terça-feira, 18 de outubro de 2016

DO PARTIDO EM FILOSOFIA HOJE




DA TOPOLOGIA LACANIANA À GRAMÁTICA DIALÉTICA TOPOLÓGICA 

José Paulo Bandeira



Filosofia gramatical materialista transdialética topológica: “O homem que busca o conhecimento não só deve amar os seus inimigos, mas deve também poder odiar os seus amigos. Recompensa mal um maître quem se contenta de ser discípulo. E por que não quereis destroçar a minha grinalda? (Nietzsche. 1957: 11).     

A gramatica dialética topológica não seria possível sem a banda de Moebius metafísica/física articulada por Aristóteles. 
                                                                  I

Marx achou no Dom Quixote o ator hobbesiano intelectual concebido como magister ludi dogmático dos jogos de linguagem da filosofia:
“No que se refere ao lugar deixado ao indivíduo pelas circunstancias particulares do seu desenvolvimento e pela divisão do trabalho, saber se ele encarna este termo da contradição ou aquele, se faz mais figura de egoísta do que de pessoa devotada, tratava-se de um problema perfeitamente secundário, que apenas teria algum interesse se fosse apresentado relativamente a indivíduos precisos inseridos no quadro de uma época determinada. Não sendo assim, tal problema apenas poderia conduzir a fórmulas vazias, a arengas moralizadoras. Mas Sancho, o dogmático, atolou-se completamente nesta questão e não teve outro recurso, para se retirar de apuros, senão o de deitar mão a toda espécie de Sanchos Pança e Dom Quixotes, que imediatamente lhe metem no cérebro toda a espécie de patranhas; - como bom dogmático que é, escolhe um dos aspectos em que se concebe como magister, proclama que se inclui nos indivíduos considerados como indivíduos e faz profissão de fé da sua hostilidade para com o outro aspecto”. (Marx. 1980: 16-17). O magister ludi dogmático é o anverso do magister ludi dialético materialista.         

Com o brilhante e sedutor livro de 1994 Existe um pensamento político brasileiro? Raymundo Faoro se transformou em um dos nossos magister Sanchos Pança/Dom Quixotes do livro A Ideologia Alemã. Trata-se do sujeito bouvarista científico do romance de Flaubert Bouvard e Pécuchet.

O sujeito bouvariano (Flaubert: 52) se articula assim:
“Não se sabe mesmo qual é a força do coração. Borelli admite a que é necessária para suspender um peso de cento e oitenta mil libras, e Keil avalia-a em oitos onças, mais ou menos, donde Bouvard e Pécuchet concluíram que a fisiologia é – segundo uma velha frase – o romance da medicina. Não podendo compreendê-la, não acreditam nela”. (Flaubert: 62).

A ideia modernista de ciência do bouvariano articula a percepção sensível de tal sujeito como contra eclética:
“ – A ciência baseia-se nos dados fornecidos pela apreciação de um determinado setor do espaço. Talvez não se aplique ao resto, muitíssimo maior, que se ignora e não se pode explorar”. (Idem: 70).

O título e o objeto de desejo sexual científico (pensamento político brasileiro) de Faoro são similares à força do coração da fisiologia romance da medicina para os bouvaristas Raymundos: não podendo compreendê-la, não acreditam que ela ex-siste!

O pensamento político formal é um objeto/efeito da plurivocidade da semiótica científica e não científica. Ele não está circunscrito ao campo da interseção do direito com a ciência política e a sociologia política.

Os bouvarianos Faoros não conhecem história da filosofia nem filosofia. Assim, não podendo compreendê-la, não acreditam nela. Eles não creem que o pensamento político se articulou fazendo pendant com a filosofia da antiguidade.

Caio Prado Júnior (CPJ) estabeleceu, precariamente aos tropeções, a filosofia brasileira no seu livro Notas introdutórias à Lógica Dialética. O pensamento político dialético brasileiro de CPJ faz parelha com sua filosofia dialética.

Caio Prado não é alinhado aos primeiros espiritualistas ecléticos da França: Laromiguiére (1756-1837), autor de Lições de filosofia; Royer-Collard (1763-1843), Maine de Biran (1766-1824) e Victor Cousin (1792-1867). O século XIX brasileiro transformou Victor Cousin em um bestseller carioca. O ecletismo foi a filosofia oficial entre 1840 e 1880. Os maiores representantes dessa corrente no Brasil foram Mont’Alverne, Gonçalves Magalhães, Ferreira França Morais e Vale e Antonio Pedro de Figueiredo. Não há, um pingo da memória cultural política econômica da filosofia eclética brasileira na fundação da filosofia brasileira de CPJ.     

Caio Prado era um quadro intelectual do PCB à margem da produção teórica política oficial comunista brasileira. No entanto, seu pensamento político articulou o Partido Político USP (PPUSP). Trata-se de um Partido em filosofia, do Príncipe em filosofia. Foi um partido marxista universitário paulista que roubou do PCB o lugar da articulação hegemônica das massas grau zero populismo, durante a era do Estado militar brasileiro! O PT (Partido dos Trabalhadores) e o bolivariano são a continuação do PFUSP, por outros meios!  

O pensamento de CPJ é uma articulação de uma unidade dialética teoria/prática. A teoria se constitui em uma unidade dialética ciência marxista (historiografia e ciência política) fazendo pendant com a filosofia/prática política (PFUSP), como Marx define a gramática de sentido física/metafísica dialética materialista, se seguirmos a trilha das migalhas da leitura de Marx por Heidegger: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de forma diferente, o que importa é mudá-lo”. (Labica: 164).  

                                                                    II  

No pequeno ensaio filosófico O que é isto – a filosofia? Heidegger diz:
“A dis-posição afetiva da confiança na absoluta-certeza do conhecimento a cada momento acessível permanece o páthos e com isso a arkhé da filosofia moderna. (Heidegger. 1973: 220).
E o filósofo da Floresta Negra diz mais, ainda:
“Mas em que consiste o télos, a consumação da filosofia moderna, caso disto nos seja permitido falar? É este termo determinado por uma outra dispo-sição? Onde devemos nós procurar a consumação da filosofia moderna? Em Hegel ou apenas na filosofia dos últimos anos de Schelling? E que acontece com Marx e Nietzsche? Já se movimentam eles fora da órbita da filosofia moderna? Se não, como determinar seu lugar? (Idem: 220).

