segunda-feira, 7 de novembro de 2016

TEOLOGIA POLÍTICA FURTA-COR - DO QUARUP AO DEUS MORTAL

TEOLOGIA POLÍTICA FURTA-COR – DO QUARUP AO DEUS MORTAL


José Paulo Bandeira 
                                                                              I
Na história europeia da sociedade industrial do século XIX, uma sociedade burguesa opulenta de ricos associado contrastava a olho nu com o estado de miséria das massas urbanas. Em 1848, Marx e Engels criaram o Partido em Filosofia Comunista. 

No romance Quarup de Antônio Calado, o comunismo é o Partido comunista popular planetário. Não se trata de um simples fenômeno político, mas do Príncipe em teologia materialista da gente pobre:
“          - Responda você antes – disse Dom Anselmo -: o comunismo vai ou não tomar conta da terra?
            - Parece que o Partido está crescendo – disse Nando. 
            – Pelo menos vegetativamente. O senhor sabe, Dom Anselmo, é coisa animadora dizer à gente pobre que vai ser distribuído entre todos o dinheiro que hoje está nas mãos de alguns. Esta é imagem popular do comunismo”. (Calado: 41).        

                                                                           II

Ao lado da miséria material, a miséria espiritual das massas tornou-se o problema ‘social”. Em 1818, Léonard Simonde de Sismondi formulou, mais claramente, os princípios da economia política social (versão secular da economia solidária cristã). Marx viu aí uma simples economia política vulgar. 

A consciência de classe da sociedade burguesa dos ricos associados via na questão social da miséria das massas o espectro terrorista da identidade classe trabalhadora/classe perigosa. O Estado policial liberal tratava tal identidade espectral como um problema de polícia, ou seja, para ser resolvido pelo uso real da violência sem limite do Estado heteróclito policial liberal. A questão social era um problema que encontrava sua solução no uso da violência real sem limite do Estado policial (como comitê central da sociedade burguesa liberal dos ricos) sobre as massas urbanas. 

A sociedade dos ricos associados metabolizou Os Miseráveis de Victor Hugo?  É uma época que a política acontecia, também, através da tela gramatical literária como tal. E nesta tela da gramática da sociedade industrial capitalista, a lutas de classes passou para o proscênio da tela gramatical da política burguesa europeia. 

Claro que Marx e Engels fizeram da luta de classes um ente do ente do ser da língua alemão em narração comunista. Tal fato significou para a sociedade burguesa europeia que a política burguesa não podia mais permanecer como o jardim-de-infância da política representativa liberal. Também, a sociedade burguesa dos ricos associados perdeu aquela aura de jardim do Éden sexual hipócrita. 

Havia passado o tempo dos Naville, Bastiat ou Dunoyer, que se não eram cegos diante da miséria, se alinhavam com os intelectuais burgueses na proclamação em alto e bom som, seguindo a teologia política econômica burguesa. Trata-se da teologia burguesa que fala de um objeto divino: a matéria metafísica da modernidade econômica ou melhor, da sociedade de mercadoria capitalista industrial. 

A sociedade industrial da modernidade provocou um choque na teologia cristã (falar de Deus) com a questão social. A fala conservadora cristã da Igreja católica (expressão da sociedade dos ricos oligárquicos do mundo rural) de uma intervenção a favor dos “pobres” pela prática milenar caritas (e pela adesão mequetrefe à economia solidária moderna), nas paróquias e igrejas, tornou-se um excrecência que perdeu quase toda a sua força de realidade teológica pastoral divina de conduzir rebanhos cristãos (sujeito grau zero comunista).

Dessa conjuntura gramatical política nebulosa surge a economia solidária e, mais, tarde, o Estado social fazendo pendant como o Estado policial liberal. O Estado social burguês suprassumia a ideologia política dos poetas da moralização dos miseráveis e, se batia abertamente, contra os partidários do uso da violência real nas lutas entre a sociedade burguesa dos ricos e a classe operária e seus intelectuais burgueses enjeitados”, catapultados para fora do convívio das instituições dos ricos associado, especialmente, a fração burguesa alemã do socialismo científico. 

