quinta-feira, 24 de março de 2016

OSWALD DE ANDRADE/TRANS-SUBJETIVAÇÃO SOFÍSTICA


24/03/2016

Meu objeto é a sofística, mas, que os céus me protejam, pois, não tenho formação universitária em filosofia. A rigor, isso não é um problema, pois, a sofística parece filosofia, sem ser filosofia. A cultura política sofística contém a sofistica como apogeu narcísico de um discurso semblant da filosofia.  
A política se define agora como uma totalidade articulada na interseção da forma política (objetiva) com o campo de poder da trans-subjetividade das massas sujeito zero metafísico, ou melhor, com a trans-subjetivação permanente sofística das massas. Como diremos, a política é homónoia (identidade de pensamento) /stasis (a stasis é a polis que metaboliza até a guerra civil aberta) / tempo ocasional (Kairós). Trata-se do modo de evitar polémios (o estado de guerra oligárquico aberto permanente), como a definiu Derrida (Derrida: 110-111).   
Para o sofista, a coragem política é vivenciada intencionalmente pelo uso do significante gramaticalmente com força de realidade na língua literária da polis, pois, a polis tem kairós como sua fronteira trans-subjetiva das massas sujeito zero ditatorial (plethos politon). O ex-ministro da Justiça e agora Advogado Geral da União faz um discurso sobre o impeachment de Dilma Rousseff. Ele diz que isso é um golpe, mas não tem coragem de dizer que se trata de um golpe de Estado ditatorial burguês. Na cultura política sofística da antiguidade, ele seria tomado como alguém que perdeu a coragem momentaneamente! A língua literária sofística ex-siste como espelho da realidade dos fatos persuasivos, como retórica persuasiva por ser uma retórica fática contextual: o homem e sua circunstância.  O advogado de Dilma Rousseff agiu como um sofista aristotélico: “ o sofista é a planta que fala”.
Tornou-se um truísmo o fato de que o Brasil vive uma crise nacional jamais vivenciada intencionalmente como tal no território trans-subjetivo das massas. Meu texto é um efeito prático/teórico da crise brasileira!

No Manifesto Antropofágico (Teles: 353-360), Oswaldo de Andrade diz: “Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo”. A elite brasileira é a planta que fala. Ela é sofística aristotélica sem conhecer a cultura política sofística. Trata-se da oligarquia colonial e sua ética sofística vegetal, ética enraizada no solo do latifúndio -  a ética de ajudar o amigo e prejudicar os outros. (Platon: 863-864).         
Este manifesto constitui-se numa síntese de alguns pensamentos do autor sobre o Modernismo Brasileiro. Inspirou-se explicitamente em Marx, Freud, André Breton, Montaigne e Rousseau e atacava explicitamente a catequese, a herança portuguesa e o padre Antônio Vieira: “Antes de os portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade”. A felicidade é o princípio de realidade indígena em oposição ao princípio de realidade freudiano: “Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciária do matriarcado de Pindorama”.
Oswald pensa uma cultura política intelectual brasileira antropofagicamente sofística.  A antropofagia é diferente de canibalismo, pois, nas sociedades tribais/tradicionais antropofágicas, o nativo comia da carne do nativo de outra tribo acreditando estar assimilando o que este tinha de bom. O canibal por sua vez se alimenta do outro ser humano por nutrição. Com efeito trata-se de uma cultura política mundial no território trans-subjetivo sofístico brasileiro.  
Devemos ser antropofágicos com a cultura europeia, pois devemos comê-la e digerir tudo aquilo que ela tem de bom, devolvendo isso na forma de uma produção superior, com muito senso de humor e crítica: “Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Matias. Comi-o”. A cultura política intelectual do direito ocidental deve ser canibalizada se autotransformado em uma língua literária jurídica de uma banda de Moebius como anverso (cultura ocidental) e verso (cultura jurídica nacional). Trata-se de uma cultura política sofística jurídica antropofágica!