“Consumação da filosofia” pode ser ação filosófica que tornou a filosofia moderna efetiva ou irreversível. Ou pode ser o término da filosofia moderna o fim dela por aniquilamento ou autodissolução.  Esse último acontecimento é o télos da filosofia moderna, sua teleologia? Então, é consumição, ou seja, a ação da filosofia moderna de consumir-se em um processo cultural político econômico de autodissolução!

Voltemos ao início da filosofia. No Fédon, Platão afirma que a verdadeira explicação de qualquer fenômeno físico deve ser teleológica. 

Um Argumento teleológico da existência de Deus, também chamado de argumento da criação ou prova psicoteológica é um argumento a posteriori para a existência de Deus com base na criação aparente e propósito na natureza, para além do âmbito de qualquer atividade humana. Vários conceitos de teleologia são desenvolvidos por filósofos antigos e clássicos, como Platão, que propôs um artífice divino, outros, nomeadamente Aristóteles, rejeitaram essa conclusão em favor de uma teleologia mais naturalista.

O argumento teleológico foi alvo de muitas críticas. Especialmente importante são os argumentos lógicos apresentados por David Hume em Diálogos sobre a Religião Natural, publicado em 1779, e a explicação da complexidade biológica por Charles Darwin em A Origem das Espécies, publicado em 1859.

O problema é a articulação do território trans-subjetivo da filosofia ao homo teleologicus ou ao homo IDEOlogicus? Frente ao esquecimento e ao desprestígio da filosofia no século XXI que constituem a causa sensível de sua foraclusão na cultura política econômica mundial. O que fazer? Será que os filósofos profissionais universitários metabolizariam que filósofos não profissionais propusessem uma agenda de problemas para retirar a filosofia do limbo da alta cultura mundial?

O esquecimento da filosofia não se deve à uma decadence da prática da filosofia universitária americana e europeia. A gramática de sentido metafísico transdialético vê a plurivocidade semiótica do trans-sujeito esquizo mundial como a causa real que afetou, no coração, a matéria metafísica do SER da filosofia.

A universidade fez uma aliança com a Indústria Cultural (Adorno) e a Elite no Poder (C. Wright Mills), que são as duas máquinas do Diabo do americanismo heideggeriano. (Heidegger. 2000: 156-157 ). A universidade americana trabalha, por gordas recompensas, para a CIA, FBI, NSA, ou seja, para o Estado agramatical negro do americanismo!   

O americanismo é o trans-sujeito esquizo mundial que dominou o planeta fazendo pendant como o trans-sujeito Diabo alemão romântico. O americanismo articulou o homo informacionalis que dispensou o serviço da filosofia universitária americana (e europeia) na prática da legitimação da violência real ou simbólica ou imaginária do homo informacionalis, especialmente, no braço militum perversus de espionagem dos Estados nacionais, pelo Estado americano negro. Pois, os Estados nacionais estão integrados às redes e dispositivos de poder/saber foucaultiano negros.

A causa interna é a falência da filosofia como máquina de guerra de pensamento estelar (criada por Platão no seu livro A República) que se define pelo poder racional metafísico (Aristote: 496) de mover as coisas na realidade dos fatos a partir da interpretação de tal realidade dos fatos.

A filosofia do século XXI não se constitui como o poder aristotélico/platônico de interpretação da realidade dos fatos do século XXI. Ela não se constitui como vontade de potência gramatical nietzschiana de interpretar o REAL DA PHYSIS da sociedade matilha negra que fazem pendant com o Estado agramatical negro na política mundial.       
                                                                           
                                                                       III   

Por isso tudo, começo dizendo que problema historial da filosofia no século XXI começa na suprassunção da dialética homo teleologicus (direito) / homo IDEOlogicus (avesso) como banda de Moebius do território trans-subjetivo filosófico! Há uma proposição de uma nova língua filosófica. Há uma passagem historial para a transdialética homo gramaticalis / homo IDEOlogicus, como ponto-de-partida irrevogável!

Escolhi pensar tal problema em um antigo (Platão) e no momento da consumição da filosofia moderna, ou melhor, no acontecimento da SPALTUNG aparente do território trans-subjetivo filosófico moderno com a esquerda hegeliana alemã e seu crítico implacável, incansável, Karl Marx:
No dia de execução, Sócrates instrui Cebes: “Assim, pois, aí está, Cebes, o que deverás dizer a Eveno. Transmite-lhe também a minha saudação, e além disso o conselho, se de fato, ele é sábio, de seguir minhas pegadas o mais depressa que puder”. (Platão: 67).

Quais são as pegadas de Sócrates que Eveno seguiu? A poéitica socrática de uma tela gramatical filosófica musical: “ Assim como se animam corredores, também, pensava eu, o sonho está a incitar-me para que eu persevere na minha ação, que é compor música: haverá, com efeito, mais alta música do que a filosofia, e não é justamente isso o que eu faço? ”. (Platão: 67).             

A filosofia socrática do Fédon não é a interpretação do real da physis através do logos (λόγος) fazendo pendant com a tela gramatical filosófica poiética musical? O logos não articula o homo IDEOlogicus, como mostra Heidegger. (Heidegger. 2007: 13-14).
Fazendo uma interpretação ambiciosa ligando o Fédon à Heidegger, penso em uma filosofia gramatical socrática, em uma filosofia como a condição de possibilidade de ler a história do real da physis como dialética trans-sujeito esquizo homo IDEOlogicus / homo gramaticalis. Trata-se de um desvio, ou melhor, da suprassunção da dialética ocidental trans-sujeito esquizo homo teleologicus / homo logicus.

Na década de 1960, Caio Prado Júnior estabelece tal problema e criou a filosofia brasileira. Ele não era um filósofo universitário, mas um marxista do PCB (Partido Comunista Brasileiro). Ele criou, entre nós, o Príncipe em filosofia:  
“A Lógica, em sentido amplo, se destina, como disciplina científica, a determinar e fixar a condução do pensamento na elaboração do Conhecimento. Não há assim como fugir à necessidade de abordar o tratamento da Lógica, pela análise da atividade pensante. Do seu lado, a Lógica formal – em que se inclui tanto a Lógica aristotélica, como a moderna logística -, tem por objeto a análise e pesquisa das formas lógicas incluída e implícitas na Linguagem (tanto a Linguagem discursiva, como o simbolismo matemático, que também constitui uma linguagem), formas essa análogas às formas gramaticais nisso que se destinam, tanto quanto estas últimas, a darem estrutura à Linguagem e a tornarem apta a exprimir o pensamento e o Conhecimento”. Prado Jr. 1968: 11).

