sábado, 3 de setembro de 2016

DEUS E O DIABO NA HISTÓRIA GRAMATICAL UNIVERSAL




CIENCIA HOBESSIANA TRANSGRAMATICAL DA POLÍTICA
(Sobre a autodissolução dos fundamentos da vida humana)

Ao magister ludi do cinema – Glauber Rocha

O ponto de partida de meu texto é o deslizamento do significante gramática do domínio da língua culta para outros domínios da história universal: Estado, mulher, capital, máquina de guerra em geral. O sentido transgramatical do prefixo trans encontra-se em Bakhtin:
“A abordagem mais séria desses problemas resume-se aos métodos biográficos e sociológicos, que, no entanto, não dão provas de uma compreensão forma-estética suficientemente aprofundada do princípio criador existente na relação do autor com o herói, a qual é substituída por uma relação psicológica social, passiva e transcendente à consciência criadora: o autor e o herói não aparecem como os componentes do todo artístico, mas como componentes da unidade transliteraria constituída pela vida psicológica e social”. (Bakhtin: 29).

A passagem do literário para o transliterário é onde começa a ciência transgramatical hobbesiana da política.     

I

Se o capital é desejo sexual, trata-se do desejo na relação do ser com o RSIcpe (Real/Simbólico/Imaginário/ cultura política econômica) condensado no discurso do capital. Este não se articula como lógica do significante (capital aristotélico), e sim como transgramática do capital ou seja, gramática do capital. O ser do capital é o desejo sexual pela gramática do discurso do capital. Tal transgramática foi descoberta pela economia política clássica (Adam Smith e Ricardo) e pensada como história formal transgramatical por Marx, na crítica da economia política. Lacan estabeleceu uma Banda de Moebius no capital entre a transgramática no lado direito e a alíngua no lado anverso, ou seja, inconsciente lacaniano do capital.

O capital moderno se define por se articular como tela gramatical monetária urbana no mundo-da-vida. Marx conceituou tal fenômeno estelar como modo de produção especificamente capitalista. Porém, o capital moderno é uma máquina de guerra de pensamento estelar cuja fundação se deve à física moderna, com a matematização da physis em geral por Galileu. A alíngua é o inconsciente da escrita matemática do capital.     

Somente uma máquina de guerra de pensamento estelar tem o poder de revelar a natureza estelar do capital. Lacan diz, então, que o inconsciente do discurso do capital é alingua, um inconsciente que não é mais o inconsciente freudiano do discurso do mestre, inconsciente estruturado como se fosse uma linguagem. Alingua é o inconsciente da escrita matemática do capital fazendo pendant com a transgramatica do capital. Assim, a matematização da physis alcança a gramática do desejo sexual!   

O problema do desejo sexual é estratégico no campo freudiano. To apeiron aparece pela primeira vez em Anaximandro e se refere à substância básica de que todas as coisas consistem e, provavelmente, tem mais o sentido de indefinido, indeterminado (discurso no qual o significante não deseja se atar ao significado, definir o significado articulando a significação), do que sem fim no espaço e no tempo.
Point de capiton se refere aos pontos em que o significado e significante são atados juntos, encerrando a indefinição (indeterminação) no discurso sobre o desejo sexual.  O To apeiron do campo psicanalítico transformou o desejo sexual no mau infinito de indeterminação, de indefinição; assim, o campo do desejo sexual se define pela falta de point de capiton (ponto-de-basta; ponto-de-estofo). 

Para dar um ponto-de-basta no meu discurso sobre o desejo sexual recorro aos historiadores e aos filósofos do campo freudiano.

Elisabeth Roudinesco e Michel Plon tem certeza da relação irrevogável entre desejo e sexo em Freud:
“Mesmo não levando em conta a ideia de reconhecimento, Freud não identifica o desejo com a necessidade (biológica). Esta, com efeito, encontra a satisfação em objetos adequados, como o alimento, ao passo que o desejo está ligado a traços mnêmicos, a lembranças. Realiza-se na reprodução, simultânea inconsciente e alucinatória, das percepções transformadas em ‘signos’ da satisfação. Esses signos, segundo Freud, têm sempre um caráter sexual, uma vez que o desejo sempre tem como móbil a sexualidade”. (Roudinesco: 147).

O desejo sexual envolve memória da percepção ligada à signos da satisfação. A psicanálise jardim-de-infância modernista do homo clausus associa desejo sexual a forma de movimento do indivíduo em direção a um objeto cuja atração espiritual ou sexual é sentida pela alma ou pelo corpo? Não é assim, pois, ela não sabe que sabe que alma é almor (alma = almor), onde o sexo falta. Mas este não é o problema. O problema consiste no homo clausus. Tal significante da ideologia modernista encerra tudo no indivíduo.

Quanto a mim, penso o desejo sexual distinto do prazer sexual do indivíduo. A psicanálise ignorou a ciência política do Estado onde se encontra uma ligação entre desejo e corpo político, desde a antiguidade grega. Tal ligação é um tema da física hobbesiana. Hobbes vê dois motores elementares no agir: desejo e aversão. 

Hobbes pensa o mundo partir das relações de desejo (sexual) ou aversão (sexual) entre indivíduos, máquina de guerra em geral, multidão e a realidades dos fatos. Freud pensa a constituição do mundo a partir da dessexualização na sociedade de significantes neurótica. A sublimação/civilização é um conceito tático essencial na estratégia discursiva freudiana. Homo homini lupus (estado de guerra ou physis em Plautus) faz pendant na interseção do desejo sexual com o instinto de morte (retorno da cultura à physis). A sublimação/civilização é um suprassumir da physis pela dessexualização, pelo desejo sexual (fazendo pendant com o instinto de morte) inibido em sua finalidade. Trata-se da articulação da sociedade de significantes neurótica.

O problema é que Freud pensa o mundo a partir do discurso do indivíduo ou da pessoa, discurso do homo clausus. (Deleuze. 1974:103-111). Já Hobbes pensa o mundo como autor (multidão) e ator (assembleia política, por exemplo). O discurso da multidão e o discurso do ator (discurso institucional, se for o caso) é a suprassunção do discurso do homo clausus.

Em Hobbes, o desejo ou aversão fazem pendant com a constituição do Estado transgramatical. O Leviatã não é o efeito de uma sociedade de significantes neurótica. Aqui entramos no território do trans-sujeito, em um território para além do sujeito (indivíduo, pessoa), um território no qual o sujeito não ex-siste independente do trans-sujeito. Nesse território ex-sistêncial, o sujeito (do enunciado ou da enunciação) é um efeito do trans-sujeito!   

