sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

SOCIOLOGIA GRAMATICAL DA SOCIEDADE BURGUESA SEM CAPITALISMO


 José Paulo Bandeira

Da sociedade burguesa bürokratisch e da sociedade capitalista bürokratisch

Há um tempo estou escrevendo par os leitores americanos e brasileiros, principalmente. Então vou mostrar para esses leitores porque agora é a hora precisa de iniciar a revolução gramatical capitalista no Brasil. 

Não se trata de evocar o velho debate entre os comunistas brasileiros do etapismo da revolução comunista, sendo a primeira etapa dela uma revolução burguesa. Os comunistas não distinguem entre sociedade gramatical burguesa e sociedade gramatical capitalista, pois, Marx jamais se preocupou em transformar em significante conceitual in re ipsa esta filigrana da história do século XIX.

 Do Manifesto Comunista ao O 18 Brumário

Engels acrescentou à edição inglesa de 1888 ao Manifesto:
“Por burguesia se comprende a la clase de los capitalistas modernos, proprietarios de los medios de producción social, que emplean el trabajo assalariado. Por proletarios se comprende a la clases de los trabajadores assalariados modernos, que, privados de medios de producción próprios, se ven obligados a vender su fuerza de trabajo para poder existir”. (Marx e Engels: 21).


Eis a ideia de Engels que invadiu a cultura política econômica mundial do século XX e XXI: a sociedade burguesa é a sociedade urbana do modo produção especificamente capitalista do século XIX. Engels parece não ter lido, como deveria ter lido, o livro O 18 Brumário de Luís Bonaparte.

No livro que funda a ciência gramatical em narração da política, Marx diz:
“ Orleanistas e legitimistas encontram-se lada a lado na república, com pretensões idênticas. Se cada lado desejava levar a cabo a restauração de sua própria casa real, contra a outra, isto significava apenas que cada um dos dois grandes interesses em que divide a burguesia – o latifúndio e o capital – procurava restaurar sua própria supremacia e suplantar o outro. Falamos em dois grandes interesses da burguesia porque a grande propriedade territorial, apesar de suas tendências feudais e de seu orgulho de raça, tornou-se completamente burguesa com o desenvolvimento da sociedade moderna.  Também os tories na Inglaterra imaginaram por muito tempo entusiasmar-se pela monarquia. A igreja e as maravilhas da velha Constituição inglesa, até que a hora do perigo lhes arrancou a confissão de que se entusiasmavam-se apenas pela renda territorial. (Marx: 355).

A sociedade burguesa não precisa necessariamente ser uma sociedade urbana. Ela pode ser uma sociedade burguesa rural do latifúndio francês e, por traços gramaticais significantes similares, por tabela, sociedade burguesa do latifúndio colonial brasileiro do engenho-de-cana-de açúcar. O Brasil fez a passagem da sociedade burguesa, especificamente, rural, para a sociedade burguesa caipira-urbano paulista após a abolição da escravatura?  

                                                                         II 

No livro Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda acaba com o capítulo VII – Nossa Revolução       

O hiper-erudito historiador em alta cultura alemã weberiana S.B.H. é um historiador da USP sem a investigação necessária empírica (e o mínimo conhecimento da ciência do real da revolução de Marx) para dizer algo confiável sobre revolução no Brasil. Socialdemocrata da modernidade tropicalista da segunda metade do século XX, portanto, antes da socialdemocracia europeia, Sérgio diz a grande besteira da nossa historiografia sobre a revolução brasileira:
“Se a data da Abolição marca no Brasil o fim do predomínio agrário, o quadro político instituído no seguinte quer responder à conveniência de uma forma adequada à nova composição social. Existe um elo secreto estabelecendo entre esses dois acontecimentos e numerosos outros uma revolução lenta, mas segura e concertada, a única que, rigorosamente, temos experimentada em toda a nossa vida nacional”. (Holanda: 126).   

O sério cientista freudiano da política brasileira Manoel Bomfim e crítico das ideologias políticas brasileiras, no final da década em 1920, diz sobre a Revolução no Brasil:
“Fecha-se, com a dissolução, um entreato, da longa força – A Independência do Brasil. Segue-se o 4°Ato -  Reconciliação oficial no domínio dos Bragança, ato que se abre com a revolução republicana de Pernambuco. Finalmente os homens da Confederação do Equador foram esmagados”. (Bomfim: 79). 

