segunda-feira, 24 de outubro de 2016

MAI 68 → PARTIDO EM FILOSOFIA LACANIANO DO MARXISMO OCIDENTAL

José Paulo Bandeira

A Indústria Cultural (Adorno) já esqueceu Mai 68, a filosofia dos sixties e o pensamento político 68. Pudera! O jornalismo industrial do século XXI só consegue ver Mai 68 como uma revolta estudantil parisiense da Sorbonne.  Esta é a versão do P.C.F que abduziu o jornalismo industrial de hoje e que acabou dissolvendo Mai 68 como memória cultural política econômica da história mundial.

Em janeiro de 1987, a revista L’histoire fez uma enquete na França sobre Mai 68. Os franceses tinham certeza de que tal acontecimento era (ao lado da I e II Guerras Mundiais) o mais relevante fato político da história mundial do século XX. Althusser, e outros compartilhavam dessa percepção sensível pré-industrial da realidade dos fatos mundial da população francesa.  Especialista em história de ideias políticas, J-P Bernard disse: “Mouvement social le plus important de l’histoire de ce pays”.

Em 1977 após refletir longamente, Althusser registrou:
De fait, jamais le mouvement des masses, jamais le mouvement révolutionnaire, ouvrier et populaire, n’a été, malgré de graves revers locaux, et malgré les problèmes soulevés par les pays socialistes, aussi puissant dans le monde. Au bout de la terre, le petit peuple vietnamien a mis l’impérialisme français à genoux, et battu sur le terrain la plus forte puissance militaire du monde, les Etats-Unis d’Amérique. Avant sa victoire, la plus grande grève de l’histoire du monde, en mai 68, en France, dans sa recontre partielle avortée, mais à long terme féconde, avec la révolte étudiante et petite-bourgeoise, annonçait que les temps étaient changés”. (Allthusser. 1977: 12).        

Após a espera de quase meio século por uma interpretação (que se dirigisse ao real da realidade dos fatos da conjuntura cultural política econômica mundial que começa na sexta-feira de maio de 1968 e se encerra, talvez, em 30 junho, após o encerramento das eleições legislativas) resolvi pôr minha colher nessa sopa parisiense!   

Fazer parar a revolução cultural comunista parisiense (de D. Cohn-Bendit e da L’Internationale situationniste (1957) da brochura De la Misère en milieu étudiant e do livro de Guy Debord La Société du Spectacle) foi o que moveu a mão negra de Gaulle (na presidência da República desde 1958) - sob a condução elegante, rafinné negra de seu 1°ministro G. Pompidou - a desfechar um golpe de Estado negro dissolvendo a Assembleia nacional e convocando eleições legislativa.

De fato, estudantes e operários (por intermédio do sindicato C.F.D.T.) constituem os dois dedos da ação comum para o assalto ao poder nacional. Parece que as forças da revolução anticapitalista encontraram os primeiros elementos de um governo de alternativa na personne de P. Mendès France. Pompidou interpretou tal momento como a aterrisagem em solo francês do conceito leninista dualidade de poder.

Pompidou e de Gaulle falam em ditadura republicana negra para enfrentar a revolução cultural comunista de uma nova espécie. O governo francês dissolve a Assembleia nacional, convoca novas eleições legislativas e faz o apelo à tradicional pequena burguesia negra parisiense. Então, um ator-hobbesiano negro invade as ruas de Paris. Uma multidão de 500 mil (cães e cadelas do republicanismo negro europeu) desfila durante horas sur les Champs-Elysées entonnant à perdre voix La Marseillaise, A. Malraux en tête. De Gaulle a gagné. La page révolutionnaire est tournée.  
                                                                      
                                                                      II 

Luc Ferry e Alain Renaut lançaram no mercado de ideias universitário europeu o termo pensamento 68. Para eles, havia um centro tático revolucionário da filosofia do sixties constituído por Foucault, Bourdieu contra Althusser, Derrida, Lacan cun Althusser, Althusser contra o marxismo negro. Ferry e Renaut possuem uma visão universitária francesa do que é a filosofia. Mas não se trata de uma visão sem interesse. O livro Pensamento 68 foi um ataque frontal a Guy Debord e a Internacional Situacionista.

