sábado, 19 de março de 2016

LINGUÍSTICA E CULTURA POLÍTICA

SAUSSURE E TRANS-SUBJETIVIDADE

17/MARÇO/2016
I. Língua e cultura política
Na física historial lacaniana, Saussure pensa a língua como um fenômeno trans-subjetivo das massas sujeito zero cerebral individual: “ Se pudéssemos abarcar a totalidade das imagens verbais armazenadas em todos os indivíduos, atingiríamos o liame social que constitui a língua. Trata-se de um tesouro depositado pela prática da fala em todos os indivíduos pertencentes a mesma comunidade, um sistema gramatical, que existe virtualmente em cada cérebro, ou mais exatamente, nos cérebros dum conjunto de indivíduos, pois, a língua não está completa em nenhum, e só na massa ela existe de modo completo” (Saussure: 21).
A língua tem uma relação orgânica com a história política e as instituições de toda espécie como Igreja, escola, partido política (Idem: 29-30) e, é claro, com as máquinas de guerra de pensamento. Logo, a língua é um fenômeno cultural político intelectual: “ pois toda língua literária, produto da cultura, acaba por separar sua esfera de existência da esfera de existência natural, a da língua falada” (Idem: 30). Podemos dizer que a língua da cultura política é uma língua literária, se o termo literário significar um significante técnico da cultura política que articula a realidade dos fatos.
O significante é a banda de Moebius de signo (anverso) e símbolo (verso). Por um lado, o signo é um fenômeno que se define pela arbitrariedade no laço que une o significante ao significado (Idem: 81). Por outro, “O símbolo tem como característica não ser jamais completamente arbitrário; ele não está vazio, existe um rudimento de vínculo natural entre significante e o significado” (Idem: 82), ou melhor, significado = ideia (Idem: 119). O símbolo da justiça, a balança, não poderia ser substituído por um objeto qualquer, um carro, por exemplo. Aliás, “ Justamente porque o signo é arbitrário, não conhece outra lei senão a da tradição, e é por basear-se na tradição que pode ser arbitrário” (Idem: 88). O signo é um artefato da cultura política definida rigorosamente como tradição. Aí encontra-se a homologia entre signo e significante da física historial lacaniana.
O que é o significante na física lacaniana?
Ele encontra-se na banda de Moebius constituída pelo signo (a arbitrariedade da tradição) e pelo símbolo, ou seja, há um rudimento de laço trans-subjetivo natural nas massas sujeito zero signo entre o significante e o significado/referente. O significante técnico tem uma relação relacional com o significado, pois, ele articula o referente, a realidade do real. O significante é homólogo ao signo na relação arbitrária com o significado; ele é homólogo ao símbolo na relação relacional com o fato cultural político linguístico, na caracterização de uma autonomia relativa entre significante e significado em interseção com o referente.
Como a lei do signo, a relação entre os significantes técnicos na linguagem política opera por distinção/oposição/diferença (Idem: 140). Meu texto sobre a ditadura nas Américas segue tal lógica saussuriana/lacaniana historial.
II ditadura nas Américas
 A cultura política mundial se articula pela relação entre significantes técnicos. A produção de imagens de um significante se faz na relação com o significante que é o oposto/distinto/diferente, ou seja, o avesso dele. Na Guerra-Fria, o significante democracia ocidental se definia em oposição ao significante ditadura asiática socialista (URSS). A retórica da democracia americana era o artefato cultural político da aliança do discurso da universidade americana com o capital corporativo eletrônico transnacional em oposição à cultura política marxista realmente ex-sistente!
Em novembro de 2000, George Bush Jr. elegeu-se “apesar” de ser derrotado nas urnas. A Suprema Corte impediu - por um veredito político – a recontagem de votos no estado da Flórida, que daria a vitória para Al Gore, do Partido Democrata. A proibição da recontagem dos votos foi o golpe de Estado ditatorial da Suprema Corte Americana, que instalou a ditadura americana da família Bush. Isso é o plano da forma política objetiva.
