedade brasileira no século XX. Tratar-se-ia de uma spaltung do mundo colonial que faz pendant com a ideologia psicótica econômica do americanismo, quebra do Sgca (significante gramatical colonial do americanismo) e do repelir, afastar, afugentar, espantar (expelir, libertar, lançar, exalar, espalhar excretar, secretar, segregar, evacuar, largar, despejar) a ideologia gramatical mecanicista-orgânica desse justamente Sgc do americanismo! É a famosa conquista da autonomia relativa cultural (pela sociologia uspiana) de nosso país paulista em relação ao centro cultural  ocidental.   

Quem está falando a verdade? Quem produziu um discurso delirante (e até povoado por alucinações), psicótico (e psicotizante da subjetividade do rico até ao pobre, atravessando a classe simbólica) sobre a realidade dos fatos que faz pendant com o real da sociedade brasileira?  

Em 1977, Caio Prado insiste, desde a década de 1960, no problema de uma linguagem da economia em junção com a política psicótica da esquerda (e da direita, por consequência) como uma linguagem ficcional psicotizante do rico, do pobre e da classe simbólica sobre a realidade brasileira. (Caio Prado. 1972:19-21).

Para Caio Prado, o Significante gramatical capitalismo é o do modo de produção capitalista internacional habitado pelos países do centro que domina uma periferia econômica súbdita capitalista, um ersatz de capitalismo periférico. Esta deveria ser a linguagem dominante no Brasil, língua econômica e política da ortodoxia da classe simbólica da América. (Caio Pardo. 1977: 345-346). Caio Pardo foi o autor brasileiro (espécie de espontaneísmo freudiano avant la lettre no Brasil) que viu com clareza o problema organizado por Sérgio Buarque de Holanda de uma sociedade brasileira do homem psicótico. Sérgio usa o termo psicopata no lugar de psicótico, pois, estamos na década de 1930 (Holanda. 1988: 105). Era na qual o psicótico de Freud não havia ainda invadido (ou ter sido absorvido) (n) o real da sociedade europeia e norte-americana. O Próprio Gilberto Freyre usa o significante esquizo (Freyre: 7).

Para Freyre, o Brasil é esquizo, para Sérgio nossa sociedade é habitada e dominada por psicopatas; e para Caio Prado pertencemos a uma língua da política psicótica, psicotizante.

                                                          MARXISMO E PSICOSE
No marxismo majoritário, a nossa língua é capitalista ou burguesa revolucionária. O hiper competente Nelson Werneck Sodré (PCB) publicou o Capitalismo e revolução burguesa no Brasil e o monumental História da burguesia brasileira. Esqueceu que o significante burguês associado à revolução burguesa significa uma história trágica (que não contempla as guerras das máquinas de guerra luso-brasileiras até a República de 2017). Trata-se do trágico histórico burguês das lutas de classes do burguês como um significante gramatical de Marx. No Brasil, só existiu, no atacado ou no varejo, um ersatz de burguês marxista. É nefasto, pueril, falso, mentiroso glorificar o burguês brasileiro como Marx glorificou o burguês europeu e americano. 

O maravilhoso marxista Octávio Ianni faz um excepcional livro O ciclo da revolução burguesa, entre nós, sem jamais se perguntar se se tratava de um discurso dialético sistêmico delirante sobre o real da nossa sociedade .

E o mais gabaritado dos nossos marxistas, chefe da escola da sociologia paulista da USP, deixou de presente para os leitores da década de 1970 e seguintes o enciclopédico sociológico já gramatical historial A revolução burguesa no Brasil.

Se leu Mills sobre a ligação da periferia com o passado ocidental real do centro capitalista europeu do modo de produção especificamente capitalista, Florestan, ou ignorou, sobejamente, o sociólogo americano, ou não subjetivou a lição essencial do livro A imaginação sociológica. Os EUA não criam uma língua capitalista bebendo na fonte do ocidente europeu capitalista, simplesmente. A língua capitalista americana não é uma imitação, ou um ersatz da língua da sociedade capitalista inglesa. O passado do capitalismo americano (quando persiste no real do ser da sociedade americana) não advém, ipsis litteris, da história capitalista do centro europeu do capitalismo ocidental.