Ferry e Renaut queriam estabelecer que o problema de Mai 68 era a luta no campo da filosofia francesa para suprassumir a filosofia ocidental de Platão a Hegel. Os filósofos dos sixties teriam retomado as ideias de Marx do livro A Ideologia Alemã e do texto Teses sobre Feuerbach (1845) sobre o fim da filosofia ocidental. Como nunca leram Lenin, não conheciam a interpretação do marxista russo sobre a passagem da filosofia ocidental para o Partido em filosofia. Por isso não conseguiram metabolizar Mai 68.

Mai 68 é a articulação do Partido em filosofia comunista mundial. Esta é a interpretação da fração marxista mais avançada do pensamento político 68 personificada em Guy Debord. Debord pensou uma sociedade do espetáculo do homo ideologicus (SEHI) e como destruí-la. A máquina do Diabo republicana mundial assassinou o editor da Internacional situacionista.

A SEHI já continha a ideia da tela agramatical industrial eletrônica em uma França sob a hegemonia da tela gramatical jornalística de papel, destacando-se o jornal Le Fígaro. Mai 68 viu renascer a mesma espécie de jornalismo revolucionário do qual Marx fala na sua interpretação da conjuntura 1848 na França. Hoje, o jornalismo industrial do americanismo domina a França e a Europa. Trata-se de um jornalismo negro em uma pobre Paris infeliz!

A revolução cultural comunista queria destruir dois fenômenos políticos. O primeiro era o trans-sujeito sociedade do espetáculo do americanismo. O segundo era o Partido Bolchevique negro.

Althusser:
“ Je ne prétend pas que les choses soient simples, et il n’est pas un instant question de réduire la réalité sociale de ‘l U.R.S.S. aux pratiques staliniennes. Mais le fascisme est le fascisme: les travailleurs ont rapidement su ce qu’ils pouvaient en attendre. En revanche, ils attendaient tout autre chose du socialisme soviétique, chargé de tous leurs espoirs d’émancipation et de libération, que le régime de terreur et d’extermination de masse qui a régné sous Staline aprés les années trente, et que les pratiques qui persistent en U.R.S.S., soixante ans après la Révolution, et vintg-deux ans après la mort de Staline. Oui, il y a eu l’Armée rouge, les Partisans et Stalingrad, inoubliables. Mais il y a eu aussi les procès, les aveux, les massacres, les camps. Et il y a ce qui dure”. (Althusser: 31).           

A filosofia política econômica de Debord poderia ter sido tomada pela percepção desses fenômenos como fatos/ artefatos da teologia gramatical política do Diabo. Será que Emanuel Levinnas tomou como ponto-de-partida o choque com o trans-sujeito Diabo alemão industrial do americanismo em seu trabalho de fazer da ética a crítica da arma do eu/sujeito contra o Outro/Diabo? Contra o trans-sujeito Diabo do americanismo, Levinnas conjurou em seu auxilio o trans-sujeito judaico narrativa do Velho Testamento? Coincidências significativas?

O que autoriza um carioca por sentimento abordar Mai 68?

Creio que a autoridade foi conquistada através da fundação da ciência gramatical do real que começa com a física lacaniana da política.

Ao invadir o campo freudiano com uma máquina de guerra gramatical de pensamento estelar, descobri que Mai 68 produziu um efeito gramatical teológico sobre Lacan. Abriu uma larga porta para a transformação do discurso lacaniano marxista em teologia gramatical dialética da política. Tal fenômeno significa a spaultung do marxismo ocidental esperada por Althusser, Debord e a filosofia dos sixties. Este acontecimento ocorreu com o Seminário de um outro ao Outro (S. 16), de novembro de 1968. Mas nem tudo são flores!

O Seminário 16 é um efeito gramatical dialético teologicus que fez de Lacan o último grande filósofo francês do Marxismo Ocidental em processo de spaltung historial mundial. Por que Jacques Alain-Miller e Zizek jamais se aperceberam desse fato? 

