quinta-feira, 4 de agosto de 2016

MACHADO DE ASSIS E O DRAMA DE NOSSA LÍNGUA ECONÔMICA




O assunto em tela é um efeito da crise brasileira no campo discursivo global nacional técnico? Isso pode ser um problema da tela gramatical profissional ou técnica: “Às gírias dos grupos sociais de cultura elevada dá-se o nome de LÍNGUAS PROFISSIONAIS OU TÉCNICAS. Em diferentes graus, têm sua linguagem mais ou menos especializada os médicos, os engenheiros, os filósofos, os diplomatas, os economistas, etc. (Rocha Lima. Gramática normativa da língua portuguesa. José Olyimpio: 7)   

A tela gramatical profissional ex-siste como um dispositivo de saber/poder nas nações. Contudo, ela não sobrevive como tela gramatical autárquica. Tal tela é uma invenção das nações europeias que não seria possível sem a invenção da episteme política grega da antiguidade.

No Brasil, a literatura é o palco de um confronto entre os autárquicos e os internacionalistas, desde o século XIX. Machado de Assis, Euclides da Cunha e Oswald de Andrade estabeleceram a necessária vinculação da cultura política brasileira à cultura política universal (são, pois, internacionalistas). A defesa mais proeminente de uma cultura brasileira autárquica foi feita por Gilberto Freyre.

Como o nosso objeto é o discurso econômico, há uma cultura política intelectual econômica brasileira associada aos departamentos de economias de universidades públicas e privadas (FGV, PUC, INSPER). Com o colapso anunciado da universidade pública, antes por Dilma Rousseff/Nelson Barbosa, agora por Michel Temer/ Henrique Meirelles, o discurso econômico brasileiro perderá aquela feição pública presente na ideologia cultural política nacional-desenvolvimentismo.

Agora, o discurso econômico brasileiro se tornará um discurso monossilábico neoliberal, discurso privado da burguesia e um privatismo internacional da economia nacional. Tal discurso econômico neoliberal se condensou na política nacional, em aceleração política, com o governo Temer.

O fenômeno supracitado explica a não metabolização do livro de Piketty & amigos no espaço procedural econômico distorcido existente entre nós.

Piketty elaborou uma teoria na qual a nação econômica não desaparecerá nem na União Europeia. As relações internacionais econômicas continuam a fazer parte da geopolítica mundial no século XXI. Tal geopolítica se articula em uma teoria da escravidão econômica entre nações livres e países ancilares. Estes são aqueles países que tem outro país como proprietário do capital produtivo industrial, do capital de commodities, do capital estratégico infra estrutural etc. (ou uma rede internacional de proprietários) deles. A relação de dominação econômica ancilar entre os países Europeus e a África (moderno/arcaico) pode se tornar o modelo universal do século XXI? (Piketty. O capital no século XXI. Tradução de Monica De Bolle. RJ: Intrínseca, 2014: 75-76).        

A globalização neoliberal do século XXI é claramente a articulação da dominação econômica ancilar na superfície das relações internacionais. Curiosamente, Lula e o PT já trabalhavam com a ideologia cultural política econômica ancilar do globalismo antes de Piketty. A era Lula é aquela que se caracteriza por uma certa colonização econômica escravagista da África (e da América Latina) disputando com a Europa e a China a propriedade dos países africanos, e com a China a propriedade dos países latino-americanos. Vejam a reviravolta na política brasileira.

Moreira Franco é o papa da privatização dos setores estratégicos nacionais no governo Temer. Ele é o articulador do programa econômico pemedebista neoliberal do africanismo PONTE PARA O FUTURO. Trata-se claro de um delírio machadiano.

CAPÍTULO VII / O DELÍRIO

"QUE ME CONSTE, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; faço-o eu, e a ciência mo agradecerá. Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais, pode saltar o capítulo; vá direto à narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a trinta minutos”. (Machado. Obra Completa. v. 1. Aguilar: 520).

O Ponte para o futuro não é uma narrativa econômica, e sim um delírio de uns vinte a trinta minutos do cérebro enfermo de Moreira Franco. No entanto, tal delírio moreirista de felicidade transformaria, necessariamente, Franco em um LOUCO em um país dominado pelo discurso nacional desenvolvimentista? Freud tem uma letra sobre isso:
“Mas quem quer que, numa atitude de desafio desesperado, se lance por este caminho em busca da felicidade, geralmente não chega a nada. A realidade é demasiada forte para ele. Torna-se um LOUCO; alguém que, a maioria das vezes, não encontra ninguém para ajudá-lo a tornar real o seu delírio”. (Freud. Obras Completas. v. XXI. Imago: 100).

Para tirar seu cérebro enfermo do estado delirante permanente, Moreira pôs o pais em um estado delirante permanente neoliberal do africanismo. À custa da destruição da utopia possível da nação econômica livre, o nosso Brás Cuba torna-se uma pessoa normal, pois, encontrou no governo Temer (tela gramatical política) e no Grupo Globo (tela gramatical econômica) alguém para ajudá-lo a tornar real o seu delírio.

A Teoria do benefício de Brás Cuba não é a luz que guia o nosso Moreira?
_ “Não me podes negar um fato, disse ele; é que o prazer do beneficiador é sempre maior que o do beneficiado. Que é o benefício? É um ato que faz cessar certa privação do beneficiado. Uma vez produzido o efeito essencial, isto é, uma vez cessada a privação, torna o organismo ao estado anterior, ao estado indiferente”. (Machado: 633).