Na superfície trans-subjetiva, o capital eletrônico corporativo transnacional tratou o golpe de Estado e a ditadura Bush como fatos absolutamente normais do campo de poder democrático. A manipulação das massas eletrônicas sujeito zero democrático inaugurou a conjuntura trans-subjetivas que genealogicamente está ligada como um significante relacional oposto e diferente à conjuntura do fascismo ditatorial eletrônico de Donald Trump. Aquela é a tradição arbitrária da língua literária americana que pesa como chumbo no cérebro dos vivos. 
O campo de poder ditatorial pode ser observado em termos de voto. O capital eletrônico transnacional (ou mundial) esconde que a maioria dos cidadãos, com direito a voto nos EUA, não exerce tal direito. O mecanismo é simples. O título eleitoral não é fornecido a cada um dos cidadãos, como na Europa. Os eleitores americanos é que devem tomar a inciativa de requerê-los, agindo como solicitante. Uma parcela significativa não o faz, por motivos variados. O absenteísmo político, o niilismo político, e outros fatores trans-subjetivos das massas sujeito zero representativo são as causas da exclusão de tais massas do povo americano. As comunidades pobres e marginalizadas (por possuírem uma lumpen cultura política intelectual) são as mais afetadas.
Parece também que grande parte daqueles que acabam obtendo o título de eleitor não encontram razão para votar, ou no partido democrata, ou no partido republicano.  São massas que não se sentem representadas por esses partidos. O bipartidarismo fáctico americano sustenta com uma retórica democrática a ditadura americana pós-Segunda Guerra Mundial. Na eleição presidencial, o eleitor votante é sempre uma minoria. Trata-se, portanto, de uma oligarquia popular eleitoral.
Luciano Canfora via a democracia americana como uma ditadura oligárquica onde massas oligárquicas eleitorais (sujeito zero democrático) elegem uma fração da elite oligárquica para governar os EUA.
O indefectível liberal democrático Raymond Aron sublinha o caráter oligárquico dos regimes constitucionais-pluralistas. Para Aron, um campo de poder objetivo oligárquico-democrático (forma mista) se sustenta: a) nesse tipo de regime há o máximo de garantias para os governados; b) as minorias que, nos regimes constitucionalista-pluralista detém o domínio sobre a economia capitalista, não quiseram, ou não puderam impedir a ampliação da legislação social. No século XXI, o fenômeno neoliberal quer trocar a legislação social pelo modo de produção flexível. No Brasil, jornalistas e economistas burgueses creem que esta é a panaceia universal para resolver a crise econômica do nosso sistema industrial.   
No Brasil, uma oligarquia bolivariana se instalou a partir da Constituição liberal democrática de 1988. Tal oligarquia implantou uma ditadura bolivariana no território trans-subjetivo da República ditatorial de 1990, fundada por Fernando Collor de Mello. Aliás, massas sujeito zero ditatorial ajudaram a derrubar Collor. Mas o oligarca mineiro Itamar Franco assumiu a presidência e constituiu um governo com FHC ministro da economia que acabou se elegendo presidente após o curto reinado de Itamar.
Na sociologia econômica, FHC criou o bolivarianismo brasileiro. Quando assumiu a presidência, ele desfechou um golpe de Estado ditatorial na constituição de 1988 (com compra de votos, inclusive) para aprovar a reeleição. Tal golpe de Estado é homólogo ao golpe de Estado de Bush Jr.; um instalou a ditadura americana, o outro a ditadura bolivariana. A forma política objetiva vinha ao encontro da cultura política bolivariana (na estética com Glauber Rocha, Gilberto Gil e Caetano), que significa uma trans-subjetivação permanente ditatorial das massas sujeito zero democrático. Depois, Lula recebeu de mão beijada a ditadura bolivariana de Fernando Henrique Cardoso na eleição presidencial de 2002.