O S. 16 é a real revolução teórica althusseriano de Marx (fazendo pendant com Freud). Foi o pulo do gato da revolução cultural comunista Mai 68. Estou delirando? falando bobagens?

A revolução do Partido em filosofia lacaniano deve quase tudo a topologia lacaniana da banda de Moebius. Do que se trata afinal? A banda se articula como duas superfícies em um espaço contínuo, ou seja, direito/avesso. Já mostrei em outros escritos que a gramática transdialética tem como objeto político o mundo na plurivocidade da banda de Moebius.

Aristóteles articulou a banda de Moebius física (direito) e metafísica (avesso). O trans-sujeito esquizo da história universal é a banda de Moebius Deus (direito) e Diabo (anverso). O trans-sujeito é a língua como narrativa sagrada ou secular. O leitor pode consultar meus escritos para julgar se é ou não é um novo Partido em filosofia gramatical dialético!

Lacan articulou a banda de Moebius Marx/Freud lacaniano. A essência da teoria psicanalítica é um discurso sem fala. Tal fato só é possível com a episteme política econômica articulada por Lacan no seminário em tela e desenvolvida no Seminário 17 com a teoria dos 4 discursos. Trata-se da episteme política pensada a partir do discurso do maître. (Lacan. 1991: 21). Depois, no Televisão, surge um 5°discurso, o discurso do capitalista:
“Menos ainda na medida em que, ao referir essa miséria ao discurso do capitalista, eu o denuncio. Apenas indico que não posso fazê-lo a sério, porque, ao denunciá-lo, eu o reforço – por normatizá-lo, ou seja, aperfeiçoá-lo”. (Lacan. 2003: 516-17).

A língua do discurso do capitalista é a gramática da mercadoria em inglês. Trata-se de um discurso com fala, que fala com a sociedade de consumidores através da sociedade de publicidade do americanismo pós II Guerra Mundial. Trata-se de uma fala na tela agramatical industrial eletrônica, fala negra do trans-sujeito Diabo alemão industrial do americanismo.

O discurso do capitalista é a gramática econômica teológica da topologia Mehwert/Mehrlust. Isto constitui as redes neurônicas RSIt (Real/Simbólico/Imaginário/teológico) do trans-sujeito Diabo alemão industrial. O discurso do capitalista articula o capital mundial como um ser econômico da physis e da metaphysis da sociedade capitalista mundial. Inevitável, é a transformação do capital mundial em um fenômeno encantado, sagrado.   

A psicanálise tem que ser o avesso do discurso do capitalista. Para isso ela tem que dizer o que é tal discurso em uma gramática dialética topológica. Credo quia absurdum?

Na gramática dialética topológica, a banda de Moebius faz pendant com a língua científica (Greimas: 410), a de Marx e a do Freud lacaniano. Trata-se da língua científica da gramática do significante (Greimas: 213). Porém a língua científica usa uma semiótica não científica como a língua natural - o alemão, o francês e o português do Brasil.

Lacan começa a articular a banda de Moebius Marx/psicanálise freudiana discretamente:
“ Pois, então, da última vez, que foi uma primeira, fiz referência a Marx, ao introduzir ao lado da mais-valia uma nova noção.
Num primeiro tempo, apresentei a relação dessas duas ideias como homológica, com todas as reservas que esse termo comporta.
A mais-valia, na língua original em que essa ideia foi, eu não diria nomeada pela primeira vez, mas descoberta em sua função essencial, é chamada de Mehwert. (Lacan. S. 16: 29). Este seria o lado direito da banda de Moebius. No avesso temos o mais-de-gozar: “Nessa mais-valia, portanto, prendi, superpus, pespeguei no avesso a ideia de mais-de-gozar [plus-de-jouir]”. (Idem: 29):
“Isso foi dito assim na língua original, ou seja, em francês, da última vez, pela primeira vez. Para traduzi-la para a língua da qual me veio sua inspiração, chamarei essa ideia, a menos que algum germanista do auditório se oponha, de Mehrlust.