Ligar o Brasil ao passado do capitalismo ocidental europeu é criar uma língua ficcional técnica que faz do marxismo o instrumento linguístico de uma sociedade periférica psicótica.   

Se o problema era subtrair Caio Prado como o pai animal despótico freudiano da sociologia gramatical historial da USP, então, a herança da tribo fraternal da nova sociologia acabou por ajudar (aprofundar) a fundamentar o significante sociedade brasileira psicótica (ou esquizo, ou psicopata). 


                                       FHC: A SOCIEDADADE CAPITALISTA FICCIONAL

Para todos os gostos sociológicos, quando aconteceu a existência de uma sociedade industrial moderna original entre nós? Com Getúlio e sua política de substituição de importações? Esta produz o efeito de uma sociedade industrial tradicional populista e nacional. Só com a dependência da periferia internacionalizada pelas multinacionais. o brasileiro absorve a ideologia gramatical no real das massas urbanas de viver intencionalmente em uma sociedade industrial moderna no Sudeste, e, especial, no estado de São Paulo.

De São Paulo nasce a ideologia gramatical sociológica da nossa modernidade de um Brasil moderno e industrial. Assim, a articulação da hegemonia no bloco de poder se concentra na fração paulista da classe simbólica que sofreria uma metamorfose no Estado militar 1968 - com a criação do sistema estatal de universidade pública. A fração paulista da sociologia disputaria palmo-a-palmo o território subjetivo “nacional” dessa nova classe simbólica universitária com uma fração liberal carioca de tal classe. As lutas das massas intelectuais na classe simbólica contra o Estado Militar 1968 se fariam sob a orientação da hegemonia paulista sobre a sociologia brasileira, vanguarda política das ciências humanas, entre nós.   

AS lutas políticas se realizam no terreno ideológico gramatical:
“Na consideração de tais transformações é necessário distinguir sempre entre a transformação material das condições econômicas de produção, que pode ser objeto de rigorosa verificação da ciência da natural, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas, ou filosóficas, em resumo, as formas ideológicas pelas quais os homens tomam consciência deste conflito e o conduzem até o fim . Assim como não se julga um indivíduo é a partir do  do julgamento que ele faz de si mesmo , da mesma maneira não se pode julgar uma época de transformação a partir de sua própria consciência. Ao contrário, é preciso explicar esta consciência a partir das condições de vida material”. (Marx. 1974: 136).

A consciência encontra sua materialidade em o ser do inconsciente do discurso que ou é absorvido no real (pela metabolização das massas da sociedade) com sua ideologia gramatical atual e verdadeira ou o real que é invadido pelo (mecanicamente, artificialmente, ficcionalmente) ersatz de ideologia gramatical do estrato dirigente da classe dominante.    

A ideologia gramatical dominante era o da teoria do desenvolvimento dependente e associado esboçado no evangelho sociológico para a sociedade do rico paulista   carioca. Trata-se do livro Dependência e desenvolvimento na América Latina, de FHC. Em uma emulação acadêmica e política feroz com FHC e a sociologia da USP, Celso Furtado publicou livros capitais (que foram absorvidos, e neutralizados, pela ideologia gramatical da dependência associada) como o Prefácio A Nova Economia política, Análise do modelo brasileiro e outros livros.

No final da década de 1970, antevendo a transformação do capitalismo internacional monopolista em direção à uma nova forma de capitalismo mundial, Furtado (com um marxismo exuberante envergonhado) joga na lata do lixo sociológico FHC (e a USP “burguesa”) com seu opus magnum ideológico gramatical Dependência e desenvolvimento na América latina. Criatividade e dependência na civilização industrial (1978). Este livro inaugura uma nova conjuntura gramatical teórica, uma nova conjuntura gramatical no espaço das ideologias gramaticais originais . Este marxismo de Celso Furtado fez o laço gramatical com o marxismo internacionalista ocidental, já tentado no início da década de 1960 pelo sempre injustiçado Guerreiro Ramos: Mito e verdade da revolução brasileira (1963).

