sábado, 30 de abril de 2016

O LABIRINTO BARROCO DA FILOSOFIA POLÍTICA ECONÔMICA




O colapso da filosofia é irreversível?
A física da economia política da energia é um passo necessário para o desenvolvimento da filosofia política econômica eclética? Ela faz pendant com a cultura política econômica mundial como processo de trans-subjetivação das massas sujeito zero aeconômico na ciência do real catastrófico: “Se desenvolvermos incessantemente as forças econômicas, não devemos colocar os problemas gerais ligados ao movimento da energia sobre o globo? ” (Bataille:  58).       
A cultura política econômica é a articulação do princípio de realidade freudiano com o princípio do prazer utilitarista mais o princípio do narcisismo (energia/mito) da física geopolítica lacaniana. A cultura política econômica é a produção e o uso de qualquer matéria ligada à energia da física moderna, por exemplo, ou à energia narcísica. Ela não é um conceito economicista:
“Partirei de um fato elementar: o organismo vivo, na situação determinada pelos jogos da energia na superfície do globo, recebe em princípio mais energia do que é necessário para a manutenção da vida. A energia (a riqueza) excedente pode ser utilizada para o crescimento de um sistema (de um organismo, por exemplo); se o sistema não pode mais crescer, ou se o excedente não pode ser inteiramente absorvido em seu crescimento, há necessariamente que perdê-lo sem lucro, sem dispêndio, de boa vontade ou não, gloriosamernte, ou de modo catastrófico” (Idem: 59-60).
A cultura política econômica é o modo de pensamento concreto de evitar o real da economia do capital como fenômeno simplesmente articulado pela lógica fáctica. Logo, a filosofia política econômica pensa o capital moderno como máquina de guerra dissipativa entrópica de dilapidação da riqueza material em si e da energia narcísica (produzida pelas diferentes espécies de tela narcísica gramatical). Trate-se da filosofia que faz pendant com a ciência do real catastrófico que tem como objeto visível de investigação o excedente associado à guerra: “Sobretudo, entrega os homens e suas obras a destruições catastróficas. Pois, se não temos força para destruir a energia em acréscimo, ela não pode ser utilizada; e, como um animal intato que não se pode domar, é ela que nos destrói, somos nós mesmos que arcamos com as despesas da explosão inevitável” (Bataille: 62).
É verdade que os fenômenos biológicos foram na década de 1980 a tela da physis gramatical privilegiada para o estudo experimental das riquezas em dissipação:
“Se os fenômenos biológicos apresentam-se hoje como campo privilegiado para o estudo experimental das estruturas dissipativas, foi a análise numérica do comportamento de modelos da cinética, muito mais simples do que o mais simples dos circuitos metabólicos, que permitiu pôr em evidência a surpreendente variedade dos fenômenos de organização” (Prigogine e Stengers. 1984: 118). No essencial, a linguagem da física das máquinas dissipativas econômicas é constitutiva, hoje, da filosofia política econômica na medida em que esta faz pendant com a cultura política econômica mundial.
Foi tomado como economicismo a aproximação que Marx faz entre economia e física: “ O físico observa os processos da natureza, quando se manifesta na forma mais característica e estão mais livres de influência perturbadoras, ou, quando possível, faz ele experimentos que assegurem a ocorrência do processo, em sua pureza. Nesta obra, o que tenho de pesquisar é o modo de produção capitalista e as correspondentes relações de produção e circulação. Até agora, a Inglaterra é o campo clássico dessa produção. Este é o motivo por que a tomei como principal ilustração de minha explanação teórica” (Marx: 4-5).
A cultura política econômica é o objeto da física do capital que é o peixe que põe a cabeça para fora do rio na década de 1990. Todos conhecem as objeções de Marx a considerarem seu pensamento como filosofia. Mas ex-siste uma filosofia política econômica no campo da física do capital. Tal filosofia econômica parte do capital como máquina de guerra econômica. Em outros textos tenho explorado tal objeto teórico.