Caio Prado fala de duas estruturas da língua: a lógica e a gramática. Elas são a condição de possibilidade para a expressão do pensamento e do conhecimento, ou melhor, para essas duas práticas associadas ou ao homo logicus ou ao homo gramaticalis. Trata-se de um desvio arquitetônico do fluxo normal da filosofia dos professores brasileiros. Espanto!           

Caio Prado vê dois caminhos para a dialética: o lógico dialético e o gramatical dialético. Na memória cultural política econômica ocidental, é o choque dialético homo IDEOlogicus/homo gramaticalis.        
                                                                                FÉDON

No labirinto de Creta, do qual ninguém jamais saiu, Teseu matou o Minotauro e (usando novelo de lã vermelho, que lhe foi dado por sua paixão, a princesa Ariadne, encontrou o caminho que o levou a si e os setes jovens gregos e 7 belas gregas (destinadas ao sacrifício, a serem mortos pelo Minotauro). Desse mito, extraiu-se a fórmula filosófica da tela gramatical politeia: “Ele os salvou e salvou a si mesmo”. (Platão: 63-64). A tela gramatical filosófica salvou a filosofia e a política antiga.

A filosofia se constitui como gramática de sentido metafísica da politeia. O problema tático central dela é a relação entre o trans=sujeito (Deuses) e o sujeito (homens): “os Deuses são aqueles sob cuja guarda estamos, e nós, os homens somos uma parte da propriedade dos Deuses”. (Platão: 69). No A República, o trans-sujeito sagrado deixa de ser multiplicidade, pois, ex-siste como Um, uma totalidade divina perfeita que cria o Bem - Deus como narrativa gramatical em filosofia - (Palton: 929). Tal narrativa (latente no As Leis, incluindo Epinomis e aberta no Político) faz pendant com o campo de poder gramatical dialético politeia. (Kelsen: 502-503). 

O trans-sujeito tem suas propriedades no sujeito: “que nos encontramos sob a tutela da Divindade, e que em nós ela tem uma de suas propriedades”. (Platão: 69).

O lugar do trans-sujeito é o além: “ – Pois bem, vamos a isso! E procuremos sobretudo apresentar diante de vós uma defesa mais convincente do que a que fiz perante os juízes! Sim, confesso-o, Símias e Cebes: eu cometeria um grande erro não me irritando contra a morte, se não possuísse a convicção de que depois dela vou encontra-me, primeiro, ao lado de outros Deuses, sábios e bons; e, segundo, junto a homens que já morreram e que valem mais do que os daqui. Mas, em realidade, ficai sabendo que, se não me esforço por justificar a esperança de dirigir-me para junto de homens que são bons, em troca hei de envidar todo o esforço possível para defender a esperança de ir encontrar, depois da morte, um lugar perto dos Deuses, que são amos em tudo excelente, e se há coisa a que eu me dedique com todas as minhas energias, será essa! ”. (Platão: 70).        

 A gramática de sentido metafísica socrática subverte a gramática de sentido lacaniana do Diabo RSI (Real/Simbólico/Imaginário). Lacan não quer a metafísica, então, o RSI é uma gramática de sentido da física freudiana. A gramática da metapsicologia lacaniana quer enganar o Diabo, tornando invisível a letra s na fórmula do Diabo. Assim, a fórmula completa é RSIs (Real/Simbólico/Imaginário/sagrado). A metapsicologia é gramatica metafísica da psicologia.

Lacan faz a gramática metafísica psicanalítica para combater o Diabo. Trata-se da vontade de potência gramatical nietzschiana/lacaniana como uma máquina de guerra de pensamento estelar para fazer a guerra absoluta ao Diabo.  A fórmula RSI (Real/Simbólico/Imaginário) anuncia o império do Príncipe negro, entre nós. 

Lacan conhece o trans-sujeito esquizo Diabo em tela gramatical metafísica mundial após a II Guerra Mundial. Trata-se do Diabo alemão romântico. Goethe fez a gramática dialética metafísica poiética desse Diabo:
“ MEFISTÓFOLES
                                      Sou parcela do Além,
                         Força que cria o mal e faz o bem! ” (Goethe: 59)

O Diabo criou o mal. Trata-se do campo de poder hobbesiano mundial sagrado. E fez o bem com a semblância do capitalismo sociedade de consumo do americanismo para todos e, também, com o reencantamento do mundo. O planeta inteiro seria então o Jardim do Éden, não do Deus, da narrativa judaica, mas da serpente, agora na forma do Diabo alemão romântico.  

A sociedade de consumo do americanismo é uma sociedade matilha negra. Nela, o sujeito é uma máquina [uma COISA (das Ding) ], cão negro e cadela negra, objeto sagrado da ciência gramatical do real. O cão negro e a cadela negra são uma articulação da violência sem limite (real ou simbólica) do homo IDEOlogicus do americanismo. Sobre a violência de tal sociedade matilha negra, 

Baudrillard testemunhou, estudando o Diabo alemão.

Assim se ilumina o problema fundamental da violência na sociedade de abundância, o pacto com o Diabo:
“Tal é o dado primitivo do filme. Mas, este não se contenta com a efabulação geral, apresentando em seguida o sentido concreto da situação: a imagem não se perdeu ou aboliu – poder-se-ia dizer – e é esse justamente o sentido da alienação social concreta. Depois, que o Diabo possa meter no bolso esta imagem como um objecto constitui igualmente a ilustração fantástica do processo real de feiticismo da mercadoria: a partir do momento em que são produzidos, o nosso trabalho e os nossos atos caem fora de nós, fogem-nos, objetivam-se, vão literalmente dar à mão do Diabo. Assim, em Peter Schelemihl, o Homem QUE Perdeu a Sua Sombra, de Chamisso, a sombra separa-se também da pessoa por malefício, transforma-se em pura coisa, em vestido, que pode esquecer-se em casa, se não houver cuidado, que pode ficar colado ao chão, se o ambiente arrefecer demasiado. Schlemihl, que perdera a sua, pensa em mandar desenhar outra por um pintor, a qual deveria, depois, andar atrás dele. As lendas egípcias referem que não se deve caminhar-se demasiado perto da água, porque os caimões são gulosos das sombras que passam. As duas efabulações são idênticas: imagem ou sombra, é sempre a transparência da nossa relação a nós mesmos e ao mundo que se encontra partida; a vida, por consequência, perde o sentido. Mas, Schlemihl e o Estudante de Praga, ao contrário de muitos outros pactos com o Diabo, apresentam o traço forte de mostrarem o Outro, ou só Outro, no centro da alienação – quer dizer, a lógica da mercadoria e do valor de troca”. (Baudrillard. 1981: 235).                  
Baudrillard pensa a sociedade de consumo como uma máquina do Diabo/capital. Partindo daí, desenvolvo a investigação da teoria política do Diabo alemão romântico. A lógica da mercadoria é a lógica do significante feiticismo econômico. Efeito do discurso lacaniano na filosofia pós-modernista. 