A trans-subjetivação das massas sujeito zero ocidental na cultura política do direito da revolução caraíba (“Queremos a revolução caraíba. Maior que a Revolução Francesa”) é trans-subjetivação da nossa língua literária de uma cultura política surrealista antes do surrealismo de André Breton (“Já tínhamos a língua surrealista. A idade do ouro”). A nossa cultura política é a do carnaval como trans-subjetividade revolucionária carnavalesca das massas sujeito zero europeu: “Nunca fomos catequisados. Fizemos o carnaval”.
“Só podemos atender ao mundo orecular.  “Orecular” remete tanto a oráculo quanto a orelha. Refere-se às tradições orais, ao poder das previsões, à importância do ouvido, da escuta. Ênfase na importância da orelha/boca/orar/profetizar - Só pensamos pelo ouvido. Trata-se da cultura política orecular na qual “O espírito recusa-se a conceber o espírito sem corpo’. Recusa do fantasma do passado colonial articulando a cultura política intelectual como produção da contemporaneidade. Esta não deve ser reversível e composta de ideias cadavéricas positivistas: “Contra o mundo reversível e as ideias objetivadas”. Oswald é um modernista que tem a antevisão da cultura política pós-modernista?
O orecular remete para a sociedade de significantes na qual o ser é um efeito do dizer, “um fato de dito”. Em tal sociedade, o significante é hegemônico na cultura política (onde não se vai do significado ao significante, mas inversamente), assim como a logologia que não procede do ser ao dizer, mas do dizer ao ser.  Na sociedade de significantes, a certeza da lógica de sentido que articula a realidade dos fatos estremece como unicidade. Esta sociedade de trans-significantes oswaldianos é uma totalidade furada por onde se inscrevem o jogo da língua literária do significante do equívoco, da homonímia, da anfíbola (Cassin: 18). Aristóteles considerava tais figuras da língua literária armas ideológicas da cultura política sofística.
De Górgias à Lacan passando por Oswald, somos arremetidos para um mundo onde ouvir é hegemônico. Assim sendo, Oswald é o sofista brasileiro lacaniano antes de Lacan.
Uma manifestação diferente da cultura sofística orecular como tal é a cultura política sofística do direito brasileiro tal como uma sociedade de transignificantes jurídicos (suprassunção do significante sem aniquilá-lo, ou seja, sobreposição de significantes transantagônicos). Na cultura política sofística do direito o valor logológico da significação não é medido pela verdade, mas pela condição da verdade, ou melhor, o conjunto de condições sob as quais uma proposição “seria” verdadeira. A proposição condicionada ou concluída pode ser falsa, na medida em que designa atualmente um estado de coisas inexistentes, ou se ela não é verificada diretamente. A significação não fundamenta a verdade, sem tornar ao mesmo tempo o erro possível: “Eis porque a condição da verdade não se opõe ao falso, mas ao absurdo: o que é sem significação, o que não pode ser verdadeiro nem falso” (Deleuze: 15). Ao abrir a porta para a articulação da cultura política do direito sofística na oposição dos significantes verdade e absurdo tal abertura associa tal cultura ao inconsciente nietzschiano. Ela passa a ser uma cultura na qual o inconsciente nietzschiano é o inconsciente do discurso do direito. O inconsciente é o inconsciente de um discurso (Lacan. S. 16: 68).
O absurdo é uma partícula significante trans-subjetiva das massas sujeito zero verdade do discurso do direito: “ Mas de uma coisa no mundo é passível do efeito do significante. Tudo o que está no mudo só se torna fato, propriamente, quando com ele se articula o significante. Nunca, jamais surge sujeito algum até que o fato seja dito. Temos que trabalhar entre essas duas fronteiras” (Lacan. S. 16: 65)     
Mas de uma coisa é passível no mundo do efeito do trans-significante, pois se o significante articula o sujeito como subjetividade, o trans-significante articula-o como trans-subjetividade das massas sujeito zero. Tudo na cultura política sofística do direito só se torna fato jurídico, propriamente, quando com o fato articula o artefato trans-significante jurídico. Nunca, jamais surge o trans-sujeito (trans-subjetividade) sem que o fato seja dito pelo transdiscurso na cultura política contextual. É preciso trabalhar entre essas duas fronteiras que desenham o território do campo freudiano e o da física geopolítica lacaniana.                         