A leitura deleuziana de Hobbes pensa o trans-sujeito Leviatã como um efeito da sociedade de guerra ligada à physis (homo homini lupus). Tal sociedade é aquela da máquina de guerra psicopática em uma transdialética com a sociedade de significantes neurótica. Tal trans-dialética significa dessexualização dos significantes ao mesmo tempo que ressexualização deles. Tal problema confundiu os mais potentes teóricos do Estado ocidental, por exemplo, Weber. Deleuze tentou resolver o problema através do conceito de sociedade de significantes perversa, em uma releitura do Marquês de Sade fazendo pendant com a nova metafísica de Nietzsche. Como o caminho se faz no caminhar, caminho a partir dessa clareira.               

Desejo sexual remete para o principio do prazer freudiano. Deleuze fez um ponto-de-estofo no campo discursivo princípio do prazer freudiano. Trata-se de uma interpretação filosófica de tal princípio. Então é preciso caminhar, portanto, fazê-la deslizar para o campo da física hobbesiana historial.

Chama-se princípio aquilo que rege um domínio e o princípio do prazer reina sobre tudo, mas não governa tudo, pois há um além do princípio do prazer. Não se trata de exceção, mas de resíduo irredutível; não há nada de contrário ao princípio do prazer, mas há algo exterior, e heterogêneo para com o princípio, outra physis que não diz respeito ao homo clausus.

Tal physis da história universal contém o corpo político do Estado, do capital, da mulher e da máquina de guerra em geral. Penso o desejo sexual como ligação (segundo o princípio do prazer) de memória cultural política econômica de signos (e símbolos) à physis dos corpos políticos em tela gramatical transdialética ou em tela transgramatical dialética.    

O desejo sexual faz pendant com o princípio do prazer? É claro. Freud fala de uma dessexualização no processo de sublimação estética, ideológica, política, econômica na sociedade de significantes neurótica. Ao conceber a passagem do homo clausus para o homo socialis, Freud abriu a caixa de pandora do campo freudiano. Tal novo campo problemático, desafiador, perturbador e enigmático encontra-se em livros (e textos) como -  Totem e Tabu (1913), Os instintos e suas vicissitudes (1915), Além do princípio do prazer (1920), Psicologia de grupo e a análise do ego (1921), O mal-estar na civilização (1927). Neste último, o conceito de Estado animal é um verdadeiro enigma para a ciência política do Estado dos séculos XIX e XX, pois, ele religa o Estado gramatical dialético à physis, retomando a leitura de Aristóteles. (Trata-se do campo freudiano para adultos). Marx ligou o capital à physis, mas pensou o Estado ocidental em uma autonomia absoluta em relação à physis, por exemplo.

A constituição da tela gramatical historial política remete à antiguidade grega. Barker diz:
“Neles, homens ‘semelhantes’ (embora nem sempre ‘iguais’) se associavam na busca de um objetivo comum; havia assim terreno apropriado para o desenvolvimento de pensamento político. Eram indivíduos distintos do Estado que, pela sua comunhão, formavam o Estado. Qual a natureza desta distinção, e o caráter de tal comunhão? Havia uma oposição entre os instintos naturais dos indivíduos (physis) e as exigências constantes (transgramatical) do Estado? (Barker: 23; Chevallier: 21).

É altamente significativo que política derive do significante grego polis que significa cidade. (Chevallier: 19). Política é logos (Heráclito) fazendo pendant com a physis em Aristóteles:
Parece, como hemos dicho al comienzo, que amistad y justicia se refieren a los mismos objetos y tienen que ver con las mismas personas. En toda asociación parece hallarse la justicia y, por consiguinte, la amistad. Por lo menos se da el nombre de amigos a los que son compañeros de navio o de armas, igual que a los que se hallan reunidos en grupo en otras circunstancias cualesquiera. Y la extensión de la asociación es la medida de la extensión de su amistad, pues también determina la extension de sus derechos. Además, el proverbio que dice que ‘las cosas de los amigos son comunes’ es exato, pues, la amistad consiste en esa comunidad. Ahora bien, los hermanos y los camaradas lo tienen todo en común, pero en las demás formas de amistad solo son comunes ciertas cosas determinadas, más o menos numerosas según los casos; pues también entre las amistades las hay que lo son más y que lo son menos. También hay diferencias en las relaciones de derecho: los de los padres respecto de sus hijos son distintos de los derechos de los hermanos entre sí, y los de los compañeros son distintos de los que tienen los ciudadanos. Y así en las otras clases de amistad. Igualmente varían las injusticias que uno puede cometer con los membros de cada uno de estes grupos; se agravan por el hecho de ser más estrecha la relación entre el ofensor y el ofendido; por ejemplo, es más grave quitar dinero a un compañero que a un ciudadano, o negar ayuda a un hermano que a un extraño; o golpear a su padre que al primer advenedizo. La natureza quiere, en efecto, que la obligación de ser justo aumente con la amistad, puesto que la justicia y la amistad se dan entre las mismas personas y tienen una extensión igual”. (Aristoteles: 465).

A tela transgramatical política tem a amizade como princípio gramatical de sua ex-sistência não separada da physis. A inimizade é o princípio de desarticulação da política, da polis, e, também da comunidade natural. Ela é um significante da physis de um povo constituído de homens livres e normais? Partes de si contra partes de si é um elemento normal da tela gramatical política democrática (politeia)? 

Como tela transgramatical, a comunidade política articula o significante associação, e as formas particulares de amizade correspondem às espécies de associação. Ela sobredetermina historial/formalmente todas as espécies de comunidades:
“Pero todas las comunidades parecen ser como partes de la comunidade política; los hombres, en efecto, se asocian para viajar juntos en busca de un provecho determinado, y para procurarse alguna de las cosas necesarias para a vida; y se cree que también la comunnidad política se constituye en su origen y se mantiene con miras a un provecho de sus miembros. Y este bien común es la meta a que aspiran los legisladores, quienes dicen que es justo lo que es beneficioso para todos. Así, pues, las demás comunidades buscan una ventaja particular: por ejemplo, los navegantes, al navegar juntos, buscan el beneficio del dinero; los compañeros de armas, a su vez, buscan el botin, o la victoria, o tomar una ciudad; y de manera semejante los miembros de una tribo o de un demo, [algunas asociaciones parecen tener como fin el placer, como son las de los miembros de un thiasos o de los círculo subvencionados a escote; existen, en efecto, para ofrecer sacrificios o para mantener relaciones socialis. Pero todas ellas parecen depender de la comunidad política; pues la comunidad política no busca meramente el bien presente, sino el bien que alcanza la vida entera] que ofrecen sacrificios y celebran reuniones con este fin, rindiendo honores a los dioses y procurándose a sí mesmos distracciones plancenteras. Pues los antigos sacrificios y las reuniones es evidente que tenían lugar luego de la  recolección de los frutos y eran a modo de ofrendas de primicias: esta es, em efecto, la estación del año en que el pueblo disfrutaba de más tiempo libre.

