sábado, 27 de agosto de 2016

A SPALTUNG DA SOCIOLOGIA DOS DOIS MUNDOS



Há dois mundos no planeta. O mundo da sociedade informacionalis e o mundo vale-de-lágrimas hegeliano.

No primeiro vivemos o fim da história ocidental. A história é uma invenção dos gregos. Eles acreditavam que ela é a história dos fatos. Hoje sabemos que se trata da história dos artefatos.
A era moderna acreditou que poderia criar um universo que fosse diferente da história vale-de-lágrimas hegeliana. Na invenção desse universo, a ciência tomou o lugar de Deus e do almor (alma + amor). Só no século XIX, a ciência se fundiu com o capital. Aí temos o capital moderno e seu proletariado que era o escravo moderno. Então, Marx criou o termo sociedade capitalista articulada pela dialética materialista capital/trabalho: luta de classes.

A sociedade capitalista era constituída por uma estrutura econômica e uma superestrutura ideológica (Estado e formas ideológicas). A ideologia fazia a junção da estrutura com superestrutura. A contribuição do século XX é acrescentar a cultura que já não se sabia se era uma forma superestrutural ou um fenômeno exterior à tópica de Marx.

No campo da política, uma evolução centenária inventa a democracia representativa na Europa e nos EUA. O vale-de-lágrimas de uma história despótica (de tirania, absolutismo, ditadura e stasis) parece ter chegado ao fim com a promessa ocidental de paz na democracia. Para isso foi preciso transformar o proletariado de escravo moderno em uma multidão civis. Mesmo que isso significasse um discurso político que fosse semblância sustentado por um campo de poder constituído por formas trans-sujeito poder pastoral, biopoder, tecnologias políticas do indivíduo e de Estado transgramatical Providência e Estado transgramatical do bem-estar social. Foi a era de ouro da social democracia europeia e também do fim da luta de classes como centro da política mundial.

Vivíamos uma era na qual havia o 1° mundo, o 2° mundo e o 3° mundo. Tendo como espelho o 1° mundo, nós do 3° subjetiva/objetivamente nos percebíamos como o Haiti. Trata-se do trans-sujeito complexo de cachorro vira-lata (Nelson Rodrigues): o Haiti é aqui!

Na América Latina, políticos caudilhos inventaram o populismo como um trans-sujeito suprassumindo o trans-sujeito vira-lata. A tela transgramatical populista está hoje no horizonte da sociedade europeia. Porém, o campo de pensamento político que iria criar o trans-sujeito populista, que já não era um vira-lata latino-americano, foi fundado por um argentino, um brasileiro e um marxista americano (Raúl Prebisch, Celso Furtado e Paul Baran). Tal campo de pensamento articulou a tela transgramatical populista historial/formal. Simultaneamente, tal campo de pensamento se constitui em redes neurônicas marxistas ao redor do planeta embaladas pelo acontecimento revolucionário da descolonização em algumas partes do planeta. O princípio da esperança guiava o planeta para fora definitivamente da história vale-de-lágrimas!  O bolivariano foi um efeito colateral da tela transgramatical populista!    

Na década de 1950, a América se articulou como o modelo historial/formal do planeta em uma luta com o 2° mundo socialista personificado pela URSS e China. A Guerra-Fria criou a tela transgramatical do equilíbrio do terror atômico. EUA E URSS dominaram o mundo sob protestos de Mao Tse Tung. Na crise dos mísseis de Cuba do início da década de 1960, Fidel Castro tentou convencer o alto comando militar da URSS a destruir atomicamente a América (EUA).

A tela transgramatical guerra-fria foi o resultado da transformação da física do século XX em pensamento político hegemônico nos EUA e na URSS. Fidel se encontrava em um lugar da tela a partir do qual sua aversão sexual tendo com objeto a destruição dos EUA não pode ser considerado uma quimera, ou meros fumos machadianos (Machado de Assis).

A dominação americana da história no 3° mundo significou a promoção pela democracia americana de ditaduras militares ao redor do planeta que a ciência política do 1° mundo designou com o termo regimes autoritários. Até hoje, o jornalismo latino-americano prefere a palavra autoritarismo à ditadura como tal. São os escravos americanos do Haiti.  

A hegemonia americana teve como cavalos-de batalha a transformação da televisão em uma forma de capital (capital eletrônico) e a criação da sociedade de consumo. Ao lado do cinema, da música industrial e da sociedade de consumo, uma tela transgramatical americana (funcionando pelo domínio do princípio do prazer sobre o princípio da realidade, como semblância planetária) fez pendant com a sociedade de narcose (Freud) se chocando com a sociedade dos significantes neurótica. Em tal tela transgramatical e em tal sociedade de narcose americana, o normal e o patológico perderam a força de realidade como sentido gramatical, desarticulando a ditadura da sociedade dos significantes neurótica sobre perversos e psicóticos.  

Comparada à hegemonia americana narcose, o 2° mundo e o 3° mundo tornaram-se um vale de tristeza cinzento, o último sob o domínio do princípio da realidade econômica mundial capitalista que significava a impossibilidade das nações subdesenvolvidas de se elevarem ao reino do mundo desenvolvido, moderno e modernizado. É a era da semblância da sociologia da modernização para o 3° mundo.

