quarta-feira, 21 de setembro de 2016

CARTOLA




A história humana é um vale de lágrimas. As lágrimas são um fenômeno da história da espécie humana.  A história da espécie humana é a vontade de potência naturalis de sair do Império da necessidade. Tal vontade de potência é a causa do desenvolvimento das redes neurônicas que fazem pendant com a criação da tela gramatical natural. 

A gramaticalidade natural do mundo vem através da criação da música e da espécie humana como uma máquina de guerra poiética. Tal máquina de guerra cria o Urstaat hidráulico e, portanto, o uso da água doce na vida cotidiana da civilização arcaica. Assim, a humanidade caminha em fluxo contrário ao do Império da natureza.

A gramatica metafísica freudiana estabelece que, pelo uso do sabonete, se pode comparar o grau civilizatório das civilizações. Tal gramática estabelece que há uma estética da physis biológica. Trata-se da estética do sujo. O objeto de desejo desta estética é o olfato. O odor é um elemento da physis associado ao desejo sexual e à aversão sexual. Tal objeto de desejo liga o homem e a mulher ao reino da physis e à estética do sujo.

A poiética musical liberta o homem e a mulher da estética do sujo, do domínio despótico do reino da necessidade.

A civilização está associada à dominação de uma máquina de guerra aristocrática sobre os povos - os camponeses. O pathos da distância significa que o camponês é quase um animal de carga, um sujo animal. Aí, o camponês inventa o carnaval revolucionário bakhtiano. A aristocracia inventa o perfume.

Em um salto livre de asa delta, vejo Cartola, “Considerado por diversos músicos e críticos como o maior sambista da história da música brasileira, Cartola nasceu no bairro do Catete, mas passou a infância no bairro de Laranjeiras. Tomou gosto pela música e pelo samba ainda menino e aprendeu com o pai a tocar cavaquinho e violão. Dificuldades financeiras obrigaram a família numerosa a se mudar para o morro da Mangueira, onde então começava a despontar uma incipiente favela”.  

Cartola saiu do “asfalto” (civilização) para o domínio do reino da necessidade (favela) da Mangueira. “Com 15 anos, após a morte de sua mãe, abandonou os estudos — tendo terminado apenas o primário. Arranjou emprego de servente de obra e passou a usar um chapéu-coco para se proteger do cimento que caía de cima. Por usar esse chapéu, ganhou dos colegas de trabalho o apelido ‘Cartola’ ”.

A poesia das imagens escritas de Cartola é de uma época na qual a escola primária era suficiente no aprendizado da língua nacional. A língua era metabolizada na atmosfera gramatical metafísica da sociedade urbana regulada pela norma culta popular ("A minha língua é a minha pátria"). A gramática metafísica popular significava a ex-sistência da NAÇÃO. Em algum momento a atmosfera da gramática metafísica popular se autodissolveu. E a língua nacional virou um aprendizado (do sujeito popular) submetido ao monopólio/domínio do Estado gramatical integral (sociedade civil mais sociedade política). A NAÇÃO deixou de ex-sistir na tela gramatical da cultura espontaneiamente popular    

A poética das imagens sonoras vem da sociedade boêmia mergulhada na malandragem e no samba. Trata-se de uma tela gramatical musical nacional/popular que se antagonizava com o poder policial carioca. A sociedade boêmia é àquela que anuncia também o homo lumpesinalis Madame Satã. Mas ela é também a poetização da favela Mangueira, o encantamento do mundo dos mais de baixo da sociedade de significantes carioca. No mundo urbano, a cultura nacional/popular nasce na Mangueira (e na Portela...).

"Preciso Me Encontrar"
(Cartola)
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

A letra dessa música é o sobre o sujeito negro, favelado. Ele é o efeito de um trans-sujeito que significa fazê-lo viver no domínio do reino da necessidade. Mas, ele não se entrega. “Deixe-me ir”, ao menos, o sujeito diz para o trans-sujeito que é um poder quase sagrado. “Preciso andar”, pois o caminho se faz ao caminhar! “Rir pra não chorar”. Rir o riso grotesco através do qual o sujeito rir de si próprio, de sua vida miserável; assim, ele ri do trans-sujeito (a fatalidade de Deus).
“Vou por aí a procurar” a tela gramatical musical, gente nasceu para brilhar, não vou me entregar:
 “Na Mangueira, logo conheceu e fez amizade com Carlos Cachaça — seis anos mais velho — e outros bambas, e se iniciaria no mundo da boêmia, da malandragem e do samba. “Em 1974, aos 66 anos, Cartola gravou o primeiro de seus quatro discos-solo e sua carreira tomou impulso de novo com clássicos instantâneos como "As Rosas não Falam", "O Mundo É um Moinho", "Acontece", "O Sol Nascerá" (com Elton Medeiros), "Quem Me Vê Sorrindo" (com Carlos Cachaça), "Cordas de Aço", "Alvorada" e "Alegria". No final da década de 1970, mudou-se da Mangueira para uma casa em Jacarepaguá, onde morou até a morte, em 1980”.

No final de 1970, o homo lumpesinalis já reinava na Mangueira. 

Cartola é o sujeito/herói que enfrenta o Deus da necessidade lumpesinalis colonial até o fim. Seu desejo sexual maior é não morrer no labirinto da tela gramátical metafísica lumpesinalis do mundo dos de baixo.

Cartola é o homem negro pobre livre e normal.  
               


          

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