Oswald pensa o witz como articulador da nossa cultura política? Leitor competente de Freud, nosso pensador sabe que em Freud, o witz (chiste sofístico) é simultaneamente desvalorizado sem apelo como erro de raciocínio, não-sentido, derivando de uma atividade regressiva, infantil, toxicomaníaca, neurótica ou psicótica, pré-lógica.
O sofisma significa o prazer de jogar com o sentido das palavras e com a imagens acústicas (jogar com a imagem do significante). A cultura política sofística diz a verdade do desejo e libera a trans-subjetivação das massas (do jugo da “razão crítica”) como exercício de liberdade na língua literária. Qual é a verdade que a cultura sofística liberta da lógica do sentido filosófica aristotélica ou verdade filosófica? Trata-se de uma verdade que é mais verdadeira que a própria verdade (temida por Aristóteles). O campo freudiano articulou-a como verdade do inconsciente freudiano e a física geopolítica lacaniana como verdade do inconsciente nietzschiano do discurso das massas sujeito zero ditatorial (plethos politon).
A fórmula de Oswald diz: “Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade prélógica para o Sr. Levi Bruhl estudar”. Para Oswald, o prélógico articula a trans-subjetivação. Tão óbvio, depois de dito por nosso modernista. Trata-se de desbancar (na articulação da cultura política) a soberania absoluta da verdade vestida com a lógica de sentido filosófica: “ O que atrapalhava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará. O cinema só é espetáculo lúdico cinematográfico por trilhar caminhos prélógicos ao arrepio da lógica de sentido.
A língua literária brasileira da política é também pré-lógica, pois, ela não tem uma verdadeira tradição cultural política ligada ao solo Europeu (velhos vegetais) e nem gramática ocidental que as articule. Ela não sabe o que é a gramática do Território público (o Território é sempre o território do vizinho como espaço público indevassável), não sabe o que é fronteira (“nunca soubemos o que era urbano, suburbano...”). Ela não consegue vivenciar intencionalmente os significantes público/privado como pares opostos, diferentes, distintos, articuladores do território trans-subjetivo de plethon politon:
“ Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-mundi do Brasil.
Uma consciência participante, uma rítmica religiosa”.
Urbano, suburbano, fronteiriço, continental são trans-significantes oswaldianos que articulam a cultura política brasileira (e talvez latino-americana) como falta. Trata-se de um conceito de cultura política da física lacaniana. A rítmica religiosa articula a cultura política a partir de uma cadencia e um processo historial associado ao tempo religioso, ou melhor, tempo mitológico. Na história política brasileira da política, o tempo mitológico suprassume o tempo lógico.                                          
“Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição”.  O Brasil é sofístico pela falta de cultura política metafísica. Adivinhar na política é um elemento da doxa da cultura política sofística tupiniquim. Entre nós, a Política é a ciência da distribuição do quê? É a ciência da distribuição privatista da riqueza nacional. Tal Política tem necessidade de uma cultura política sofística do Eldorado ao alcance trans-subjetivo das massas sujeito zero metafísico (especulativo): revolução caraíba.                 
O Manifesto Antropófago, embora seja nacionalista não é xenófobo, antes pelo contrário é xenofágico: “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago”. O significante antropófago é o trans-significante-mestre que colhe a maçã do território do vizinho (Europa). Tal agir cria uma sociedade de significantes trans-subjetivos que são opostos (indiferentes) à sublimação: “O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos”.
A alta antropofagia é a trans-subjetivação das massas sujeito zero sublimação. O instinto antropofágico é o motor das pulsões trans-subjetivas das massas sujeito zero luso aviltadas pela cultura política da catequese missionária.  Tal instinto ex-siste em um choque transdialético com o instinto de morte. O Brasil era conhecido pelo homem cordialis antropofágico (instinto antropofágico) que é o avesso do homo cordialis de Sérgio Buarque Holanda, que pessoaliza a política como campo dos afetos oligárquicos. O homo antropofagicus é a revolução caraíba da trans-subjetivação das massas sujeito zero ocidental.      