Todas estas formas de asociación, pues, son evidentemente partes de la comunidad política y sus formas particulares de amistad corresponden a las especies de asociación”. (Aristoteles: 465-466).
Na tela transgramatical aristotélica, na medida que todas as formas de associação são parte da comunidade política, e as formas particulares de amizade fazem pendant com as espécies de associação, há uma política gramaticalmente racional (todo) e a outra gramaticalmente natural ou parte (não-todo). A tela transgramatical aristotélica pode ser vista como uma Banda de Moebius tendo no lado direito o todo (política racional) e no lado anverso a parte, ou não-todo (política natural faccional). A política racional faz pendant com a amizade universal e a política natural com a amizade particular. A política racional é aquela da politeia e a política natural é aquela da oligarquia. 
A justiça da política racional é não prejudicar. A justiça oligárquica é ajudar o amigo e prejudicar os outros.

Retomando o fluxo narrativo, Clément Rosset tem uma página inigualável sobre physis e cultura política (artifício) em Aristóteles:
“A espontaneidade natural de Aristóteles, evidentemente, não tem relação com a espontaneidade da natureza em Lucrécio que, tendo em vista a ausência de finalidade na física lucreciana, é de ordem fortuita e artificial. Todavia, esta oposição entre natureza e artifício não basta para explicar a especificidade do naturalismo aristotélico. Se é o modelo artificial que inspira a visão da natureza no epicurismo (ao menos no epicurismo de Lucrécio), o mesmo pode ser dito aristotelismo. Em Aristóteles, natureza e arte são noções tão intercambiáveis que é lícito perguntar se o modelo artificial não inspira a visão naturalista. É verdade que Aristóteles constantemente afirma o contrário: a produção artificial deve sempre aprender com a produção natural, quer se trate da produção técnica, da produção estética (teoria da mimésis, na Poética) ou da produção do Estado (o livro I da Política quer ressaltar o caráter natural e não contratual das relações sociais fundamentais). Porém, por outro lado, é fácil mostrar que o modelo natural ao qual Aristóteles se refere é concebido em termos artificialistas: a natureza produziria seus produtos naturais exatamente como o homem produz produtos artificiais”. (Rosset: 233).

A prática política racional (artificialista) faz pendant com um trans-sujeito cuja transgramática o liga a physis. A prática natural (physis) é parte da tela gramatical do trans-sujeito que se articula como uma Banda de Moebius mundo da physis/ mundo da cultura política econômica.            

O problema physis dos povos (estado de natureza ou de guerra) e cultura política econômica (contrato) é fatal na ciência hobbesiana transgramatical da política. Em um outro texto tratarei desse objeto.

II     

Retomo o fio da meada. Em Freud, o capital seria um ser objetivamente dessexualizado, pois, para Freud, o capital não é trabalho trans-subjetivo, ou seja, trans-sujeito fazendo pendant com Mehwert (mais-valia) e plus-de-jouir, ou sejam, mais-de-gozar. Porém, o Estado animal transposto para o homo socialis liga esse à physis, pois, o desejo sexual tem uma ligação com a physis, ligação na qual a sociedade animal faz pendant com o homo socialis. Abelhas, formigas e térmitas não têm memória sexual? (Freud. v. XXI: 146).        

O texto de Freud é claro sobre a relação entre sublimação do desejo sexual e prazer dessexualizado no homo clausus:
“A maneira aqui consiste em reorientar os objetivos instintivos de maneira que eludam a frustração do mundo externo. Para isso, ela (técnica para obter felicidade) conta com a assistência da sublimação dos instintos. Obtém-se o máximo quando se consegue intensificar suficientemente a produção de prazer a partir das fontes de trabalho psíquico e intelectual. Quando isso acontece, o destino pouco pode fazer contra nós. Uma satisfação desse tipo, como, por exemplo, a alegria do artista em criar, em dar corpo às suas fantasias, ou a dos cientistas em solucionar problemas ou descobrir verdades, possuiu uma qualidade especial que, sem dúvida, um dia poderemos caracterizar em termos metapsicológicos. Atualmente, apenas de forma figurada podemos dizer que tais satisfações parecem ‘mais refinadas e mais altas’. Contudo, sua intensidade se revela mais tênue quando comparada com a que se origina da satisfação de impulsos instintivos grosseiros e primários; ela não convulsiona o nosso ser físico”. (Freud. v. XXI: 98). 

Pensando no campo da metapsicologia, a relação entre desejo sexual sublimado na dessexualização do prazer pelo trabalho é um imbróglio freudiano da sociedade dos significantes neurótica moderna:
“A atividade profissional constitui fonte de satisfação especial, se for livremente escolhida, isto é, se, por meio de sublimação, tornar possível o uso de inclinações existentes, de impulsos instintivos persistentes ou constitucionalmente reforçados. No entanto, como caminho para a felicidade, o trabalho não é altamente prezado pelos homens. Não se esforçam em relação a ele como o fazem em relação a outras possibilidades de satisfação. A grande maioria das pessoas só trabalha sob pressão da necessidade, e essa natural aversão humana ao trabalho suscita problemas sociais extremamente difíceis”. (Idem: 99).

A aversão ao trabalho não é no fundo da tela gramatical freudiana aversão sexual. Pois, se trata da inibição da finalidade do desejo sexual como desvio da energia narcísica sexual para o processo de trabalho. Aqui, Freud não é hobbesiano?   