A física da época de Marx se preocupava com o equilíbrio e a física do final do século XX com os fenômenos dissipativos: “ Expúnhamos naquele livro o abandono do paradigma clássico que identificava o aumento da entropia e a evolução rumo a desordem. Descrevíamos o papel constitutivo dos fenômenos irreversíveis e os fenômenos de auto-organização que se produzem longe do equilíbrio. Discutíamos o papel que podem desempenhar as “estruturas dissipativas” na compreensão da vida. Os dez anos que nos separam desses trabalhos assistiram a um desenvolvimento extraordinário da nova ciência do não-equilíbrio” (Prigogine e Stengers. 1992: 12).
Na década de 1990, o capital tornou-se uma máquina de guerra dissipativa da ciência do não-equilíbrio. As máquinas dissipativas se definem por exercer violência para a destruição catastrófica da riqueza e das massas (por exemplo a destruição das massas de soldados na I guerra Mundial e das massas de soldados e civis na II Guerra Mundial):
“Mas o crescimento, que as mudanças técnicas tornaram possível, fez-se incomodo com o tempo. Ele próprio se tornava gerador de um maior excedente. A primeira guerra mundial explodiu antes que seus limites fossem tocados, mesmo localmente. A própria segunda guerra mundial não significa que o sistema, daí para frente, não possa ser desenvolvido (extensivamente, e mesmo, de qualquer forma, intensivamente). Contudo, ele mediu as possibilidades de interrupção do desenvolvimento, e deixou de usufruir das facilidades de um crescimento a que nada se opunha. Nega-se às vezes que o excesso de produção industrial esteja na origem das guerras recentes, em especial da primeira. Foi, porém, esse excesso, que uma e outra exsudaram; foi sua importância que lhes deu sua extraordinária intensidade” (Bataille: 63).           
As máquinas dissipativas da energia excedente não se encontram apenas no teatro de guerra convencional. No Brasil, o estado de guerra lumpesinal (guerra do tráfico, guerra da polícia contra a população mestiça, linchamentos) destruiu em 30 anos 1.000.000 de pessoas. No entanto, o discurso que faz a gestão da trans-subjetivação das massas sujeito zero cidadão explora na tela gramatical do capital eletrônico tal destruição das massas como rede de imagens eletrônica da sociedade do espetáculo.
A destruição do excedente é espetacularizado como informação eletrônica alienante e não como uma linguagem de cultura política que leve as massas a metabolizarem, simbolizarem e trans-subjetivarem a sua própria destruição na sociedade de significantes do não-equilíbrio entre Estado e sociedade civil. As massas sujeito zero participativo são meros joguetes de acumulação de excedente narcísico na tela gramatical eletrônica; elas ex-sistem como massas disponíveis à sua própria destruição!   
A acumulação do excedente permanente de energia instala a lógica da ruína do sistema mundial:
 “ Esses excessos de força viva, que congestionam localmente as economias mais miseráveis, são com efeito os mais perigosos fatore da ruína. Dessa forma, a descongestão foi em todos os tempos, mas na parte mais obscura da consciência, objeto de uma busca febril. As sociedades antigas encontram-na nas festas; algumas edificaram admiráveis monumentos que não tinham utilidade; nós empregamos o excedente para multiplicar os “serviços”, que aplainam a vida, e somos levados a reabsorver uma parte no aumento das horas de lazer. Esses derivativos, no entanto, sempre foram insuficientes: sua existência como excedente apesar disso (em certos pontos), destinou em todos os tempos multidões de seres humanos e grandes quantidades de bens úteis às destruições das guerras. Em nossos dias, a importância relativa dos conflitos armados chegou inclusive a aumentar: adquiriu as proporções desastrosas de que se tem conhecimento” (Bataille: 62).
A lógica da ruína do excedente pode ser evitada pela cultura política da arquitetura monumental, pelo carnaval, pela expansão do setor de serviço no capital após a II Guerra Mundial, pelo aumento da atividade de lazer (setor de turismo). O excedente pode gerar a guerra como tal fazendo pendant com a lógica fática da economia capitalista. A cultura política econômica do capital já é um modo de evitar o real associado ao excedente que exige a destruição das massas sujeito zero cidadão - como aquele que tem o direito de morrer naturalmente.
