quinta-feira, 14 de julho de 2016

EUCLIDES DA CUNHA CUM HEGEL - GUERRA DE CANUDOS

O mestiço é o avesso da etnia

Na década de 1990, uma antropóloga do sertão de Alagoas me sugeriu a leitura de Euclides da Cunha. Ela havia ficado impressionada com a minha leitura de Oliveira Vianna. Eu já lia Euclides desde os meus 20 anos de idade.
Comecei a estudar sistematicamente Euclides da Cunha e Os sertões no final da década de 1980. Então percebi que Euclides era o personagem do As Viagens de Gulliver, que é um romance satírico do escritor irlandês Jonathan Swift. Euclides era o personagem em Lilliput.  Nessa ilha, a personagem principal deparou-se com a população de pessoas minúsculas (com menos de seis polegadas de altura, cerca de 15 centímetros), chamadas lilliputiana, que o tomaram por gigante e o aprisionaram com fios liliputianos.
No início, a percepção que Euclides era o gigante aprisionado na Lilliput cultural política luso-brasileira se abateu sobre mim como a tempestade shakespeareana. Ao longo da década de 1990, resolvi criar uma clareira na cultura intelectual brasileira como base para a investigação do caminho da física geopolítica historial de Euclides da Cunha. Neste caminho tive que criar a teoria da semblância ariana para alcançar a teoria da semblância mestiça sertaneja do Norte, onde repousa meu inconsciente mestiço lacaniano (alingua).
Lacan (cum Marx) foi o caminho mais curto para Euclides, encontrado no meu livro (que nenhuma Editora quis publicar), Política brasileira em extensão. Para além da sociedade civil (Ano 2000. Edição de autor).
Euclides era um neófito autodita em filosofia. No entanto, como engenheiro e oficial militar possuía uma educação em física, irrepreensível.
Ao se deparar sensivelmente com a Guerra de Canudos, sua ideologia cultural política universal luso-abrasileirada sofreu um choque psíquico, pois, ele precisava, honestamente e sem tergiversação, explicar como Canudos foi uma resistência política ao Estado Republicano que funcionou como um terremoto grandioso na recente cultura política econômica republicana da corte imperial, agora, capital da República: a polis Rio de Janeiro.
O choque paulino de Euclides a caminho de Damasco encontra-se registrado no belo texto transestético do grotesco sertanejo:
“Reproduzamos, intacta, todas as impressões, verdadeiras ou ilusórias, que tivemos quando, de repente, acompanhando a celeridade de uma marcha militar, demos de frente, numa volta do sertão, com aqueles desconhecidos singulares, que ali estão – abandonados – há três séculos” (Euclides: 76).
A cultura política econômica luso-brasileira da década de 1890 definia o sertanejo (o mestiço) como um tipo antropológico inferior etnicamente (e também como espécie cultural política) na luta dos povos e raças que tinha o indo-europeu no topo da cadeia alimentar cultural política universal. Considerando que a Europa moderna capitalista dominou o planeta com o modo de produção especificamente capitalista do século XIX, a enunciado supracitado não é apenas semblância ocidental.
A cultura luso-brasileira se definia (em termos de cultural política econômica) como moderna, urbana e civilizada. A classe governante (classe simbólica + classe política) se via como uma aristocracia ariana de viés lusitano. O trabalho da física geopolítica euclidiana foi ver ao avesso tal classe governante, ao dizer que ela era uma classe governante mestiça do litoral urbano em um contraste transdialético com o sertanejo do Norte: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral”. O significante técnico literário (da transestética do grotesco mestiço) raquitismo neurastênico remete para uma trans-subjetivação cultural política da língua luso-brasileira.
Neurastenia [neur(o) + astenia) significa perturbação mental que se caracteriza por fraqueza orgânica ou psíquica, desânimo, irritabilidade, dor de cabeça, e alteração do sono. Na linguagem popular significa mau humor acompanhado de fácil irritabilidade. Astenia é fraqueza de certo parte do corpo ligada as redes neurais que em Euclides se transformam em redes neurais mestiças do corpo urbano do litoral. Logo trata-se de redes neurais cultural políticas mestiças, o híbrido luso-brasileiro. Raquítico significa um corpo biológico pouco desenvolvido associado a uma Inteligência raquítica. O significante corpo euclidiano raquítico está associado à estética do grotesco cultural política, ou melhor, à transestética do grotesco mestiço.