É claro que não produzi essa operação sem fazer uma referência discreta, à maneira alusiva em que me sucede fazê-lo algumas vezes, àquele, por que não, cujas pesquisas e cujo pensamento me introduziram a isso, ou seja, Althusser”. (Lacan. S. 16: 30).

A banda de Moebius em tela lacaniana/althusseriana é – Mehwert (direito) e Mehrlust (avesso).
Lacan se pensa como partidário do materialismo dialético no S. 18, página 27. Trata-se de uma dialética do real obtida através da articulação algébrica do semblant. Lacan não pensa a dialética como algo muito diferente do filósofo sixties Henry Lefebvre do livro Lógica formal/lógica dialética
Trata-se da dialética do homo ideologicus.

Até onde naveguei no mar lacaniano, o saber dialético de Lacan é o do livro de Alexandre Kojève Introduction à la lecture de Hegel. Talvez, ele não tenha metabolizado a dialética marxo-freudiana que tornou Althusser notável na cultura marxista ocidental. Lacan não se deu nem ao trabalho de folhear o Contradição e Sobredeterminação (Notas para uma investigação), de 1962?

Lacan pensa que a dialética algébrica é a salvação da lavoura científica que só encontra o real na medida em que depende da função do semblante. Trata-se de um desvio do marxismo ocidental lacaniano/althusseriano?
“Se há alguma coisa que eu sou, está claro, é que não sou nominalista. Quero dizer que não parto de que o nome seja uma coisa que se chape assim no real. E é preciso escolher. Quando se é nominalista, é preciso renunciar completamente ao materialismo dialético, de modo que, em suma, a tradição nominalista, que é, propriamente falando, o único perigo de idealismo que pode produzir-se num discurso como o meu, fica evidentemente afastada. Não se trata de sermos realistas, no sentido em que se era realista na Idade Média, no sentido do realismo dos universais, mas de assinalar isto: que nosso discurso, nosso discurso científico, só encontra o real na medida em que depende da função do semblante.
A articulação, digo a articulação algébrica do semblante – e, como tal, trata-se apenas de letras – e seus efeitos, esse é o único aparelho por meio do qual designamos o real. O que o real é aquilo que faz furo nesse semblante, nesse semblante articulado que é o discurso científico”. (Lacan. S. 18: 27).

Não é possível ser consistente na física hobbesiana do real? Um campo científico da ciência do real articulada no Rio de Janeiro? O real não é um efeito do trans-sujeito na articulação gramatical da realidade dos fatos. Se ex-siste uma função do semblant gramatical, não se torna possível o encontro desse real gramatical pela ciência gramatical do real?

O trans-sujeito é uma narrativa mundial sacra ou secular. A língua é o ser dessa narrativa. Hoje, o real é o efeito da língua no ser da narrativa. Se a língua do trans-sujeito do Diabo do americanismo é a língua industrial inglesa, o real da realidade mundial dos fatos é a estrutura gramatical da língua do Diabo.

                                                                         III

Para reiniciar o debate sobre o Real na filosofia, Zizek o faz articulando percepção sensível e a categoria de liberdade:
"Para Kant, ao contrário, espaço e tempo são ideais (não propriedades das coisas em si, mas formas de percepção impostas nos fenômenos pelo Si transcendental), ao passo que a liberdade é real no sentido mais radical  (até mesmo lacaniano): a liberdade é um 'fato da razão' inexplicável, irracional, inimputável, um Real que perturba nossa noção de realidade espaço-temporal (fenomenal) enquanto governada por leis naturais. Por isso, nossa esperiência de liberdade é propriamente traumática, até mesmo para Kant que confunde o Real enquanto impossível que acontece (aquilo que 'eu não posso fazer') com o Real enquanto impossível-a-acontecer (aquilo que 'eu jamais posso fazer plenamente'). (Zizek: 110).