A física gramatical do real da política não ignora que a história brasileira foi forjada com rios de sangue pelas maquinas de guerra e atores hobbesianos de um campo de poder gramatical em narração do português, desde o século XIX.

O domínio da Língua portuguesa na subjetividade territorial nacional se faz com banhos de sangue, ossos destroçados, dentes arrancados, e carne rasgada e deixada para apodrecer à céu aberto da política brasileira.

Vejam o que diz a nossa extraordinária tradutora (do inglês para o português) Lia Wyler: que tem uma escrita dotada de encantos mil primorosos, que funda a nossa gramática da modernidade hipertardia, que deveria ser usada para ensinar nossa língua na escola pública, se o Brasil se houvesse um mínimo de bom senso e ouvidos desejosos e curiosos:
“A longo prazo tais imigrações também terão contribuído para a disseminação de uma língua franca ou geral de base tupi por todo o território colonial, e para sua persistência até o século XVIII, quando um decreto de dom José, rei e Portugal, proibiu o seu uso”. (Wyler: 31).

Lia é a primeira tradutora que faz ciência da tradução do real da política brasileira, pois, no discurso de Wyler, a língua em narrativa gramatical é um ente/ator kantiano do campo de poder/saber em narrativa machadiano. Assim, o campo de poder imperial muda com a consolidação nacional tardia da língua portuguesa na década de 1820:
“Até quase a segunda metade do século XX a tradução escrita teve predominantemente o caráter de exercício acadêmico ou prazeroso e de ocupação temporária para as elites intelectualizadas. Concorreram para construir e prolongar tal situação, além da consolidação tardia do português como língua nacional (1823), as políticas aplicadas no Brasil pela metrópole portuguesa com relação à educação e à imprensa”. (Wyler: 51).           
                
                                                                      AINDA, MAIS - Sérgio
A revolução Isabel luso-brasileira é, para Sérgio B., spaultung do mundo rural da fazenda de café paulista?
Ele diz:
“A grande revolução brasileira não é um fato que se registrasse em um instante preciso; é antes um processo demorado e que vem durando pelo menos há três quartos de século”. (Holanda: 127).
A revolução é a passagem do domínio da fazenda de café paulista para a burguesia urbana paulista?
Ele diz:
“E efetivamente daí por diante estava melhor preparado o terreno para um novo sistema, com seu centro de gravidade não já nos domínios rurais, mas nos centros urbanos”. (Holanda: 127).
Hoje, o modo coronelista moderno asiático tem o domínio do Congresso!
 Centros urbanos significa São Paulo e Rio e o desejo sexual paulista de tomar – por via econômica da formação de uma sociedade burguesa urbana dos ricos associados – o poder subjetivo/objetivo simbólico nacional da capital do Império e da República – ou seja, o poder nacional da polis carioca - carinhosamente na memória gramatical do povo brasileiro designada: tambor do Brasil.
A polis carioca era esse sujeito gramatical freudiano tambor do Brasil, o objeto a lacaniano, isto é, o objeto de desejo lacaniano desejado que faltava para estabelecer a subjetividade territorial paulista como nacional.   

 S. B vê na dialética urbano versus rural a panaceia para explicar a acumulação do mal/pathos/gozo do poder da elite quase nacional brasileira-bragantina patrícia, que na República adquire a forma política acalentada, latente, ao longo do Império, de bando republicano ersatz gramatical sgrammaticatura:
“ Com a República que se faz para o Brasil, os sucessivos chefes de Estado, ainda não resultem de nenhuma legítima campanha eleitoral, são, no poder, ostensivos chefes de bando”. (Bomfim: 509).

A classe política republicana não é um efeito, um ator hobbesiano como efeito da soberania popular. 

Este fenômeno não resume o mal republicano brasileiro?

Rigorosamente, o significante classe política nacional republicana (da Teoria das elites/Gramsci) da Revolução Americana e da Revolução Francesa é falta gramatical consistente no real do seer da sociedade burguesa em toda a nossa história.

De fato, ele existe somente como um significante literário ficcional. Ele é uma personagem (não um ator hobbesiano real) da narrativa romanceada do discurso do político do jornalista fazendo pendant com a velha ciência política do americanismo e dos políticos profissionais de Brasília: políticos versados na arte da retórica do Padre Antônio Vieira, arte vieirense usada às avessas: contra os de baixo – é claro!
                                                                       III

Aliás, gozo do poder é um significante gramatical freudiano (extraído da alta cultura grega da antiguidade) que pode jogar uma luz intensa sobre o nosso campo de poder/saber em narração da atualidade:
Já Políbio havia acentuado: ‘Todo Estado contém em si mesmo o germe da corrupção’. Mais explícito, ele diria: O uso do poder acaba corrompendo, porque os bons aí aprendem um novo gozo – o mando; os maus agravam a maldade nesse gozo: e, uns e outros, a ele tudo sacrificam”. (Bomfim: 189).

