quarta-feira, 26 de abril de 2017

A GRAMÁTICA DO ADEUS A LUTA DE CLASSE DO TRABALHO MODERNO

IDEOLOGIAS, 26/04/2017

José Paulo         

                                                                                         I
Sou de uma época gramatical que o PCB organizava (e desorganizava) a alta cultura brasileira. Se não fui amigo, tive um contato permanente e proveitoso (ao menos para mim) de três intelectuais notáveis da sociedade civil do Partidão do marxismo ocidental: do saudoso Carlos Nelson Coutinho (exímio tradutor de Gramsci), do ativo e presente na política em geral José Paulo Neto e do professor titular da USP, Celso Federico. Por que notáveis? Me atenho a Coutinho e Netto por causa dos motivos gramatical desse meu texto. 

DE José Paulo Netto gravo em minha memória o excelente, corajoso e honesto Crise do socialismo e ofensiva neoliberal. Curiosamente, meu querido Netto é um estudioso fino e sistemático que tentou nacionalizar o marxismo ocidental de Lukács, entre nós.

Inúmeras vezes, ele ministrou aulas (foi um dos grandes professores da UFRJ das ciências gramaticais da política mundial)) sobre a confusão que Gramsci introduziu na tradição marxista que se origina em o pensamento de Marx. (Netto: 26). Ele, também, me disse, muitas vezes, que: “a sumária identificação das legitimações e construções ideológicas do socialismo real com o marxismo serve para desqualificar a obra teórica de Marx – a crise daquele funciona como aval da inépcia atribuída a esta. Curiosamente, esses oponentes reiteram a operação característica dos apologistas do socialismo real, consistente em conferir à sua elaboração ideológica o estatuto de marxismo. (Netto: 26).

Para Netto, a tradição marxista:
“configurou/configura um bloco cultural extremamente complexo e diferenciado, no interior do qual se estruturam e se movem vertentes que concorrem entre si”. (Netto: 26). Netto sabia que, entre nós do marxismo ocidental, Lukásc era soterrado, infelizmente, por Gramsci e o sagaz Althusser que fez alianças teóricas heterogêneas (ecletismo althusseriano disfarçado e bem escondido nas cavernas de Paris) no estruturalismo (de Gramsci a Freud e Lacan, tendo como escopo a antropologia estrutural).
Hoje as ciências gramaticais da política (psicanálise gramatical fazendo pendant com a sociologia gramatical) iniciaram a gramaticalização de Lukács e Gramsci. E a gramaticalização de Gramsci é deveras útil para “reler” Netto, para seu desgosto bonachão, bem-humorado.

Para o jovem leitor, a leitura do pequeno livro supracitado de Netto lhe revelará que à tradição marxista (como o espaço público procedural da alta e da baixa cultura popular operária [e da ideologia gramatical orientadora da política mundial]  do século XXI) foi lacrada do mesmo modo como a famosa carta-rolha stalinista (nome dado por Prestes, quando uma grupelho stalinista do PCB se apoderou do politiburo e fez a repressão de qualquer e toda discussão sobre a crise do stalinismo mundial e no Brasil), fazendo murchar as cem flores que desabrochavam na cultura marxista e coirmãs (Celso Furtado, Guerreiro Ramos etc.) no Brasil do sudeste, sul, centro-oeste e nordeste.

Era da democracia liberal-democrata (1946-1964) sob articulação da hegemonia da direção intelectual e moral do PCB povoada, inundada por lutas gramaticais ideológicas entre os intelectuais e poetas do PCB e os brilhantes e inventivos intelectuais do ISEB populista e de outras instituições privadas e públicas espalhadas pelo país da esquerda a direita.   

O golpe de Estado UDN-Lacerda e dos generais Castelo Branco, Costa e Silva, Golbery do Couto e Silva e Geisel foi a carta-rolha militarista-udenista que quebrou a cornucópia em desenvolvimento intenso e acelerado das ideologias gramaticais (ideologias históricas orgânicas) da cultura marxista e coirmãs que, de certo modo, desfaziam o domínio do stalinismo como teoria/prática na política internacional das Américas.

Não estou chorando o leite derramado. Apenas dizendo que o destino final do Brasil 2017 (destruição do trabalho assalariado como classe gramatical lógica em narrativa ideológica modelada pela esquerda pecebista, e, também, com rasgos de populismo aristocrático getulista) nunca foi pautado por uma causalidade determinista economicista da estrutura:
“§ 24 Estrutura e superestrutura. Economia e ideologia. A pretensão (apresentada como o postulado essencial do materialismo histórico) de apresentar e expor qualquer flutuação da política e da ideologia como expressão imediata da infraestrutura deve ser combatida, praticamente, como um infantilismo primitivo, ou deve ser combatida, praticamente, com o testemunho autêntico de Marx, escritor de obras políticas e históricas concretas. Para este aspecto, são importantes notadamente o 18 Brumário e os sobre a Questão oriental, mas também outros (Revolução e contrarrevolução na Alemanha, A guerra civil na França e menores”. (Gramsci: 238).