O problema do Real pode ser visto como o problema da liberdade na relação do sujeito com a estrutura? O Real como impossível-a-acontecer, ou melhor como aquilo que eu não posso realizar plenamente é, com todas as letras, um problema do homo clausus

O Real como impossível-a-acontecer plenamente é a estrutura, concebida como estrutura do significante (Lacan.1966: 665), ser plenamente metabolizada pelo sujeito. Trata-se da estrutura gramatical do significante. Originalmente, Lacan deixou uma porta aberta para o trabalho teórico com a estrutura gramatical do homo clausus observada pelo aprendizado da sintaxe: “O drama do sujeito no verbo é que ele experimenta ali sua falta-a-ser”. (Lacan. 1966: 655). Falta-a-ser como substantivo. Oração é a frase - ou membro da frase - que se biparte normalmente em sujeito e predicado. Esta é a estrutura gramatical mínima para a ex-sistência do trans-sujeito, pois, narrativo.    

A propósito, não existe a menor possibilidade do sujeito translacaniano ser uma substância gramatical com autonomia absoluta em relação ao verbo (um sujeito expresso por substantivo, ou equivalente de substantivo). Portanto, tal fato é extensivo ao trans-sujeito. A revolução comunista se articula como trans-sujeito gramatical narrativo. Como substância gramatical, o trans-sujeito substantivo é narrativa mundial (historial universal) sem narrativa. Trata-se da invenção do verdadeiro trans-sujeito negro.      

A liberdade põe e repõe o problema da autonomia do sujeito em relação à estrutura pensada como topologia definida pela articulação gramatical do significante como tal (649): “Mas de uma coisa no mundo é passível do efeito do significante. Tudo o que está no mundo só se torna fato, propriamente, quando com ele se articula o significante. Nunca, jamais surge sujeito algum até que o fato seja dito” (Lacan. S.16: 65).

O sujeito é efeito do significante. Não há autonomia, nem relativa, do sujeito em relação à estrutura. A liberdade do sujeito é uma quimera. Então, o problema consiste na realização da metabolização da estrutura objeto no real (Lacan. 1966: 654), da entrada do sujeito no Real.

Lacan escreveu:
“ Não é patente que um Lévi-Strauss, ao sugerir a implicação das estruturas da linguagem e da parte das leis sociais que rege a aliança e o parentesco, já vai conquistando o terreno mesmo em que Freud acomoda o inconsciente?    
Por conseguinte, é impossível não centrar numa teoria geral do símbolo, uma nova classificação das ciências em que as ciências do homem retomem seu lugar central, na condição de ciências da subjetividade”. (Lacan. 1966: 285).

As ciências da subjetividade são ainda aquelas ciências do homo clausus. Como sair dessa filosofia individualista da modernidade? Através do estabelecimento das ciências da trans-subjetividade, ciências do trans-sujeito, ciências da estrutura (Real) do trans-sujeito. Ciência do Real:
“Lembro que é pela lógica que esse discurso toca no real, ao reencontrá-lo como impossível, donde é esse discurso que a eleva a sua potência extrema: ciência disse eu, do real (...)
Reconheçamos aqui a via por onde advém o necessário: como boa lógica, ou seja, aquela que ordena seus modos de proceder a partir dali de onde provém – isto é, deste impossível, módico provavelmente, embora por isso mesmo incomodo -, de que, para que um dito seja verdadeiro, é preciso ainda que se o diga, que haja dele um dizer.
No que a gramática já mede a força e a fraqueza das lógicas que dela se isolam, para clivá-las com seu subjuntivo, e se indica como concentrando o poder de para todas abrir caminho”. (Lacan. 2003: 449).

Finalmente, ao admitir que a gramática pode ser mais que o homo logicus na relação da estrutura com o sujeito, Lacan dá um passo para pensar e praticar a ciência do real como ciência do trans-sujeito. 

Sugerimos, então, uma ideia sobre o Real.

O Real é a estrutura gramatical do trans-sujeito impossível de ser metabolizada plenamente como gramática de sentido pelo sujeito:
“ Pela palavra, que já é uma presença feita de ausência, a ausência mesma vem a se nomear em um momento original cuja perpétua recriação o talento de Freud captou na brincadeira da criança. E desse par modulado da presença e da ausência, que basta igualmente para constituir o rastro na areia do traço simples e do traço interrompido dos Kwa mânticos da China, nasce o universo de sentido de uma língua, no qual o universo das coisas vem se dispor”. (Lacan. 1966: 276).