O gozo freudiano do poder é o motor da “classe política nacional ficcional” (da era do bolivariano) subdividida (no real da realidade dos fatos políticos) em bandos republicanos niilistas burgueses ao fazer pendant com um outro gozo milenar freudiano, a saber: aura sacra fames.      

Hoje, a Revolução Brasileira consiste em resolver tal problema historial cultural político econômico.
Há a menor possibilidade da passagem da estrutura do inconsciente do discurso do mitológico bando republicano burguês senhorial do modo de produção coronelista asiático (Senhor do domínio do Congresso, do governo federal, da política local das grandes capitais, da política nacional em Brasília e do discurso do político do juiz do STF) para a história da soberania de uma classe política nacional gramaticalmente capitalista como tal?  

Enfim, trata-se de ir mais adiante da dialética rural/urbano, pois, uma forma hegeliana de consciência (Inwood: 152) passou a dominar a política brasileira do século XX até hoje. Trata-se da política burguesa fática do caipira/urbano. 

Tal fenômeno é junção, ou melhor, sintetização do urbano com o rural na grande cidade, em uma unidade de sentido gramatical que domina a nossa política como tal, até agora. A dialética rural versus urbano é atropelada pela transdialética da sintetização urbano e rural.

A dialética (urbano versus rural, cidade versus campo) encontrava tal forma-síntese (Gestalten) política rural-urbano, no espaço da política do Estado nacional de Brasília, onde a política real do coronelato moderno pró-asiático se expressava como bando burguês do coronel moderno, ao dividir o poder nacional com o político burguês do sudeste da modernidade caída de 12 andares.

A modernidade e modernização da cultura da política nacional (criada e recriada por Raúl Prebisch, Celso Furtado,  Fernando Henrique, tela musical da  bossa nova , do tropicalismo, da jovem guarda, do cinema de Glauber Rocha, cinema novo etc., movimento da arquitetura modernista, poesia concreta e neoconcreta) produziu diretamente como efeito político colateral deletério o Estado militar liberal 1964 - subtraído da nossa sociedade nacional burguesa senhorial pelo Estado militar 1968 nazista do general Médici e do general Geisel. .

Após a longa noite de domínio absolutista dos generais nazistas, a democracia liberal 1988 se organizou por um ersatz de gramática do bolivariano internacionalista FHC, Lula e o PT.

FHC é o internacionalismo medroso, cheio de cautela e temor do passo a dar na desterritorialização da gramática de nossa subjetividade nacional populista aristocrática - manifesta como pesadelo no cérebro dos vivos (onde o nazismo dorme o sono dos justos) do Sul do Brazil.  
                                                              IV      


Em uma leitura generosamente relaxada, de aluno relapso, a dialética de S.B.H pode contemplar a história do Brasil até a década de 1980. Depois dessa década, tal dialética tornou a sombra sem corpo político real, corpo fantasmático persistente em um gozo inteiramente desfigurado em relação ao gozo freudiano traduzido para a política brasileira por Bomfim.

Então, a  prophtasia do gozo da classe dirigente do burguês do capitalismo tout court , isto é, o fantasma do futuro lacaniano do domínio rural sintetizado com o urbano (desejando , sem tragédia, uma sociedade capitalista do campo sintetizada com a sociedade do burguês da cidade), onde o capitalista agrário-urbano como tal subtrairia, sem dramalhão - na sintetização - o poder nacional do burguês caipira/urbano subindustrial paulista no comando da economia brasileira, misteriosamente, não acontece.

É verdade que a sociedade capitalista brasileira rural (do Centro-Oeste) não se moveu para tomar o domínio ideológico da cultura da política econômica (sustentado pelo jornal o Estado de São Paulo, Grupo Globo e TV Cultura, ambas constituindo a sociedade de espetáculo virtual eletrônica nacional) do sudeste do país para si.

Tal fenômeno desta realidade transdialética material gerou o efeito de uma classe política capitalista rural gramatical se tornar um efeito da política real que domina o senado. Ela se deixou enfeitiçar pelo magister ludi de um bolivarianismo burguês moderno que (após, o dilúvio que arrastou o bolivariano para as calendas gregas) se passou com mala e cuia às legiões negras neosalazarista dos jogos vulgares, pueris, da linguagem política do paulista sem cidadania gramatical ideológica paulista: o sr. FHC.