Em 2016, há a crise da ditadura bolivariana e a crise do modelo da ditadura americana bushiana ex-sistente na trans-subjetividade das massas sujeito zero democrático. O terror da revolução islâmica está sendo substituído por um fenômeno positivo nos EUA: a revolução fascista eletrônica mundial. Donald soube capitalizar tal revolução fascista americana como o ditador-herói das massas trans-subjetivamente sob a hegemonia do capital eletrônico mundial. O campo de poder ditatorial americano está em uma encruzilhada entre a já tradicional ditadura eletrônica como tal e a nova ditadura eletrônica fascista.
No Brasil, a autodissolução da ditadura bolivariana significa um vácuo na superfície política, pois não há uma classe governante que a substitua. Esta é a diferença/oposição entre o significante técnico ditadura americana e o significante ditadura brasileira civil, de 2016. Ao contrário da América, entre nós, não há uma trans-subjetivação fascista eletrônica consistente que suporte o campo de poder ditatorial fascista que dê nascimento a forma política objetiva ditatorial fascista eletrônica. Não se trata de ideologia, mas de cultura política intelectual das massas sujeito zero ideológico.
A experiência fascista eletrônica peemedebista/Grupo Globo carioca está fazendo água por todos os poros, com a revelação de que o prefeito Eduardo Paes é biograficamente (subjetivamente) um fascista eletrônico arrogante, pernóstico e elitista, pois tem horror ao cheiro do povo e às médicas dos hospitais públicos municipais!
A experiência carioca (e fluminense) é um acontecimento que condensa a ditadura fascista do capital corporativo eletrônico mundial. Porém, Eduardo Paes não é o nosso fascista da ABL Gustavo Barroso e Sérgio Cabral não é o nosso integralista-cristão Plínio Salgado.

No século XIX, a classe política exercia sua hegemonia sobre as massas sujeito zero participativas por meio das instituições representativas, em especial pelo parlamento. Contudo, estudos sérios ainda estão por serem realizados sobre o modo de produção de hegemonia trans-subjetivo das massas do século XIX. Sabemos que a imprensa teve um papel importante no que diz respeito as massas intelectuais, mas Marx mostrou que a cultura política oral das massas camponesas também é fundamental na releitura do fenômeno trans-subjetivo em tela.
No século XX, o modelo liberal-representativo entrou em crise com a difusão da soberania popular e com os partidos de massas socialistas. A crise do século XX deve ser vista pela oposição e diferença do significante massas sujeito zero capitalista e o significante reprodução ampliada planetária do capital.
O surgimento dos partidos moderados de massas (que buscavam o consenso no lugar da hegemonia liberal) foram necessários/úteis para a gestão da trans-subjetivação das massas na era do domínio da soberania popular na cultura política intelectual mundial. Trata-se da era do domínio do intelectual hegemônico ou do Príncipe moderno na política ocidental e até asiática. Nesta conjuntura cultural política se estabelece um antagonismo de equilíbrio entre a soberania popular e a cultura política representativa. Todavia, isto se mostrou insuficiente para a reprodução ampliada do capital em termos de cultura política intelectual. A estratégia do capital foi o deslocamento dos centros de decisão da política econômica para os organismos técnicos e o capital financeiro transnacional (depois mundial).    
O fenômeno do irreversível translatio imperii do campo de poder político para o campo de poder econômico não foi suficiente como motor da reprodução ampliada do capital em escala planetária sustentada pela cultura política do dinheiro e pela cultura política do capital como tal. Neste momento, as atitudes dos ricos e poderosos tornaram-se evidentemente prejudiciais erga omnes.