Ao contrário, creio em uma gramática metafísica do significante feiticismo da mercadoria.
Marx diz que a mercadoria tem um caráter místico. Ela não pode ser reduzida a um fenômeno econômico como tal. Místico refere-se aos mistérios, às cerimônias religiosas secretas, que não ocorrem segundo as leis naturais ou físicas; a cadeia metonímica de significantes marxista em tela é sobrenatural, espiritual, metafísico. A mercadoria é matéria física (direito) e matéria metafísica (anverso) de uma banda de Moebius do trans-sujeito industrial capitalista moderno:
“D’où provient donc le caratère énigmatique du produit du travail, dès qu’il revêt la forme d’une marchandise? Evidemment de cette forme elle-même.
Le caractère d’égalité dea travaux humains acquiert la forme de valeur des produits du travail; la mesure des travaux individuels par leur durée aquiert la forme de la grandeur  de valeur des produits du travail; la mesure des travaux  individuels par leur durée acquiert la forme de la grandeur  de valeur des produits du travail; enfin les rapports de de produteurs, dans lesquels s’affirment les caractères sociaux de leurs travaux, acquièrent la forme d’une rapport social des produits du travail. Voilà pourquoi ces produits se convertissent en marchandises, c’ést-à-dire em choses qui tombent et non tombent pas sous les sens, ou choses sociales. C’est ainsi que l’impression lumineuse d’un objet sur le nerf optique ne se présent pas comme une excitation subjective du nerf lui-même, mais comme la forme sensible de quelque chose qui existe en dehors de l’oeil. Il faut ajouter que dans l’acte de la vision la lumière est réellement projetée d’une objet extérieur sur un autre objet, l’oil; c’est un rapport physique entre des choses physiques. Mas la forme valeur et le rapport de valeur des produits du travail n’ont absolument rien à faire avec leur nature physique. C’est seulement un rapport social determiné des hommes entre eux qui revêt ici pour la forme fantastique d’une rapport des choses entre elles”. (Marx.  1977: 69).

No livro A Ideologia alemã, Marx fala do espectro como o significante-mestre da ideologia metafísica. Trata-se da matéria metafísica na forma de vapor. (Derrida: 227-235).
Marx se define como um físico: “Le physicien, pour se rendre compte des procédés de la nature, ou bien étudie les phénomènes lorsqu’ils se présentent sous la forme la plus accusée, et la  moins obscurcie par des influences perturbatrices, ou bien il experimente dans des conditions qui assurent autant que possible la régularité de leur marche. J’étudie dans cet ouvrage le mode de production capitaliste et les rapports de production et d’échange qui lui correspondente”. (Marx. 1977: 12).
A física de Marx articula seu objeto como physis industrial capitalista: “Il ne s’agit point ici du développement plus ou moins complet des antagonismes sociaux qu’engendre les lois naturalles de la production capitaliste, mais de ces lois elles-mêmes, des tendances qui se manifeste et se réalisent avec une nécessité de fer. Le pays le plus développé industriellement ne fait que montrer à ceux qui le suivent sur l’échelle industrielle l’image de leur propre avenir”. (Marx. 1977: 12).      

Marx foi o crítico da ideologia metafísica alemã moderna. O livro O capital é uma banda de  Moebius – crítica da matéria metafísica mercadoria (direito) e física do real do capital moderno (avesso).

Retomando a primeira citação de Marx: C’est seulement un rapport social determiné des hommes entre eux qui revêt ici pour la forme fantastique d’une rapport des choses entre elles. Pour trouver une analogie à ces phénomène, il faut la chercher dans la région nuageuse du monde religieux. Là les produits du cerveau human ont l’aspect d’êtres independents, doués de corps particuliers, en communication avec les hommes et entre eux. Il en est de même des produits de la main de l’homme dans le monde marchand. C’est ce qu’on peut nommer le fetichisme attaché aux produits du travail, dés qu’ils se présentent comme des marchanadises, fétichisme inséparable de ce mode de production”. (Marx. 1977: 69).

Claro que não se trata de lógica do significante mercadoria, e sim da gramática física do real da matéria metafísica fetichismo da mercadoria.    

St°Agostinho concebeu a matéria metafísica antes de Marx:
“Que amo eu, quando Vos amo? Não amo a formosura corporal, nem a glória temporal, nem a claridade da luz, tão amiga destes meus olhos, nem as doces melodias das canções de todo gênero, nem o suave cheiro das flores, dos perfumes ou dos aromas, nem o maná ou o mel, nem os membros tão flexíveis aos abraços da carne. Nada disto amo, quando amo meu Deus. E contundo, amo, uma luz, uma voz, um perfume, um alimento e um abraço, quando amo meu Deus, luz, voz, perfume e abraço do homem interior, onde brilha para a minha alma uma luz que nenhum espaço contém, onde ressoa uma voz que o tempo não arrebata, onde se exala um perfume que o vento não esparge, onde se saboreia uma comida que a sofreguidão não diminui, onde se sente um contanto que a saciedade não desfaz. Eis o que amo, quando amo o meu Deus”. (St°Agostinho: 264).      

St° Agostinho ama a matéria metafísica Deus! Lacan, talvez, considerasse que o Santo ama Deus como objeto a (objeto de desejo sexual), envergonhadamente. E St° Agostinho, talvez, considerasse que o objeto a é matéria metafísica do Diabo lacaniano!     

A propósito, a gramática metafísica do real se articula claramente pela relação trans-sujeito/sujeito, em Marx:
“Pour éviter des malentendus possibles, encore um mot. Je n’ai pas peint em rose le capitaliste et le propriétaire foncier. Mais il ne s’agit ici des personnes, qu’autant qu’elles sont la personnification de catégories économiques, les supports d’intérêts et de rapport de classes determinés. Mon point de vue, d’aprés lequel le développement de la formation économique de la societé est assimilable à la marche de la nature et son histoire, peut moins que tout autre rendre l’individu responsable de rapports dont il reste socialment la créature, quoi qu’il puisse fair pour s’en  degager”. (Marx. 1977: 13).