Delenda Euclides?
O mestiço neurastênico faz pendant com o histérico. Não se trata da semblância quase psicanalítica (Charcot) do mestiço do litoral. Trata-se do significante histérico cultural político:
“De sorte que o mestiço- traço de união entre as raças, breve existência individual em que se comprimem esforços seculares – é, quase sempre, um desequilibrado. Fovile compara-os, de um modo geral, aos histéricos. Mas o desequilíbrio nervoso, em tal caso, é incurável: não há terapêutica para este embater de tendências antagonistas, de raças, repentinamente aproximadas, fundidas em um organismo isolado” (Euclides: 73).
A histeria-oligárquica da classe governante brasileira (classe política + classe simbólica) articula-se pela aversão sexual ao magister ludi da cultura política gramatical com hegemonia. Euclides fala de uma poderosa (e narcísica patológica) semblância ariana luso-brasileira de uma classe governante mestiça-histérica do litoral urbano que destitui qualquer discurso de hegemonia para instalar a ditadura mestiça luso-brasileira. É o transromance luso-brasileiro de D Pedro I destituindo a Assembleia Constituinte de 1922 (como discurso precário e limitado de uma hegemonia mestiça com semblâmcia ariana) e instalando o Império ditatorial da Constituição de 1824, constituição feita pelo imperador.
 Gilberto Freyre segue Euclides na definição da classe governante luso-brasileira mestiça: “Mas independente da falta de escassez de mulher branca o português sempre pendeu para o contato voluptuoso com a mulher exótica. Para o cruzamento e miscigenação. Tendência que parece resultar da plasticidade social, maior no português que em qualquer outro colonizador europeu”. (Freyre: 189).
A mestiçagem define tanto a classe governante quanto as massas populares do litoral ou do campo: “ Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo – há muita gente de jenipapo ou mancha mongólica no Brasil – a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro. No litoral, do Maranhão ao Rio Grande do Sul, e em Minas Gerais, principalmente do negro. A influência direta, ou vaga ou remota, do africano” (Freyre: 283). Trata-se de uma cultura política econômica (pois sexual da alma, almor sexual) mestiça grotesca percebida no início do século XIX: “Quando visitou o Brasil em princípios do século XIX surpreendeu-se o Dr. Rendu, médico francês, da precocidade dos meninos. A qual lhe pareceu grotesca” (Freyre: 411).       
A percepção sensível de Euclides em Canudos sobre o sertanejo tem como referente cultural político o choque traumático da cultura indo-europeia vista como luta dos povos em direção à pureza étnica ariana como um significante técnico literário cultural político econômico, sexual. Trata-se de uma tendência civilizadora que não é sinônimo de civilização urbana, que pode ser a reunião de vícios e aberrações: “É que neste caso a raça forte não destrói a fraca pelas armas, esmaga-a pela civilização. 
Ora os nossos rudes patrícios dos sertões do norte forraram-se a esta última. O abandono em que jazeram teve função benéfica. Libertou-os da adaptação penosíssima a um estádio social superior, e, simultaneamente, evitou que descambasse para as aberrações e vícios dos meios adiantados” (Euclides: 75).
A transestética do grotesco sertanejo está na tela gramatical sertaneja do cavaleiro e seu cavalo em repouso ou em movimento em um antagonismo de equilíbrio instável como “criação bizarra de um centauro bronco”. Centauro bizarra associado à cultura política sexual do grotesco mestiço do sertanejo “escanchado no rastro do novilho esquivo, porque onde passa o boi passa o vaqueiro com seu cavalo.
O grotesco estético aparece como motivos de animais compósitos, griffons, centauros e a palavra toma o sentido de monstruoso. Euclides se refere a Antônio Conselheiro como um monstro (Euclides: 49). O grotesco é definido, normalmente, como uma “mélange de bouffon, de bizzarre et de pittoresque” (Souriau: 810-811). O mestiço de Belo Monte (a polis Canudos) faz pendant com o grotesco de Victor Hugo como uma interseção do sublime e do cômico vulgar, do ridículo (Hugo: 44). Veja um trecho longo do livro de Euclides sobre exatamente o sertanejo grotesco:
“O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.
A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.