A estrutura gramatical impossível de ser metabolizada planamente pelo sujeito translacaniano (suprassunção do sujeito lacaniano) é o quid do problema. Como fato/positividade, o sujeito translacaniano é transignificante sujeito hobbesiano (multidão hobbesiana e/ou ator hobbesiano), sujeito para quem é impossível metabolizar a estrutura banda de Moebius (como estrutura gramatical da contradição principal), que articula o campo de poder/saber narrativo mundial hobbesiano.  

O universo de sentido é gramatical até no estabelecimento do rastro na areia do traço simples e do traço interrompido dos Kwa mânticos da China. O rastro na areia dos traços já é a condição de possibilidade de ex-sistência do trans-sujeito como realização subjetiva de Si em ser-para-a-morte. O trans-sujeito é gramática de sentido finita que articula, não o Sujeito, e sim os sujeitos em distintos campos de poder/saber historiais.  Não há língua que viva eternamente enquanto dure!     

.A dialética da revolução marxista ocidental gramatical lacaniana do Seminário 16 é clara:
“A estrutura deve ser tomada no sentido em que é mais real, em que é o próprio real”. (Lacan. S. 16: 30). O discurso articulado como algébrica do semblant -, ou seja, letras e seus efeitos - não pode ser o único aparelho por meio do qual designamos o que é real. Se o real é aquilo que faz furo nesse semblante algébrico (discurso científico), então, Lacan deixa de ex-sistir como pensamento político?

O real que faz furo na tela algébrica do sembant não é mais a estrutura – psicose, neurose, perversão. Assim, o campo de poder mundial não é mais aquele da sociedade da lógica do significante ou neurótica, ou perversa ou psicótica. A sociedade que se torna soberana é a sociedade matilha negra, SMN das máquinas de guerra do Diabo. Elas são os atores hobbesiano negros do campo do poder mundial. 

O furo no semblante algébrico cede seu lugar soberano para o furo na semblância gramatical da ciência gramatical do real! Psicóticos, neuróticos e perversos são categorias privadas do homo clausus. As máquinas do Diabo se constituem como fenômenos que articulam o mundo-da-vida privada nacional ao mundo da vida política pública mundial.              

                                                                             IV              

A gramática dialética do significante já caminha a passos largos para o encontro como o real pela articulação gramatical do semblant. Na dialética lógica lacaniana, Merhlust e Mehwert se superpõe ou são homólogos. Vesse claramente que a dialética lacaniana anda em ziguezague, dá um passo à frente e dois atrás. O cavaleiro Lacan evita afogamento de si e de seu cavalo, puxando seu próprio rabo de cavalo em direção ao céu, não o rabo do cavalo, por favor, pois isso já seria demais!    

O termo homologia lacaniano se refere a duas estruturas químicas, ou seja, dois compostos orgânicos que têm funções idênticas e estruturas semelhantes? Ou seria biológica tal homologia? diz-se de órgãos que, em indivíduos diferentes (economia e psicologia), apresentam as mesmas relações com outros órgãos, ainda que com formatos e funções diferentes.

A dialética lacaniana ainda é prisioneira de categorias homo ideologicus como superposição e homologia extraídas mecanicamente de campos de saber científico da physis. Para dar um passo irrevogável à frente, é preciso criar uma banda de Moebius gramatical dialética materialista europeia (direito) e gramatical dialética asiática (avesso).

A milenar cultura política econômica chinesa é uma linha de força historial dialética que, como Heidegger (Heidegger: 13-14) não foi abduzida pela homologicus mínimo do significante aristotélico do inconsciente - diferença e repetição – transmutado em formalização matemática algébrica. (Lacan. S. 16:   192, 204).