Está claro que o indivíduo é a criatura social percepio animal, um animal vocal socialis como personificação do trans-sujeito socialis categorias econômicas. Ele não é sujeito responsável pela história da physis da economia; ele é o suporte dessa história. Personne (pessoa) está fora desse território objetivo/subjetivo gramatical metafísico marxista. As classes e os interesses de classes como trans-sujeito oeconomicus articulam o território historial marxista, pois,  personne não é capaz de suportar a verdade.

O sujeito não diz verdade, mas a suporta: “O que justifica essa regra é que, precisamente, a verdade não é dita por um sujeito, mas suportada”. (Lacan. S. 16: 67).   A ciência da econômica política não é a verdade econômica como dizer de um sujeito burguês (Ricardo, por exemplo), ela é suportada por Ricardo como um efeito ideologicus da luta de classes. As massas simbólicas burguesas suportam tal verdade como homo ideologicus no território objetivo/subjetivo da luta de classes.

Tal leitura diz respeito a uma época finito!

                                                                                   IV

A interpretação de Marx da política francesa democrática 1848 cabe na gramática dialética topológica. A política se define como uma banda de Moebius metafísica/física. Este é o segredo da episteme política econômica marxista da política moderna. Até hoje não conheci qualquer marxista que tivesse alcançado o poder epistemológico do trecho citado abaixo. Os mais eruditos marxistas europeus e de toda a América o consideram um floreio retórico estético para perfumar (depois de se banhar, a mulher passa um óleo perfumado em sua pele macia; então, abre uma caixa colorida e ornamentada; nela há vários tipos de frascos de vidro, marfim, concha ou pedra; dentro deles há uma seleção de óleos e perfumes delicadamente aromatizados com bálsamo, canela, cardamomo, mel, mirra, olíbano e substâncias semelhantes) a gramática dialética/analítica do real da política francesa. A França/mulher é o Leitor de Marx. 
“A Assembleia Nacional eleita está em uma relação metafísica com a nação ao passo que o presidente está em uma relação pessoal com ela. A Assembleia Nacional exibe realmente, em seus representantes individuais, os múltiplos aspectos do espírito nacional, enquanto que no presidente esse espírito nacional encontra a sua encarnação. Em comparação com a Assembleia, dele possui uma espécie de direito divino; é presidente pela graça do povo”. (Marx. 1974: 346).

A política francesa cum Hegel se dá através do uso da categoria de espírito. Geist está etimologicamente associado à “fantasma” metafísico. Hegel pensa de Geist der Zeit (‘espirito de uma época, do tempo) em lugar de Zeitgeist. Trata-se da mentalidade, vida social e produtos de uma dada época, especialmente no seio de um determinado povo, compartilham de um espírito comum. (Inwood: 119). O espírito hegeliano é uma articulação de um território metafísico da subjetividade de um povo fazendo pendant com a physis do mundo-da-vida e, também, com os produtos culturais de uma época. Por exemplo, o americanismo é Geist der Zeit mundializado.

A hegelianização do discurso de Marx sobre a política tem a metafísica do espírito nacional. Mas existe uma metafísica marxista no dizer que fala de uma articulação metafísica da Assembleia com a nação, ou melhor, com o espírito nacional. Na banda Moebius da política francesa, a Assembleia encontra-se no lado direito (metafísico); ela exibe em seus representantes individuais, os múltiplos aspectos físicos do espírito nacional metafísico; ela desliza para o lado avesso (física), aí ela como física do metafísico espirito nacional hegeliano é regulada pelo direito Constitucional. Lembro ao leitor que se trata da República democrática parlamentar francesa 1848.

Luís Bonaparte mantém uma relação pessoal com o espírito nacional. Este encontra no presidente sua encarnação. Bonaparte é Cristo descendendo novamente à Terra (heresia ou ironia socrática?). Assim, ele adquire um direito divino de governar a democracia francesa.

Encarnação (do latim in carnare, "fazer-se carne") é um significante de várias culturas políticas econômicas religiosas presente no cristianismo. O Novo Testamento fala da encarnação do Verbo para enfatizar que Deus fez-se homem, pois nessa narrativa gramatical metafísica do trans-sujeito sagrado Cristão, Jesus é descrito como vindo em carne: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e nós vimos a sua glória, glória que ele tem junto ao Pai como filho único, cheio de graça e verdade”. (Bíblia: 1986).

Há um extraordinário ecletismo bem temperado, enxuto como uma revelação em Marx. Ele se socorre na filosofia metafísica de Hegel, na narrativa metafísica cristã e na dialética materialista par pensar a política democrática francesa. In carnare, significa que o presidente é a carne do espírito nacional. Aí está estabelecido a banda de Moebius, mais uma vez, entre a física (carne) e a metafísica em in carnare.

Cristo é o arcano da cultura política econômica ocidental para se pensar o direito divino de Bonaparte governar a França democrática moderna. Bonaparte é eleito pela graça do povo francês camponês cristão. O camponês sofredor (sujeito cristão) é a voz de Cristo na terra, e Jesus é única voz autorizada de Deus (ele é o único filho do PAI), ou seja, da narrativa trans-sujeito sagrada cristã.    

 Sobre o sujeito, a criatura social percepio animal de Marx é um sujeito da história universal; ele é o avesso do sujeito cristão, pois, não é um sofredor: a) “Um sujeito é aquilo que pode ser representado por um significante para outro significante”. O sujeito é aquilo que pode ser representado de um discurso para outro discurso. A criatura percepio de Marx é aquilo que pode ser representada para o discurso gramatical metafísico lacaniano; b) “O sujeito, seja qual for a forma em que se apresenta em sua presença, não pode reunir-se em seu representante de significante sem que se produza, na identidade, uma perda, propriamente chamada de objeto a” (Lacan. S. 16: 21), ou seja, objeto de desejo sexual gramatical metafísico; c) “Mais de uma coisa no mundo é passível do efeito do significante. Tudo o que está no mundo só se torna fato, propriamente, quando com ele se se articula o significante. Nunca, jamais surge sujeito algum até que o fato seja dito. Temos que trabalhar entre essas duas fronteiras”. Trata-se da fronteira entre o fato como tal e o fato dito por um discurso, fato/sujeito, ou melhor artefato. (Lacan. S. 16: 65); d) “O que enuncio do próprio sujeito como sendo efeito do discurso torna absolutamente impossível que o meu se faça um sistema”. (Idem: 47).

