quinta-feira, 14 de abril de 2016

“ OS DEMÔNIOS” (DOSTOIÉVSKI)


A visão de mundo encontra-se necessariamente no interior da metafísica, mas a desconhece e a substitui em função da incapacidade para a constância de sua verdade. Daí emerge a fuga em direção às ciências; o homem mesmo torna-se e esclarece-se contudo “psicologicamente”; a moral torna-se “política”, sociologia e biologia.
A visão de mundo fixa-se e impele a metafísica para o interior da antropologia.
“Antropologia” e “geografia” tornam-se as ciências fundamentais; talvez ainda sustentadas estruturalmente por uma “biologia” universal. (Heidegger: 132).
A interpretação de Heidegger tem que ser feita a partir do texto original. A interpretação a partir da tradução do alemão gera intranquilidade e desconfiança. Mas vejam que Heidegger está dizendo algo sobre o fim da cultura política metafísica, está proclamando o fim da metafísica e sua substituição pelo campo científico no século XX. A psicologia faz do homem seu objeto por excelência. Porém, a ideologia (visão-de-mundo) se impõe na cultura política intelectual mundial e impele a metafísica para o interior da antropologia. Ao contrário, a psicologia não faz pendant com a ideologia ou com a metafísica.
O fim da velha metafísica ocidental é um tema que organiza o pensamento de Nietzsche. E este físico da psicologia vê a nova cultura política intelectual mundial se organizando a partir do campo científico:
“Que importa nosso destino. Nunca até agora encontraram os navegantes intrépidos e aventureiros um mar de conhecimentos mais profundos. E assim o psicólogo que faz tais “sacrifícios” dessa forma (não se trata do sacrifizio dell’intelleto, bem ao contrário) reclamará para si em troca o direito de que a psicologia seja de novo instaurada como a ciência mestra, aquela à qual as demais ciências têm a obrigação de servir e preparar, pois a psicologia se converteu de novo no caminho que conduz aos problemas fundamentais” (Nietzsche: 42).
Freud foi o maior dos aventureiros, dos navegantes intrépidos nietzschianos no campo da psicologia. E ele fez de Dostoiévski o caminho para a articulação entre estética e psicanálise. Faço agora um brevíssimo comentário sobre o capítulo III (Pecados alheios) da Primeira Parte, VI do “Os Demônios”.
O significante central é “espião” em uma relação de oposição à bisbilhoteiro. Personagens importantes acusam Lipútin de ser um espião: “ Ora, Stiepan Trofímovitch, para o senhor é fácil gritar que há bisbilhoteiros e espiões e isso, observe, depois que o senhor mesmo se inteirou de tudo por meu intermédio e ainda por cima com tão excessiva curiosidade” (Dostoiévski: 108, 107). Lipútin é acusado de embebedar os amigos para assuntar os segredos da cidade. Trata-se aparentemente do mundo-da-vida privada. Mas a “polícia política informal” penetra tal mundo para saber quem é partidário das novas ideias altamente subversivas – as ideias niilistas. Assim, o mundo-da-vida possui uma superfície política altamente perigosa. Porém, tal polícia ainda não é a instituição Okhrana! 
No essencial, o espião familial é esta figura ersatz da polícia política que transforma fofoca, bisbilhotice em informação útil para quem? Esta é a questão que funciona como uma linha de força literária cultural política ao longo do romance. O espião é o significante que articula literatura e cultura política associadas ao campo da psicologia.
Subjetividade (capitão Lebiádkin) e trans-subjetividade (a praça gritando, a cidade martelando, o coro) constituem os trans-significantes, ou melhor, os significantes transliterários, pois, migram do campo literário para o campo da psicologia e também para a cultura política russa do século XIX. O romance é de 1872.   Okhrana (em russo Охранное отделение, Okhrannoie otdeleniie) foi a polícia secreta do regime do czar Alexandre III da Rússia, criada em 1881 e com sede em São Petersburgo. O seu nome significa Departamento de Segurança.
“ – A cidade anda martelando?  Sobre o que a cidade anda martelando?
- Ou seja, é o capitão Lebiádkin que grita bêbado para toda a cidade, bem, não dá no mesmo se toda a praça está gritando? ” (Dostoiévski: 109).
Trata-se de um problema psicológico (psicose) ou de um processo de trans-subjetivação policial político que o tzarismo condensaria em instituição estatal, ou seja, Okhrana, a polícia política mestra que serviu de modelo para todas os serviços secretos do planeta no século XX, incluindo a CIA, a KGB e a Stasi.
Lipútin diz que a espionagem é para a segurança da família e que os solteiros a rejeitam por serem solteiros. A defesa da privacidade familial (da honra das mulheres casadas ou virgens solteiras) sobredetermina o direito à privacidade individual. A sexualidade é ainda intensamente reprimida pela sociedade de significantes conservadora! Então, solteiros tornam-se inimigos da sociedade de segurança okhraniana. Trata-se ou não de um problema de cultura política intelectual? A bisbilhotice sobre a vida alheia (que os cariocas praticam corriqueiramente com sofreguidão) é um problema de cultura política se o mundo-da-vida é uma superfície do campo de poder ditatorial que tem como modelo universal o campo de poder tzarista.
A bisbilhotice pode começar entre os amigos (e vizinhos) e se expandir através de redes pessoais que alcançam as instituições que são parte do campo de poder ditatorial ainda do mundo-da-vida. Isso é o que Lipútin chama de fazer parte do coro: “ Pois bem, o senhor fala de bisbilhotice, mas por acaso, sou eu que falo muito quando toda a cidade já anda martelando e eu me limito a escutar e fazer o coro? Fazer o coro não é proibido” (Dostoiévski: 109).
Fazer o coro e a cidade martelando constituem o processo de trans-subjetivação de uma cultura política ditatorial como avesso da cultura política liberal para o mundo-da-vida. Trata-se do grau zero dos direitos individuais à privacidade. Os marxistas dirão: “isso é um problema burguês”. Freud fez do significante o estranho um dos textos mais fascinantes de sua psicologia. Talvez o estranho de Freud tenha algo a ver como o estranho dostoiévskiano:
“ O estranho é aquela categoria do assustador que remete ao que é conhecido, de velho, e há muito familiar. Como isso é possível, em que circunstâncias o familiar pode tornar-se estranho e assustador. É o que mostrarei no que se segue” (Freud: 277).
O estranho como o familial desvio da normalidade é um assunto da estética do grotesco a qual Freud se remete em Shakespeare e Hoffman. Mas a estética é apenas o caminho para tratar o significante estranho da cultura política intelectual renascentista e/ou moderna como um artefato do campo freudiano:
“Pois é possível reconhecer, na mente inconsciente, a predominância de uma ‘compulsão à  repetição’, procedente dos impulsos instintuais e provavelmente inerente à própria natureza dos instintos – uma compulsão poderosa o bastante para prevalecer sobre o princípio do prazer, emprestando a determinados aspectos da mente o seu caráter demoníaco, e ainda muito claramente expressa nos impulsos das crianças pequenas; um compulsão que é responsável , também, por uma parte do rumo tomado pelas análises de pacientes neuróticos. Todas essas considerações preparam-se para a descoberta de que o que quer que nos lembre esta íntima ‘compulsão à repetição’ é percebido como estranho” (Freud: 297-298).
O significante estranho é uma criação da sociedade de significantes neurótica. Então, o neurótico Lipútin extrapola:       
     