 A falta de cidadania ideológica burguesa do pequeno-burguês moderno universitário mais carioca do que paulista, eis uma explicação Verossímil para FHC ter sido presidente da infeliz e criminosa gramaticalmente historial república brasileira, e, ter sido, também, derrotado pelo engraçado professor de português, de uma escola municipal, o sr.  Jânio Quadros, na eleição à prefeitura da capital do Estado de São Paulo, em 1985.

Jânio era um paulista da gema pauliceia desvairada, pois, mandou desinfetar a poltrona de prefeito, pois, na véspera da eleição, enganado pela subindústria dos institutos de pesquisa paulista (que declararam FHC eleito), esse mesmo FHC figurão do mundo intelectual da USP e Sorbone, com toda a sua arrogância narcísica patológica, se fez fotografa e filmar (em furo de reportagem do jornal Folha de São Paulo, furo  compartilhado pelo jornal Estado de São Paulo e Grupo Globo) sentado escarranchado  na poltrona do prefeito, como se essa fosse a poltrona privativa de seu salão de sua casa paulista, acolhedoramente, pequeno-burguesa universitária pouco séria!                 

                                                           Pegando de novo o fio da meada urbano versus rural

O texto da dialética obsoleta do antigo catedrático amigo de FHC, o sr. S. B. em história da USP é assim:
“Em verdade podemos considerar dois movimentos simultâneos e convergentes através de toda a nossa evolução histórica: um tendente a dilatar a ação das comunidades urbanas e o outro que restringe a influência dos centros rurais, transformados, ao cabo, em simples fontes abastecedoras, em colônias das cidades. Se fatores especiais favoreceram o primeiro desses movimentos, não há dúvida que ele só se acentuou definitivamente com a perda de resistência do agrarismo, antes soberano, e, depois, com o definhamento das condições que estimularam a formação entre nós de uma aristocracia rural poderosa e de organização não urbana dotadas de economia autônoma”. (Holanda: 128)



Meu comentário a S.B.H é capaz de alterar a tela gramatical teológica do entendimento hegeliano sobre a sociedade da modernidade brasileira?

 O entendimento hegeliano significa que a autoconsciência de um povo fez a passagem – na subjetividade territorial de uma nação em direção à revolução – das 3 formas e/ou configurações (Gestalten): a) CONSCIÊNCIA OU CERTEZA SENSÍVEL (saber gramatical imediato de dados sensíveis da política revolucionária capitalista, vistos simplesmente como indivíduos a ser referidos ou apontados; b) PERCEPÇÃO (saber gramaticalmente mediado do significante revolução capitalista -como dados sensíveis à flor da pele gramatical do povo como COISAS (Dings) com propriedades; c) ENTENDIMENTO (saber gramatical das coisas como manifestação de FORÇAS e como aparência – ERSCHEINUNG – governada por leis. (Inwood: 79)

Hoje não se constitui no real - onde o seer do ente da política nacional se forma - a tela gramatical física do entendimento hegeliano do Brasil?      

A sociedade burguesa é uma manifestação de FORÇAS e como aparência governada por leis gramaticais (razão gramatical) distinta da sociedade capitalista. Há, então, a “classe política” capitalista rural/urbana, cansada, amuada, possuída por uma consciência infeliz de sua condição de escrava da “classe política” burguesa SP/RIO. Enfim, tal classe capitalista exaurida de tanto seer dominada pelo pensamento sem pensamento da sociedade burguesa do Sudeste sem capitalismo (repito: que governa o pais através da “classe política” capitalista infeliz do centro-oeste), hoje, continua ajoelhando e rezando pela ideologia econômica louca dos economistas cariocas e paulistas da sociedade burguesa dos ricos associados senhorialmente modernos, urbano-caipira.                     
                                                            VI
No livro O que se deve ler para conhecer o Brasil, Nelson Wernek Sodré fez a abordagem feliz desse problema aqui mencionado. O Brasil tem uma sociedade burguesa sem capitalismo?
Nelson Sodré assinala que não houve sociedade de classes capitalista no Brasil:
“ A euforia transitória da exploração gomífera amazônica desemboca em verdadeiro desastre. Nele, entretanto, os comentaristas do tempo verificam apenas o fato de saída clandestina de mudas de seringueira, quando o problema estava na incapacidade de competir o Brasil com qualquer região em que se estabelecessem normas capitalistas de produção”. (Sodré: 182).