O sujeito lacaniano não é o Sujeito da filosofia do sujeito. Aqui o discurso lacaniano já é o efeito da episteme política econômica althusseriana. A criatura é o homem/sujeito que não faz a história. São as massas que fazem a história (Althusser. 1973: 24). A história é ação de um sujeito/massas? ˂ Sujeito >/massas põe sagrados problemas de identidade, de identificação. Um sujeito é também um ser do qual se pode dizer: ˂ c’est lui! >. Le ˂sujet >/masses, comment faire pour dire: ˂c’est lui >? (Idem: 27).

A Tese do Manifesto Comunista (a luta de classes é o motor da história) desloca tal problema de uma episteme política econômica da filosofia do sujeito para a episteme política do sujeito de Marx: “Ce sont les masses qui ˂ font > l’histoire, mais ˂ c’est  la lutte des classes qui est le moteur de l’histoire >”. (Idem: 27). Assim, o sujeito massas é um efeito do trans-sujeito gramatical metafísico/físico esquizo luta de classes.
  
Assim, a história é um processo da physis política universal sem sujeito. O sujeito é apenas a criatura marxista percepio animal (distinto do animal vocal ancilar do discurso do maître em Aristóteles):  “Quand cela est clair, la question du ˂ sujet > de l’histoire disparaît. L’histoire est um immense système ˂ naturel-humain >  en mouvement, dont le moteur est la lutte de classes. L’histoire est um processus, et un processus sans sujeit. La question de savoir comment ˂ l’homme fait l’histoire > disparaît completamente; la théorie marxiste la rejette définitivement dans son lieu de naissance : dans l’ideologie bourgeoise”. (Althusser: 31).

Trata-se da rejeição do sujeito da agramatical metafísica do homo ideologicus burguês.             
O fato sujeito historial é a articulação do fato ao significante. Sujeito = artefato discursivo, ou melhor, efeito gramatical metafísico do trans-sujeito esquizo universal (gramatical e/ou agramatical) da matéria metafísica narrativa banda de Moebius universal civilizacional.        

Rigorosamente, trata-se de uma interpretação economicista historial? Ou tal trans-sujeito economicista não foi metabolizado pelas massas simbólicas mundiais como ciência econômica inclusive universitária no século XXI?

Finalmente, a fronteira lacaniana/althusseriana entre fato e artefato, entre o que existe na realidade dos fatos/realidade dos artefatos pode ser vista pela relação na banda de Moebius fato [criatura social percepio animal (direito) / multidão hobbesiana-sujeito (avesso), que suprassume as massas das lutas de classes na história universal]. A criatura percepio animal pode se apoderar, invadir, tomar o território objetivo/subjetivo historial político, pois, como verbo na gramática metafísica é percepio (agir na physis da política como vontade de potência nietzschiana natural). Isso significa que ela pode tomar, invadir apoderar-se do território objetivo/subjetivo da physis da sociedade historial da política. Nesse caso, ela é o efeito do trans-sujeito Diabo alemão romântico. Faz pendant com ele a sociedade matilha negra do cão e da cadela negros (máquina de guerra psicopática do Diabo) e, também, o Estado agramatical negro mundial articulado nos territórios nacionais, também.         
     
                                                                      V

A episteme política econômica da física gramatical do REAL estabelece que o objeto primeiro dessa ciência gramatical do real é a banda de MOEBIUS - Deus (direito) / Diabo (avesso).
TAL banda de Moebius é matéria metafísica/física do REAL. A Matéria Metafísica é um significante real CONTRASIGNIFICANTE, de Santo Agostinho.

Na episteme política materialista transdialética: 
1. A banda de Moebius metafísica/física não articula a gramática dialética topológica do trans-sujeito gramatical/agramatical metafísico/físico esquizo universal? em uma analogia com a dialética maoísta, a banda de Moebius metafísica/física está no lugar da contradição principal. O lado direito é o aspecto principal e o anverso o aspecto secundário. O aspecto principal (lado direito) significa o princípio de articulação da realidade dos fatos e o anverso o princípio de articulação da realidade dos artefatos. O aspecto principal contém a essência (o verdadeiro), é invisível e latente, e o secundário contém a aparência visível (semblância). O principal articula o inconsciente nietzschiano e o secundário a consciência possível/semblância das massas.
2. A episteme política encontra-se, inicialmente, nos diálogos de Platão. Lacan diz que ela articula o saber do maître como saber transmissível:
“Está aí todo o esforço de desvencilhar mento do que se chama episteme. É uma palavra engraçada, não sei se vocês alguma vez refletiram bem sobre ela – colocar-se em uma boa posição, é em suma a mesma palavra que verstehen. Trata-se de encontrar a posição que permita que o saber se torne um saber de senhor. A função da episteme especificada como saber transmissível – remetam-se aos diálogos de Platão – é sempre tomada por inteiro das técnicas artesanais, quer dizer dos servos. O que está em questão é extrair sua essência para que esse saber se torne um saber de senhor”. (Lacan. S. 17: 21).

A episteme associada ao discurso do maître, ou seja, na relação senhor/servo tem uma natureza política - episteme política. No seu desenvolvimento, ela pode ser gramatical ou agramatical. 

Caio Prado Júnior pensa uma episteme política dialética IDEOlogicus (agramatical): “Outro sentido da Dialética, é o da dialética como método lógico, isto é, como maneira de abordar e considerar os fatos da Natureza, como posição ou ângulo em que se há de colocar o pensamento em frente a eles”. (Prado Jr: 15). Para Caio Prado, trata-se da episteme científica.

A episteme é a arma filosófica de Platão contra o sofista. Ela quer dizer saber transmissível em um contraponto com a persuasão da doxa sofista, que não é um saber transmissível. Em Hobbes, há a ambição de associar episteme moderna (o discurso científico do maître) e massas da população em geral. Trata-se e um fenômeno cultural político intelectual econômico onde a ciência moderna é metabolizada pelas massas ignaras (homem comum), transformadas, então, em massas simbólicas, massas/sujeito zero senso comum:
“Hobbes enfatizou, mais uma vez, que seu livro original se baseara nos princípios do ensino, em contraste com os da persuasão, e que, em consequência disso, ele pudera demonstrar suas conclusões, em vez de meramente afirmá-las em termos probabilísticos”. (Skinner: 402).

E a relação com as massas sujeito zero ciência da política é a da possível metabolização trans-subjetiva:
“Mas, como ele já havia explicado no capítulo 13, ensinar é gerar na mente do outro uma concepção que ele não se sinta inclinado a questionar. Assim, o que Hobbes afirma, mais uma vez, é que a razão é capaz de produzir conclusões que vão além da controvérsia ou da dúvida. Além disso, ele insiste em que esses ditames da razão são tais que até as pessoas das mais modestas capacidades podem ter esperança de acompanha-las sem dificuldade”. (Skinner: 403-404).