O problema do excedente de energia põe e repõe para o planeta a questão da indústria nos territórios nacionais.  A lógica do capital industrial moderno é a obtenção de lucro. A reprodução ampliada econômica do capitalismo (a acumulação ampliada do capital) a partir da apropriação do excedente como lucro é o significante-motor da economia do capital. Isso é o real do capital. A cultura política econômica do capital é um modo de evitar a lógica catastrófica derivado desse real:
“ Em consequência disso, o princípio geral do excedente de energia a ser dispendido, encarado (para além da estreita intenção da economia) como efeito de um movimento que a ultrapassa, ao mesmo tempo que esclarece tragicamente um conjunto de fatos, reveste um alcance que ninguém pode negar. Podemos formular a esperança de escapar a uma guerra que já é ameaçadora. Mas para isso precisamos derivar a produção do excedente, seja na extensão racional de um crescimento industrial incômodo, seja em obras produtivas, dissipadoras de uma energia que de modo algum pode ser acumulada” (Bataille: 63). A cultura política econômica mundial tem que se sobrepor (e sobredeterminar) a ex-sistência  restrita da economia mundial e do sistema político planetário - das Ding do real!
A cultura política econômica pós-modernista foi um significante necessário para desviar a ação irreversível das máquinas de guerra dissipativas? Ela pôs um fim na dialética significante versus significado, representante versus representado? Ela dispensa a ideia de que o sufrágio universal elegeria representantes representativos:
“A irrupção do sistema binário pergunta/resposta tem alcance incalculável: ela desarticula todo discurso, causa um curto-circuito em tudo o que foi, numa idade do ouro doravante encerrada, dialética de um significante e de um significado, de um representante e de um representado. Adeus aos objetos cujo significado seria a função, acabou a ideia de que o sufrágio universal elegeria representantes “representativos”, é o fim da interrogação real à qual responde a resposta (adeus sobretudo às perguntas para as quais não há respostas). Todo esse processo é desarticulado: o processo contraditório do verdadeiro e do falso, do real e do imaginário é abolido nessa lógica hiper-real da montagem” (Baudrillard. 1976: 99).
Repetindo! O verdadeiro problema da cultura política pós-modernista é a transformação da cultura política econômica em realidade econômica hiper-real: “ Não há mais verdadeiro e falso porque já não existe afastamento discernível entre pergunta e resposta. À luz dos testes, a inteligência, assim como a opinião, e, de maneira mais geral, todo processo de significação se reduz à “capacidade de produzir reações contrastada a uma gama crescente de estímulos adequados” (Idem: 100).
A cultura política econômica é a articulação do capital como processo de significação cultural econômico trans-subjetivo das massas sujeito zero político. Reações à estímulos adequados definem a sociedade de consumo de significantes como máquina de guerra econômica, não como cultura política econômica. Há um percurso no século XIX e XX no qual a prática política e a prática econômica se unificaram cada vez mais num mesmo tipo de discurso.
Trata-se da realização da economia política como hiper-realidade pela abolição da autonomia relativa entre política e economia. Propaganda e publicidade se fundiram no mesmo marketing e na mesma venda de objetos ou ideias-força. Trata-se da convergência da linguagem entre o econômico e o político na hiper-realidade da cultura política econômica do simulacro de simulação (Baudrillard. 1976: 101). Tal cultura é um modo de evitar o capital como máquina dissipativa? Ela também é a política do sufrágio universal como sociedade de espetáculo eletrônico das massas sujeito zero cultural político intelectual. Tais massas são aquelas da interseção da trans-subjetivação homo simulacrum/homo informacionalis.
Tal trans-subjetivação das massas eletrônicas escapa à lógica do sentido. A sociedade de comunicação de significantes simula que doa sentido às massas: “O que lhes dá é sentido e elas querem espetáculo. Nenhuma força pôde convertê-las à seriedade dos conteúdos, nem mesmo à seriedade do código. O que se lhes dá são mensagem, elas querem apenas signos, elas idolatram o jogo de signos e de estereótipos, idolatram todos os conteúdos desde que eles se transformem numa sequência espetacular. O que elas rejeitam é a “dialética” do sentido” (Baudrillard. 1985: 14-15).