Para pensar o real como o que faz furo no semblant em tela lacaniana, semblant articulado que é o discurso científico, não metabolizo a necessidade de matematização galileniana da physis (Husserl: 27-28) da realidade dos fatos mundiais. Há muito tempo a ideia do real lacaniano deixou de ser para mim uma abdução alien!    

Meu ponto de partida é o Partido em filosofia dialética da guerra popular maoísta. Para mergulhar nesse universo teológico dos fenômenos asiáticos, o leitor pode começar no texto De la contradiction (Août 1937).

Trata-se da passagem do marxismo ocidental lacaniano para a gramática transdialética mundial.
Zizek é o filósofo marxista-leninista do campo lacaniano preocupado com problemas da dialética moderna como o exposto abaixo:
“Embora Hegel pareça radicalizar as antinomias concebendo-as como ‘contradições’ e universalizando-as, vendo-as em toda parte, em cada conceito que usamos, e, indo mais além, ontologizando-as (enquanto Kant situa as antinomias em nossa abordagem cognitiva da realidade, Hegel as situa na realidade em si, essa radicalização é um artimanha: uma vez formuladas como ‘contradições’, as antinomias são aprisionadas no maquinário do progresso dialético, reduzidas a um estágio intermediário, a um  momento na estrada em direção à reconciliação final. Hegel, portanto, apara de maneira eficaz as arestas escandalosas das antinomias kantianas que ameaçaram levar a Razão à beira da loucura, normalizando-as novamente como parte de um processo ontológico global”. (Zizek: 112).

O leitor pode observar que a filosofia lacaniana negra (stalinismo) não é capaz de metabolizar que não se trata da Razão à beira da loucura kantiana ou de ver contradições em toda parte, inclusive de baixo da sua própria cama.

Não se trata mais de centrar a interpretação na sobrevivência de uma Razão ocidental sem loucura (o sujeito esquizo deleuziano implodiu tal Razão e a tela agramatical eletrônica negra, também), mas de centrar na gramática dialética teológica que articula o trans-sujeito esquizo mundial topológico (Diabo alemão industrial do americanismo). Ele é a Coisa negra que articula o campo de poder agramatical mundial hobbesiano com todos os seus estranhos fenômenos políticos negros: sociedade matilha negra, Estado agramatical integral negro, ator hobbesiano negro em si e multidão/ator hobbesiano negra...                      

 A filosofia stalinista Zizekina faz de conta que Mai 68 nunca aconteceu!  

ALTHUSSER, Louis. 22 ème Congrès. Paris: Maspero, 1977
BOUSQUET, Gilles. Apogée et déclin de la modernité. Regards sur les années 60. Paris: Éditions L’Hartmattan, 1993
FERRY/RENAUT, Luc e Alain. Pensamento 68. Ensaio sobre o anti-humanismo contemporâneo. SP: Editora Ensaio, 1988
GREIMAS/COURTÉS, A J. e J. Dicionário de semiótica. SP: Cultrix, sem data
HEIDEGGER, Martin. Metafísica de Aristóteles Ɵ 1-3. Sobre a essência e a realidade da força. Petrópolis: Vozes, 2007
HUSSERL, Edmund. La crise des sciences européennes et la phénoménologie transcendantale. Paris: Gallimard 1976
LEFEBVRE, Henri. Lógica formal/lógica dialética. RJ: Civilização Brasileira, 1975
LACAN, Jacques. Écrits. Paris: Seuil, 1966
LACAN, Jacques. O Seminário. De um Outro ao outro. Livro 16. RJ: Zahar, 2008
LACAN, Jacques. Le Séminaire. Livro 17. L’envers de la psychanalyse. Paris: SEUIL, 1991
LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 18. De um discurso que não fosse semblante. RJ: Zahar, 2009
LACAN, Jacques. Outros Escritos. RJ: Jorge Zahar Editor, 2003
MAO TSE-TOUNG. OEUVRES CHOISIES. Tomo I. De la contradiction (Août 1937)
ZIZEK, Slavoj. Hegel e a sombra do materialismo dialético. SP: Boitempo, 2013  
                   

          
                        
 
                    

  
                
              

          

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