Sodré não uso a expressão sociedade de classes burguesa. Porém, sua descrição do Brasil da República Velha corresponde ao significante tecnicamente com força de realidade: sociedade burguesa de classes econômicas. Trata-se da passagem da sociedade de classes senhorial rural para a sociedade de classes urbana burguesa:
“ No fundo a vida brasileira evolui lenta e inexoravelmente no sentido de alterar esse domínio (da sociedade de classe senhorial rural). Cresce o mercado interno, alimentando uma indústria que vive muito mais dele do que da pauta alfandegária e começa a encontrar um lugar específico na estrutura econômica. Desdobram-se as comunicações, estabelecendo contato entre vastas zonas do país. O proletariado esboça organizações muito mais de caráter associativo e beneficente do que de caráter político. E o comércio externo continua a pautar o desenvolvimento do País, aberto inteiramente à penetração de capitais estrangeiros e desprovidos totalmente de defesa ante a exaustão que representam os seus lucros remetidos para o exterior. Dominando, preferencialmente, setores fundamentais da estrutura econômica, o dos transportes, o da energia elétrica, o dos serviços urbanos, esses capitais vivem em perfeita harmonia com a classe dominante, que com eles troca vantagens e reparte lucros. O Brasil é uma vasta fazenda tropical, produtora de matérias-primas, cujos preços jamais alcançam estabilidade, consumidora de produtos acabados, representando um mercado de crescente importância”. (Sodré: 180-181).

Os dois trechos supracitados de Sodré dizem que durante a República Velha (três primeiras décadas do século XX), o Brasil se constitui como uma sociedade de classe burguesa sem capitalismo:  uma continental fazenda tropical tropicalista.            

Se formos até a já longínqua discussão da sociologia da sociedade de classes de Marx, verifica-se que Marx fala em sociedade capitalista e Estado burguês. Viajo em direção a um retorno a Marx, porém não se trata de um retorno filosófico ou epistemológico. E sim de um retorno gramatical em narração theologica racionalis materialis.

A literatura marxista é um vasto campo de saber escrito, depositado em inúmeras bibliotecas, e instituições culturais outras, ao redor do planeta, em muitas línguas naturais e artificiais (assim como a literatura marxista latino-americana). Mas o marxismo viu se desfazer toda sua ligação real com a realidade, na medida em que ele se esfarelou, na sociedade de classes do burguês ou do capitalista, como força prática ideológica de transformação da realidade da política mundial.

Na era do domínio do homo bureaucratic ideologicis, tal força prática bürokratisck usa a coerção simbólica institucional sem limite do saber universitário sem limite como um modo de produção de ideias bürokratisch sociológicas normativas bürokratisch . A normalização bürokratisch da sociologia pôs tal campo de conhecimento em um colapso iminente institucional

Com seu conceito de capital cultural, Bourdieu prepara o terreno, a partir da ideia de autonomização do campo burocrático (Bourdieu: 44), para a sociologia gramatical insistir na ideia de capital cultural bürokratisch. E daí, subjetivar o significante modo de produção do burguês bürokratisch e modo de produção do capitalista bürokratisch.

 Lacan concebeu o discurso do político do bürokratie como um fenômeno arrebatador no século XX e XXI. (Lacan. S. XVII: 34).  

Daí a sociedade de classe sociais adquire uma outra forma cultural da política. Ela é o efeito da gramática em narração (ou ideológica, ou teológica) A primeira sociedade bürokratisch é aquela do modo de produção asiático. Maurício Tragtenberg pensou, com outros europeus, em um modo especificamente bürokratisch moderno em pleno século XX:
  “Definimos que a URSS assisti a uma formação econômica-social onde se dá um coletivismo burocrático, onde a burocracia detém o monopólio econômico e político dos meios de produção e dominação, eis que, o modelo weberiano para o qual a burocracia se esgota como organização formal, não explica situações em que a burocracia não é agente dos detentores do poder econômico – como sob o capitalismo – mas, definida como um poder econômico e politicamente dominante”. (Tragtenberg: 189).

O problema maior é abandonar a língua do realismo cientificismo (que ignora o Simbólico lacaniano) ao falar de sociedade bürokratisch.

É preciso partir da relação entre natureza e cultura como espaço simbólico. Não há fala sem linguagem. O escravo é o animal cuja fala tem um limite: o sujeito gramatical maître. O Homem livre é aquele humano que não fala para o maître, e sim para a politeia.  