Entre os economistas não-marxistas, um livro definitivo para a invasão do ersatz de ideologia gramatical econômica do Brasil moderno industrial foi o Acumulação de capital e industrialização no Brasil, de Maria da Conceição Tavares da UFRJ. Depois, ela se tornou o intelectual hegemônico em teoria econômica brasileira na era Lula, sem antes servir ao governo Sarney do, inesquecível, ministro Funaro.
Outros livros da UNICAMP e da PCU/Rio vieram a jogar muita água ideológica para mover tal moinho colonial dependente da ideologia industrial dependente associada. Tal ideologia encontra-se na formação do germe de uma ficcional burguesia industrial moderna original, ainda heteronômica, no Brasil (Cardoso: 125-127).

Toda a nossa ficcional sociedade industrial moderna da ideologia gramatical mecanicista da dependência associada fernandista (FHC) começou a se desfazer (como simulacro de simulação) como um castelo de areia feito pelas crianças embaladas pela era Getúlio/JK/Jango e o Estado militar 1964 e 1968 (era Geisel).

Então para se consolar, a classe simbólica traduziu o livro Jamais fomos modernos (Bruno Latour) e caiu de boca na fonte ideológica gramatical do pós-modernismo metabolizando-o mecanicamente através da cultura da guerra civil eletrônica-virtual da sociedade do espetáculo carioca. Nesse interim, a sociologia gramatical da dependência associada abandonou a articulação da hegemonia da política do bloco de poder industrial moderno ao jornalismo internacional e carioca. Desgraça pouca é bobagem!  

A sociologia do desenvolvimento dependente e associado foi a última ideologia gramatical vivida pela sociedade brasileira, pois, o capitalismo de commodities (do Centro-Oeste e interior de São Paulo) não criou seus próprios intelectuais orgânicos capazes de produzir uma ideologia gramatical original para a articulação da hegemonia  capitalista no Brasil. Compreendem, então, toda a crítica de Gramsci a teoria/prática ideológica gramatical economicista, em geral?                            


                                                                                       ENCORE FLORETAN 
O livro de Florestan Fernandes que faz pendant com o Imaginação sociológica é o A natureza sociológica da sociologia? O leitor pode fazer de conta que sim? São dois livros da sociologia marxista das Américas. São dois autores enjeitados pelas ideologias mecanicistas gramaticais da classe simbólica, nos Estados Unidos da década de 1950-60, e no Brasil da década de 1970 de seguintes.

Há um desenvolvimento desigual temporal na história da sociologia americana e brasileira. A sociologia marxista de Mills se faz no terreno de uma democracia fortemente institucionalizada no caminho de uma sociedade de controle. Isto é, um eufemismo sociológico crítico que é a aparência de semblante de uma sociedade totalitária, sociedade nazista de baixa intensidade de contenção da liberdade liberal em uma democracia quase autocrática fraca no uso da linguagem da política. (Marcuse: 92-108). Florestan viu tal fenômeno como colapso da sociologia crítica, agora associada ao ataque ao socialismo da URSS através da identidade totalitária entre a URSS e os EUA. E morreu crendo na adesão da Escola marxista alemã freudiana (de Adorno a Marcuse) ao poder da cultura institucional universitária do capitalismo americano. (Fernandes: 14).
                                                                                           SOCIOLOGIA E FREUD

Acabo com um breve lembrete sobre a relação da sociologia de Mills e com a sociologia brasileira em relação à ideologia gramatical do freudismo nas Américas. O leitor pode buscar em vão alguma articulação da sociologia quase gramatical paulista (e carioca) com Freud (ou Lacan) em livros como os de Florestan: Natureza sociológica da sociologia, A condição do sociólogo, A sociologia no Brasil, Sociedade de classes e desenvolvimento, A revolução burguesa no Brasil, Circuito fechado e o a Ditadura em questão. Ou nos livros de Octavio Ianni: Sociologia e sociedade no Brasil, Sociologia da sociologia, Ciclos da revolução burguesa, Revolução e cultura, Origens agrárias do Estado brasileiro e no A era do globalismo. Ou em qualquer dos livros famosos de Fernando Henrique.

A revolução althusseriano da sociologia da USP feita por Luiz Pereira ignorou os textos de Althusser: Freud e Marx e Freud e Lacan no excepcional livro de Pereira Anotações sobre o capitalismo. Tal revolução althusseriano foi retomada (Sem Freud ou Lacan) por Décio Saez em livros de peso como A formação do Estado burguês no Brasil. 1888-1891 e no ainda não integrado ao debate sobre populismo e, portanto, guardando um certo frescor de novidade o livro Estado e democracia. Ensaios teóricos.  Os paulistas odeiam Freud!