O processo de trans-subjetivação das massas sujeito zero cultural político intelectual é o grau zero da lógica do sentido. Isso significa o capital eletrônico transnacional na hegemonia do bloco-no-poder mundial fazendo a gestão das massas no território existencial nacional. Como pensar a política procedimental com a forma de sufrágio universal hiper-real? A ciência política americana universitária se perde para sempre:
“As pesquisas de opinião manipulam o indecidível. Influenciam elas o voto? Verdadeiro, falso? Dão uma descrição exata da realidade ou simples tendências, ou a refração dessa realidade num hiperespaço da simulação de que se quer se conhece a curvatura? Verdadeiro, falso? Indecidível.  A mais extrema sofisticação de sua análise sempre deixa espaço à reversibilidade das hipóteses. A estatística não passa de casuística. Esse indecidível é o próprio de todo o processo de simulação (ver acima o indecidível da crise). A lógica interna desses procedimentos (estatísticas, probabilidades, cibernética operacional) é por certo rigorosa e “científica”; no entanto, em algum lugar ela não está vinculada com coisa alguma, é uma ficção fabulosa cujo índice de refração numa realidade (verdadeira ou falsa) é nulo. É isso mesmo que faz a força desses modelos, mas é igualmente aquilo que só lhes deixa de verdade a dos testes de projeção paranoicos de uma casta, ou de um grupo, que sonham com uma adequação miraculosa do real aos seus modelos e, em consequência, como uma manipulação absoluta” (Baudrillard. 1976: 102). A cultura econômica do simulacro de simulação é a tentativa de suspender a política como máquina de guerra dissipativa aniquilando a filosofia (metafísica) e o campo das ciências humanas? Estas se transformam em servas da tela eletrônica no processo de trans-subjetivação das massas sujeito zero democrático?
O capital eletrônico transnacional significa falta de pensamento político na articulação da trans-subjetivação das massas e projeção paranoica da classe simbólica na realidade dos fatos na adequação miraculosa do real aos seus modelos. Significa a desterritorialização do campo de poder nacional e a consequente degradação da trans-subjetividade territorial existencial das massas sujeito zero nacional: hiper-realidade das massas!
Na hiper-realidade política como tal, a esfera política (e a esfera do poder) se esvazia. A classe política hiper-real existe como um signo de pura política narcísica que acumula energia excedente narcísica capaz de transformar a política em uma máquina de guerra dissipativa. Na América Latina, três países vivem (ou viveram) tal processo dissipativo como destruição de suas economias políticas bolivarianas: Argentina, Venezuela e Brasil. Não sabendo como enveredar no caminho da cultura política econômica mundial, eles se perdem no labirinto da tela gramatical barroca que os impedem de se coadunar com a produção do contemporâneo. O contrário significa a reterritorialização trans-subjetiva nacional das massas na nova ordem mundial do capital corporativo digital mundial.
Sobre a política pós-moderna vale a pena ler o texto seguinte:
“ O que é real no cenário estatístico é também à parte regrada da esfera política: a alternância de forças representadas, substitutivos maioria/minoria etc. Nesse limite da representação pura, “isso” não representa mais nada. A política morre por causa da interação regrada demais de suas posições distintivas. A esfera política (e, de modo mais geral, a do poder) se esvazia. Trata-se de qualquer forma do resgate pago pela realização do desejo da classe política, o de uma perfeita manipulação da representação social. Sub-repticiamente e com suavidade, toda substância saiu dessa máquina no momento mesmo de sua reprodução perfeita” (Baudrillard. 1976: 102).
A tela narcísica da política pós-modernista é a tela gramatical eletrônica. Tal tela trabalha com uma simulação de princípio de prazer na relação dela com o telespectador. No essencial, trata-se da abolição do princípio de realidade (contenção do princípio do prazer no mundo-da-vida institucional como casa, fábrica, Igreja, universidade). Porém a acumulação do princípio narcísico no telespectador esbarra na trans-subjetivação simulada do princípio do prazer, pois, este é veículo efetivo, por excelência, da transmissão de energia narcísica na trans-subjetivação do homo ludos, que é o avesso do direito (homo simulacrum) na tela eletrônica.