É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. E se na marcha estaca pelo motivo mais vulgar, para enrolar um cigarro, bater o isqueiro, ou travar ligeira conversa com um amigo – cai logo – cai a termo – de cócoras, atravessando largo tempo numa posição de equilíbrio instável, em que todo o seu corpo fica suspenso pelos dedos grandes dos pés, sentado sobre os calcanhares, com uma simplicidade a um tempo ridícula e adorável.
É o homem permanentemente fatigado.
Reflete a preguiça invencível, a atonia muscular perene, em tudo: na palavra remorada, no gesto contrafeito, no andar desaprumado, na cadência langorosa das modinhas, na tendência constante à imobilidade e à quietude.
Entretanto, toda esta aparência de cansaço, ilude.
Nada é mais surpreendedor do que vê-la desaparecer de improviso. Naquela organização combalida operam-se, em segundos, transmutações completas. Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear das energias adormidas. O homem transfigura-se. Empertiga-se, estadeando novos relevos, novas linhas na estatura e no gesto; e a cabeça firma-se-lhe, alta, sobre os ombros possantes, aclarada pelo olhar desassombrado e forte; e corrigem-se-lhe, prestes, numa descarga nervosa instantânea, todos os efeitos de relaxamento habitual dos órgãos;  e da figura vulgar do tabaréu canhestro, reponta, inesperadamente, o aspecto dominador de um titã acobreado e potente, num desdobramento surpreendente de força e agilidade extraordinárias” (Euclides: 77).
Corpo de cócoras é uma imagem-posição ridícula e admirável de um equilíbrio instável mantido pelo enorme e grosso dedão do pé. Tal imagem cômica vulgar, que causa espanto, aproxima o sertanejo da cultura witz. Isso é um fragmento de uma linha de força gramatical witz ao lado da palavra remorada, do gesto contrafeito e da cadência langorosa das modinhas, da tendência constante à imobilidade e à quietude semblância do estado de guerra permanente no sertão.
O centauro bronco triste, feio e belo com a semblância de um invalido esmorecido (cavaleiro + cavalo pequenino) é a imagem do grotesco mestiço que se articula na interseção do equilíbrio de antagonismo repouso versus movimento no axioma real “por onde passa o boi passa o vaqueiro”. Em movimento o centauro bronco é um artista de circo, uma mistura bela de equilibrista e acrobata. A semblância sexual do grotesco mestiço do cavaleiro em repouso xucro, bizarro, deselegante, preguiçoso, desengonçado como uma boneca de pano de antigamente, enfim feio, em movimento na caatinga torna-se o cavaleiro robusto, vigoroso, um titã acobreado, enfim um belo grotesco mestiço:
“A sua compleição robusta ostenta-se, nesse momento, em toda a plenitude. Como que é o cavaleiro robusto que empresta vigor ao cavalo pequenino e frágil, sustentando-o nas rédeas improvisadas caroá, suspendendo-a nas esporas, arrojando-o na carreira – estribo curto, pernas encolhidas, joelhos fincados para a frente, torso colado no arção -, escanchado no rastro do novilho esquivo: aqui curvando-se agilíssimo, sob um ramalho, que lhe roça quase pela sela; além desmontado, de repente, como um acrobata, agarrado às crinas do cavalo, para fugir ao embate de um tronco percebido no último momento e galgando, logo depois, num pulo, o selim -; e galopando sempre, através de todos os obstáculos, sopesando, à destra sem a perder nunca, sem a deixar no inextrincável dos  cipoais, a longa aguilhada de ponta de ferro encastoada em couro, que por si só constituiria, noutras mãos sérios obstáculos à travessia...
Mas terminada a refrega, restituída ao rebanho a rês dominada, ei-lo, de novo caído sobre o lombilho retovado, outra vez desgracioso e inerte, oscilando à feição de andadura lenta, com a aparência triste de um invalido esmorecido” (Euclides: 78).
O belo grotesco mestiço é um significante técnico literário como de arco e lira na física geopolítica euclidiana, que põe e repõe o problema do narcisismo sertanejo em um plano incompreensível para a psicanálise freudiana. Cria e recria o narcisismo como o belo que desliza do feio, do bizarro e, portanto, como um equilíbrio de antagonismo mestiço na passagem da aversão sexual ao sertanejo feio para o desejo sexual que tem como objeto o belo caboclo.