O princípio do prazer dessexualizado é suprassunção da anatomia como destino do corpo humano prosaicamente vulgar no território da subjetividade/terra? Isso é um acontecimento que funda o significante civilização = cultura? Suprassunção dos instintos baixos em um agir sublimatório, agir em direção ao céu. Freud aplicou em Dostoievski o rigor do conflito entre o desejo sexual e a sublimação:
“Selecionamos, da complexa personalidade de Dostoievski, três fatores, um quantitativo e dois qualitativos: a extraordinária intensidade de sua vida emocional, sua disposição instintual inata e pervertida, que inevitavelmente o marcava para ser um sado-masoquista ou um criminoso, e seu dotes artísticos inanalisáveis. Essa combinação poderia muito bem existir sem neurose; há pessoas que são masoquistas completas sem serem neuróticas. Não obstante, o equilíbrio de forças entre suas exigências instintuais e as inibições que lhes opunham (mais os métodos disponíveis de sublimação) tornariam mesmo assim necessário classificar Dostoievski como sendo aquilo que é denominado de caráter instintual”. (Idem: 207).

O caráter instintual é o desejo sexual perverso no comando do princípio do prazer que rege a vida do indivíduo e transita para o homo socialis. Ele é apropriado para fundar, a sociedade de significantes perversa. A memória cultural política econômica intelectual hegeliana pensa Dostoievski como um criminoso que funda a sociedade de significantes perversa como direito, outra lei e outros costumes?
“Conforme o primeiro lado, a independência só confere ao encontrado a forma da individualidade consciente em geral, e, no que respeita o conteúdo, permanece no interior da efetividade universal encontrada. Mas, conforme o outro lado, a independência confere a essa efetividade ao menos uma modificação peculiar, que não contradiz seu conteúdo essencial, ou seja, uma modificação pela qual o indivíduo, como efetividade especial e como conteúdo peculiar, se opõe àquela efetividade universal. Essa oposição vem a tornar-se crime quando o indivíduo suprassume essa efetividade de uma maneira singular; ou vem a tornar-se um outro mundo – outro direito, outra lei e outros costumes, produzidos em lugar dos presentes – quando o indivíduo o faz de maneira universal e, portanto, para todos”. (Hegel: 194).

Este texto de Hegel não diz claramente sobre a passagem do singular para o universal, do indivíduo para o grupo, do homo clausus para o homo socialis, da subjetividade para a trans-subjetividade, do sujeito para o trans-sujeito?           

Na física freudo-hobbesiana, trata-se da ressexualização do almor (alma mais amor) ligada à physis. Deleuze estabeleceu um diálogo e confronto com Lacan tendo como objeto a interpretação da metapsicologia freudiana!

III

Primeiro, o desejo sexual aparece ligado à physis na interpretação de Deleuze:
“A resposta de Freud é: só a ligação da excitação a torna ‘resolúvel’ em prazer, ou seja, torna possível a sua descarga. Sem a atividade de ligação, sem dúvida haveria descarga e prazeres, mas esparsos, à mercê dos encontros, sem valor sistemático. É a ligação que torna possível o prazer, como princípio, ou que funda o princípio do prazer. Eis então Eros descoberto como fundamento, sob a dupla figura da ligação: ligação energética da excitação mesmo, ligação biológica das células (é possível que a primeira só se faça através da segunda, ou encontre na segunda condições particularmente favoráveis). E essa ligação constitutiva de Eros, nós podemos, devemos determiná-la como ‘repetição’: repetição como relação de excitação; repetição do momento da vida, ou da união necessária até para os unicelulares”. (Deleuze. 1983: 122).

Deleuze pensa a verdade de sua interpretação de Freud com rigor lógico?
“O valor lógico da significação ou demonstração assim compreendida não é mais a verdade, como mostra o modo hipotético das implicações, mas a condição da verdade, o conjunto das condições sob as quais uma proposição ‘seria’ verdadeira. A proposição condicionada ou concluída pode ser falsa, na medida em que designa atualmente um estado de coisas inexistentes ou não é verificada diretamente. A significação não fundamenta a verdade, sem se tornar ao mesmo tempo o erro possível. Eis por que a condição de verdade não se opõe ao falso, mas ao absurdo: o que é sem significação, o que não pode ser verdadeiro nem falso”. (Deleuze. 1974: 15).

A razão lógica da língua não é suprassumida pela razão gramatical dialética da língua em Freud? A repetição não é lógica do significante, e sim gramática dialética do significante. É preciso fazer o deslocamento da diferença da lógica para a gramática dialética do prazer.   

A tela gramatical sexual é uma ideia deleuziana? Ela não é uma ideia absurda. Ela tem como princípio o princípio da repetição como repetição-laço e repetição-borracha: “Ela é simultaneamente repetição do antes, do durante e depois. Ela constitui no tempo o passado, o presente, e mesmo o futuro. É ao mesmo tempo que o presente, o passado e o futuro se constituem no tempo, se bem que haja entre eles uma diferença qualitativa”. (Deleuze. 1983: 123). A repetição não é o princípio do prazer além do homo Clausus na razão da gramática dialética freudiana?

É possível pensar a repetição-laço como articulando a burocracia moderna weberiana em uma releitura freudiana? Entramos no corpo político Estado-lógico ocidental. E o capital moderno não é também repetição-laço fazendo pendant com a repetição-borracha segundo o axioma de Marx de que o capital é razão gramática dialética do tudo que é sólido autodissolve no ar? Trata-se da passagem do Estado-lógico para a história da razão gramatical dialética em Marx, Freud e Hobbes. Estado gramatical transdialético e capital transgramatical dialético.    

Para Weber, a burocracia moderna ou empresa (Weber) seria o princípio do prazer dessexualizado, pois, trata-se do Estado-lógico ocidental, o Estado articulado pela lógica do significante sócio/lógico empresa moderna:
“O número de empregados privados cresce estatisticamente mais rápido do que o de trabalhadores, e é errôneo supor que o trabalho intelectual na administração de uma empresa se distinga, de alguma maneira, daquele da administração pública.

Os dois são, em sua essência fundamental, completamente iguais. O Estado ([sócio]lógico) moderno, do ponto de vista sociológico, é uma ‘empresa’, do mesmo modo que uma fábrica: precisamente esta é sua qualidade historicamente específica”. (Weber: 530).

Weber define a empresa como um lugar sem paixão (ser dessexualizado) e a política como luta e desejo sexual perverso (ira et studium):
“O funcionário autêntico – isto é, decisivo para julgar o regime do Reich alemão anterior a 1918 -, de acordo com as regras de sua profissão, não deve fazer política, mas ‘administrar’, e isto sobretudo de modo imparcial; isto vale, pelo menos oficialmente, também para os chamados funcionários administrativos ‘políticos’, desde que não esteja em jogo a ‘razão de Estado”, isto é, os interesses vitais da ordem dominante. Sine ira et studio, ‘sem ódio e favor’: é assim que o funcionário deve exercer seu cargo, isto é, não deve fazer precisamente aquilo que os políticos, tanto o líder quanto o séquito, têm que fazer sempre e necessariamente: lutar, pois a parcialidade, a luta e a paixão – ira et studium - constituem o elemento político”. (Weber: 539). 