A gramática historial de Gramsci das lutas de classes faz pendant como a causalidade econômica definindo uma conjuntura gramatical lógica em narrativa ideológica toldada por teologias (naturalis e materialista racional em choque transdialético, isto, é, dialético gramatical sob desgramaticalização permanente):
“1°) A dificuldade de identificar um caso, estaticamente, (como imagem fotográfica instantânea), a estrutura; de fato, a política é, em cada caso concreto, o reflexo de tendências de desenvolvimento da estrutura, tendências que não se afirma que devam necessariamente se realizar. Uma fase estrutural só pode ser concretamente estudada e analisada depois que ela superou todo o seu processo de desenvolvimento, não durante o próprio processo, a não ser por hipótese (e declarando-se, explicitamente, que se trata de hipótese”. (Gramsci: 239).

O Brasil atual de 2017 encontra-se na fase estrutural em que já “superou todo o seu processo de desenvolvimento”? A nossa política é então um simples reflexo de “tendências de desenvolvimento da estrutura, tendências que se afirma que devam necessariamente se realizar”?
                                                                                       II

Os erros de Dilma Rousseff têm um princípio complexo? Foram muitos atos políticos motivados por necessidades internas de natureza organizativa do bloco de poder do bolivariano sem a direção iluminista sertaneja certeira de  Lula? Erros ligados às necessidades de dar coerência a fração ideológica estatal bolivariana (influenciada pela política de Maduro) do PT que governava o país? Erros oriundos de um governo guiado por ideologias ersatz de gramatica ideológica racional? A principal ideologia foi o da falsa ofensiva neoliberal tardia esdrúxula, desconjuntada, descosturada, já desconstruída na realidade da economia da dependência periférica pelo marxismo ocidental carioca:
“Porque é precisamente neste arco que está concentrada a essência do arsenal do neoliberalismo: uma argumentação teórica que restaurava o mercado como instância mediadora societal elementar e insuperável e uma proposição política que repõe o Estado mínimo como única alternativa e forma para a democracia”. (Netto: 77).

A Crise do Estado-do-bem-estar encontra-se muito bem delineada em dois livros soberbos: a) Pierre Rosanvallon. La crise de l’État-providence; b) A desconstrução do Welfare State no sujeito dissipador psicótico L’État providence, do historiador e sociólogo gramatical foucaultiano: François Ewald. 

Não se trata, portanto, de erros políticos ligados à necessidade de dar coerência ao PT e aos partidos aliados, ou a um grupo gramatical base social de apoio ao bloco de poder do bolivariano, ou à própria sociedade brasileira como tal. (Gramsci gramaticalizado: 239).    

Em termos de teoria/prática o erro político maior foi crer maquinalmente na ideia de Lauro Campos exposta em seu livro de um modo consistente, sistemático e sedutor sobre o envelhecimento e saturação da ideologia keynesiana na política mundial ocidental. O método global utilizado por keynes como processo de distorção ideológica (Campos: 173-186) é o creme de la creme da argumentação de Lauro Campos.

Para Lauro, a ideologia keynesiana significa, grosso modo:
“As distorções, desvios e ilogismos têm sua lógica própria e obedecem, na construção da ideologia particular, a mecanismos determináveis. As racionalizações, os seccionamentos da realidade, arranjos conceituais, etc., que se encontram nas produções científicas ideologicamente comprometidas e distorcidas, podem ser consideradas como resultado do esforço de adaptação dos interesses, valores, preconceitos e privilégios do grupo ou da classe a que pertence o analista, que ele deseja defender e preservar, aos novos quadros que surgem da realidade socioeconômica a que ameaçam destruí-los”. (Campos: 31).  

Tais ideologias (revoluções keynesianas, revolução monetaristas etc.) foram dissipadas na língua do real da realidade do inconsciente da cultura econômica latino-americana. Deixou de existir assim a ligação entre ideologia gramatical e cultura científica do estrato dirigente simbólico da elite do poder. Ocorre então uma ligação direta entre a ideologia sgrammaticatura do capital fictício com o grupo político dos clãs de todos os modos de produção da política coronelista urbano/rural que governa o aparelho governamental de Brasília, que baseiam sua política na derrota do trabalho pelo próprio trabalho que se desfigurou como luta permanente em prol do bem-comum tout court na era do bolivariano!

De fato, a nossa realidade adquiriu a forma gramatical da força do direito, da força gramatical do real, capaz de esmagar, sem muito esforço, os sujeitos gramaticais da classe dirigente, que batem-cabeça, tutelados pela quase milenar gramaticalmente ideologia (mesmo sendo um ersatz de gramática ideológica lógica de capital fictício internacional) do capital que vive de fazer negócio com os capitais alheios: capital produtivo e capital mercantil.

Mas o que acontecerá se a ORDEM INTERNACIONAL do capital fictício, finalmente, nos deixar em paz?             