Na empresa capitalista da era do capital eletrônico transnacional, tal empresa deixa de existir como burocracia moderna baseada na ética do princípio da realidade hierárquica, vertical e disciplinar de um senhor, o chefe de equipe.  Nas décadas de 1960/1970, na esfera do trabalho e da produção predomina a denúncia ao “poder hierarquizado”, ao paternalismo, ao autoritarismo (ditadura patronal), aos horários impostos, às tarefas prescritas, à separação tayloriana entre concepção e execução e, de modo mais geral, à divisão do trabalho, com o contraponto positivo das exigências de autonomia e autogestão, bem como a promessa de liberação ilimitada da criatividade humana. Os ataques ao modo de produção de trans-subjetivação do capital moderno são inspirados na literatura do “repertório da festa e do jogo (Épistémon, 1968), da “liberdade de expressão” (de Certeau, 1968) e do surrealismo (Willener, 1970) ” (Boltanski: 201). Trata-se da interseção da crítica social com a crítica estética.
A empresa da era do capital eletrônico transnacional passa a funcionar pela combinação temperada de princípio de prazer com princípio de realidade visando a felicidade do funcionário:
“No entanto, devemos abster-nos de enfatizar as divergências entre a contestação estudantil e as formas e protesto que se manifestam nas empresas. Temas presentes nas duas críticas – crítica social e crítica estética – são desenvolvidos conjuntamente no mundo da produção, em especial por técnicos, executivos ou engenheiros das indústrias de ponta e pela CFDT que, em sua concorrência com a CGT, bem implantada entre os operários especializados e qualificados, procura mobilizar ao mesmo tempo os trabalhadores intelectuais e os semiqualificados. No contexto das empresas dos anos 70, as duas críticas se expressam sobretudo na forma de exigência de garantias (no que se refere à crítica social) e de autonomia (no que se refere à crítica estética” (Idem: 201). Assim, a Banda de Moebius da era do capital corporativo eletrônico transnacional tem seu lado direito (o homo simulacrum da tela eletrônica) e o seu avesso (homo ludos da tela empresarial como tal).
Na política há uma interseção do homo simulacrum com o homo ludos que significa adição da acumulação do princípio do narcisismo em uma escala mortal para países latino-americanos sob o domínio da ideologia bolivariana. Isso acontece na era do capital corporativo eletrônico mundial fazendo pendant com o capital corporativo digital mundial na gestão da trans-subjetivação das massas sujeito zero nacional da cultura política econômica mundial.
A desterritorialização das massas nacionais por tal cultura econômica significa o fim do território existencial nacional onde as massas vivem efetivamente. Tal lógica da ruína de tal território acaba por se tornar um problema para a reprodução ampliada do capital como cultura política econômica, como modo de gestão da trans-subjetivação das massas que constituem a sociedade de significante de consumidores. Elas se tornam um excedente de energia descartável em um estado de guerra ditatorial, que tem como motor o terrorismo doméstico ou islâmico!   
O narcisismo acumulado no significante mulher na tela eletrônica faz pendant com a ética narcísica da política ocidental através da publicidade do belo corpo feminino na cultura política econômica. Tudo isso é rigorosamente dispêndio de energia excedente narcísica – na cultura política econômica transnacional - que acaba por instalar o significante sedução na política eletrônica em relação às massas sujeito zero participativas: “ A sedução narcísica vincula-se a partir de então ao corpo ou as partes do corpo objetivados por uma técnica, por objetos, por gestos, por um jogo de marcas e de signos. Esse neonarcisismo está ligado à manipulação do corpo como valor” (Baudrillard.1996: 150).
A política como sedução narcísica é a perdição da política racional. Ela se abandona à “lógica” econômica do inconsciente nietzschiano local fazendo com que a classe política perca o rumo da cultura política econômica mundial. A falta de filosofia política econômica é a miséria da filosofia na tela política eletrônica do “terceiro mundo”. A acumulação do excedente de energia na classe política favorece um estado permanente de surto narcísico cujo apogeu é a destruição da própria classe política: a política devora seus próprios filhos no apogeu de gozo sedutor narcísico. A tela eletrônica é a máquina de narciso desse funcionamento da cultura política econômica eletrônica já mundial.