A revolução moderna é vontade de potência gramatical ou agramatical hobbesiana pela metabolização da ciência moderna pelas massas. Assim, o discurso do maître deixa de servir à dominação do maître sobre os escravos para servir à revolução das massas ancilares. Aqui, o maître transmuta-se em intelectual hegemônico (Príncipe moderno gramsciano ou Príncipe negro hitlerista). 

O intelectual hegemônico é o magister ludi dos jogos de linguagem em uma tela gramatical ou agramatical:
“520. “Mesmo quando se concebe a frase como imagem de um estado de coisas possível e se diz que ela mostra a possibilidade do estado de coisas, então, no melhor dos casos, a frase pode fazer o que faz uma imagem pintada ou plástica, ou um filme; e ela, em todo caso, não pode colocar o que não se dá. Portanto, depende inteiramente de nossa gramática o que é (logicamente) dito possível e o que não é, - a saber, o que ela autoriza? ” (Wittgenstein: 148).        

A Tese 11 sobre Feuerbach introduziu o princípio da filosofia como partido: “ Os filósofos apenas interpretaram o mundo de forma diferente, o que importa é mudá-lo”. (Labica: 164). Trata-se da ideia do partido em filosofia, do Príncipe em filosofia política econômica como continuação na política mundial do Príncipe de Maquiavel.    

Lenin diz que dois campos dividem os filósofos: o materialismo (física) e o idealismo = metafísica:
“En el transcurso de toda la exposición  anterior hemos abservado, en cada una de las cuestiones de gnoseología que temos tocado, en cada cuentión filosófica planteada por la nueva física, la lucha entre el materialismo y el idealismo. Siempre, sin excepción, tras el fárrago de artificios de la nueva terminologia, tras la basura de la escolástica erudita, hemos encontrado dos líneas fundamentales, dos direfundamentales en la manera de resolver las cuestiones filosóficas: ¿Tomar o no como lo primario la naturaleza, la materia, lo físico, el mundo exterior, y considerar la consciência, el espiritu, la sensación (la experiencia según la terminología em boga de nuestros días), lo síquico, etc., como lo secundario? Tal es la cuestión capital que de hecho continua dividiendo a los filósofos em dos grandes campos. La fuente de millares y milarres de errores y confusiones en esta matéria, estriba precisamente en el hecho de que, bajo la apariencia de los términos, de las definiciones, de los subterfúgios escolásticos, de las sutilezas verbales se dejan pasar inadvertidas estas dos tendenciais fundamentales (Bogdánov, por ejemplo, se niega a confesar su idealismo, pues há sustituido las nociones ‘metafísicas’ de ‘naturaleza’ y ‘espiritu’ por nociones ‘experimentales’ de lo físico y lo síquico. ¡Se há trocado una palabreja!). (lenin. 1975: 268).   O significante síquico significa um efeito do discurso freudiano na cultura política marxista russa?            

Marx e Engels eram em filosofia homens de partido (Lenin. 1975: 270) e desenvolveram o partido do materialismo em filosofia nas ciências sociais:
“El gênio de Marx y Engels consiste precisamente en que durante un período muy largo, de casi medio siglo, desarrollaran el materialismo, impulsaron una dirección fundamental de la filosofia y no se detuvieron a repetir las cuestiones gnoseológicas ya resueltas, sino que aplicaron consecuentemente y demonstraron cómo debe aplicarse este mismo materialismo a las ciencias sociales, barriendo de un modo implacable, como si fueran inmundicias, los absurdos, el galimatías enfático y pretencioso, las innumerables tentativas de ‘descubrir’ una ‘nueva’ línea em filosofía, de inventar una ‘nueva’ dirección, etc. El carácter verbal de semejantes intentos, el juego escolástico a nuevos ‘ismos’ filosóficos, el oscurecimento del fondo de la cuestión por medio de sutilezas rebuscadas, la incapacidad de comprender y de exponer con claridad la lucha de las dos direcciones fundamentales de la gnoseologia: he aquí lo que Marx y Engels persiguieran y combatieron en el transcurso de toda su actividad”. (Idem: 268).

Alguns truísmos da filosofia universitária: “Gnosiologia é o ramo da filosofia que se preocupa com a validade do conhecimento em função do sujeito cognoscente, ou seja, daquele que conhece o objeto. Este (o objeto), por sua vez, é questionado pela ontologia que é o ramo da filosofia que se preocupa com o ser. E mais ainda: “A gnoseologia não pode ser confundida com epistemologia, termo empregado para referir-se ao estudo do conhecimento relativo ao campo de pesquisa, em cada ramo das ciências”.

Episteme política econômica é a melhor posição no discurso do maître para invadir o campo da gnosiologia e os territórios da ontologia e da epistemologia com o objetivo de pô-las a serviço da ciência gramatical dialética do real fazendo pendant com o Partido gramatical em filosofia hoje.

O Partido do materialismo tem como ponto-de-partida a realidade objetiva e a percepção sensível da matéria em movimento. Há uma inflexão na percepção sensível quando ela se transmuta em percepção industrial da realidade dos fatos/artefatos com o americanismo. A percepção é, também, da ordem da língua, ou seja, da relação da língua com a realidade. A percepção sensível dos usuários do inglês se alterou com o inglês industrial. (McLuhan: 233). Este sustenta uma nova forma de relação da percepção sensível do sujeito com o mundo. Se a língua inglesa é o ser do trans-sujeito do americanismo e o sujeito mundial o efeito do discurso do americanismo, se o capital agramatical industrial negro é o modo de transmissão da percepção sensível industrial do mundo do americanismo, então, é preciso considerar que o território subjetivo/objetivo da percepção sensível da realidade mundial autodissolve a ideia da percepção sensível da filosofia materialista.    

Lenin diz: “ Una vez que negáis la realidad objetiva, que nos es dada en la sensación, hábeis perdido ya toda  arma contra o fideísmo, puesto que habéis caído ya en el agnosticismo o en el subjetivismo, y el fideísmo no os pide más. Si el mundo sensible es una realidad objetiva, no queda lugar para cualquier otra ‘realidad’ o cuasi realidad (acordáos que Basárov creía en el ‘realismo’ de los inmanentistas, quienes declaraban que Dios era um ‘concepto real’. Si el mundo es matéria en movimiento, se la puede y se la debe estudiar infinitamente en las infinitamente complicadas y menudas manifestaciones y ramificaciones de este movimiento, del movimiento de esta matéria, pero nada puede haber fuera da tal matéria, fuera del mundo ‘físico’, del mundo exterior,  a todos familiar. La fobia al materialismo y la multitud de calumnias acumuladas contra los materialistas están a la orden del día en la Europa civilizada y democrática”. (Lenin. 1975: 274).          