                                                                              III            

                                                                                                 
Liberal do marxismo ocidental latino-americano, José Paulo Netto diz que a esquerda perdeu e se atrapalhou na crise de 1964 devido à associação da cultura (Início de gramaticalização ideológica do inconsciente marxista ocidental) marxista das cem flores em obra aberta [Umberto Eco] com o stalinismo: “perde-se porque emerge, como discurso institucional legitimador do Estado-partido soviético, o marxismo-leninismo, sancionado quer por seus aparatos diretos (entre os quais a polícia política, é bom não esquecê-la) quer pelos partidos comunistas a ele subordinado. Este marxismo-leninista, legítima criação da autocracia stalinista, impôs-se como o marxismo oficial no movimento comunista e na sua periferia – mas nunca sem encontrar resistências, francas ou surdas”. (Netto: 27).       

Foi fácil para o aparato ideológico gramatical mecanicista do governo americano transformar 1964 em uma crise mundial entre comunismo versus capitalismo, arrastando a classe média (burra e ignorante no domínio das ideologias gramaticais da época) para as lutas ideológicas de massas de rua contra o feliz –infortunado governo João Goulart.

A gramática das lutas ideológicas mundiais em 1964 - no Brasil – (sobredeterminada pelo antagonismo capitalismo burguês versus comunismo) tem uma versão generosa e civilizatória no inconsciente da gramatologia de lutas ideológicas da sociologia da administração de Peter:
“A falência – moral, política, econômica-  do marxismo e o colapso do regime comunista não foram ‘O Fim da História”. (Como proclamava um artigo muito comentado, publicado em 1899). Até mesmo os defensores mais ardorosos do livre comércio hesitavam em saudar seu triunfo como o Segundo Avento. Mas os eventos de 1989 e 1990 foram mais que o simples fim de uma era; eles significaram o fim de uma espécie de história. O Colapso do marxismo e do comunismo encerraram duzentos e cinquenta anos de domínio de uma religião secular – chamei-a de crença na salvação pela sociedade. O primeiro profeta desta religião secular foi Jean Jacques Rousseau (1712-1778). A Utopia Marxista foi seu produto final – e sua apoteose”. (Drucker: XVI).

Lacan já se refere ao Marx de um pensamento da política universal que é o autor de uma teologia materialista racional contida nas páginas sagradas de um Evangelho da modernidade moderna do século XIX do livro O Capital. Tal fato gramatical cultural da política mundial está registrado no Seminário 20 da década de 1970(Lacan.1975: 32). Lacan não quer mais tratar com o fenômeno da ideologia em relação à obra de Marx. Para ele, Marx faz teologia materialista racional. Trata-se de um artefato simbólico com uma vontade de potência infinitamente superior ao da ideologia mecanicista do burguês da revolução francesa, na cultura mundial. Portanto, Marx não faz parte de uma linhagem gramatical cultural ideológica tout court que começa em Rousseau. Marx inaugura a era da ideologia gramatical lógica em narrativa teológica secular que faz pendant com a era da teologia materialista racional que aparece, formalmente, no século XXI.

A profecia de Peter é um erro teórico grosseiro e um erro político em crer que uma nova sociedade de classes pós-capitalista seria o palco de lutas dos trabalhadores do conhecimento e dos trabalhadores do setor de serviços, terciário. (Drucker: XV). Estava mais próximo do real da conjuntura gramatical pós-1980, o debate marxista sobre a passagem do modo de produção econômico fordista para o modo de produção de acumulação de capital flexível. (Harvey: 115-177).

Trocar o direito liberal da sociedade do trabalho produtivo (direitos trabalhistas) pelo “direito autocrático” do que o que vale é o negociado mano a mano entre dois sujeitos gramaticais econômicos: patrão e empregado. Eis a ideologia sgrammaticatura (agramatical) que invade o real do que sobrou da pátria do trabalho, com seus direitos civis desprezados, ideologia dissipando, ao mesmo tempo, no tempo do estrato dirigente governante do aparelho de Estado central o famoso Welfare State. (Netto; 77).  

A desmontagem do Estado do bem-estar getulista centenário de massas trabalhadoras urbanas (e depois rurais) é o imperativo categórico da oligarquia financeira mundial para os brasileiros da elite “nossa” do poder desejosos de governar o Estado “nacional” de Brasília.

Enquanto E la nave va até não se sabe qual o destino, ao certo, o trabalho parece ter uma última oportunidade de mostrar que ainda não esqueceu o que é (ou o que foi) o trabalho assalariado livre da fraca e frouxa modernidade moderna do Brasil. 

CAMPOS, Lauro. A crise da ideologia keynesiana. RJ: Editora Campus, 1980
DRUCKER, Peter. Sociedade pós-capitalista. SP: Pioneira, 1993
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. v. 1. RJ: Civilização Brasileira, 2015
HARVEY, David. Condição Pós-moderna. SP: Loyola, 1993
LACAN, Jacques. Le Seminaire. Livre XX. Encore. Paris: Seuil, 1975    
NETTO, José Paulo. Crise  do socialismo e ofensiva neoliberal. SP: Cortez, 1933        

 
 

   
    
        
              

























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