Enfim, a ideologia gramatical brasileira ignorou meus dois livros das ciências gramaticais da política lacaniano cum Gramsci: Política brasileira em extensão. Para além da sociedade civil (2000) e o Capitalismo corporativo mundial (2002). Este já anunciava a crise da ideologia gramatical de FHC e, também, a crise do modelo da sociedade brasileira dependente e associada, supostamente na falsa consciência sociológica carioca e paulista, como modernamente industrial.

A classe simbólica carioca e paulista da sociologia e da ciência política não leram meus livros de sociologia gramatical freudiana, pois, eram possuídas por uma verdadeira e incomensurável aversão sexual ao campo freudiano. Dou como exemplo da aversão sexual da sociologia carioca ao campo freudiano os excepcionais Cidadania e justiça e o Bases do autoritarismo brasileiro, respectivamente, de Wanderley Guilherme dos Santos e Simon Schwartzman.

Um aliado carioca freudiano da USP publicou o livro A razão cativa. As ilusões da consciência de Platão a Freud (1985). Trata-se de um livro sobre Freud, de um livro que faz de conta, na década de 1980, da inexistente revolução lacaniana que institui no lugar do freudismo o campo freudiano. Trata-se, portanto, de uma arma de uma guerra gramatical negra para defender a falta de Freud e Lacan no diálogo e confronto da alta cultura sociológica da USP com os marxistas freudianos althusserianos no eixo Rio/SP, como o professor da UFRJ Carlos Henrique Escobar (leiam o belo livro de Escobar: Marx trágico. O marxismo de Marx, de 1993) e com o liberalismo iluminista (que divulga Freud e Lacan) do carioca de José Guilherme Merquior, vivo ou morto.   

O cultíssimo diplomata José Guilherme Merquior (o maior escritor liberal da filosofia e da sociologia da direita mais esquerda que a própria esquerda, direita civilizada brasileira, oriundo do marxismo) publicou um livro sobre o Marxismo Ocidental, onde constam da bibliografia Freud e Lacan: O marxismo ocidental (1986). Ele conhece muito  a relação de Althusser com Lacan, no entanto, lhe escapou, em sua visão de enciclopedista que existiu uma psicanálise marxista de Lacan como efeito de mai 1968. Imperdoável? De modo algum! Confiram os comentários e as interpretações do saudoso Merquior sobre Althusser e Marcuse para se convenceram que se trata de um livro, ainda, nosso contemporâneo. (Merquior: 194-227).  

Se a cultura sociológica da sociedade brasileira dominantemente paulista ignora Freud e Lacan, então, posso dizer a letra de uma música muito cantada entre nós: “O Brasil não conhece o Brasil...”

BUNGE, Mario. Causalidade. El principio de la causalidad en la ciencia moderna. Argentina: EUDERA, 1972
CARDOSO, Fernando Henrique. Dependência e desenvolvimento na América Latina. Ensaio de interpretação sociológica. RJ: Zahar, 1973
--------------------------------------- A natureza sociológica da sociologia. SP: Ática, 1980
DERRIDA, Jacques. Force de loi. Paris: Galilée, 1994
FREYRE, Gilberto. Casa-Grande e Senzala. RJ: José Olympio, 1975
HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. RJ: José Olympio, 1988.
JAY, Martin. L’imagination dialectique. L’école e Francfort. 1923-1950
MARX. Os Pensadores. SP: Abril Cultural, 1974
MARCUSE, Herbert. A ideologia da sociedade industrial. O Homem unidimensional. RJ: Zahar, 1973
MERQUIOR, José Guilherme. O Marxismo Ocidental. RJ: Nova Fronteira, 1987
MILLS, C. Wright. A Imaginação sociológica. RJ: Zahar, 1972
PRADO JR., Caio. A revolução brasileira. SP: Brasilense, 1972
-------------------- História econômica do Brasil. Post Scriptum em 1976. SP:Brasiliense, 1977
ROUANET, Sérgio Paulo. A razão cativa. As ilusões da consciência: de Platão a Freud. SP: Brasiliense, 1985
                         


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