A ciência materialista da política leninista é, de certa forma, um desvio revolucionário da ciência hobbesiana gramatical do real. Lenin pensa um campo de poder hobbesiano com a multidão para além da multidão hobbesiana da soberania popular. Trata-se da multidão operária/camponesa da revolução bolchevique 1917, ator-multidão hobbesiano sujeito grau zero soberania popular.

A revolução leninista 1917 faz pendant com uma episteme política econômica (materialista dialética) que significa um saber filosófico articulado como um método científico transmissível para as massas. As massas/sujeito não dizem a verdade. O sujeito não diz verdade, mas a suporta como pontua Lacan: “O que justifica essa regra é que, precisamente, a verdade não é dita por um sujeito, mas suportada” como verdadeira.

O problema de a relação saber/massas e história é um problema hegeliano (Lenin. 1974.pg 23.
Em Hegel, tal problema é fruto de clamorosas contradições em seu pensamento dialético entre os partidos da filosofia materialismo versus idealismo ou espiritualismo cristão-germânico. (Lenin. 1974: 25). 

As contradições do pensamento hegeliano é suprassumida com a ideia de Marx da Tese 11 sobre a unidade dialética materialista entre teoria e prática. Tal fato é o partido em filosofia como Príncipe moderno marxista (direito) ou Príncipe negro fascista (avesso).
Lenin fala da relação entre ideias e massas revolucionárias que tem como arcano as massas da Revolução francesa:
“ Las ideas – escribe Marx citando a Bauer – que la Revolución francesa había engendrado no llevaron más allá del orden que ella quería suprimir por la violencia. 
“ Las ideas jamás pueden llevar más allá de un antiguo orden mundial; no pueden hacer otra cosa que llevar más allá de las ideas de ese antiguo orden. Hablando en términos generales, las ideas no pueden ejecutar nada. Para la ejecución de las ideas hacen falta hombres que disponga de certa fuerza práctica”.

La Revolución francesa engendró las ideas del comunismo (Babeuf), que, elaboradas en forma coherente, contenían la idea de un nuevo Weltzustand”. (Lenin. 1974: 29).
Portanto, não é o homem francês Babeuf que produz a ideia de comunismo moderno. O significante comunismo não é do campo literário (não se trata de um significante ficcional), mas do território trans-subjetivo real Revolução francesa articulado como lutas de classes. Tal significante será metabolizado pelas massas-suporte da verdade da revolução comunista.

As massas francesas percepio animal é o primeiro fenômeno que faz da política uma banda de Moebius metafísica/física moderna. As massas modernas são o efeito real, na política, de um dizer gramatical dialético topológico!   
               

                                                                                      VI

Nietzsche é um dos criadores da transdialética gramatical materialista. Ele escreveu sobre o método científico:
                                                   “466
O que distingue o nosso século XIX não é a vitória da ciência, mas sim a vitória do método científico sobre a ciência”.
                                                    “ 469
As compreensões mais valiosas são achadas tardiamente: mas as compreensões mais valiosas são os métodos.
Todos os métodos, todas as pressuposições de nossa ciência de agora tiveram contra si, durante milênios, o mais profundo desprezo: por causa deles, foi-se excluído do trato com homens de bem – era-se considerado ‘inimigo de Deus’, desprezador dos supremos ideais, ‘possesso’. (Nietzsche. 2008: 255).

Obviamente, trata-se de uma mudança no equilíbrio de força entre Deus e o Diabo. O método científico transforma a forma historial da banda de Moebius onde Deus ocupava o lado direito ou aspecto principal da contradição principal. Aí começa a genealogia geopolítica metafísica/física na qual o Diabo se tornaria a essência da vida política do mundo e Deus sua semblância. Por essa gramática metafísica historial, Deus está morto como a verdade do mundo.

Então, Como se articulam Deus e Diabo?

Na transdialética materialista metafísica/física - Deus cria o bem e faz o mal. O Diabo cria o mal e faz o bem!                    

A revolução é vontade de potência narrativa nietzschiana gramatical ou agramatical. Trata-se de uma nova banda com gramática metafísica materialista nietzschiana direito e avesso, que suprassume a narrativa cristã espiritualista Deus e o diabo. POR ISSO NIETZSCHE ESTABELECEU DEUS ESTÁ MORTO? Passagem historial da narrativa gramatical metafísica sagrada idealista da banda de Moebius Deus/Diabo (cristão) para a narrativa gramatical metafísica materialista banda de Moebius Diabo alemão do grotesco romântico/Zaratustra. Trans-sujeito Diabo alemão romântico/trans-sujeito Zaratustra.  De fato, a banda de Moebius cristã se tornou uma contradição secundária na articulação da realidade dos fatos pela gramática dialética topológica do real. 

A narrativa gramatical metafísica cristão articulava a memória cultural política econômica da história universal a partir da civilização arcaica como Partido em filosofia/religioso idealista. Agora, ela foi suprassumida pela narrativa do romantismo alemão clássico estabelecido por Goethe a Nietzsche na articulação da gramática materialista dialética. 

Em Goethe temos a episteme política econômica do Diabo. Em Nietzsche, a episteme política Zaratustra. Este fenômeno político do século XXI é a vontade de potência gramatical que prepara o terreno para a invasão do território objetivo/subjetivo do lado direito (aspecto principal da contradição), onde se encontra o Diabo alemão e suas máquinas (cão negro e cadela negra) articuladas por uma vontade de potência agramatical, negra.    

A banda de Moebius do século XXI tem como antagonismo principal no lado direito o Diabo e no avesso a gramática metafísica do real Zaratustra:
“NO ano de 1988, Nietzsche escrevia (em Ecce Homo: ‘ Conheço minha sina. Algum dia, meu nome estará ligado a qualquer coisa enorme – a uma crise como nunca houve na terra, ao mais profundo conflito de consciência, a uma decisão invocada contra tudo aquilo que, até aqui, se acreditou, se estimulou, se santificou. Eu não sou um ser humano, sou dinamite’. E poucas linhas adiante, acrescentava; ‘Tenho um medo horrível de que, um dia, me proclamem santo’ ”. (Nietzsche. 1998: Nota do tradutor).                                                                  
                                                                     
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