Depois da II Guerra Mundial, o surgimento do capital corporativo transnacional eletrônico é um fato necessário para o domínio do capital sobre o Ocidente e periferias ocidentais. Na América, tal capital em junção com o discurso da universidade criou o modelo de hegemonia da sociedade eletrônica do espetáculo funcionando no território trans-subjetivo das massas sujeito zero democrático. Trata-se da era da publicidade!  
A sociedade do espetáculo das massas eletrônico-universitária é a cultura política do número e de um regime de imagens eletrônico que ocupam o cérebro dos vivos 24 horas por dia durante 7 dias da semana. Não há descanso (intervalo) para a trans-subjetividade das massas eletrônico sujeito zero interpretativo refletir sobre a quantidade de informações que são despejadas no cérebro dela. No século XXI, tal modelo trabalha com uma língua literária que gira em torno da oposição e diferença entre o significante democracia e o significante virtual ditadura africana.
Em termos de significante técnico, a língua literária política ocidental combina dois significantes opostos e diferentes: oligarquia e democracia. Trata-se de um sincretismo que estabelece uma língua literária sob o imperativo de uma linha de força eclética que combina em uma unidade (subsumida em um antagonismo de equilíbrio) a oposição/diferença entre soberania popular (fundamento fático da retórica democrática eletrônica) e lei de ferro fática da oligarquia.
A língua política literária ocidental é o território trans-subjetivo das massas intelectuais (o trabalho intelectual suprassumiu o trabalho manual na economia e na cultura política) como lugar da existência de uma retórica democrática ancorada na realidade do real. O regime de imagens eletrônico - que faz circular a retórica democrática - trabalha com artefatos como o da soberania popular (em alguns países opera com as imagens retóricas extraídas do significante Estado de direito) e da representação liberal, parlamentar. Se o sistema funciona com Congresso nacional, partidos políticos, eleição geral e sufrágio universal, não há como não reconhecer uma força de realidade na retórica democrática em uma oposição e diferença em relação à Ditadura Africana.
No final do século XX, a crise da hegemonia do capital eletrônico corporativo transnacional (da cultura política eletrônico-universitária) foi suprassumida por um novo modelo de hegemonia. Uma nova língua literária saussuriana emergiu no território trans-subjetivo da técnica digital. Tal significante técnico digital se define pela oposição e diferença em relação ao significante eletrônico/discurso da universidade. O significante digital é o fenômeno trans-subjetivo das massas digitalis sujeito zero eletrônico. Ao inverso, o homo simulacrum é o grau zero do homo digitalis. A proposito, a língua literária bolivariana se tornou um fenômeno quase universal no Brasil. Ao sair de cena no seu segundo governo, Lula detinha 85% de aprovação popular e seu governo 80%.
No século XXI, um bloco-no-poder mundial institui-se com a hegemonia disputada entre os significantes opostos/diferentes capital digital e capital eletrônico. Tal acontecimento significou o fim da dialética da luta de classes e sua suprassunção por uma transdialética materialista do capital como máquina de guerra informacionalis em um equilíbrio transantagonista entre reprodução ampliada especificamente econômica e a cultura política do capital corporativo digital, que articula a trans-subjetivação  das massas digitalis. Também o acontecimento em tela é o apogeu do equilíbrio transantagonista materialista/virtual entre o homo digitalis (trans-subjetivação das massas digitalis) e o homo simulacrum (trans-subjetivação das massas eletrônico-universitárias).  
A conjuntura cultural política contemporânea é a causa da extemporaneidade do saber universitário nos EUA e na Europa ocidental devido à subsunção real de tal saber à cultura política eletrônico informacionalis em um estado acelerado de autodissolução como fenômeno hegemônico no bloco-no-poder mundial. Pode parecer uma afirmação exagerada, mas Luciano Canfora pensou alguns destes fenômenos no alvorecer do século XXI.
FERDINAD DE SAUSSURE. Curso de Linguística geral. SP: Cultrix, sem data
LUCIANO CANFORA. Crítica da retórica democrática. SP: Estação Liberdade, 2007
         

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