“Não compreendem como o divergente consigo mesmo concorda; harmonia de tensões contrárias, como de arco e lira. (Heráclito: 84). Em uma língua literária necessária para evitar que Euclides seja implodido pelo multiculturalismo - trata-se da passagem do prosaico vulgar para poiético grotesco, passagem do cômico vulgar para a contramáquina de guerra poiética grotesca do épico mestiço.
Euclides recria o equilíbrio de antagonismo de Heráclito na passagem da física da antiguidade para a física mestiça. Ao contrário de Gilberto Freyre, Euclides não nacionaliza a cultura política brasileira como algo singular desligada das linhas de força gramaticais da cultura política universal. Euclides pensa a cultura brasileira como o antagonismo de equilíbrio instável mestiço entre civilização luso e selvagem. Não se deve esquecer que a nossa nacionalidade tem como centro de força hegemônica a civilização do caboclo, mistura sexual (de almor) do luso com o índio. Isso é o significante luso-brasileiro que impera em São Paulo e nas bandeiras e entradas:
“Os forasteiros que aproavam àquelas plagas (da Bahia) eram, ademais, de molde para essa mistura em larga escala. Homens da guerra, sem lares, afeitos a vida solta dos acampamentos, ou degredados e aventureiros corrompidos, norteava-os a todos como um aforisma o ultra aequinoctialem non peccavi, na frase de Barleus. A mancebia com as caboclas descambou logo em franca devassidão, de que nem o clero se isentava. O padre Nóbrega definiu bem o fato, na célebre carta ao rei (1549) em que pintando com ingênuo realismo a dissociação dos costumes, declara estar o interior do país cheio de filhos de cristãos, multiplicando-se segundo os hábitos gentílicos. Achava conveniente que lhe enviassem órfãs, ou mesmo mulheres que fossem erradas, que todas achariam maridos, por ser a terra larga e grossa. A primeira mestiçagem fez-se, pois, nos primeiros tempos, intensamente, entre o europeu e o silvícola. ‘Desde cedo, di-lo Casal, os tupiniquins, gentios de boa índole, foram cristianizados e aparentados com os europeus, sendo inúmeros os brancos naturais do país com casta tupiniquina’ ”. (Euclides: 63).
No entanto tal mestiçagem não era apenas um mar de rosas sexual, pois, o índio era transformado em uma máquina de guerra psicopática colonial pelo engenho de cana-de-açúcar que anda pelo “princípio de combater o índio com o próprio índio”. (Euclides: 71). Este enunciado não é multiculturalista.                                    
O luso é o povo ocidental que se define pela falta de aversão sexual à mestiçagem com o Islã e os africanos, em geral: “ É certo que o consórcio afro-lusitano era velho, anterior mesmo ao descobrimento, porque se consumara desde o século XIV, com os azenegues e jalofos de Gil Eanes e Antão Gonçalves. Em 1530 salpintavam as ruas de Lisboa mais de dez mil negros, e o mesmo sucedia noutros lugares. Em Évora tinham maioria sobre os brancos.
Os versos de um contemporâneo, Garcia de Rezende, são um documento:
‘Vemos no reyno metter,
Tantos captivos crescer,
Irem-se os naturaes
Que, se assim for, serão mais
Elles que nós, a meu ver’.
Assim, a gênese do mulato teve uma sede fora do nosso país. A primeira mestiçagem com o africano operou-se na metrópole” (Euclides: 64-65). No século XV constrói-se o primeiro império europeu mestiço retomado com a União Europeia aceleradamente no século XXI.
A transestética antropofágica paulista faz pendant com estética mestiça de Euclides? Trata-se de uma visão de uma contramáquina de guerra poiética antropofágica que faz pendant com a contramáquina de guerra poiética sertaneja:
“A luta entre os que se chamaria Incriado e a Criatura-ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor quotidiano e o modus vivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade.  Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. É contra ela que estamos agindo. Antropófagos” (Teles: 359).
A baixa antropofagia é a continuação da formação sexual freudiana por outros meios, por meios mestiços. A alta cultura política antropofágica articula-se como sublimação do desejo sexual na trans-subjetivação antropofágica do almor como amizade (ética mestiça cabocla), ciência e arte em uma transdialética com a cultura política ariana. A simbolização da realidade dos fatos – pelas massas sertanejas - no inconsciente mestiço lacaniano (alingua) pode ser investigada no sertão de Belo Monte e na biografia do Bom Jesus. Retomaremos adiante esta linha na contramáquina de guerra cabocla transestética do grotesco épico.