O escravo é o efeito de uma sociedade do súbdito. O homem livre é o efeito da sociedade do dito. Na sociedade dos escravos, o escravo é a coisa da comunicação do subdizer; ao contrário, na sociedade do homem livre e normal impera o dizer da fala entre homens da politeia.

Descendo para a relação natureza animal sem fala, Lacan diferencia a sociedade em sociedade animal (sem língua) e sociedade humana, pois, baseada na língua. (Lacan. 1966: 415).

Posso seguir e dizer que há, então, a sociedade com gramática em narração de uma língua x, y ou z. E que a sociologia tradicional, mais usual, imagina a sociedade como uma coleção de indivíduos, pessoas e instituições e relações sem gramática. 

Então, a sociedade bürokratisch é a sociedade gramatical em narração   bürokratisch  ideológica (sociedade da URSS) ou theologica naturalis, como foi a sociedade bürokratisch europeia da Idade Média.  

Podemos restaurar a pedra filosofal do campo sociológico do debate em tela citando o marxista ocidental Décio Saes:
“O que é o Estado burguês? Não vamos aqui, propor uma definição sintética, para a seguir desagregá-la em etapas sucessivas. Nosso ponto de partida é a proposição de dois enunciados distintos: a) o Estado burguês organiza de um modo particular a dominação de classe; b) o Estado burguês corresponde a relações de produção capitalista”. (Saes: 19).

N. Sodré diz que há sociedade burguesa e sociedade capitalista. Nicos Poulantzas diz que a sociedade capitalista (relações de produção sociais da divisão do trabalho da grande fábrica e forças produtivas especificamente capitalistas) faz pendant com o Estado capitalista:
Ce premier caractère de lEtat capitaliste relève de l’autonomie spécifique, dans les formations capitalistes, de la lutte politique et da lutte économique, du pouvoir politique et du pouvoir économique, des intérêts économiques de classe et de intérêts politiques de classe. L’Etat capitaliste, à direction hégémonique de classe, représente non pas directemant les intérêts économiques des classes dominantes, mais leurs intérêts politiques: il est le centre du pouvoir politique des classes dominantes en étant le fateur d’organisation de leur lutte politique”. (Poulantzas: 9)

A gramática de tal Estado capitalista é a língua marxista ocidental parisiense em narração ideológica ocidental estruturalista.

Trata-se de uma sociedade capitalista estruturalista à qual corresponde um Estado capitalista estruturalista.

Outros pensadores europeus (parisienses, londrinos) e americanos julgaram que o significante   sociedade bürokratisch havia invadido o real do seer das nações, em reprodução ampliada planetária, partir da década de 1960.

Então, talvez, devêssemos metabolizar a diferença entre  sociedade  bürokratisch do capitalista e sociedade bürokratisch do burguês como o traço gramatical mais significante do  desenvolvimento desigual e combinado da vida atual da parte do mundo que controla a política gramatical planetária.

BOURDIEU, Pierre. Raisons pratiques. Sur la théorie de l’action. Paris: Seuil, 1994
BOMFIM, Manoel. O Brasil nação. Realidade da soberania brasileira. RJ: TOPBOOKS, 1996
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. RJ: José Olympio, 1989
INWOOD, Michael. Dicionário Hegel. RJ: Jorge Zahar, 1997
LACAN, Jacques. Écrits. Paris: Seuil, 1966
LACAN, Jacques. Le Seminaire. Livre XVII. L’envers de laa psychanalyse. Paris: Seuil, 1991
MARX E ENGELS. Obras Ecogidas de Marx e Engels. Tomo I. Madrid: Editorial Fundamentos, 1975
MARX. Pensadores. SP: Abril Cultural, 1974
POULANTZAS, Nicos. Pouvoir politique et classes socialis. v. II. Paris: Maspero, 1975
SAES, Décio. Estado e democracia. Ensaios teóricos. Coleção Trajetória. Campinas: UNICAMP. IFCH, Sem Data.
SODRÉ, Nelson Werneck. O que se deve ler para conhecer o Brasil. RJ: Centro brasileiro de pesquisas educacionais. INEP. Ministério da Educação e Cultura, 1960
TRAGTENBERG, Maurício. Burocracia e ideologia. SP: Ática, 1977
WYLER, Lia. Línguas, poetas e bacharéis. Uma crônica da tradução no Brasil. RJ: Rocco, 2003       






  










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