A ordem mundial do capital eletrônico transnacional instala a hiper-realidade política com o transpolítico. Até hoje, a América Latina não apreendeu como lidar com tal cultura política do homo simulacrum. Ao contrário, os americanos são verdadeiros mestres na arte transpolítica:
“O transpolítico é a transparência e a obscenidade de todas as estruturas em um universo desestruturado, a transparência e a obscenidade da mudança em um universo sem acontecimentos, a transparência e a obscenidade da informação em um universo sem acontecimentos; a transparência e a obscenidade do espaço na promiscuidade dos canais; a transparência e a obscenidade do social nas massas, de político no terror, do corpo na obesidade na clonagem genética... Fim da cena da história, fim da cena do político, fim da cena do fantasma, fim da cena do corpo – irrupção do obsceno. Fim do segredo – irrupção da transparência” (Baudrillard. 1983: 29).
O transpolítico é o modo de desaparição de tudo isso, o modo de desaparição toma o lugar do modo de produção na cultura política. Tal curva maléfica põe um fim à articulação da política pela lógica de sentido. O excedente de energia narcísica/sedutora acumulada em forma intensa e ampliada na cultura política arruína a lógica de sentido. A política se deixa apoderar pela paixão da irracionalidade.
O leitor pode observar a ação de poder do transpolítico (já que estamos uma etapa na qual o campo de poder retoma sua soberania na cultura política) no impeachment de uma presidente da “República”. Trata-se da senhora Dilma Rousseff. O impeachment é uma atividade transparente, obscena, desestruturação da trans-subjetividade política, um não-acontecimento da sociedade informacionalis de significantes, obscenidade do social nas massas sujeito zero social, horror político, fim da cena do político, fim da cena do fantasma na trans-subjetivação das massas intelectuais, fim da cena da história.
Como saber que há uma sobreposição de uma outra realidade política ao transpolítico;
“Por meio de uma operação circular de ajuste experimental, de interferência incessante, como os de um influxo nervoso, táteis e retráteis, que exploram um objeto a golpes de breves sequencias perceptivas, até tê-lo localizado e controlado – o que eles localizam assim, e estruturam, não são grupos reais e autônomos, mas amostragens, isto, os grupos social e mentalmente modelados por disparos de baterias de mensagens. A “opinião pública” é evidentemente a mais bela dessas amostragens – não uma substância política irreal, mas hiper-real, hiper-realidade fantástica que vive apenas da montagem e da manipulação testual [testuelle]” (Baudrillard. 1976: 99).
As massas do impeachment são e não são massas sociais. Elas permanecem nesse limbo, nesse labirinto da tela gramatical barroco. Elas mergulham em um processo de trans-subjetivação barroco saturnino, melancolicamente lembrando o século XV europeu: “ Naquela época, Saturno voltou a significar o que ele já significará para Aristóteles, isto é, o símbolo da genialidade, mas também do humor sombrio, do crime e da loucura” (Hocke: 29). No labirinto da tela barroca fala-se de uma linguagem da violência das massas: “ Já na arte de Leonardo da Vince, arrojada, mas controlada pelo intelecto, percebe-se o quanto o enigma da contradição se tornou obsessivo. O homem e o universo se divorciam. Os olhares se perdem no labirinto do insondável. Labirinto este que provoca um verdadeiro fascínio à pessoa de Leonardo da Vince” (Hocke: 25).
No labirinto barroco: “o mundo está repleto de desordens e de angústias, razão pela qual ele não se deixa mais retratar pelas regras do Classicismo” (Hocke: 21). A situação da cultura política barroca ilumina nossa temática: “ O quadro também revela algo a respeito da situação política, assaz caótica, na Europa de então. Nota-se uma ânsia por atingir o extravagante, o singular, o exótico e tudo quanto se dissimula para além e no seio da realidade física “natural”. Torna-se igualmente evidente a vontade de conservar uma distância aristocrática em face da sociedade” (Hocke: 17). A tela barroca plástica é o fenômeno que torna possível a aristocratização do mundo na Europa de Leonardo por seu poder de acumular o excedente de energia narcísica sedutora em uma pequena classe simbólica com reverberação na classe política aristocrática. Hoje, a tela política eletrônica está no lugar da tela de Leonardo. Porém, se trata de uma aristocratização obscena e infame do mundo político.  