II
“O sertanejo é antes de tudo um forte”. Esta imagem gramatical do mestiço é o avesso do homem enfraquecido pela mestiçagem, uma ideia comum da cultura política intelectual ariana do século XIX. Ao contrário, “O sertanejo tomando, em larga escala, do selvagem, a intimidade com o meio físico, que ao invés de deprimir enrija o seu organismo potente, reflete na índole e nos costumes, das outras raças formadoras apenas aqueles outros atributos mais ajustáveis à sua fase social incipiente” (Euclides: 75). A relação com a physis suprassume o princípio da decadência da mistura étnica. Euclides precisava explicar porque mestiços quase destruíram o exército brasileiro, sendo um produto evolucionário inferior.
O contraste entre o selvagem forte pela adaptação biológica e o civilizado (fraco biologicamente pela inadaptação) em relação à physis é um enunciado da física euclidiana na interpretação do choque entre as raças: “A raça inferior, o selvagem bronco, domina-o; o aliado ao meio vence-o, esmaga-o, anula-o na concorrência formidável ao impaludismo, ao hepatismo, às pirexias esgotante, às canículas abrasadoras, e aos alagadiços maleitosos” (Euclides: 57). Quanto à raça superior, os lusos: “Presos no litoral, entre o sertão inabordável e os mares, o velho agregado colonial tendia a chegar ao nosso tempo, imutável, sob o emperramento de uma centralização estúpida, realizando a anomalia de deslocar para uma terra nova o ambiente moral de uma sociedade velha” (Euclides: 58).
Sobre a relação da physis com a aventura dos colonos, os rios não deixam dúvida que se trata de vê-los como um significante técnico literário da física euclidiana:
“Os rios que se derivam pelas suas vertentes nascem de algum modo no mar. Rolam as águas num sentido oposto à costa.  Entranham-se no interior, correndo em cheio para os sertões. Dão ao forasteiro a sugestão irresistível da entradas.
A terra atrai os homens; chama-o para o seio fecundo; encanta-o pelo aspecto formosíssimo; arrebata-o, afinal, irresistivelmente, na correnteza dos rios”. (A física percebe a relação almorosa do aventureiro-colono com a natureza como movida por desejo sexual).
“Daí o traçado eloquentíssimo do Tietê, diretriz preponderante nesse domínio do solo. Enquanto no São Francisco, no Parnaíba, no Amazonas, em todos os cursos d’água da borda oriental, o acesso para o interior seguia ao arrepio das correntes, ou embatia nas cachoeiras que tombam dos socalcos dos planaltos, ele levava os sertanistas, sem uma remada, para o rio Grande e daí ao Paraná e ao Parnaíba. Era a penetração (sexual) em Minas, em Goiás, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul, no Mato Grosso, no Brasil inteiro. Segundo estas linhas de menor resistência, que definem os lineamentos mais claros da expansão colonial, não se opunham, como ao norte, renteando o passo às bandeiras, a esterilidade da terra, a barreira intangível dos acampados brutos” (Euclides: 60-61).
Sem desligar o sertanejo da cultura universal, Euclides estabelece a ideia de uma cultura política original modelada pela physis dos rios na transdialética litoral e sertão trans-subjetivada através da estética do grotesco pelas massas luso-brasileira, em geral. A transdialética do grotesco mestiço separa-se da estética do grotesco urbano e ariano e põe e repõe problemas como: ela é heteróclita, ou seja, sem tela estética gramatical? Oswald viu isso com clareza:
“Foi porque nunca tivemos gramática, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.
Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.
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Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade prelógica para o Sr. Levi Bruhl estudar” (Teles: 354).
O problema da falta de tela gramatical estética mestiça é essencial para a leitura de Canudos (e da física euclidiana)?
III
Jamais será tarde para hegelianizar a cultura política intelectual brasileira (e mundial). Das páginas primorosas do Estética nasce um Euclides, a polis de Belo Monte e a Guerra de Canudos como fenômenos associados à epopeia hegeliana. Isso é verossímil nas mãos de um físico geopolítico historial?
A Guerra de Canudos encontra-se possuída por uma atmosfera poética como a Guerra de Tróia?
“A arte nasce mais tarde, ao passo, ao passo a vida e o espírito evoluem já há muito tempo numa atmosfera poética. Homero e os poemas que levam seu nome são posteriores de vários séculos à guerra de Tróia que passa por um acontecimento tão real quanto Homero é, em meu entender, uma personalidade histórica.
De igual modo Ossian, supondo que os poemas que se lhe atribuem sejam realmente obra sua, canta um passado heroico, cuja decadência desperta a necessidade de uma recordação e de uma reconstituição poética” (Hegel: 574).
Euclides reconstitui Canudos como parte de uma memória cultural política poética nacional ou regional?  O livro Os sertões deve ser metabolizado como a Bíblia épica brasileira?
“É como totalidade original que o poema épico constitui a Sagra, o Livro, a Bíblia de um povo. Todas as nações grandes e importantes possuem livros deste gênero, que são absolutamente os primeiros entre todos e nos quais se encontra expresso o seu espírito original. Assim estes monumentos constituem a verdadeira base sobre a qual repousa a consciência de um povo, e não seria destituído e interesse formar-se uma colecção de semelhantes Bíblias. Pois uma colecção de epopeias, que não sejam produções artificiais de épocas posteriores, equivaleria a uma galeria de espíritos nacionais. Todavia, nem todas as Bíblias têm a forma poética das epopeias, nem todos os povos que deram forma épica ao que consideravam como o elemento mais sagrado da sua religião e da sua vida profana, possuem bíblias épicas. O Antigo Testamento, por exemplo, contém muitas lendas e histórias reais, assim como fragmentos poéticos intercalados, sem que no entanto o conjunto constitua uma obra de arte” (Hegel: 573).