“E durante esses anos não observou, pergunto, como que um desvio, digo eu, das ideias, ou do modo de pensar, ou uma espécie, por assim dizer, de loucura? Em suma, repito a pergunta da própria Varvara Pietrovna. Imagine: Aleksiêi Nílitch ficou subitamente pensativo e fez uma careta exatamente como agora: ‘Sim, diz ele, às vezes me parecia algo estranho’.  Repare, além disso, que se algo podia parecer estranho a Aleksiêi Nílitch, então, o que isso realmente poderia ser, hein? “ (Dostoiévski: 106-107).        
O marxismo bolivariano foi uma época onde o espião dostoiévskiano bolivariano passou a fazer parte de uma rede de espionagem (polícia política okhraniana bolivariana) capaz de controlar instituições estatais e também do mundo-da-vida, construindo o inimigo como o Estranho. Na Venezuela chavista, o serviço de espionagem funcionou em consonância como o poder judiciário para encarcerar os líderes da revolução oligárquica como Leopoldo López e outros, declarados como estranhos à sociedade de significantes bolivariana. Neste infeliz país, a Okhrana bolivariana foi o campo poder transcesarista que instaurou a lógica da ruína do significante Nação. São problemas de cultura política articulados à estética e à física freudiana da política. Ou não são?
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os demônios. Tradução de Paulo Bezerra. SP: Editora 34, 2004
FREUD. Obras Completas. O “Estranho’ (1919). v. XVII. RJ: Imago, 1976
HEIDEGGER, Martin. Nietzsche. Metafísica niilismo. Tradução de Marco Antônio Casa Nova. RJ: Relume Dumará, 2000
NIETZSCHE. Par-delá bien et mal. Paris: Gallimard, 1971
          

                 
                       

  

Nenhum comentário:

Postar um comentário