A ordem digital mundial precisa de um Guy Debord. Infelizmente o mundo intelectual francês talvez esteja trilhando um caminho de decadência irreversível. “A sociedade do espetáculo” é o livro mais importante que conheço sobre cultura política econômica. Como sou o criador deste significante minha palavra talvez possua algum valor.
A eloquência escrita de Debord é uma maravilha. Infelizmente não vou poder transcrevê-la aqui, em demasia. Vejam isso: “ A especialização das imagens do mundo se realiza no mundo da imagem autonomizada, no qual, o mentiroso mentiu para si mesmo” (Debord: 15-16). Sem Debord, Baudrillard é impensável!
Tese 4. “O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediadas por imagens”. Trata-se, portanto, de um liame social, de uma sociedade do espetáculo dos significantes na subsunção real do significante à imagem eletrônica, especialmente. Na tese 5, o espetáculo é uma Weltanschauung, uma visão de mundo, uma ideologia (Marx). Isso é um passo para pensar a sociedade do espetáculo como cultura política do espetáculo: “ É o coração do irrealismo da sociedade real. Sob todas as suas formas particulares – informação (homo informacionalis) ou propaganda, publicidade ou consumo direto de divertimento -, o espetáculo constitui o modelo atual da vida socialmente dominante” (Debord: 17). Mais especificamente como cultura política: “ Mas o espetáculo nada mais é que o sentido da prática total de uma formação econômico-social, o seu emprego do tempo. É o momento histórico que nos contém” (Idem: 20). Parece que demos um passo à frente!
Na Tese 15, Debord define a cultura política econômica do espetáculo: “ e como setor econômico avançado que molda diretamente uma multidão crescente de imagens-objetos, o espetáculo é a principal produção da sociedade” (Idem: 21-22). Na Tese 16, o conceito torna-se mais claro: “ O espetáculo domina os homens vivos quando a economia já os dominou totalmente. Ele nada mais é que a economia se desenvolvendo por si mesma. É o reflexo fiel da produção das coisas, e a objetivação infiel dos produtores” (Idem: 22). A economia é o real que dominou os homens, e a cultura política econômica do espetáculo é o domínio de crianças, mulheres e homens em um modo de ex-sistência RSIcp (Real/Simbólico/Imaginário/cultura política). Trata-se de uma totalidade historial articulada a partir da cultura política econômica. Fim da era lacaniana!
Debord (re) liga economia política do espetáculo e mito: “ O espetáculo é a reconstrução material da ilusão religiosa” (Idem: 24). Se a religião é o ópio do povo, o espetáculo é uma nova droga para a felicidade da humanidade, uma droga cujo princípio ativo é o pseudo-sagrado. Assim, caminhamos para a definição trans-subjetiva da cultura política econômica do espetáculo: “ O espetáculo é o mapa (trans-subjetivo) desse novo mundo, mapa que corresponde exatamente a seu território. As forças que nos escaparam mostram-se a nós em todo o seu vigor” (Idem: 31). A Tese 34 associa cultura política econômica do capital com a trans-subjetivação espetacular: “ O espetáculo é o capital em tal grau de acumulação que se torna imagem”.
A cultura política econômica do capital/espetáculo põe e repõe o discurso do espetáculo do capitalista como excedente de semblância narcísica: “ O conceito de espetáculo unifica e explica uma grande diversidade de fenômenos aparentes. Suas diversidades e contrastes são as aparências dessa aparência organizada socialmente, que deve ser reconhecida em sua verdade geral. De acordo com seus próprios termos, o espetáculo é a afirmação da aparência e a afirmação de toda a vida humana, ou melhor, social, como simples aparência” (Idem: 19).
Debord está se referindo à ordem mundial do capital eletrônico transnacional da década de 1960.