Weber pensa a política fazendo pendant com o desejo sexual perverso. Porém deseja fazer da administração (sócio/lógica) uma exceção ao domínio do princípio do prazer. Deleuze vê claramente que a exceção weberiana é uma quimera, pois, significa a soberania absoluta do princípio da realidade freudiano no Estado-lógico:                       
“Mas, com relação ao princípio empírico do prazer, a dessexualização em geral tem dois efeitos possíveis: ou introduz perturbações funcionais na aplicação do princípio; ou promove uma sublimação das pulsões que ultrapassa o prazer para satisfação de uma outra ordem”. (Deleuze. 1983: 125). Isso destronaria o próprio princípio do prazer como quer Weber. Deleuze discorda de Weber e também da versão freudiana jardim-de-infância: “O princípio de prazer tampouco é derrubado pelas resignações que lhe são impostas pela realidade ou pelas extensões espirituais que a sublimação lhe abre”. (Idem: 126).

Na perversão freudiana, Deleuze vê a persistência do desejo sexual (eu digo no corpo político weberiano Estado moderno). Ele vê um antagonismo transdialético entre a sociedade de significantes neuróticos com sublimação e a sociedade de significantes perversos  
“A perversão parece apresentar o fenômeno seguinte: a dessexualização nela se produz ainda mais claramente que na neurose e na sublimação, ela age inclusive com uma frieza incomparável; entretanto, ela se acompanha de uma ressexualização, que não vem absolutamente desmenti-la, mas que opera sobre novas bases, igualmente estranhas às perturbações funcionais e às sublimações. Tudo se passa como se o dessexualizado fosse ressexualizado como tal de uma nova maneira. É nesse sentido que a frieza, e o gelo, são o elemento essencial da estrutura perversa”. (Idem: 126).

IV

O Estado hobbesiano é um trans-sujeito como unidade da multidão:
“Uma multidão de homens é transformada em uma pessoa quando é representada por um só homem ou pessoa, de maneira a que tal seja feito com o consentimento de cada um dos que constituem essa multidão. Porque é a unidade do representante, e não a unidade do representado, que faz que a pessoa seja una. E é o representante o portador da pessoa, e só de uma pessoa. Esta é a única maneira como é possível entender a unidade de uma multidão.
Dado que a multidão naturalmente não é uma, mas muitos, eles não podem ser entendidos como um só, mas como muitos autores, de cada uma das coisas que o representante diz ou faz em seu nome”. (Hobbes: 102).

A multidão é uma unidade constituída a partir da vontade, ou pacto, ou contrato (desejo sexual condensado em decisão de instituir o Leviatã) de subjetividades (autores). A multidão é um ser ressexualizada, ela é da sociedade de significantes da perversão. Ela transforma a dor vivida no estado de natureza (homo homini lupus) em prazer sexual que é o motor do contrato/Leviatã.  

Ela é uma interseção da subjetividade com a trans-subjetividade. A instituição (monarca, assembleia de homens, presidente da república) é a personificação da multidão (personificação = pessoa/ator/representante como unidade da multidão): “Se o representante for constituído por muitos homens, a voz do maior número deverá ser considerada como a voz de todos eles”. (Hobbes: 102).

Multidão é autor e a instituição é voz do ator/representante. A voz do ator é uma língua política, e nessa, o essencial, é a gramática da voz do ator, a tela gramatical política do ator/representante. A tela gramatical política tem no fundo a Banda de Moebius a multidão (trans-sujeito artificial/natural como unidade pelo pacto que institui o Leviatã) e o uno (unidade do representante ou instituição/Estado). A relação do Estado com a multidão é de prazer sexual a partir da dor que o Leviatã inflige a ela. Esta é a razão gramatical transdialética do ator com a multidão pensada como unidade (trans-sujeito gramatical) composta de infinitas subjetividades.

Dor significa um fundamento da vida humana condensada no Leviatã como monopólio da violência sagrada sem limite sobre a população. O Estado é uma máquina de guerra estelar perversa que produz o bem (paz) a partir do mal (dor na multidão pela violência real sem limite).

Trata-se da tela gramatical transdialética nietzschiana. O uso da violência real (e simbólica) produz dor como prazer sexual na inibição da realização da satisfação do desejo sexual de autoaniquilamento (stasis) em uma sociedade de significantes perversa possuída por uma semblância historial/formal - a sociedade de significantes neurótica como semblância da história gramatical universal.          

A tela gramatical política tem na frente da tela o poder comum (poder político) que faz pendant com a percepção sensível das biografias subjetivas. Trata-se do agir político do ator/Estado para garantir segurança aos autores (biografias subjetivas da multidão) contra invasões dos estrangeiros e para defendê-los da agressão uns dos outros. O campo da percepção sensível do poder se expande na medida em que o poder adquire outras formas como biopoder, poder pastoral (conceito de Tocqueville em seu livro A democracia na América) tecnologia política dos indivíduos (Foucault: 813-828).

Usualmente, Foucault é lido associando-se nele poder e racionalidade estratégica, campo de poder como uma superfície de uma ação sobre ação, sobre ações eventuais, ou atuais, ou futuras. Trata-se de pensar o campo de poder como razão gramatical dialética trans-sujeito, partindo da ideia que a força não tem outro objeto além de outras forças, não tem outro ser além da relação:
“Pode-se conceber uma lista, necessariamente aberta, de variáveis exprimindo uma relação de forças e poder, constituindo ações sobre ações: incitar, induzir, desviar, tornar fácil ou difícil, ampliar ou limitar, tornar mais ou menos provável” (Deleuze.1986: 77) etc.

Suprassumindo o poder repressivo marxista, Deleuze diz: “o poder não é essencialmente repressivo (já que ‘incita, suscita, produz’); ele se exerce antes de possuir (já que se possuiu sob uma forma determinável – classe – e determinada – Estado); passa pelos dominados e tanto quanto pelos dominantes (já que passa por todas as forças em relação dos indivíduos. Um profundo nietzscheísmo. ” (Idem: 78).

