domingo, 28 de fevereiro de 2016

TEORIA DA TRANS-SUBJETIVAÇÃO DITATORIAL DAS MASSAS



“Y es verdaderamente paradójico que mientras que las dictaduras prosperan nuestro dominio cognoscitivo del fenómeno esté deteriorándose (Sartori: 88). 
O 18 Brumário de Luís Bonaparte estabelece na cultura política intelectual a relação entre autor e objeto. Trata-se da relação de Marx com Luís Bonaparte que a cultura política francesa elegeu como herói nêmeses da República Democrática de 1848.
Os componentes da obra de Marx são dados através da reação do autor (Marx) ao modo reativo da cultura política intelectual francesa à Luís Bonaparte, que o tece narrativamente como o significante gramatical técnico herói-ditador. A interpretação/explicação concreta de uma conjuntura concreta é uma reação à uma reação; é nesse sentido que um autor modifica as particularidades do herói, seus traços característicos, os episódios de sua vida, seus pensamentos e sentimentos (Bakhtin. 1992: 25). O objeto em tela é trans-subjetivo, transtextual, transdiscursivo!
A cultura política intelectual aclamou e glorificou Luís como o herói-ditador. Não caindo “no erro dos nossos historiadores pretensamente objetivos. Eu, pelo contrário, demonstro como a luta de classes na França criou as circunstâncias e condições que possibilitaram a uma personagem medíocre e grotesca desempenhar um papel de herói” (Marx. 1974: 331). Luta de classes na França significa campo de poder monárquico/burguês, ditatorial/democrático e cultura política capitalista. Mas é preciso considerar a autonomia relativa do processo de trans-subjetivação das massas camponesas em relação à cultura política democrática ou capitalista. Tal trans-subjetivação bonapartista ditatorial das massas não foi fatal para a democracia de 1848?
A relação entre o herói e as massas em tela só é possível através da estética da cultura política ditatorial napoleônica.
O Luís Bonaparte de Victor Hugo põe e repõe Luís como um herói historial dotado de um poder pessoal imenso. Assim o acontecimento ou conjuntura historial é visto como alterada por um ato de magna força de uma biografia individual instaurada na cultura política com um poder pessoal sem paralelo na história mundial (Idem: 321).
Em Max Weber, o poder pessoal se constitui como um significante sociológico técnico no conceito de líder carismático. Este significante condensa um poder pessoal que associa a sociologia política clássica alemã à cultura política mitológica universal. O século XX europeu ocidental viveu o apogeu narcísico do poder pessoal (do ditador-herói carismaticamente mitológico) com Hitler: “Hitler no era un órgano, sino una persona cuya voluntad arbitraria se situaba más allá y fuera de su cargo” (Sartori: 78).  
O poder pessoal é um significante técnico dotado de uma autonomia relativa em relação ao campo de poder institucional. A epistemologia política do nome do autor Marx estabeleceu o princípio da autonomia relativa na relação entre o Estado absolutista bonapartista (estatização do campo de poder bonapartista) e a sociedade civil onde encontram-se as massas:
  “Unicamente sob o segundo Bonaparte o Estado parece tornar-se completamente autônomo. A máquina do Estado consolidou a tal ponto a sua posição em face da sociedade civil que lhe basta ter à frente o chefe da Sociedade de 10 de Dezembro, um aventureiro surgido de fora, glorificado por uma soldadesca embriagada, comprada com aguardente e salsichas e que deve ser constantemente recheada de salsichas. Daí o pusilânime desalento, o sentimento de terrível humilhação e degradação que oprime a França e lhe corta o coração. A França se sente desonrada.
E, não obstante, o poder estatal não está suspenso no ar. Bonaparte representa uma classe, e justamente a classe mais numerosa da sociedade francesa, os pequenos (Parzellen) camponeses” (Marx. 1974: 402             ).
Marx tem em mente os camponeses bonapartistas ditatoriais como massas sujeito zero de subjetividade camponesa revolucionária: “Os interesses dos camponeses, portanto, já não estão mais como ao tempo de Napoleão, em consonância, mas sim em oposição com os interesses da burguesia, do capital. Por isso, os camponeses encontram seu aliado e dirigente natural no proletariado urbano, cuja tarefa é derrubar o regime burguês” (Idem: 406). As massas camponesas sujeito zero napoleônicas são massas revolucionárias; elas são o anverso das massas camponesas bonapartistas. O campesinato é um sujeito esquizo na conjuntura de 1848!