A ordem em tela significa o grau zero da política representativa? As trans-subjetividade das massas sujeito zero representativo geridas pelo capital eletrônico transnacional desagua na relação de desejo massas/terrorismo: “Sem dúvida, alguma coisa de muito forte passa entre eles (massa e terrorismo) que procuraríamos em vão nos precedentes históricos dos sistemas representativos (povo/assembleia, proletariado/partido, marginais-minorias/grupelhos, etc.). E Baudrillard conclui: “ Assim se poderia dizer que entre as massas e o terrorismo, entre esses dois não-polos de um sistema não-representativo, também passa uma energia, mas uma energia inversa, energia não de acumulação social e de transformação, mas de dispersão do social, de absorção e anulação do político” (Baudrillard. 1985: 44-45).
Baudrillard explica o fenômeno do terrorismo da esquerda europeia como parte da cultura política econômica do capital espetacular (fim do espaço da representação política) como parte de um processo de trans-subjetivação tele eletrônico. A articulação massas/terror é impensável fora da tela gramatical eletrônica da sociedade do espetáculo dos significantes (imagens eletrônicas).
A mudança na conjuntura mundial nos anos de 2000 se dá com as massas digitalis do 15-M espanhol e, no Brasil, com as massas de junho de 2013 (J-13) e depois com as massas paulistas e cariocas de 2015. Tais massas sujeito zero terrorista já são parte de um processo de trans-subjetivação da ordem mundial do capital corporativo mundial digital. O Brasil está articulado ao capital corporativo mundial através das massas sujeito zero eletrônico!
As massas J-13 são um ponto de inflexão na cultura política econômica do espetáculo. Um ponto de basta na acumulação do excedente de energia narcísica na classe política brasileira. Não se trata de um questionamento da lógica da representação exposta obscenamente na sociedade do espetáculo como mera semblância ficcional (como Hans Kelsen já havia formulado, a representação é pura ficção) da trans-subjetivação das massas sujeito zero representativo na tela gramatical eletrônica. Trata-se da impossibilidade da dominação da partidocracia weberiana (dominação ou governo das massas pelos partidos através da tela política gramatical eletrônica) no século XXI.   
Como monopólio da semblância, a cultura política econômica eletrônica separa filosofia e massas sujeito zero bárbaro (estabelecendo o grau zero de pensamento político na sociedade de significantes). A filosofia da praxis de Gramsci é a ideia da fusão de pensamento político com as massas sujeito zero reformista. Gramsci pensava as massas revolucionárias como parte de uma filosofia política econômica de autointerpretação revolucionária do ver da realidade do real (dos fatos). A Revolução Russa lhe fornecia tal certeza.
A sociedade do espetáculo é a cultura política econômica como degradação filosófica do ver ocidental. O espetáculo: “ não realiza a filosofia, filosofiza a realidade. A vida concreta de todos se degradou em um universo especulativo” (Debord: 24).
Isso é um fenômeno cultural político econômico irreversível na Ordem Mundial Digitalis?    


BATAILLE, Georges. A parte maldita. Precedido de A Noção de Despesa. RJ: Imago, 1975
BAUDRILLARD, Jean. Les stratégies fatales. Paris: Grasset, 1983
BAUDRILLARD, Jean. À sombra das maiorias silenciosas. O fim do social e o surgimento das massas. SP: Brasiliense, 1985
BAUDRILLARD, Jean. L’échange symbolique et la mort. Paris: Gallimard, 1976
BOLTANSKI E CHIAPELLO, Luc e Ève. O novo espírito do capitalismo. SP: Martins Fontes, 2009
DEBORD, Guy. La société du spectacle. Paris: Gallimard, 1967/1992
HOCKE, Gustav R.. Maneirismo e o mundo como labirinto. SP: Perspectiva, 1974
MARX, Karl. O Capital. Crítica da economia política. Livro 1. V. 1. RJ: Bertrand Brasil, 1996
PRIGOGINE E STENGERS, Ilya e Isabelle. A nova aliança. Brasília: UNB, 1984
PRIGOGINE E STENGERS, Ilya e Isabelle. Entre o tempo e a eternidade. SP: Companhia das Letras, 1992
   
          
                               

                                   

         
                           
                                         
                  
     
                                     
                          
   


Nenhum comentário:

Postar um comentário