Há claramente a articulação do poder com o trans-sujeito (trans-subjetividade articulada ao campo do poder como ação estratégica constituída de inúmeras ações táticas). Se pensarmos o campo de poder como ação sobre ações na superfície do discurso/língua, temos o poder homo informacionalis da tela gramatical informacionalis. Aqui, razão gramatical transdialética significa que o Diabo tomou de assalto a totalidade mundial se constituindo como RSIcpe (Real/Simbólico/Imaginário/cultura política econômica) mundial. Deus está morto! O Simbólico (Deus lacaniano) como centro do RSIcpe ocidental foi destronado pelo Diabo que organiza um RSIcpe a partir do Real.  

Na tela gramatical em geral, o campo de poder encontra-se na frente dela ancorando-a à percepção sensível das massas. O campo de poder informacionalis produz informação 24 horas por dia, durante os 7 dias da semana, na dentro da casa dos indivíduos, famílias e instituições privadas e públicas. O Diabo está na sala-de-estar da casa das pessoas e das famílias em geral.

Na década de 1920, Freud falou de uma sociedade de significantes narcose:
“À frente das satisfações obtidas através da fantasia ergue-se a fruição das obras de arte que, por intermédio do artista, é tornada acessível inclusive àqueles que não são criadores. As pessoas receptivas à influência da arte não lhe podem atribuir um valor alto demais como fonte de prazer e consolação da vida. Não obstante, a suave narcose a que a arte nos induz, não faz mais do que ocasionar um afastamento passageiro das pressões das necessidades vitais, não sendo suficientemente forte para nos levar a esquecer a aflição real”. (Freud. v. XXI: 99-100).      

Tratava-se de uma ficção científica, de um mito científico europeu. Após a II Guerra Mundial, tal sociedade-mito fez a passagem para a história. A sociedade narcose significa que a sublimação pela arte como narcose das massas simbólicas passou a fazer pendant com a tela gramatical musical narcótica (música industrial para as massas da sociedade de consumo americana que conquistou o planeta); uso de drogas naturais ou artificiais em escala industrial e mundial (assim temos a geopolítica mundial das drogas criada por Pablo Escobar). 180 milhões de pessoas no planeta são usuários de marijuana!  

Tais acontecimentos cultivaram o território subjetivo do indivíduo e das massas que constituem a multidão mundial para metabolizar a prática do poder informacionalis. Este significa produção de informação em escala industrial planetária {informação = droga + real} como continuação do axioma de Marx de que a religião é o ópio do povo. O poder informacionalis vem da linhagem do poder religioso monocrático (apenas Deus governa os homens), agora como poder do Diabo. Neste novo campo de poder, a razão transgramatical dialética é pilotada por um axioma poiético:
“ Mefistófeles – Sou parcela do Além, Força que cria o mal e também faz o bem! ” (Goethe: 59).  

Agora, todo o campo de poder mundial é governado pelo homo informacionalis. Tal poder industrial não ex-siste sem o capital mundial (capital eletrônico, capital digital, jornalismo industrial de papel, editoras industriais). Como sociedade de narcose {informação = droga + real], o poder informacionalis começa na era eletrônica: “ Na era eletrônica que sucede à era tipográfica e mecânica dos últimos quinhentos anos encontramos, com efeito, novos modelos e estruturas de interdependência humana e de expressão que são “orais” na forma, mesmo quando os componentes da situação sejam possivelmente não-verbais”. (McLuhan: 19).

Marshall McLuhan pensa a tela gramatical do mundo-da-vida como transdialética entre discurso escrito e discurso falado: “A intensidade da agitação em torno da ortografia é apenas um índice da novidade que representava a palavra impressa, e dos seus efeitos centralizantes quanto à conformidade. Charles Carpenter Fries, em American English Grammar, estuda a questão do conflito entre o discurso escrito e o discurso falado: ‘Somente os sessenta e seis verbos mais comuns resistiram à pressão pela conjugação regular (...) De fato, durante os séculos dezesseis e dezessete, houve a tendência para eliminar a diferença de forma entre o tempo passado e o particípio passado em todos esses verbos’ ”. (Idem: 322).         

A tela gramatical culta é um modo da língua articular o trans-sujeito nacional como pathos da distância elite/massas. As massas ex-sistem em uma tela heteróclita (sem gramática culta) ou lúmpen-gramatical (transgramática da fala popular): “ É de presumir ser impossível praticar um erro de gramática numa sociedade não-alfabetizada, pois ninguém aí jamais ouviu falar de algum. A diferença entre a ordem oral e visual é que cria as confusões entre o que é e o que não é gramaticalmente correto”. (Idem: 323).

McLuhen vê o surgimento do trans-sujeito (os adultos en masse) pelo olhar da criança da era eletrônica: “A presença maciça e abundante de matéria impressa e seus derivados na organização do novo de espaço e tempo deu prestígio e autoridade aos absurdos aqui citados por Whyte. Assim, por exemplo, hoje as crianças nas escolas, quando são convidadas a considerar o baixo nível mental do que lhes é oferecido pelos meios de comunicação, ficam chocadas. Elas nutrem silenciosamente a ideia de que tudo o que o mundo adulto se empenha em realizar tem valor. Supõem que os adultos en masse jamais se entregariam a atividades depravadas”. (Idem: 331).

McLuhen pensa a sociedade do espetáculo eletrônica da sociedade de consumo como uma sociedade de significante perversa em relação ao mundo da percepção sensível infantil. Porém, ele não conseguiu imaginar que a sociedade perversa en masse (trans-sujeito adulto) iria se transformar no homo informacionalis, ou seja, um trans-sujeito mundial hobbesiano de uma tela transgramatical narcótica. Porém, está claro que a sociedade do espetáculo é uma ressexualização perversa da razão gramatical dialética da sociedade de significantes neurótica.

Só uma máquina de guerra de pensamento estelar (máquina de guerra que vem das estrelas judaica) poderia criar o mito científico, na década de 1920, de um trans-sujeito narcótico para o fim do século XX e as primeiras décadas do século XXI. Freud é um nó nas redes neurônicas trans-sujeito que, na era moderna, foi costurada pela ciência hobbesiana gramatical da política universal.