Porém na América Latina, procurando se integrar à sociedade de narcose americana, o colombiano Pablo Escobar inventou a geopolítica historial/formal das drogas. Assim, ele foi declaro – pelo governo dos EUA – inimigo público n° 1 da tela transgramatical americana. Este lugar pablo escobar na tela transgramatical americana é ocupado atualmente pelo Estado Islâmico.

Na década de 1990, uma nova técnica articulada ao desenvolvimento da ciência revolucionou o capital mundial. Aí a URSS não existia mais. A tela transgramitical guerra-fria havia sido feita em pedaços; havia sido rasgada pela evolução da história sociológica da sociedade de narcose.

Uma nova tela transgramatical foi costurada com a técnica digital e as ciências da informação. Trata-se da tela transgramatical digitalis/informacionalis. O século XXI evoluiu a partir do domínio do capital digital no mundo fazendo pendant o capital eletrônico informacionalis.

Na nova tela transgramatical informacionalis, os significantes da década de 1960 perderam força de realidade transgramatical e se apagaram na tela sociológica cultural, e, rasgaram tal tela. Agora não fazia mais sentido dividir o mundo entre Ocidente/Oriente, países desenvolvidos e subdesenvolvidos, entre os 3 mundos, agora reduzidos, no imaginário política a dois mundos: 1° e 3°.

A transformação da linguagem político/sociológica também desfez a lógica dos significantes racionalidade e irracionalidade. A própria lógica do significante desmoronou. O domínio do capital digital significou a crise das ciências europeias e americanas como pensamento político das práticas econômica, ideológica (entramos em uma era transideológica), política e cultural (crise do jornalismo industrial de papel, do jornalismo eletrônico, da narrativa literária do mundo). Fim do romance e da literatura e promessa da nova era transliteraria do transromance!  

O fato mais notável econômico é o fim da economia social democrata e sua substituição por um neoliberalismo do globalismo que persiste nos dias atuais do século XXI europeu com a ditadura do capital financeiro. Tal globalismo é uma máquina de guerra sociológica econômica contra as nações. O globalismo é o motor da desarticulação do campo de poder foucaultiano com as suas formas de poder (biopoder, poder pastoral, tecnologia política dos indivíduos) que sustentavam a tela transgramatical europeia social democrata com seu agradável e benevolente Estado do bem-estar.

Nos outros continentes, tal campo de poder foucaultiano sustentava a sociedade do trabalho (articulada pelos direitos trabalhistas, pela cidadania proletária). Tal fenômeno, hoje, é o corpo sociológico despedaçado sendo substituído pelo modo de produção e de troca neoliberal flexível do globalismo. A magnitude dessas transformações significa a instalação de uma tela transgramatical caótica na política planetária (física do caos)? Em alguns países sim, em outros nem tanto. Hoje, o Brasil vive sob o efeito da tela transgramatical caótica mundial. Os EUA menos, o México demasiadamente mais!

Tudo leva a crer que a história vale-de-lágrima hegeliana retomou o seu lugar historial universal. Porém, tal lugar não é aquele de um vale-de-tristeza, pois a tela transgramatical narcose e sua irmã siamesa sociedade de narcose fazem pendant com um novo campo de poder que se articula como homo informacionalis. Este fenômeno é o trans-sujeito mundial articulado ao poder informacionalis mundial.

Na Idade Média, o baixo clero fazia a ligação da Igreja com as massas constituindo o trans-sujeito multidão cristã mundial. Hoje, o jornalista encontra-se no lugar do baixo-clero, pois, ele faz a ligação da Igreja informacionalis mundial/universal com as massas sujeito zero cidadã.

No lugar do cidadão entra o homem intoxicado/informacional, no lugar do baixo clero que cuidava do almor (alma + amor por Deus) das massas entra o jornalista para quem a verdade não existe; existe Deus, e a informação é Deus! Trata-se do jornalista do capital mundial eletrônico, digital ou industrial de papel.
Não é possível mais exercer todo o rigor crítico demolidor do político profissional se para ele a política só faz sentido enquanto ele ajoelha reza para o Deus informacionalis. Penetramos, sem retorno, na era da política como especiaria? O político profissional é constituído por massas de homens e mulheres, de jovens e velhos perdidos na adoração desse Deus Imortal hobbesiano (presente nas redes neurônicas do cérebro dos indivíduos como uma droga que autodissolve, no dia-a-dia, o Estado hobbesiano como Deus Mortal). 

O poder informacionalis é o poder que transforma a informação em droga de uma geopolítica mundial das drogas. Trata-se da droga/informação como mercadoria no capital eletrônico mundial e como especiaria patológica narcísica do capital digital mundial. A tela transgramatical informacionalis mundial faz pendant com uma sociedade de narcose informacionalis. A percepção sensível das massas sujeito zero homem livre e normal se faz através do mundo da informação.

O jornalista não sabe que sabe que ele é a biografia subjetiva (atada às redes neurônicas trans-sujeito/multidão mundial) que faz funcionar tal máquina de guerra estelar (máquina de guerra que veio das estrelas), máquina alien que desterritorializa o território trans-sujeito homem, mulher, criança, e o território objetivo/trans-sujeito nação, Estado e o próprio capital. E reterritorializa fenômenos estranhos identificados pela física do século XXI.  

Um mundo humanamente irreconhecível historial/formal não é a Spaltung freudiana (quebra do mundo) na aurora do século XXI?           
                          
                     
          

                           
       


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