Quem o nosso Brás Cuba/Moreira quer beneficiar? O africanismo franco de Moreira (privatismo economicista /africanista da nação) quer beneficiar as multidões? O narcisismo patológico de Moreira é a terceira força de um delírio narcísico agora em transformação para a forma de um artefato ideológico cultural político neoliberal do africanismo:
“A TERCEIRA FORÇA que me chamava ao bulício era o gosto de luzir, e, sobretudo, a incapacidade de viver só. A multidão atraía-me, o aplauso namorava-me. Se a ideia do emplasto me tem aparecido nesse tempo, quem sabe? ” (Machado: 617).

O delírio narcísico de Moreira se materializa no emplasto Ponte para o futuro a ser vendido para as multidões. Trata-se de um remédio (uma droga discursiva econômica delirante paranoica) que a tela eletrônica articula como real para as massas da classe média paulista. Salve Moreira!

Quem o salve Moreira quer beneficiar? Será que o próprio Moreira sabe quem será beneficiado?

Machado pensou a trans-subjetivação pelo significante literário narcisismo. O gozo (gosto) de Luzir (“gente nasceu para brilhar”), e a necessidade da tela gramatical espelho narcísico da multidão (aplauso é realização do desejo sexual enamorar entre subjetividade biográfica/trans-subjetividade das massas) faz de Machado um freudiano antes de Freud, pois, pois!

De que mal Moreira escapou? O delírio ficcional (não mental) de Brás Cuba não se tornou real: “ENTRE A MORTE DE QUINCAS BORBA e a minha, mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cuba, que morreu comigo, por causa da moléstia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro lugar entre os homens, acima da ciência e da riqueza, porque eras a genuína e direta inspiração do Céu. O caso de terminou o contrário; e aí vos ficais eternamente hipocondríacos”. (Machado: 639).

O delírio transformado em discurso medicinal (emplasto Brás Cuba) seria o motor da mudança maravilhosa da trans-subjetivação das massas mundiais. Elas seriam retiradas de seu estado de hipocondria permanente. Aqui, o delírio de Brás Cuba não faz pendant com o delírio do presidente Schreber? Delírio psicótico brasileiro dirigido à sociedade dos significantes neurótica?  

Ao contrário de Moreira, Brás não alcançou a celebridade do emplasto, não foi ministro, não foi califa, não conheceu o casamento. Um infeliz total? O califa é a fina ironia socrática machadiana como bônus?
“Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado das faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor de meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas cousas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sombra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a verdadeira negativa deste capítulo de negativas: - não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. (Machado: 639).

Harold Bloom elevou Machado a cânone da literatura universal. Bloom aprendeu a língua portuguesa para ler Machado. Bloom não sabe do que está falando? Falar da falta antes de Lacan para definir a interseção trans-subjetividade/subjetividade é algo irrisório?  

Machado fala da vida da personagem “que não houve míngua nem sombra”. Nem míngua nem sombra faz pendant com a cultura universal de Hegel e Freud. Hegel diz: “a história é um vale de lagrimas”. Miséria material e guerra de todas as espécies não se constituem como a míngua e a sombra da história universal definida pela articulação da cultura política econômica com a physis, em geral. Marx pensou a história como interseção da história da physis com a história natural/ficcional da espécie humana. Não é nessa rede mundial que se tem de pescar os peixes machadianos?

Machado com Freud/Lacan é: “ Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”. Com Freud e Lacan, a espécie humana é definida como trans-subjetivamente miserável. Não ex-siste relação sexual para a infelicidade cotidiana de homens e mulheres. Encore, a epopeia de Homero começa com Helena de Tróia para a infelicidade de Gregos e Troianos. A poesia ocidental significa mulher = guerra = sexo.

No século XXI, a humanidade trans-subjetivará a ideologia cultural política econômica freudiana com pitadas de sal lacaniano? A humanidade não está preparada para trans-subjetivar a ética lacaniana do desejo!

A episteme política foi esboçada pelos físicos da antiguidade e conceituada por Platão e Aristóteles. Freud criou uma Banda de Moebius (direito e anverso como espaço contínuo das línguas) da psicanálise com a filosofia política econômica da antiguidade greco-romana.

Freud viu a trans-subjetividade como miséria espiritual do almor ao outro com semblância de felicidade, no credo quia absurdum do cristianismo (creio porque é absurdo). Freud definiu a era da modernidade (a atitude moderna de Baudelaire) a partir do século XX como um estado de narcose permanente viabilizado por drogas naturais, bioquímicas e discursivas.

O emplasto machadiano fala da esperança do delírio medicinal como droga capaz de transformar a subjetividade biográfica psicótica em uma trans-subjetividade biográfica sem míngua nem sombra. Este é o saldo da vida miserável freudo/machadiana. Não é a felicidade, mas é algo que articula a lógica de sentido da vida rechaçando o delírio psicótico da mente (natural) ou ficcional. De quebra espanta o tédio schopenhaueriano saleta de espera para a depressão psicopática.

O psicopata é o mais infeliz dos seres naturais. Afinal, Brás é um psicopata? Ele não é a máquina de guerra psicopática da physis política brasileira. Como nos encontraríamos a léguas da máquina de guerra nômade deleuziana, se trans-subjetivássemos a língua machadiana! Infelizes brasileiros que acreditam que o quintal do vizinho é uma cornucópia inigualável.  

Haveria na psicologia política machadiana uma morada para o miserável psicopata?

Machado não é ainda a nossa cornucópia linguística disponível a um processo maravilhoso de trans-subjetivação nacional das massas simbólicas e reais?       
                                   
                              

                       

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