No entanto, Luís é o herói carismático do processo de trans-subjetivação ditatorial das massas napoleônico/bonapartistas. Não há vacilação sobre a existência da cultura política intelectual mitológica napoleônica/bonapartista ditatorial das massas:
“O coronel Charras abriu o ataque contra o culto de Napoleão em seu trabalho sobre a campanha de 1815. Desde então, e especialmente nestes últimos anos, a literatura francesa pôs um fim ao mito de Napoleão com as armas da pesquisa histórica, da crítica, da sátira e da ironia. Fora da França essa violenta ruptura com a crença tradicional do povo, essa tremenda revolução mental, tem sido pouco notada e, menos ainda, compreendida” (Idem: 332).
A cultura política intelectual francesa tem um desenvolvimento desigual em relação à cultura política mundial? Ou Foucault está certo sobre a autonomia da cultura política intelectual como território trans-subjetivo nacional?
“Creio, por outro lado, que se poderia encontra aí uma introdução à análise histórica dos discursos. Talvez seja tempo de estudar os discursos não somente pelo seu valor expressivo ou pelas suas transformações formais, mas nas modalidades de sua existência: ou modos de circulação, de valorização, de atribuição, de apropriação dos discursos variam com cada cultura e modificam-se no interior de cada uma” (Foucault. v. 1: 810). A crença no domínio da trans-subjetivação cultural política nacional sobre a cultura política intelectual mundial só foi abalada a partir da década de 1990 com a ascensão da hegemonia do capital corporativo digital mundial.
Ao herói ditador se contrapões o nome do autor: Marx contra Luís Bonaparte. O ditador não é um significante técnico moderno, ele surge na cultura política romana e tem seu apogeu narcísico fatal com Silas, Mário e César, quando o herói-ditador se transforma em uma máquina de guerra freudiana terrorista ao comandar banhos de sangue permanentes contra as massas políticas. Mas o herói burguês parece ter surgido com a figura de Ulisses no poema épico Odisseia:
“Todos esses sacrifícios supérfluos são necessários: contra o sacrifício. Uma vítima de um desses sacrifícios é o próprio Ulisses, o eu que está sempre a se refrear e assim deixa escapar a vida que salvou e que só recorda como uma viagem de erros. No entanto, ele é ao mesmo tempo uma vítima que se sacrifica pela abolição do sacrifício. Sua renúncia senhoril é, enquanto luta com o mito, representativa de uma sociedade que não precisa mais da renúncia e da dominação: que se tornou senhora de si, não para fazer violência a si mesma e aos outros, mas para a reconciliação. A transformação do sacrifício em subjetividade tem lugar sob o signo daquela astúcia que sempre teve uma parte no sacrifício” (Adorno: 61).
Trata-se da passagem da cultura política mitológica do herói aristocrata para o herói burguês que é o grau zero do heroísmo na cultura política capitalista; assim, o mundo da cultura política poética heroica cede à hegemonia da cultura política prosaica do capital moderno no século XIX. Como interpretar um século XX possuído pela cultura política romântica do herói/ditador populista no Ocidente (Hitler, Roosevelt) e no Oriente asiático marxo/populista (Stalin, Mao Tse Tung)?
O choque de Marx com a cultura política francesa de 1848 é o choque do nome do autor com o herói-ditador? Tal choque é mediado pelo significante técnico estética: “Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira como tragédia, a segunda como farsa” (Marx. 1974: 335).
Trata-se da tragédia histórica e da comédia histórica vulgar. Nelas, o herói trágico ou cômico vulgar só ex-siste em um processo de trans-subjetivação ditatorial ou democrática das massas: “ O exame dessas conjurações de mortos da história do mundo revela de pronto uma diferença marcante. Camile Desmoulins, Danton, Robespierre, Saint-Just, Napoleão, os heróis, os partidos e as massas da velha Revolução Francesa, desempenharam a tarefa de sua época, a tarefa de libertar e instaurar a moderna sociedade burguesa, em trajes romanos e com frases romanas” (Idem: 335).