Recorro ao freudiano americano Harold Bloom, que diz ser o Guerra e Paz de Tolstoi a Bíblia épica do povo russo:
“Quando Tolstoi se compara a Homero, ficamos convencidos, como nenhum outro escritor pós-Homero poderia convencer-nos. Seja como profeta ou como moralista, Tolstoi continua sendo uma figura épica e criador de épico” (Bloom: 324). Lenin diz ser a obra de Tolstoi o espelho da revolução comunista russa!
Os sertões é o nosso Guerra e Paz? Euclides é um Tolstoi caboclo?
No problema da tela gramatical, a passagem da tela poética para a tela prosaica põe e repõe o problema da articulação entre subjetividade e trans-subjetividade. Hegel pensa assim a tela gramatical:
"Quando o eu individual se separou de todo substancial da nação e dos seus estados, das suas maneiras de pensar, das suas acções e destinos e, quando, no próprio homem, se efectuou a separação entre a vontade e o sentimento, a poesia épica dá lugar à poesia lírica, por um lado, a poesia dramática, por outro. Isto acontece nos últimos dias de vida de um povo, já quando as determinações gerais, que devem presidir os actos humanos, em vez de fazer parte da totalidade formada pela vida sentimental e mental, assumiram um carácter prosaico, o de uma ordem personificada em instituições políticas, reguladas por prescrições morais e jurídicas fixas que impõem ao homem obrigações e deveres, que ele há-de cumprir sob a pressão de uma necessidade exterior, de algum modo imanente” (Hegel: 573-574). A subjetividade é prosaica, e a trans-subjetividade é poética? 
A tela gramatical prosaica é a tela da subjetividade do eu da cultura política intelectual do homem republicano em um antagonismo de equilíbrio altamente cataclísmico com a Canudos poeticamente épica:
“Em presença de uma semelhante realidade (prosaica), o homem transporta-se para um mundo da sua própria criação, no qual exprime as suas intuições, sentimentos e reflexões, para um mundo no qual busca, não motivos de acção, mas uma percepção do seu próprio eu interior, um colóquio com o seu eu mais íntimo na sua expressão lírica, mas, por outro lado, a paixão e o sentimento tornam-se a coisa principal que tudo domina e se procura afirmar activa e independentemente, recusando às circunstâncias, aos fatos e acontecimentos exteriores o direito à independência épica” (Hegel: 574).
A paixão lírica (e prosaica) da República em relação à Canudos se transformou em uma aversão sexual quando “ a paixão e o sentimento tornam-se a coisa principal que tudo domina e se procura afirmar ativa e independentemente, recusando às circunstâncias, aos fatos e acontecimentos exteriores o direito à independência épica”. República e Canudos não são constituídos por uma transdialética mundo da subjetividade/trans-subjetividade prosaica lírica versus mundo poético épico? Trata-se de uma transromance brasileiro que se define no antagonismo de equilíbrio rompido entre o Sertão e o Litoral? A subjetividade se define pelo sujeito (percepção do próprio eu interior do indivíduo), mas Hegel se refere ao eu do homem. Logo, não se trata mais do eu (sujeito), mas do eu trans-sujeito. Deslizamos assim par o reino da trans-subjetivação. O conceito de trans-subjetivação está claramente enunciado em Hegel:
"O carácter épico deste modo de concepção reside no facto destas sentenças se não apresentarem como ditadas pelo sentimento subjetivo ou pela reflexão meramente individual, do mesmo modo que se não propõe unicamente comover ou apelar para os sentimentos, mas com seu fim consiste em inculcar no homem a noção de dever, da honra, do que urge fazer. A antiga elegia grega tem em parte este tom épico; de Sólon, por exemplo, chegaram-nos poesias deste gênero, de um tom e de um estilo exortativo. São, efetivamente, exortações, advertências, conselhos relativos à vida pública, às leis, à moralidade, etc.” (Hegel: 571). O regime discursivo épico é o abc da discussão do significante técnico literário trans-subjetividade.
A trans-subjetividade épica do sertanejo nos remete para um problema capital, a saber: o da subjetividade de Antônio Conselheiro. Como já mencionei, Euclides diz que Antônio era um monstro. Então, porque o sertão o chamava de Bom Jesus? Quem está com a visão verossímil de Antônio? Temos que permanecer na semblância (verossímil) do verdadeiro Antônio? Conselheiro e Bom Jesus é trans-sujeito, não é sujeito. O monstro Antônio Conselheiro euclidiano é trans-sujeito de uma estética do épico mestiço: trans-estética cabocla do grotesco. O leitor procure continuar pensando nisso!
Euclides não é a máquina de guerra poética hegeliana, um maquinismo poético:
“Por um lado, com efeito, faz-nos assistir a cenas do passado, ao passo que, por outro lado, nos apresenta formas, ideias, e opiniões de um presente totalmente diferente, de maneira que à luz de uma hábil reflexão as ideias e representações inspiradas pelas antigas crenças parecem frias, supersticiosas, como ornamento vazio de um maquinismo poético, a que falta uma alma e uma vitalidade próprias” (Hegel: 274).