II
A cultura política sofística das massas plethos politon só é inteligível se a política for homónoia/stasis. A homónoia (acordo trans-subjetivo do plethos politon) é a condição para a ex-sistência da cidade (país) ser uma polis. Trata-se da essência da política não como unidade da identidade, e sim como unidade verdadeiramente formal, livre, vazia, a forma de uma unidade aberta a todos os conteúdos (Cassin: 81).
A homónoia tem o plethos politon como referente da cultura política sofística. O consenso, o acordo no plethos (homónoia) tem como modelo o legal das leis que é instituído pelo consenso, resultado de um acordo. O conteúdo da homónoia pode ser descrito assim, como equivalente político dos deuses: não se trata de compartilhar as mesmas opiniões, os mesmos julgamentos, os mesmos valores. Trata-se simplesmente de que as massas sejam persuadidas pelas leis da política trans-subjetiva, que elas obedeçam a tais leis. A lei trans-subjetiva consiste em obedecer a lei da política (homónoia/stasis) na qual a guerra civil não deve destruir a polis. Tal trans-significante política serve como modelo para pensar a physis e a trans-subjetividade das massas em tela da qual se exige que não faça guerra contra si própria, pois, isso equivale a fazer guerra contra a polis (polémios). A trans-subjetivação sofística da física lacaniana pensa a cultura política como a praxis do médico que através de suas drogas realiza a mudança, a inversão dos estados trans-subjetivos, fazendo passar não do falso para o verdadeiro, e sim do pior para o melhor.  
A unidade do “com” (unidade das massas sujeito zero despótico e plural da polis), torna-se a matriz da unicidade. A homónoia é obtida por meio do logos que faz a gestão do inconsciente do discurso das massas. Esta é a lógica de sentido do logos na política. Como identidade de pensamento, a homónoia é identidade das diferenças como acordo, consenso, por vezes, concórdia. Ela é a essência da trans-subjetividade política que constitui a cidade como politeia, que é o anverso da ditadura das massas. Com a transdialética materialista homónoia/stasis/kairós (tempo conjuntural), a política é o modo mais eficaz de evitar pólemios.
Longe de estar condensada na unicidade de um tempo trans-subjetivo eterno (estrutural), a homónoia é a diversidade de opiniões, a mediocridade das condutas, o desejo e o instinto trans-subjetivamente antropofágico do inconsciente nietzschiano. Mas ela é também – na leitura da física geopolítica lacaniana – a vontade de plethos politon que pensa, como sofista lacaniano: “Eis o momento em que se torna evidente que a vontade só é verdadeira vontade como inteligência que pensa” (Hegel: 43). A homónoia é tempo conjuntural cultural político.
Na física lacaniana, a cultura política sofística é o resultado sempre impreciso de uma operação retórico/prático de persuasão teórica oswaldiana, que produz, ocasião após ocasião (kairós), uma unidade trans-subjetiva instantânea nas massas feitas de diferenças. A homónoia é o trans-significante sofístico no qual o lógos torna-se a virtude da política (plethos politon) por excelência no kairós como articulação de presente, passado, futuro. Não se trata do modelo historial universal de Hegel onde não existe passado ou futuro no presente da modernidade: fim da história. Trata-se do modelo historial de Marx no qual o presente é articulado como realidade do real a partir dos fantasmas do presente, do passado e do futuro.
O presente é kairós (conjuntura cultural política contextualizada) e o fantasma não é estrutura, mas ação de poder sobre ação, ação da tradição que pesa como chumbo no cérebro dos vivos e ação futura antecipada, virtual. O fantasma é aquele do inconsciente nietzschiano de um discurso condensado em ações de poder. Ele é como o dinheiro na circulação produtiva ou do consumo como tal, dinheiro concreto que tem que ser gasto, usado. Ele não é o dinheiro como capital fictício, ou melhor, abstração das relações trans-subjetiva das massas.