Depois uma cultura política burguesa prosaica vulgar advém no lugar da cultura política poética: “Mas, por menos heroico que se mostre hoje esta sociedade, foi não obstante necessário heroísmo, sacrifício, terror, guerra civil e batalhas de povos para torna-la uma realidade” (Idem: 336). Luís Bonaparte é a comédia vulgar heroica ditatorial como ersatz da cultura política trágica ditatorial do tio. Trata-se da cultura política como trans-subjetivação ditatorial heroica que só foi encerrado com a perda da guerra para Bismarck na década de 1860.
A Comuna de Paris inaugurou a trans-subjetividade das massas urbanas sujeito zero democráticas no século XIX europeu. Marx interpretou a Comuna como trans-subjetividade com sujeito operário no A guerra civil em França: “A 4 de setembro de 1870, quando os operários de Paris proclamaram a Republica (...). O triunfo de Paris sobre o agressor prussiano teria sido o triunfo do operário francês sobre o capitalista francês e seus parasitas dentro do Estado” (Marx. v. 1: 520-521). E depois em 1871, “ A gloriosa revolução operária de 18 de março apoderou-se indiscutivelmente de Paris” (Idem: 533).
No Crítica ao Programa de Gotha, Marx mostra um desprezo visceral em relação à democracia: “Suas reivindicações políticas não vão além da velha e surrada ladainha democrática: sufrágio universal, legislação direta, direito popular, milícia do povo, etc.” (Marx. v. 2: 26 ). E mais ainda: “ Mesmo a democracia vulgar, que vê na República democrática o reino milenar e não tem a menor ideia de que é precisamente nesta última forma de estado da sociedade burguesa onde se irá travar a batalha definitiva da luta de classes” (Idem: 26). Para o Marx tardio, a democracia é um significante-supersticiosamente mitológico: “ Em que pese a toda sua fanfarronice democrática, o programa está todo infestado até a medula da fé servil da seita lassalliana no Estado: ou – o que não é muito melhor da superstição democrática” (Idem: 28). E Marx é claro sobre a trans-subjetivação ditatorial revolucionária do campo de poder operário: “ Entre a sociedade capitalista e a sociedade comunista medeia o período da transformação revolucionária da primeira na segunda. A este período corresponde também um período político de transição, cujo Estado não pode ser outro senão a ditadura revolucionária do proletariado” (Marx. v. 2: 25). O Marx tardio pensa como o Marx de 1852 na carta a J. Weydemeyer: “ 2) que a luta de classes conduz, necessariamente, à ditadura do proletariado” (Idem: 481).                   
Tal leitura da Comuna como trans-subjetividade ditatorial operária definiu o leninismo como leitura da cultura política mundial marxista como ditatorial.
Na modernidade do século XIX, o nome do autor entra em choque com o nome do herói-ditador e o suprassume: “em que momento se começou a contar a vida dos autores de preferência à dos heróis” (Foucault. v. 1: 792). A técnica gutemberguiana que sustenta o escritor e o leitor é a causa mais evidente de tal alteração na cultura política mundial:
“Os heróis-deuses, profetas, poetas, sacerdotes são formas de heroísmo que pertencem às idades passadas e fizeram a sua aparição desde as épocas mais remotas; alguns deles deixaram de ser possíveis há longo tempo e já não podem mostrar-se neste mundo. O herói como o Homem de Letras, de cuja classe vamos falar hoje, é absolutamente um produto destas idades novas; e enquanto esta maravilhosa arte de Escrever. Ou de escrita rápida a que chamamos de imprensa, subsistir, podemos esperar que ele continue, como uma das principais formas de heroísmo de todas as idades futuras” (Carlyle: 149). A cultura política mundial esqueceu Luís Bonaparte para reverenciar Marx (e Engels).