Não falta alma, almor por Canudos no discurso de Os sertões. Há uma virada no discurso euclidiano sobre o Brasil que faz com que a cultura brasileira deixe de ser uma cultura estranha literária religiosamente bárbara:
“Quase todos os povos tiveram nas suas idades primitivas uma cultura estranha, um culto religioso de proveniência exterior a que houveram de submeter-se, pois, a sujeição do espírito, a superstição, a barbárie consistem precisamente em não saber obter de si mesmo as ideias superiores, em acolher as que provém do exterior, em vez de brotarem da consciência nacional e individual de um povo” (Hegel: 574-575).
Euclides trabalha com a cultura política intelectual ocidental como se fosse um paradigma gramatical e não um paradigma do tipo de Thomas Khun: “Por outro lado, na ciência, um paradigma raramente é suscetível de reprodução. Tal como uma decisão judicial aceita no direito costumeiro, o paradigma é um objeto a ser melhor articulado e precisado em condições novas ou mais rigorosas” (Khun: 44). Euclides trabalha com o paradigma gramatical racial ariano que é um pesadelo em seu cérebro caboclo. Através do transromance mestiço de Canudos (Euclides leu o transromance de Marx O 18 Brumário de Luís Bonaparte), ele fez uma tela gramatical brasileira mestiça que suprassumiu a tela gramatical racialista ariana luso-brasileira.
A tela gramatical sertaneja nacional é um presente euclidiano à nação. Mas ele não constrói tal tela como uma máquina de guerra que acaba de destruir a narrativa épica, apesar de seu ateísmo republicano: “ As duas críticas eram independentes e as pessoas mais piedosas teriam sido as primeiras a eliminar da época considerada heroica as intervenções pueris, milagres, e batalhas dos deuses que Homero narra na Ilíada; ninguém pensaria em esmagar a Infâmia e em fazer da crítica aos heróis uma máquina de guerra ou uma  guerrilha de alusões contra a religião” (Veyne: 54).  
Euclides reconstitui em uma camada de significações uma Guerra de Canudos messiânica e sebastianista (milenarista). O fez a partir das fontes orais dos poemas populares e profecias religiosas apocalípticas, que julgou serem do Bom Jesus, encontradas nos papeis e cadernos nas ruínas da comunidade de Belo Monte. As usou para criar o retrato do Antônio Conselheiro fanático sebastianista, logo, monarquista e antirrepublicano (Ventura: 204). Esse ataque ao épico o tornou uma infame máquina de guerra de pensamento contra a epopeia sertaneja de Canudos? Uma outra camada de significações escondida em cantos e recantos do discurso euclidiano apresenta Canudos como uma contramáquina de guerra poiética do grotesco sertanejo. Só então, aí a semblância de um sertão sebastianista se desfaz para a apresentação da verdadeira Guerra de Canudos na narrativa épica euclidiana!        
A tela gramatical euclidiana é algo familiar a uma trans-subjetivação da nação pelas massas sujeito zero lusitano:
“Só quando o poeta, com a liberdade e seu gênio, consegue sacudir semelhante jugo e adquirir confinança em si próprio, começa a época da epopeia propriamente dita; pois, por outro lado, há épocas dominadas por um culto abstrato (a cultura intelectual pré-euclidiana), por dogmas imutáveis e pro firmes princípios políticos que excluem toda a familiaridade com o real. Em compensação, o verdadeiro poeta épico, apesar da independência das suas criações, evolui em toda a liberdade no seu mundo onde tudo lhe é familiar: tanto as ideias, as paixões e os fins que se agitam na alma dos indivíduos, como todos os aspectos exteriores. Assim, por exemplo, Homero falou do seu mundo familiarmente e esse mundo onde os outros se sentem como em sua própria casa, habitámo-lo nós também, porque contemplamos aqui o espírito que anima o seu mundo, que nele reside, e sentimo-nos tanto mais comodamente quanto vemos o próprio poeta identificar-se completamente com este mundo” (Hegel: 575).
Um problema euclidiano. Os sertões é um transromance épico do grotesco mestiço, caboclo?
O transromance tem vários modelos. O 18 Brumário de Luís Bonaparte (Marx) é uma espécie de gênero científico historial. Marx criou a transestética para escrever tal livro. Euclides conhece Marx, pois usa significantes como tragédia histórica e comédia histórica da estética cultural política marxista (Euclides. Obra Completa: 149-153). O grotesco histórico encontra-se na obra de Bakhtin do século XX A obra de François Rabelais e a cultura popular da Idade Média e do Renascimento. Uma leitura sobredeterminante de Euclides por Bakhtin é altamente esclarecedora. 
Uma investigação mais profunda da obra de Euclides irá confirmar que ele conhecia o grotesco de Victor Hugo. Euclides começou uma tradução do Os sertões para o francês. É praticamente impossível ele não ter tido contato com o texto de Hugo Prefácio de Cromwell. O épico do grotesco sertanejo de Euclides se encaixa entre os gêneros da epopeia?
O épico é um significante técnico literário da epopeia. A epopeia é um gênero estético literário definido pela junção de ethos épico com uma forma, aquela de um vasto poema narrativo, se bem que outras formas podem emprestar tão também sua narrativa a este ethos (Souriau: 673). O grotesco mestiço é uma forma de narrativa que se empresta também apropriadamente ao ethos épico.    