O Estado social é uma emanação direta do Estado-nação europeu, que, se tornou, no século XX, pelas mãos do socialismo revolucionário da luta de classe do século XIX (convertido em social democracia) em Estado nacional do Bem-Estar para os trabalhadores manuais e intelectuais. 

A tela gramatical da sociedade europeia dessa era social democrata europeia (e Americana) fez a política mundial ser dominada pelo objeto de desejo sexual igualdade econômica/social. Na América, o partido democrata encarnou tal desejo sexual tremendamente sedutor. E na América Latina, qual ator/massas simbólicas abraçou a luta pela igualdade econômica/social? Luta associada ao Estado social do século XX.

Agora, está claro que o PSDB de FHC é bolivarianismo burguês da sociedade dos ricos associados da sociedade burguesa sem capitalismo. Ele é uma força necessária (de vivência convicta) para a destruição do Estado social populista (criado por Getúlio Vargas fazendo pendant com o Estado social criado pelo comunismo bolivariano do PT/Lula. A PEC 241/2016 é a expressão do bolivarianismo burguês de FHC e do PSDB. 

Sob o domínio do bloco de poder parlamentar PMDB/PSDB, a Câmara aprova a PEC do Teto dos Gastos Públicos em 2º turno, em 26/10/2016. Agora, ela será aprovada irrevogavelmente pelo Senado, que tem como chefe o cavaleiro cristão do sertão Renan Calheiros do PMDB, de um minúsculo estado (sob domínio da sociedade burguesa oligárquica) da Nação: Alagoas.   

O PMDB e o PSDB agem para estruir o Estado social brasileiro da gente pobre! Eles acreditam que destruindo tal Estado farão retornar o esplendor, para os ricos do eixo Rio/São Paulo, do subcapitalimo colonial capitalismo dependente e associado da sociologia política de FHC.         
                                                                                                                                     
                                                                            III

Antônio Calado foi um jornalista, romancista e dramaturgo, formado em advocacia, nascido em Niterói, em 1917. Ele é conhecido pelo romance Quarup
O romance é a língua portuguesa em narrativa realista do padre Nando, depois amante, guerrilheiro e mártir. O romance é sobre o ocaso da era populista como tal aristocrática da fazenda/estância sulista de Getúlio a João Goulart.  

O romance não se refere ao Estado social populista, mas, fala de um Partido em comunismo sem vontade de potência gramatical de se envolver em uma revolução teológica comunista.

Quando a sociedade burguesa dos ricos associados do Rio/São Paulo levou Getúlio ao suicídio, No Xingu, um militante do PCB é pintado como alguém dado a bazófias:
“    - O velho renunciou, não tem negócio de licença não. Agora é o Café Filho. 
       - Umas pústulas – disse Octávio. – Vamos pegar o bote, Falua, que a revolução começou. 
       - Mas Sônia? – disse o Falua. – Não encontro Sônia. 
        - Nem eu – disse Ramiro. – Procurei ela agora mesmo.
        - Sôoooonia! – berrou Falua. – Sônia!” (Calado: 197). 
A narração continua sardônica com o PCB:
“        - Endoidou – disse o Falua atônito. – E você também, Fontoura. Que ideia é esta de Sônia                                       fugindo com índio?
         - Processada – disse Fontoura. 
          - Falua, vamos, - disse Octávio. – Este avião não chega nunca. Vamos para o Rio. É seu dever de jornalista. É nosso dever de homem. 
           - Sônia – berrou o Falua.
            - Vamos para a revolução – disse Octávio, sacudindo o Falua.
             -  A revolução que se foda – disse Falua. – Sônia, meu amor! So-ni-à! ” (Calado: 198).