O 18 Brumário é uma obra sobre um homem com fama e glória que Marx transformou em um homem infame. O homem que destrói a República democrática de 1848 só pode ser um homem desprezível para a cultura política mundial. A escrita de Marx é uma escrita militarizada como um gesto da vida e que, se a pode negar, destruir, banalizar, também pode ser “salva”. Mas para isso, a biografia individual com um nome glorioso, o autor como proprietário de sua escrita, ou seja, o sujeito Marx como o mais próximo da experiência cultural política mundial tem que ser abalado. No lugar da subjetividade marxista, devemos pensar a trans-subjetividade contradialética materialista da política. Engels se refere a escrita militarizada de Marx com estas palavras: “A linguagem violenta que às vezes nele se percebe obedecia ás circunstâncias” (Marx. v. 2: 6).
A fórmula de Luís como “uma personagem medíocre e grotesca alçada à grande homem da política europeia” resume a conjuntura bonapartista. Somente uma trans-subjetividade ditatorial das massas cria as condições (ao lado da luta de classes) para a ex-sistência do herói-ditador na conjuntura democrática de 1848. As massas camponesas idiocraticamente bonapartista e as massas lupen-proletárias venais e interesseiras (avesso das massas idiocráticas) criam as condições para a existência da biografia carismática ditatorial em uma cultura política mitológica ocidental moderna.
O problema em tela é a lógica de sentido que emerge na associação da subjetividade biográfica de Luís com a tradição francesa. Tzvetan Todorov resume o problema assim: “ O sentido é, de fato, esse ‘elemento de liberdade que transpassa a necessidade’ c (ibid.,p. 410). Sou determinado enquanto ser (objeto) e livre enquanto sentido (sujeito) ” [Bakhtin. 1992: 20). Luís é livre como lógica de sentido bonapartista que significa destruir a democracia e erguer a ditadura do Segundo Império. Mas a lógica de sentido subjetiva é a política impossível do Saci Pererê. Ela não pode se equilibrar em uma única perna. A outra perna é a trans-subjetivação ditatorial das massas camponesas e lumpen-proletárias. A hetero-constituição de Luís é obra da estatização do campo de poder democrático no qual observa-se o crescimento do território político trans-subjetivo República democrática de 1848 pela adição de novas camadas de significante (ditadura) à sua superfície. Trata-se da forma objetiva ditadura que aparece primeiro antes de Luís vencer a eleição presidencial:
“ 2. De 25 de junho a 10 de dezembro. Ditadura dos republicanos burgueses puros. Elaboração do projeto da Constituição. Proclamação do estado de sítio em Paris. A ditadura burguesa é posta à margem a 10 de dezembro com a eleição de Bonaparte para presidente” (Marx. 1974: 398). Depois, Luís convive com a ditadura monarquista do partido da ordem: “ 2. De 13 de junho de 1849 a 31 de maio de 1850. Ditadura parlamentar do partido da ordem. Completa seu domínio com a abolição do sufrágio universal, mas perde o Ministério parlamentar” (idem: 399).
A ditadura bonapartista é impensável sem a sobreposição dos significantes técnicos democracia e ditadura e sem o processo ditatorial da trans-subjetivação das massas camponesas: “ A influência política dos camponeses, portanto, encontra sua expressão final no fato de que o Poder Executivo submete ao seu domínio a sociedade” (Idem: 403). Mas também a trans-subjetividade ditatorial das massas burguesas dá caução a política de golpes de Estado bonapartista: “A burguesia industrial aclama com aplausos abjetos, o golpe de Estado de 2 de dezembro, a aniquilação do Parlamento, a queda de seu próprio domínio, a ditadura de Bonaparte. A trovoada de aplausos de 25 de novembro teve sua resposta no troar dos canhões a 4 de dezembro, e foi na casa do Sr. Sallandrouze, um dos que mais aplaudira, que foi cair o maior número de bombas” (Idem: 397).
Marx teceu Luís como uma personagem infame (ao lado da ditadura bonapartista infame). Na leitura de Marx, trata-se escrever o romance marxista grotesco sobre uma personagem realmente existente; romance de uma existência ao mesmo tempo obscura e desafortunada para a cultura política democrática; uma existência que fosse contida em uma fórmula: "personagem grotesca e medíocre que desempenha o papel de herói” (Foucault. v. 3: 239).  O infame é um produto da luta de classes, da trans-subjetividade das massas e da cultura política intelectual francesa napoleônica.