No canadense McLuhan, trata-se de um nó atado no trans-sujeito eletrônico que é essencialmente um poder que cria uma nova forma de guerra contra a criança. Na visão de Freud (e de Platão no A República) a realidade familiar trans-sujeito é a primeira forma objetiva/prática de guerra contra a criança.  A tela gramatical da guerra contra a criança é a stasis como guerra civil adulta contra a infância. Leitor, nem Platão ou Freud criaram um pensamento político jardim-de-infância, onde a realidade dos fatos é apresentada envolta em semblância maciça.

A tela gramatical é um deslizamento do significante gramática para domínios que não são mais o da norma culta da ditadura dos gramáticos.  Ela faz pendant com a politeia dos gramáticos. Ela é transgramática, claramente e evidentemente! Em outra oportunidade será preciso explorar mais intensamente e extensivamente as relações do homo informacionais (tela transgramatical do capital mundial) com o Estado transgramatical. Há, hoje, uma separação absoluta entre capital e Estado?

A rigor já finquei alguns princípios, axiomas (fantasmas do passado e do futuro) transgramaticais na relação ente o capital transgramatical e o Estado transgramatical. Eles são (continuam sendo) ambos trans-sujeitos essências para a historial/formal da ciência transgramatical hobbesiana da política universal.                     

V

Em Hobbes, a tela transgramatical é um propor, um expor, uma interpretação da política simples e elegante:
“A única maneira de instituir um tal poder comum, capaz de defendê-los das invasões dos estrangeiros e das injúrias uns dos outros, garantindo-lhes assim uma segurança suficiente para que, mediante seu próprio labor e graças aos frutos da terra, possam alimentar-se e viver satisfeitos, é conferir toda sua força e poder a um homem, ou a uma assembleia de homens, que possa reduzir suas diversas vontades, por pluralidade de votos, a uma só vontade. O que equivale a dizer: designar um homem, ou uma assembleia de homens como representante de suas pessoas, considerando-se e reconhecendo-se cada um como autor de todos os atos que aquele que representa sua pessoa praticar ou levar a praticar, em tudo o que disser respeito à paz e segurança comuns; todos submetendo assim suas vontades à vontade do representante, e suas decisões a sua decisão. Isto é mais do que consentimento, ou concórdia, é uma verdadeira unidade de todos eles, numa só e mesma pessoa, realizada por um pacto de cada homem com todos os homens, de um modo que é como se cada homem dissesse a cada homem: Cedo e transfiro meu direito de governar-me a mim mesmo a este homem, ou a esta assembleia de homens, com a condição de transferires a ele teu direito, autorizando de maneira semelhante todas as suas ações. Feito isso, à multidão unida numa só pessoa se chama Estado, em latim civitas”. (Hobbes: 109).

Civitas significa cidade, reunião de cidadãos, nação, Estado, forma de governar de uma nação. Estes significantes designam a forma política objetiva. Civitas é também o povo da cidade, ou seja, o trans-sujeito da razão gramatical dialética como unidade das biografias subjetivas grau zero sujeito tirânico. (Saraiva: 229). Civitas faz pendant com civis, o cidadão em um contraponto subjetivo/trans-subjetivo ao tirano. A condição de possibilidade de tal trans-sujeito é a civilitas – ciência política do Estado, ou seja, de governar os Estados.

Hobbes pensa a civilitas como ciência de governar o Deus mortal, o Leviatã. Assim, este é uma condensação na tela gramatical Deus mortal, ou seja, RSIcpe (Real/Simbólico/Imaginário/ cultura política econômica):
“É esta a geração daquele grande Leviatã, ou antes (para falar em termos mais reverentes) daquele Deus Mortal, ao qual devemos, abaixo do Deus Imortal, nossa paz e defesa. Pois graças a esta autoridade que lhe é dada por cada indivíduo no Estado, é-lhe conferido o uso de tamanho poder e força que o terror assim inspirado o torna capaz de conformar as vontades de todos eles, no sentido da paz em seu próprio país, e da ajuda mutua contra os inimigos estrangeiros. É nele que consiste a essência do Estado, a qual pode ser assim definida: Uma pessoa de cujos atos uma grande multidão, mediante pactos recíprocos uns com os outros, foi instituída por cada um como autora, de modo a ela poder usar a força e os recursos de todos, da maneira que considerar conveniente, para assegurar a paz e a defesa comum.

Aquele que é portador dessa pessoa se chama soberano, e dele se diz que possui poder soberano. Todos os restantes são súditos”. (Hobbes: 109-110).

O Deus mortal não é o Deus de Platão (Deus da sociedade de significantes de homens livres e normais), pois, ele é um Deus da sociedade de significantes perversa. O Deus mortal faz pendant com o Diabo de Goethe. Tal enunciado nos remete para a transdialética nietzschiana:
“Nossas mentes rechaçam a ideia do nascimento de uma coisa que pode nascer de uma contrária, por exemplo: a verdade do erro; a vontade do verdadeiro da vontade do erro, o ato desinteressado do egoísmo ou a contemplação pura do sábio, da cobiça”. (Nietzsche: 22).      

Na tradução brasileira, o poder soberano é o portador do trans-sujeito multidão (autor). Portador é aquele que leva ou traz algo a mando de alguém; mas pode ser aquele que se encontra infectado por germes da doença. Neste último sentido gramatical, portador é o trans-sujeito ligado à physis do Deus Mortal. O trans-sujeito é mortal. Deslizando o significante na cadeia significante, portador se transforma em porta-voz (aquele que fala publicamente por outro).

O portador é um fenômeno da língua política na tela gramatical hobbesiana constituída pelo soberano e seus súditos. Este é constituído pelas massas sujeito grau zero homem livre, pois, não falam por si, não tem autonomia, nem relativa, para se constitui como uma voz pública. Aqui, a tela gramatical hobbesiana é uma tela absolutista, ela se afasta da tela gramatical civis. Há um equilíbrio de antagonismo no discurso hobbesiano entre tela gramatical absolutista e tela gramatical civis. Só a forma do trans-sujeito (subjetividade e objetividade) pode definir qual das telas será o aspecto principal da transdialética materialista da física hobbesiana, que pode estabelecer uma conjuntura historial.                           
                                              

O Estado hobbesiano é um trans-sujeito, uma trans-subjetivação da multidão que o liberalismo político considera acertadamente perversa. O desejo sexual perverso da multidão articula o Estado, o Estado modernamente absolutista. O Estado da razão gramatical dialética absolutista é o ser mais frio das telas gramaticais monstruosas:
“Diz-se que um estado foi instituído quando uma  multidão de homens concordam e pactuam, cada um com cada um dos outros, que a qualquer homem ou assembleia de homens a quem seja atribuída pela maioria o direito de representar a pessoa de todos eles (ou seja, de ser seu representante), todos sem exceção, tanto os que votarem a  favor dele como os que votarem contra ele, deverão autorizar todos os atos e decisões desse homem ou assembleia de homens, tal como se fossem seus próprios atos e decisões, a fim de viverem em paz uns com os outros e serem protegidos dos restantes homens”. (Hobbes: 111).