O épico é um significante de tensão, que põe e repõe em um jogo de linguagem poética forças em antagonismo cultural político no campo de pensamento da física historial. Tais forças são definidas apropriadamente como um confronto entre máquinas de guerra psicopáticas e contramáquinas de guerra poéticas. Sobre a contramáquina  de guerra poiética, Edgar Morin é o paradigma:
“A palavra “máquina”, temos de “senti-la também no sentido pré-industrial ou extra industrial em que se designava os conjuntos ou disposições complexas cuja marcha é, no entanto, regular e regulada: a “máquina redonda” de La Fontaine, a máquina política, administrativa...Temos, sobretudo, de senti-la na sua dimensão poiética, expressão que conjuga em si criação e produção, prática e poesia (...). Na máquina existe o maquinal (repetitivo) e o maquinante (como invenção) ”. (Morin: 160-161).
A Guerra de Canudos feita pelos sertanejos conselheiristas significa uma contramáquina de guerra mestiça poiética cuja  expressão estética encontra-se no discurso euclidiano. A poiética sertaneja é a única explicação para a resistência sertaneja que abalou a ditadura republicana no governo Prudente de Morais e parece ter sido uma linha de força que desenhou a República Velha da política dos governadores. Além disso, Euclides viu o exército brasileiro como uma máquina de guerra psicopática terrorista tomada por um delírio psicótico antimonarquista. A República acreditava que Canudos era parte de uma conspiração monarquista para destruí-la. Tal delírio psicopático republicano foi observado por Euclides: “Sua crítica aos desvios da política republicana se radicalizou em Os sertões, em que acusou os governos federal e estadual e sobretudo o Exército pelo genocídio dos habitantes de Canudos”. (Ventura: 214).       
Euclides era um republicano que tinha a percepção do exército ocidental como uma máquina de guerra poética tolstoiana humanista, na narrativa das páginas épicas do Guerra e Paz:
“Em 28 de outubro Kutuzov atravessa com seu exército para a margem esquerda do Danúbio e pela primeira vez faz alto, depois de ter deixado o rio entre ele e as principais forças francesas. A 30 ataca a divisão de Mortier, que se encontrava na margem esquerda, e esmaga-a. Nesta operação tomaram-se pela primeira vez troféus de guerra: uma bandeira e peças de artilharia. Dois generais inimigos foram feitos prisioneiros. Pela primeira vez desde que tinham batido em retirada, havia quinze dias, as tropas russas faziam alto e depois do combate não só tinham conservado o campo de batalha, mas, inclusive, haviam perseguido os franceses. Embora as tropas estivessem cobertas de andrajos, extenuadas, reduzidas de um terço, em virtudes dos retardatários, dos feridos, dos mortos e dos doentes; embora os doentes e os feridos da outra margem do Danúbio tivessem sido abandonados com uma nota de kutuzov confiando-os à humanidade do inimigo; embora os grandes hospitais e as casas de Krems e a vitória sobre Mortier tinham levantado muito o moral dos soldados. No exército em peso e no quartel-general corriam os boatos mais animadores, ainda que mal fundamentados, sobre a imaginária aproximação de colunas chegadas da Rússia, de uma vitória dos austríacos e de um recuo de Napoleão, aterrorizado”. (Tolstoi: 498-499).
Como máquina de guerra terrorista, o exército no Ocidente fez a passagem da máquina poética de guerra para a máquina de guerra psicopática prosaica vulgar. A tela gramatical cinematográfica americana capturou esta mudança de narrativa guerreira que é uma mercadoria que faz pendant como o desejo sexual das massas de espectadores. A Guerra de Canudos foi o choque traumático trans-subjetivo (cultural político econômico) que fez desabrochar na subjetividade de Euclides o transromance do grotesco caboclo.
A transestética do grotesco mestiço é o caminho para o Brasil  se encontrar na crise final da ordem luso-brasileira ariana do século XXI?
BAKHTINE, Mikhail. L´ oeuvre de François Rabelais et la  culture populair au Moyen Âge et sous la Renaissance. Paris: Gallimard, 1970
BLOOM, Harold. O cânone ocidental. RJ: Objetiva, 1995
EUCLIDES DA CUNHA. Obra Completa. v. I. RJ: Nova Aguilar, 1995
FREYRE, Gilberto. Casa-Grande e senzala. RJ: José Olympio, 1975
HEGEL. Estética. Lisboa: Guimarães Editora, 1993
HERÁCLITO. Os pré-socráticos. SP: Abril Cultural, 1978
Hugo, Victor. Do grotesco ao sublime. Tradução do Prefácio de Cromwell. SP: Perspectiva, 1988
Marx. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. Os Pensadores. SP: Abril Cultural, 1974
MORIN, Edgar. La méthode. 1. La nature de la nature. Paris: Seuil, 1977
TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda Europeia e modernismo brasileiro. Apresentação e crítica dos principais manifestos vanguardistas. RJ: Record, 1987
SOURIAU, Etienne. Vocabulaire d’esthétique. Paris: PUF, 1990
TOLSTOI. Guerra e Paz. Obra Completa. v. I. RJ: Nova Aguilar, 1976
VENTURA, Roberto. Euclides da Cunha. Esboço biográfico. SP: Companhia das Letras. 2003
VEYNE, Paul. Acreditavam os deuses em seus mitos. SP: Brasiliense, 1984

  

 
                                    
                       

           
                                  


                   
                             
                

     

                                                
               
                     

                
                                
           
                             
  


      

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