Luís é o negro herói do lumpen-proletariado infame trans-subjetivamente: roués decadentes, de fortuna duvidosa e de origem duvidosa, arruinados e aventureiros rebentos da burguesia, vagabundos, soldados desligados do exército, forçados foragidos das galés, chantagistas cujo objeto é o refém etc. : “ em suma, toda essa massa indefinida e desintegrada, atirada de ceca em meca, que os franceses chamam la bohème; com esses elementos afins, Bonaparte formou o núcleo da Sociedade de 10 de Dezembro” (Marx. 1974: 372).
Luís é a vontade trans-subjetiva do lumpen no alto da cultura política francesa poeticamente sublime. Ele é a máquina de guerra política sublimemente grotesca que, como herói negro, articula o romance do grotesco histórico. Na concepção de Victor Hugo: “É, pois, o grotesco uma das supremas belezas do drama (...). Infiltra-se por toda parte, pois, da mesma forma que os mais vulgares têm várias vezes acessos de sublime, os mais elevados pagam frequentemente tributo ao trivial e ao ridículo” (Hugo: 45). As massas lumpen são massas sujeito zero (grau zero de subjetividade social) da política prosaica grotescamente vulgar.                                                                               
O romance bonapartista é a transformação de uma biografia individual que se transmuta em uma máquina de guerra bonapartista grotesca na trans-subjetividade das massas francesas:
“ A tradição histórica originou nos camponeses franceses a crença no milagre de que um homem chamado Napoleão restituiria a eles toda a glória passada. E surgiu um indivíduo que se fez passar por esse homem porque carrega o nome de Napoleão, em virtude do Code Napoleón, que estabelece: ‘La recherche de la paternité est interdite’. Depois de vinte anos de vagabundagem e depois de uma série de aventuras grotescas, a lenda se consuma (como máquina de guerra política grotesca) e o homem se torna Imperador dos franceses. A ideia fixa do sobrinho realizou-se porque coincidia com a ideia fixa da classe mais numerosa do povo francês” (Marx. 1974: 403).
A lenda negra bonapartista é um efeito, da interseção da cultura política intelectual francesa com o inconsciente nietzschiano ocidental moderno. Pois: “ O lendário, seja qual for o seu núcleo de realidade, não passa afinal da soma do que dele se diz” (Foucault. v. 3: 241). Tal significante técnico negro é a soma do que o romance marxista grotesco diz dele. Tal significante é produto da ligação da máquina de guerra bonapartista com a trans-subjetividade das massas, finalmente, sujeito zero, ou seja, grau zero da subjetividade camponesa desintegrada na cultura política francesa.
Marx é a máquina de guerra de pensamento contracapitalista que produz um texto militar (texto como tal transtextualizado militarmente) como contrapoder no campo de poder da cultura política oficial francesa (e europeia). O 18 Brumário... não é um texto literário de um autor, pois, “ O texto é um produto material. O jogo com os significantes, que constitui o espaço literário, é um jogo com significantes escritos, mesmo quando se dá como paródia” (Laufer: 139); o texto literário só pode ser produzido elidindo o contexto; ele não se articula como não-dito.
O transtextual se articula como um artefato RSI (Real/Simbólico/Imaginário) da cultura política intelectual onde o não-dito é fundamental para sua textualidade. O transtextual associa-se ao trans-subjetivo das massas intelectuais e populares sem sujeito (grau zero da subjetividade textual).
O romance marxista grotesco trabalha para além do significante escrito. Trata-se de uma transescritura que se funda em significantes técnicos da física historial lacaniana. A era da produção textual impressa, agora, está suprassumida pela era da produção digital transtextual. A velocidade da produção e da circulação da obra transtextual abole a ideia de obra textual. O significante técnico é transtextual, transdiscursivo e trans-subjetivo.
O campo da técnica digital e da trans-subjetividade digitalis é povoado por máquinas de guerra digitais informacionalies e contramáquina de guerra de pensamento mestiça que se chocam articuladas (e articulando) a contradialética materialista inconsciente nietzschiano ariano versus inconsciente nietzschiano mestiço. A física historial lacaniana é a contramáquina de pensamento mestiça que se instaura ao reinstaurar Marx e Freud. Trazer à luz do dia um texto como O 18 Brumário de Luís Bonaparte – na medida em que se trata do romance grotesco marxista historial – pode modificar, não o reconhecimento do marxismo vulgar do século XX – mas o campo teórico instaurado por Marx (e Engels) - ao deslocar a ênfase marxista textual ou o centro de gravidade dele.