A assembleia é um instituição trans-sujeito movido pelo desejo ressexualizado perverso de fundar um Estado. Trata-se de um corpo político com desejo sexual. A condição de possibilidade da sociedade de significantes neurótica (viver em paz e ser protegido da máquina de guerra psicopática privada) é o trans-sujeito perverso. Penetramos na condição de possibilidade da passagem da sociedade neurótica para a sociedade perversa.  

Deleuze vê que o desejo sexual ou “lubricidade” é uma realidade do acontecimento na política e na economia:
“Sade mostra que nenhuma paixão, a ambição política; a avareza econômica, etc., é estranha à ‘lubricidade’: não que esteja esta no seu princípio, mas pelo contrário, porque surge no final como aquilo que procede in loco à ressexualização”. (Deleuze. 1983: 127). 

O masoquista é a máquina de desejo sexual perverso que faz pendant com a ressexualização na cultura do dinheiro (aura sacra fames) e no Estado:
“Mesmo que a frieza masoquista seja de uma outra espécie, nela reencontramos o processo de dessexualização como condição para uma ressexualização in loco, pela qual todas as paixões do homem, as que concernem o dinheiro, a propriedade, o Estado, poderão se voltar em benefício do masoquista. E é aí que está o essencial: que a ressexualização se faça in loco, numa espécie de salto”. (Idem: 127).

Sob os tambores sádico e masoquista, está a repetição como força terrível. A dor só é valorizada com relação a formas de repetição que condicionam o seu uso. Eis que a repetição se desencadeia, tornou-se independente de qualquer prazer prévio: “E foi o prazer que se tornou conduta para com a repetição, é ele que acompanha e agora segue a repetição como força terrível independente. O prazer e a repetição trocaram então os seus papeis: é o efeito do salto in loco, quer dizer, do duplo processo de dessexualização e de ressexualização. Entre os dois, parecia que o instinto de morte ia falar; mas porque o salto dá in loco, como que num instante, é ainda o princípio do prazer que mantem a palavra”. (Idem: 129).

O problema de Deleuze é ver o desejo sexual perverso como lógica de sentido: “a dor não tem absolutamente um sentido sexual, mas representa pelo contrário a dessexualização que torna a repetição autônoma, e que lhe subordina in loco aos prazeres da ressexualização. Dessexualiza-se Eros, mortifica-o, para melhor ressexualizar Tanatos. No sadismo e no masoquismo, não há vínculos misteriosos da dor com o prazer. O mistério está em outro lugar. Está no processo de dessexualização que solda a repetição ao oposto do prazer, em seguida no processo de ressexualização que faz como se o prazer da repetição procedesse da dor. No sadismo como no masoquismo, a relação com a dor é um efeito”. (Idem: 130).

A ressexualização não é algo da lógica de sentido sexual. O prazer da repetição não procede da lógica da dor, e sim da tela gramatical perversa do capital, do Estado e de qualquer corpo político. A tela gramatical perversa é um acontecimento: “Estranho discurso que devia renovar a filosofia e que trata o sentido, enfim, não como predicado, não como propriedade, mas como acontecimento”. (Deleuze. 1974: 110). A tela gramatical perversa aboli o homo sacer no discurso de Nietzsche. Ela se torna uma tela gramatical nietzschiana do acontecimentos trans-sujeito, para além de um discurso do indivíduo, discurso da pessoa, discurso sem fundo, pois a tela gramatical nietzschiana tem um fundo que é a Banda de Moebius :
“Assim a descoberta de Nietzsche está alhures, quando, tendo se livrado de Schopenhauer e de Wagner, explora um mundo de singularidades impessoais e pré-individuais, um mundo que ele chama agora de dionisíaco ou de vontade de potência, energia livre e não ligada”. (Deleuze. 1974: 110). 

A vontade de potência cria o Estado gramatical, não o Estado lógico. O acontecimento evita o caos com a tela gramatical transdialética nietzschiana.  
 “Singularidades nômades que não são mais aprisionadas na individualidade fixa do Ser infinito (a famosa imutabilidade de Deus) nem nos limites sedentos do sujeito infinito (os famosos limites do conhecimento). Alguma coisa que não é nem individual nem pessoal e, no entanto, que é singular, não abismo indiferenciado, mas saltando de uma singularidade para outra, sempre emitindo um lance de dado que faz parte de um mesmo lançar sempre fragmentado e reformado em cada lance”. (Idem: 110). Além do pessoal e do individual está a singularidade fazendo pendant com o trans-sujeito.  
“Máquina dionisíaca de produzir o sentido em que o não-senso e o sentido não estão em uma oposição simples, mas co-presentes um ao outro em um novo discurso. Este novo discurso não é mais o da forma, mas nem muito menos o do informe: ele é antes o informal puro. ‘Sereis um monstro e um caos’...Nietzsche responde: ‘Nós realizamos esta profecia’ ”. (Deleuze. 1974: 110). O informal puro é o desejo sexual como motor da tela gramatical transdialética nietzschiana onde ex-sistem o Estado, a mulher, a máquina de guerra e o capital.

A tela gramatical é uma tela biotopológica onde a lógica como tal é abolida:
“Todo o conteúdo do espaço interior está topologicamente em contato com o conteúdo do espaço exterior sobre os limites do vivo; não há, com efeito, distância em topologia; toda a massa de matéria viva que está no espaço interior está ativamente presente ao mundo exterior sobre o limite do vivo... fazer parte do meio de interioridade não significa somente estar dentro mas estar do lado interno do limite...Ao nível da membrana polarizada se enfrentam o passado interior e o futuro exterior”. (Deleuze. 1974: 106-107).

O desejo sexual perverso é da ordem do informal puro como physis no limite do vivo. Não há porque desfazer o laço trans-sujeito entre a physis e a cultura política econômica na tela gramatical nietzschiana. A ressexualização na superfície da história universal do Estado, da mulher, do capital e da máquina de guerra em geral funda o campo da física hobbesiana historial.

O DIABO agradece, pois, a carne é fraca!                                                                  

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