O dinheiro/kairós significa que o seu uso é de um tempo finito. Não se trata de um tempo estrutural (quase eterno ou infinito). A política é homónoia/stasis/kairós (matiz tempo/espacial). Se os problemas que os homens se põem não são resolvidos no tempo cultural político de plethos politon; isso periodiza a conjuntura política. Então, o que não tem remédio, remediado está na implosão dos problemas contextualizados.
Em 2016, o Brasil não tem remédio para a sua crise política na atual conjuntura. A nova conjuntura significa um trans-significante novo articulado a partir da trans-subjetivação de plathos politon. Tal evento só eclodirá com a eleição geral em 2016. Aliás, a renúncia de Dilma Rousseff, Michel Temer, Renan Calheiros e Eduardo Cunha também pode ser um ersatz de aliteração trans-subjetivo capaz de articular um novo significante, nunca um trans-significante político novo.       
O tempo conjuntural é como a fábula do avarento de Protágoras. Aquilo de que a mão se serve, “e que se trata de utilizar, ‘aquilo de que alguém não se serviu e não se servirá, quer seja ou não dele, isso não tem nem mais nem menos o mais possível’ como Cálicles, nos tonéis furados, deixou que lhe roubassem o tesouro que havia enterrado no jardim” (Cassin: 81) da política. As massas sujeito zero são os tonéis furados trans-subjetivos (totalidade) do jardim da política.                
O kairós é o estado ocasional cultural político trans-subjetivo das massas sujeito zero metafisico na política como o modo de evitar polémios - o estado de guerra como veia oligárquica aberta permanentemente na política. O Brasil tem uma vasta experiência com polémios pròs heautón do mundo colonial. Mas também tem a experiência do estado de guerra simulado: “tinha havido a inversão de tudo, a invasão de tudo: o teatro de tese e a luta no palco entre morais e imorais. A tese deve ser decidida em guerra de sociólogos, de homens de lei, gordos e dourados como Corpus Juris”, na fórmula da cultura política do homo simulacrum oswaldiana (Teles. Manifesto da poesia Pau-Brasil: 327).
Como classe dirigente (classe simbólica + classe política), a classe política não pode ignorar que gnóme (o senso comum trans-subjetivo da ortodoxia das condutas das massas) é sempre suscetível de ir em um sentido e em outro com kairós. Porém, há sempre um gnóme que convém: nada menos cristalizado que o senso comum da política, já que lábil e transdialético em sua labilidade; assim, ele está sempre pronto para um novo kairós.
Na cultura política sofística, a concórdia de plethos politon aparece como o emprego de uma identidade, que pode ser reduzir a um flatus vocis, produzido a partir de uma pluralidade ao mesmo tempo conflituosa e temporalizada. Tradicionalmente a fórmula é atribuída a Roscelino de Compiègne (em latim: Roscellinus Compendiensis ou apenas Rucelinus; Compiègne, ca. 1050—ca. 1125), que foi um filósofo e teólogo francês.
 Para Roscelino, o mais alto representante do nominalismo medieval, os conceitos universais não têm nenhuma realidade objetiva e são apenas nomes simples (isto é, precisamente, de vocis flatus). Tais significantes não tem força de realidade.  Isso é diferente da tagarelice digitalis atabalhoada e seu desleixo tão desdenhoso que são o lado sério da língua literária da política, como lado sério da trans-subjetivação cultura política digitalis kairós.           
BARBARA, Cassin. Ensaios sofísticos. SP: Siciliano, 1990
DELEUZE, Gilles. Lógica do sentido. SP: Perspectiva, 1974
DERRIDA, Jacques. Politiques de l’amitié. Paris: Galilée, 1994
HEGEL. Princípios da filosofia do direito. Lisboa: Guimarães Editores, 1990
LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 16. De um Outro ao outro. RJ: Zahar, 2008
Os Pré-Socráticos. Pensadores. SP: Abril Cultura, 1978
PLATON. Oeuvres Complètes. v. 1. Paris: Gallimard, 1950
TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda europeia e modernismo brasileiro. Manifesto da poesia Pau-Brasil e Manifesto antropofágico. RJ: Record, 1987    
  
                        

           

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