Retomando a questão do autor Marx, a produção da obra em tela está associada ao nome do autor Marx. Isto: “ indica que esse discurso não é um discurso flutuante, indiferente, um discurso flutuante e passageiro, imediatamente consumível (como o discurso jornalístico eletrônico), mas se trata de um discurso que deve ser recebido de certa maneira e que deve, numa determinada cultura, receber um certo estatuto” (Foucault. v. 1: 798) transdiscursivo, ou melhor, discurso de uma cultura política intelectual concreta.
O nome do autor é homólogo ao Nome-do-Pai que faz laço social? “ Chegaríamos finalmente a ideia de que o nome do autor não transita, como o nome próprio, do interior de um discurso para o indivíduo real e exterior que o produziu, mas que, de algum modo, bordeia os textos, recortando-os, tornando-lhes manifesto o seu modo de ser ou, pelo menos, caracterizando-lho. Ele se manifesta a instauração de um certo conjunto de discursos e refere-se ao estatuto desses discursos no interior de uma sociedade e de uma cultura” (Foucault. v. 1: 798). Em suma, o nome do autor é algo da ordem da cultura política intelectual que se define como campo de poder e trans-subjetividade das massas intelectuais e populares sujeito zero (grau zero da subjetividade intelectual).
O autor é aquele que se tornou passível de ser punido enquanto ele é uma linha de força na cultura política jurídica capitalista e na medida em que os discursos se tornaram transgressores (Foucault. v. 1: 799):
“Assim que se instaurou um regime de propriedade para os textos, assim que se promulgaram regras estritas sobre os direitos de autor, sobre as relações autores-editores, sobre os direitos de reprodução, etc. – isto é, no final do século XVIII e início do século XIX -, nasceu a aura da possibilidade de transgressão própria do ato de escrever como algo imperativo típico da literatura” (Idem: 799).     
O autor é o significante técnico que, ou suprassume o herói-ditador, no século XIX, ou faz pendant com tal herói no século XX. Hitler, Lenin, Mao são a interseção do nome do autor com herói-ditador condensada na máquina de guerra nietzschiana - fascista europeia ocidental, leninista soviética, asiática marxista.  
O século XXI parece ser a era do desaparecimento de ambos como força de realidade na cultura política mundial. Trata-se do eclipse do escritor, do intelectual hegemônico (Gramsci) e do líder político carismático transformados, respectivamente, em máquina de guerra literária, em Príncipe fascista eletrônico e ditador eletrônico populista sem nenhuma qualidade heroica poética, que é substituída por um carisma vulgarmente prosaico.
                                                 
O nome do autor associado à máquina de guerra de pensamento (ou a contramáquina) significa a condição de possibilidade e as regras de formação da transtextualidade, da transdiscursividade. Significa que o autor Marx se autodissolveu na trans-subjetividade das massas sujeito zero (grau zero da subjetividade marxista). Nesta perspectiva, a autodissolução do autor Marx significa a restauração da transtextualidade e do transdiscursivo marxista na física historial lacaniana:
“ Limitei-me ao autor entendido como autor de um texto, de um livro ou de uma obra a quem se pode legitimamente atribuir a produção. Ora, é fácil de ver que na ordem do discurso se pode ser autor de mais de que um livro – de uma teoria, de uma tradição, de uma disciplina, no interior das quais outros livros e outros autores vão poder, por sua vez, tomar lugar. Em uma palavra, digo que tais autores se encontram numa posição ‘transdiscursiva’ ” (Idem: 804). Não se trata mais de uma “posição de sujeito”, mas da “posição trans-subjetiva” das massas intelectuais. Neste caso, o autor tornou-se um significante técnico transdiscursivamente com força de realidade interpretativa/explicativa. Homero, Heráclito, Platão, Aristóteles, Clausewitz, Marx, Freud e Lacan, para ilustrar o conceito.
No século XIX surgem Marx e Freud que Foucault diz que são fundadores de discursividade. Eles não podem ser confundidos com os grandes autores literários, nem com os autores de textos religiosos canônicos, ne com os fundadores das ciências (Foucault. v. 1: 804, 805). A psicanálise é uma contraciência (Foucault. 1966: 391) e Marx uma máquina de guerra de pensamento anticapitalista. Mas O 18 Brumário não é um texto científico ou literário. Ninguém se preocupou com isto até hoje. Para Lenin, ele é o modelo do método análise concreta de uma situação concreta. Lenin deixou de explorar a verdadeira epistemologia política da obra que combinava interpretação com explicação, ciência com filosofia cultural política e literatura.
Em Marx, a trans-subjetividade faz interseção com a subjetividade, o romantismo faz interseção com o iluminismo na trans-subjetividade grotesca das massas, a razão faz pendant com o inconsciente nietzschiano antes de Nietzsche. Marx é o primeiro fundador da discursividade que opera a realidade dos fatos com o significante técnico. Tal quadro epistemológico político sobreviveu a hecatombe marxista do século XXI e foi restaurado pela física historial lacaniana.
O romance marxista grotesco é um modelo de teoria e narrativa para ser usado no século XXI? A interpretação/explicação da forma objetiva ditatorial sobreposta à forma democrática na democracia de 1848 e da trans-subjetividade ditatorial bonapartista das massas sujeito zero só pode ser retomado como força de realidade do século XX e XXI com o campo da física lacaniana. O romance do grotesco de Marx é o romance da cultura política ditatorial das massas.
No século XX, o romance ditatorial das massas ocidentais foi visto por Norbert Bobbio como: “ a concentração e o caráter ilimitado do poder; as condições políticas ambientais, constituídas pela entrada de largos estratos da população na política e pelo princípio da soberania popular; a precariedade das regras de sucessão no poder” (Bobbio:373)). A ditadura deve usar o princípio da soberania popular para sua permanência como campo de poder; a ditadura deve apresentar-se como expressão legítima dos interesses e das necessidades do povo (Bobbio: 374). O campo ditatorial de poder é uma legião diabólica. Como a ditadura tem uma conotação indubitavelmente negativa, o simulacro de democracia no século XXI é visto como algo positivo em um contraponto agônico com a ditadura.
O simulacro democrático da oligarquia política híbrida (governo do rodízio esquerda/direita) se apoia em uma trans-subjetividade ditatorial eletrônica das massas: “ e por isso é lícito falar de regimes mais ou menos democráticos” (Bobbio: 327). Pensando com Bobbio, seria mais correto falar de ditadura ocidental do que falar de democracia ocidental na segunda metade do século XX e, por extensão temporal trans-subjetiva, no século XXI.   
Giovanni Sartori escreveu: “ Hasta el momento el análisis de la dictadura há versado, por un lado, sobre la estrutura y ejercicio del poder dictatorial, y, por otro, sobre el número de quienes detentan el poder. Quedan todavía dos criterios clásicos de análisis: el modo de adquisición y el modo de sustitución del poder” (Sartori: 80). O romance do grotesco historial de Marx introduz um outro critério. Trata-se da sobreposição das formas objetivas democracia /ditadura. Ao se criar o conceito de trans-subjetividade das massas sujeito zero, um último critério é acrescentado. Trata-se da trans-subjetividade ditatorial das massas. Este critério dispensa toda a interpretação da cultura política jurídica sobre legitimidade e/ou ilegitimidade da forma objetiva ditadura.
A física historial lacaniana é um reexame dos textos de Marx e de Freud que modifica o campo freudiano e o marxismo do século XX? Foucault diz que isto é algo possível (Foucault. v. 1: 808-809). A física lacaniana deixa para trás questões como: “Quem é que falou realmente? Foi ele mesmo e não outro? Com que autenticidade ou originalidade? Quais são os modos de existência deste discurso? De onde surgiu, como é que pode circular, que é que pode se apropriar dele? Há sujeito no discurso? (Idem: 812). Estas questões são questões de uma cultura política da técnica gutemberguiana. Hoje com a técnica digital, a cultura política digitalis já põe e repõe para nós outras questões menos autoilusoriamente narcísicas.

BIBLIOGRAFIA

ADORNO/HORKHEIMER. