terça-feira, 29 de março de 2016

DEMOCRACIA


A democracia não é uma invenção política moderna; ela é uma invenção política grega que os modernos reinventaram sem perder o fio da meada na aurora da cultura política intelectual moderna. O que é a política?
No início de minha atividade de professor na cadeira de Introdução à Ciência Política usava o livro “Histoire des idées politiques de François Châtelet, Olivier Duhamel e Evelyne Pisier-kouchner. Eu fazia parte da linha dos professores que evitava a ciência política americana, como Francisco Ferraz. Amigo de Ferraz, o lábil e sério Renato Lessa falava a língua literária dos americanos em um contraponto aos marxistas europeus, que ele conhecia de sobra.   
 Eu enfrentava uma certa dificuldade com o livro em tela quando ele diz “ Por isso, a questão das Constituições e de sua hierarquia é secundária: quer seja monárquico, oligárquico ou democrático, o regime moderado vale mais do que o excessivo; e uma combinação equilibrada de democracia e oligarquia permite, sem dúvida, a melhor existência”.  (Châtelet: 11). Logo a forma mista (híbrida) democracia/oligarquia é a melhor forma de governo! Por quê?
A democracia desliza célere para a ditadura das massas. Ela se baseia apenas na lógica da distribuição a cada cidadão - o “igual pelo igual”. Esta é a lógica elementar da trans-subjetivação democrática: as massas julgam melhor na política que o tirano e os oligarcas. A política pelo julgamento destes dois últimos instala a trans-subjetivação ditatorial, por excelência. Trata-se da cultura política despótica do um ou dos poucos.
No “Discurso da Servidão Voluntária” de La Boétie, há a articulação entre discurso do senhor e trans-subjetivação ancilar das massas sujeito Ø democrático. Aliás, a narrativa oligárquica (narrativa das famílias aristocráticas) articula a ditadura da elite. Toda narrativa política tem como base a mitologia da superioridade das famílias de poder (“elite de poder”). Até aqui, avançamos dois conceitos em estado prático (Althusser) no livro supracitado: Cultura política e trans-subjetivação das massas sujeito zero (MSØ).
Quando os autores dizem que a forma política objetiva (Constituição/regime político) não é o paradigma para se pensar e julgar a política, me parece que eles estão de um modo latente deixando funcionar o significante trans-subjetividade das MSØ em uma cultura política concretamente conjuntural, contextual. 
A ciência da política americana só pensa a política pela forma política objetiva? Há americanos desprezados na cultura universitária americana por tentarem estabelecer o significante cultura política.  Isso porque a cultura política deles não está associada ao significante trans-subjetividade das   MSØ. Hoje, é possível retomá-los como o mais útil saber científico para a leitura da política do século XXI. No Brasil, tal corrente de pensamento tem como epígono Simon Schwartzman. Na era transideológica pouco importa a filiação deste pensador ao nosso pensamento político conservador. Isso são águas passadas da era trans-subjetiva das massas intelectuais como MSØ transideológico.
A cultura política intelectual pode ser definida com a articulação da forma política objetiva com o estado de trans-subjetivação permanente das MSØ como tais em uma determinada conjuntura cultural política. A ditadura das MSØ nous (sem mente política) articula uma cultura política onde a trans-subjetivação é o grau zero da lógica o “desigual pelo desigual” (por exemplo a recompensa em função dos méritos). O MSØ nous (oi polloi) é identificado a um animal escravo de suas paixões e interesses ocasionais, sensível à adulação do demagogo (pois, vive em um estado de miséria narcísica permanente), inconstante no estado anímico (oscila do amor ao ódio em um piscar de olho); sua ditadura é a ditadura do campo dos afetos sobre o logos da societas.      
Então, a melhor forma política é a mista democracia + oligarquia, onde a trans-subjetivação é a interseção do todos que julgam quem deve governar com o todos pensam, escolhendo a melhor classe governante. Esta se define pela posse da ciência da política e por ser governável pelas MSØ representativa. Claro que tal classe governante já não é oligárquica (mesmo se mantendo o princípio de funcionamento oligárquico do campo de poder objetivo), pois, ela não é aristocrática, ela não é a oligarquia das famílias nobres.
Mergulhamos assim na associação entre cultura política antiga e moderna. O sistema político representativo pós-pós-modernista pode funcionar pela existência de uma classe governante como MSØ oligárquico, grau zero da trans-subjetivação ditatorial oligárquica (que é o modo mais eficiente de evitar a ditadura MSØ democrático, a ditadura oligárquica e a ditadura fascista alemã). Águas torrenciais correram (corroeram) em baixo desta ponte.
Platão pensou a política determinada pela episteme e atribui aos sofistas uma definição de política articulada pelo determinismo da doxa sofística (o espaço público semblant de alétheia, de ciência do real que simula buscar a verdade da política). Assim, ele transformou a sofística em algo repugnante, perverso, escandaloso e também na estética do grotesco vulgar.
O julgamento das massas sofísticas platônizadas é um julgamento que é o grau zero do belo na política. Tal julgamento faz da violência um significante técnico da política como terror. Não há ditadura das massas sem terror. O que a revolução Francesa inventou foi associar o terror à ideologia republicana. O significante ideologia é uma invenção da Revolução Francesa ausente na Revolução Americana. Não há trans-subjetivação ideológica das massas na Revolução Americana, assim como não há violência como terror.
A cultura política democrática sofista não platônica suprassume o antagonismo entre dóxai e alétheia. A política significa então a Banda de Moebius entre ambos na cultura política democrática das MSØ ditatorial. Na pólis mista, a alétheia só existe como efeito das dóxai e se confunde com ela. A doxa é a verdade articulada trans-subjetivamente pelas MSØ ditatorial. Logo, a ditadura como tal é o grau zero da doxa.
A doxa significa que está associado a lógica do “todos pensam” com a do “todos julgam”. Tal interseção não abre mão da ciência do real da política que age sem se parte direta da atividade política representativa, como as MSØ. Tal homologia significa uma identidade de discurso entre o escritor da política e MSØ representativo. E que a busca da verdade significa a autointerpretação da realidade dos fatos que associa a biografia das massas de escritores com a biografia da MSØ como tais. Não é possível ignorar (não faz bem) que a política é um estado trans-subjetivo articulado na pluralidade, no espaço das aparências, na persuasão (eloquência) e julgamento!
A minha finalidade é começar na nossa cultura política intelectual um debate que estabeleça um espaço público procedural. Então tem que se evitar a hybris escolástica: o excesso de argumentação articulada em uma linguagem profissional. Minha linguagem é aquela de uma língua literária técnica amadora como espelho da política do século XXI.
Quanto a relação com intelectuais europeus e americanos, trata-se de integrá-los ao debate na medida em que eles se integrem a nossa cultura política intelectual não como paradigma colonialista (posição de Master), mas como interlocutores de um espaço procedural público no qual todos pensam em uma posição exterior ao discurso da universidade e/ou ao discurso do mestre. Frações intelectuais brasileiras usam os europeus e americanos para reforçar a trans-subjetividade oligárquica histérica da cultura política intelectual colonial brasileira. A finalidade é evitar o estabelecimento do espaço público procedural no qual o intelectual hegemônico nacional (magister ludi) é um ancilar das MSØ colonial. Trata-se da tentativa de fazer as MSØ como tais permanecerem na posição ancilar aos grupelhos de esquerda ou de direita da ERA IDEOLÓGICA.
Avanti!                 
            
   
          
    

  

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