No golpe militar/udenista de Estado em João Goulart, em março de 1964, o comunista do PCB Octávio não sabe que sabe que a guerra de guerrilha urbana e rural é a resposta do real que vem de um ator hobbesiano. Trata-se da juventude comunista universitária carioca e paulista (e de outras capitais) cansada e desiludida com a política burguesa do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e da esquerda populista como tal:
“            - É a agulha entre os novelos – disse Djamil.
              - O camarada Prestes não vê nada de enovelado na situação – falou Jorge. Você viu o discurso dele na ABI? Acha que a revolução brasileira encontrou agora o seu caminho. Para ele o Comício da Central é o início dos grandes dias. O comício é o nosso encouraçado Potemkim. Aliás, Potiomkin. 
              Octávio resmungou alguma coisa.
              - O que é, Octávio? – disse Nando.
              - Eu estava pensando numa história que o Padre Gonçalo me contou, não sei se para me agradar ou para o contrário. Disse que quando fundava o Sindicato de Vitória e garantia que todos os camponeses eram livres politicamente e religiosamente, um velhinho foi ao fundo da sua horta desenterrar uma botija. O tesouro que achava que podia restituir à luz do dia eram duas fotografias amareladas, uma do Padre Cícero e outra de Luís Carlos Prestes.
              - Ué – disse Jorge -, Padre Gonçalo só pode ter achado que a história era melhor para nós do que para a Igreja. O líder comunista nacional entrando assim na consciência religiosa de nosso camponês é bom sintoma para o Partido.
             -  O diabo – disse Octávio – é que o camponês imagina que tanto o Padre como o Prestes tinham morrido.
            - Ora, besteiras! – disse Jorge. – O importante é o líder comunista vivo na imaginação do povo. Você mesmo diz, Octávio, que agora é que a Coluna está chegando às cidades do Brasil.
            - A uma cidade - disse Octávio. – Esta. E palavra que tenho medo das notícias que vêm do Sul. Meio milhão de pessoas na Marcha de São Paulo contra o Jango!
            - Meio milhão de grã-finos – disse Djamil.
            - Não há meio milhão de grã-finos – disse Octávio. – As esquerdas estão falando, falando, falando e não sei se têm o muque para aguentar a falação. É a falação no CGT, na CNTI, na UNE, nos Trabalhadores Intelectuais, no PC, na Frente de Mobilização Popular, no Sindicato dos Metalúrgicos, na Associação dos Marinheiros. Falação assim é significativa quando é contra alguma autoridade, quando há repressão”. (Calado: 337).

O poder de Estado era possuído pelo governo João Goulart.            

                                                                  IV

Prestes era um entusiasta defensor da revolução populista/comunista do governo João Goulart. De fato, Prestes submetera-se, e ao PCB, a ser linha auxiliar da política burguesa populista do governo João Goulart, que queria se eleger presidente da República na eleição presidencial de 1965. 

Tal fato não foi esquecido pela Partido em teologia comunista derrotado na conjuntura da guerra aberta de guerrilha contra o Estado militar. Quando tal Partido em comunismo retomou a luta legal contra o Estado militar, ele veio se pôr e expor como uma força legal de fundação do PT junto com Lula, sindicalistas de esquerda (que criaram a CUT) e padres comunistas da Teologia da Libertação. 

O bolivariano é o sincretismo teológico populismo janguista/comunismo de Prestes/comunismo guerrilheiro laico/cristão da cidade e do campo. Porém, a primeira letra da tela gramatical teológica bolivariana em linguagem não-científica foi doada pelo comunista baiano Glauber Rocha, em sua película Terra em Transe (1967). A segunda letra é musical. Sob o choque teológico político revolucionário do filme de Glauber, Caetano, Gil, Tom Zé e Capinam criaram a tela gramatical teológica musical do bolivariano.     

Houve uma real conversão teológica política do bolivariano comunista janguista em Partido da social democracia a europeia? O PT se tornou a social democracia de esquerda, enquanto o PSDB é a social democracia na direção direta direita? 

Todos os meus leitores sabem que Fernando Henrique Cardoso criou a linguagem científica do bolivarianismo burguês (da sociedade dos ricos associados Rio/SP) em seu livro Dependência e desenvolvimento na América Latina (1970). Antes dele, o bolivarianismo marxista é um fenômeno americano da década de 1950. Trata-se do livro A economia política do desenvolvimento (1957), de Paul Baran. É Baran fazendo pendant com a discussão da década de 1940 do argentino Raúl Prebisch e do nordestino Celso Furtado sobre a possibilidade de criar uma sociedade industrial da modernidade na América Latina.

Na década de 1970, Celso Furtado publicou Criatividade e dependência na civilização industrial (1978). Neste livro encontra-se a gramática do Príncipe populista marxista industrial da sociedade da civilização do capital mundial. Tal gramática sertaneja de Pombal (Paraíba) estabelecia um confronto aberto, sem ambiguidade, com o Trans-sujeito industrial do americanismo, do industrialismo negro (industrialismo do Diabo alemão do romantismo de Goethe como americanismo, após a II Guerra Mundial). 

Furtado pensa a tela gramatical da modernidade weberiana gerada por uma revolução burguesa no território das formas de consciência que substitui a tela gramatical lúdica do Renascimento. Trata-se, portanto, de uma tela gramatical weberiana da sociedade burguesa sem capital industrial da modernidade de Marx, ou melhor, sem a sociedade de mercado capitalista do americanismo industrial:
“ O avanço do horizonte cognitivo que conheceram outras épocas conduziu a um círculo fechado sem consequências maiores. Assim ocorreu com o pensamento escolástico medieval e também com o pensamento mulçumano na Espanha do século XII. Grande parte das elucubrações dos homens da Renascença eram de caráter lúdico: as famosas invenções de técnicas de Leonardo foram por ele conservadas em segredo e se passariam alguns séculos antes que fossem dadas a público. Foi a nova visão de mundo surgida com a burguesia que valorizou o acervo de novos conhecimentos, ao mesmo tempo que o desenvolvimento dos novos conhecimentos consolidava e aprofundava essa visão de mundo. A revolução científica do século XVII já traz em si elementos avançados da referida convergência. Desde sua origem, a ciência moderna está ligada à ideia de acumulação de conhecimentos que permitam ao homem aumentar sua capacidade de ação; portanto, responde aos requerimentos de uma civilização que tende inexoravelmente a transformar o mundo físico. Contudo, somente avançado o século XIX se cumprirá cabalmente a convergência, ao transformar-se a ciência no instrumento privilegiado da acumulação”. (Furtado: 192-193). 

No trecho supracitado, nosso querido escritor de Pombal pensa apenas a associação do capital da modernidade marxista com a ciência e a técnica capitalista como choque teológico econômico na Europa, e, também, como Spaltung na physis da história universal das civilizações. Acredito ser isso suficiente para o leitor perder um tempo de sua vida lendo o livro em tela.                         

O livro é um escândalo literário, pois, Celso era considerado um magister ludi da economia política heterodoxa burguesa como expressão canhota da sociedade dos ricos associados Rio/SP.  O uso do marxismo levou Celso a dizer - sou marxista ou não sou marxista? Como ministro da Cultura do autocrático maranhense governo José Ribamar Sarney (Sir Ney), Furtado está associado à publicação de um livro para ser lido por um único leitor: Sir Ney. Trata-se de um livro vergonhoso, de auto humilhação penitente (dirigido, especialmente para Sir Ney) daquele que havia criado o Príncipe populista marxista do industrialismo rosa! 

Meu Príncipe marxista é o Celso Furtado que continua a ciência do real de Marx - ciência constituída na banda de Moebius (da política e do capital) física/metafísica. Celso foi o único rhetor percipio da língua de Marx em toda a América. Por quê? Porque ele sabia da consistência de um Marx metafísico do livro O capital. Celso viu a sociedade de mercado capitalista como articulada pela matéria metafísica MERCADORIA, como Marx. Mas não pode caminhar esse caminho em um ambiente marxista provinciano paulista.   

Fantasia organizada é o livro escrito para a terapia, o tratamento do “complexo de inferioridade” de Sir Ney, complexo que tem como causa o fato de Sir Ney ter nascido no Maranhão. É um livro fácil de ler. Livro pedagogicamente bem narrado. 

Celso tinha um certo conhecimento de Freud, ao ponto de trabalhar com o fenômeno econômico político tendo como motor o desejo sexual fazendo pendant com a matéria metafísica mercadoria. Meu herói intelectual Furtado sabia que a mercadoria industrial é desejada sexualmente como matéria metafísica. Ela tem a força de realidade gramatical do desejo sexual pelo ouro (que começa na civilização arcaica) ou pelo dinheiro/mercadoria da sociedade de mercadoria industrial aura sacra fames do americanismo. 

A matéria metafísica mercadoria encontra-se na gramática do significante fetichismo da mercadoria. Porém, ela se encontra também no uso da força de trabalho da equação D-M-D no processo de produção de mercadoria industrial. Ela está na gramática do modo de produção especificamente capitalista industrial da modernidade do século XXI europeu.  

A mercadoria comprada no mercado de força de trabalho gera a mais-valia (excedente capitalista) no circuito industrial D-M-D. Toda a economia universitária considera a mais-valia um conceito metafísico, um conceito sem força de realidade (sem força no REAL) na realidade dos fatos da economia mundial. Tal economia universitária burguesa submetida, voluntariamente, a uma teologia política epistêmica econômica cientificista (positivista, neoposivista e mais ainda), jamais compreendeu que o real é onde o SER se forma. Pois, tal ciência econômica é o “esquecimento do SER”

A matéria metafísica força de trabalho é o trabalhador da sociedade da industrialização que é consistente como ator comunista de um campo de poder/língua em narração hobbesiana no Real onde o SER Príncipe em filosofia comunista se formou até agora como Revolução Russa comunista, Revolução comunista chinesa e, ainda, PCL (Partido Comunista lacaniano). Aliás, tal acontecimento comunista mundial é uma balela que nada prova da consistência da matéria metafísica da economia política força de trabalho para o cientificismo burguês do século XX e XXI. Trata-se de um verdadeiro escândalo ideológico burguês já tratado como objeto verdadeiro da physis/metaphysis da sociedade capitalista industrial da modernidade, pela da ciência do real de Marx.           

Aliás, matéria metafísica mercadoria possui a força de realidade como gramática do real da realidade econômica política capitalista mundial. 

No A fantasia organizada, Celso fala da fantasia sexual freudiana que pilota todo e qualquer discurso em uma estrada real. A fantasia deixa de ser um delírio ficcional em Freud, assim: 
“Um outro processo opera de modo mais enérgico e completo. Considera a realidade como a única inimiga e a fonte de todo sofrimento, com a qual é impossível viver, de maneira que, se quisermos ser de algum modo felizes, temos de romper todas as relações com ela. O eremita rejeita o mundo e não quer saber de tratar com ele. Pode-se, porém, fazer mais do que isso; pode-se tentar recriar o mundo, em seu lugar construir um outro mundo, no qual os seus aspectos mais insuportáveis sejam eliminados e substituídos por outros mais adequados a nossos próprios desejos. Mas quem quer que, numa atitude de desafio desesperado, se lance por este caminho em busca da felicidade, geralmente não chega a nada. A realidade é demasiado forte para ele. Torna-se um louco; alguém que, a maioria das vezes, não encontra ninguém para ajudá-la a tornar real o seu delírio. Afirma-se, contudo, que cada um de nós se comporta, sob determinado aspecto, como um paranoico, corrigi algum aspecto do mundo que lhe é insuportável pela elaboração de um desejo e introduz esse delírio na realidade”. (Freud: 100).

O delírio paranoico do ator hobbesiano realizado como realmente consistente no SER da sociedade industrial mundial pode vir-a-ser a matéria metafísica do mundo:
“ Concede-se especial importância ao caso em que a tentativa de obter uma certeza de felicidade e uma proteção contra o sofrimento através de um remodelamento delirante da realidade, é efetuada em comum por um considerável número de pessoas. As religiões da humanidade devem ser classificadas entre os delírios de massa desse tipo. É desnecessário dizer que todo aquele que patilha um delírio jamais o reconhece como tal”. (Freud: 100). 

O problema de Freud é crer, ter fé, que o discurso freudiano não é um delírio paranoico de um cientista neurótico normal. Assim, ele podia tratar a metabolização por abdução alienígena da religião pela multidão (sujeito grau zero da secularização da modernidade) como um problema patológico de uma teologia política psiquiátrica. Já Lacan (seguindo Lenin) diz que a verdade do mundo é a matéria metafísica metabolizada como verdadeira pela multidão.                    
     
Prossigo na estrada real physis/metaphysis da civilização industrial de Celso Furtado.
 “Capítulo VI. A estrada real.
O mau humor de Perón não era suficiente para quebrar o charme que tinha para mim Buenos Aires. Impressionava-me a vastidão da vida cultural argentina. E também o gosto mediterrâneo pela convivência ao ar livre, o encontrar-se nas livrarias, nos teatros, nos cafés. O debate intelectual, escrito e oral, era parte do cotidiano. Assistir a uma peça de teatro ou a um filme para em seguida debatê-lo, era algo que eu vira apenas em Paris. Buenos Aires fora tradicionalmente a cidade em que de preferência se refugiara a intelligentsia latino-americana perseguida. Com a vitória do franquismo, para lá afluíra um forte contingente da intelligentsia espanhola. Muita gente encontrava trabalho na indústria editorial, que alcançara importância considerável, sendo na época o livro argentino particularmente barato. Mais da metade do que se editava em língua espanhola chegou a sair de Buenos Aires. 
Quase todo esse mundo intelectual se dizia antiperonista”. (Furtado: 82).                                   
          
                                                                        V

Na eleição municipal de 2016, o eleitorado nacional das pequenas cidades fez do PMDB o Príncipe em teologia política municipal, entre nós. O eleitorado deu sanção à PEC/2016, “que congela as despesas do Governo Federal, com cifras corrigidas pela inflação, por até 20 anos, funcionado como um freio no investimento em saúde e educação previstos na Constituição”. É uma tela heteróclita constitucional negra feita pelo PMDB/PSDB/DEM/B.B.B. (B. de bíblia evangélica negra; B. de bala do complexo industrial militar nacional negro; B. de boi da revolução demoncrática do Centro/Oeste penetrando no território negro do interior paulista). O texto da emenda, que precisa ser aprovado em mais duas votações no Senado, também tem potencial para afetar a regra de reajuste do salário mínimo oficial. 

De fato, trata-se de um ataque pusilâmine, covarde, do Estado policial burguês neoliberal que faz desmoronar a gramática do Estado social brasileiro dos pobres e da classe média simbólica estatal, ataque fulminante preparado por 3 famílias apostólicas negras (cor tradicional do Diabo em inúmeras sociedades da história das civilizações, que hoje significa passar ao largo, isto é, passar longe da vista; passar (a embarcação) sem aportar no século XXI”) da sociedade burguesa dos ricos associados RIO/SP. 

A Igreja católica foi uma força política determinante no golpe de Estado militar/udenista negro de 1964 da classe média militar negra do americanismo. Este é o motivo para o herói da narrativa do Quarup Padre Nando romper com o cristianismo da Igreja católica e ser abduzido por um fenômeno - o cristianismo primitivo do cangaço do nosso Sertão. O cristianismo sertanejo é uma máquina de guerra poiética teológica política que o físico Euclides da Cunha imortalizou em seu livro O Sertão

O trans-romance Quarup é encerrado cum grano salis de uma teologia política sertaneja cristã primitiva próprio da memória cultural política econômica do Sertão de Canudos. (“A locução latina grão de sal, traduzido literalmente, significa com um grão de sal; ela foi usada em ‘Naturalis Historia’, de Plínio, o Velho para indicar um antídoto agindo apenas se tomada, precisamente, ‘com um grão de sal’ homeopático. Não sei este comentário é preciso, porém, ela é serve para expressar o que eu quero dizer):
“ Nando ia dizer mais alguma coisa mais se calou. Se Manuel não tinha entendido ia em breve entender por si mesmo. Andavam agora num meio galope, Nando relembrando coisas da vida inteira mas sem sentir nenhuma ligação com os pensamentos e sentimentos que tivera: como homem feito que encontra um dia numa gaveta cadernos de colégio. Estava, descontínuo, leve, vivendo de minuto a minuto (talvez, sem lenço, sem documento no interior do Brasil) Só tinha como sensação de continuidade o fio de ouro de Francisca, assim mesmo porque era um fio fiado com astúcia na trama do mundo a vir. Não vinha propriamente do passado. Bateu alegre no peito com a mão direita, sustentando as rédeas na esquerda.
             - Boa essa roupa, Manuel.
               Manuel Tropeiro falou com sua ironia sem malícia:
               - Com seu perdão, Seu Nando, a roupa preta não fez o senhor padre. Esse gibão de couro não vai fazer o senhor cangaceiro não.
              Nando riu:
            - Não se assuste, Manuel. Eu agora viro qualquer coisa. 
             - Eu vou perfilhar o nome Adolfo para me esconder nele, Seu Nando. Não tem um som de gente forte? Adolfo? 
             - Você é que é forte e que vai fazer a força do nome. De qualquer nome.
              - Sempre ouvi meu pai falar num tal de Adolfo Meia-Noite, cangaceiro importante – disse Manuel. – E o seu nome qual vai ser? Já pensou? 
               - Já – disse Nando. – Meu nome vai ser Levindo. 
               - E Nando viu o fio fagulhar ligeiro entre as patas do cavalo como uma serpente de ouro em relva escura. 
                 Rio – Petrópolis – Fazenda de Santa Luísa 
                            Março de 1965 – Setembro de 1966”. (Calado: 468).          
      

TEOLOGIA POLÍTICA JPBANDEIRA (ninguém pode ser responsabilizado por meu pensamento político que leva a heresia além do confortável herege burguês) 

O problema final é a destruição da tela gramatical teológica da Constituição 1988. Trata-se da introdução do princípio homo logicus negro como ruina da matéria metafísica de tal constituição, a saber: o Estado social constitucional 1988. Este foi a Obra teológica política prima de uma classe política simbólica iluminada, agora, inconsistente, não-ser da tela gramatical da política mundial, enjeitada até pelo FMI. 

A teologia cristã é falar de Deus. Com efeito, ela começa no último minuto de suplício de Jesus na cruz. Na narrativa do evangelho primitivo cristão, Cristo destitui o Deus judeu como maître do universo da multidão da história universal com a sua frase teológica política, que significava o golpe de Estado mais divino no judaísmo: Deus, perdoai-vos, eles não sabem o que fazem. A destituição é: Deus judeu tu não sabes que eles não sabem o que fazem!   

A teologia política hobbesiana é o falar do Estado mortal, ou seja, do Estado/ Deus mortal como matéria metafísica. Marx pensou o Estado da modernidade apenas como matéria da physis da sociedade política com a sua ideia de aparelho de Estado? 

O aparelho não é uma metáfora técnica literária de um mecanismo industrial moderno. Ele é a matéria metafísica da modernidade da physis da sociedade de mercadorias industriais. Assim, a episteme política de Marx perde o equilíbrio ao comparecer no espaço público procedural europeu:
“ Tudo isso a forma derivada da palavra faz também comparecer. Deixa ser também entendido diretamente. Ora fazer também comparecer, deixar também entender e ver outra coisa, nisso está a faculdade da egklisis, pela qual a palavra, que estava de pé, perde o equilíbrio e se inclina para o lado. Por isso se chama egklisis paremphatikos. A palavra qualificativa, paremphaino, diz de modo autêntico a atitude fundamental dos gregos frente ao ente, como o consistente.

Paremphaino se encontra em Platão (Timeu 50e) num contexto importante. Investiga-se a essencialização do devir daquilo que devém. Devir significa: Vir a ser”.  (Heidegger: 93-94).
Na episteme política econômica que faz pendant com a teologia política hobbesiana, o paremphaino diz do modo autêntico da atitude fundamental de Marx frente ao ente como consistente forma Deus mortal na egklisis paremphatikos do Ser da vida brasileira política em interseção com mundo-da-vida da multidão dos pobres. Na tela gramatical marxista fazendo pendant com a teologia política hobbesiana, o Estado social constitucional 1988 é a matéria metafísica da sociedade da multidão brasileira popular:
“Feito isso a multidão unida em uma só pessoa se chama Estado, latim civitas. É esta a geração daquele grande Leviatã, ou antes, (para falar em termo mais reverentes) daquele Deus Mortal, ao qual devemos, abaixo do Deus Imortal, nossa paz e defesa. Pois, graças a esta autoridade que lhe é dada por cada indivíduo no Estado, é-lhe conferido o uso de tamanho poder e força que o terror assim inspirado o torna capaz de conformar as vontades de todos eles, no sentido da paz em seu próprio país, e de ajuda mútua contra os inimigos estrangeiros. É nele que consiste a essência do Estado, a qual pode ser assim definida: Uma pessoa de cujos atos uma grande multidão, mediante pactos recíprocos uns com os outro, foi instituída por cada um como autora, de modo a ela poder usar a força e os recursos de todos, da maneira que considerar conveniente, para assegurar a paz e a defesa comum”.  (Hobbes: 109-110).

Entre nós, a sociedade burguesa dos ricos associados crê que o Estado é apenas matéria instrumental da physis política da classe dominante. Ela crê que se trata de um aparelho industrial político como comitê da tela heteróclita burguesa da sociedade das redes de engenho-de-cana-de-açúcar (ou café) da teologia política cristã colonial do território do Vale do Paraíba Rio/SP. Aliás, a ciência política universitária do industrialismo do americanismo lutou, uma luta agramatical sem quartel, para desfazer a gramática dos pactos da multidão que faz do fenômeno Estado o Deus mortal.  Ela esqueceu que a multidão na rua derrubou o Estado militar.  

No Brasil, a classe simbólica das instituições privadas da sociedade burguesa convenceu os ricos associados sobre a ausência de necessidade de um Estado Deus Mortal, pois, não há nações inimigas próximas no território latino-americano. Ela tranquiliza os ricos com a ideia de que, de fato, o Brasil é um protetorado militar do Estado industrial do americanismo. Até as Forças Armadas nacionais en masse creem nesse delírio infantil. Elas creem que a América é o Pai benevolente e protetor (é o avesso da gramática narrativa freudiana do Pai real, ou animal despótico freudiano), Pai simbólico da revolução freudiana da sociedade neurótica da industrialização freudiana do americanismo.          

Como secularização republicana do Estado moderno, a teologia jurídico/política é o território do Ser ficcional (que não é consistente), onde se forma o ente ficcional discurso do direito. A vontade de potência gramatical é um vigor que fura a semblância do ente discurso do direito como verdade da realidade dos fatos brasileiros: 
“a aletheia (o des-ocultamento) se processa e acontece, quando o vigor se conquista a si mesmo como um mundo!  Só através do mundo o ente faz ente”. (Heidegger: 89).
No Brasil, o ente que faz ente no real do Ser da physis/metaphysis da tela da nossa sociedade gramatical brasileira dos de baixo é o vigor (vontade de potência gramatical comunista) do PCL (Partido Comunista Lacaniano).  

CALADO, Antônio. Quarup. SP: Círculo Do Livro, sem data
CASTEL, Robert. As metamorfoses da questão social. Uma crônica do salário. Petrópolis: vozes, 1988
FREUD, Obras Completas. v. XXI. O mal-estar na civilização. RJ: Imago, 1974
HEIDEGGER, Martim. Introdução à metafísica. RJ/Brasília: Tempo Brasileiro/UNB, 1978
HOBBES, Thomas. Leviatã ou matéria, forma, e poder de um Estado eclesiástico e civil. Pensadores. SP: Abril Cultural, 1974
FURTADO, Celso. Criatividade e dependência na civilização industrial. SP: Companhia das Letras, 2008. Publicação original da Paz e Terra (1978). 

FURTADO, Celso. A Fantasia organizada. RJ: Paz e Terra, 1985

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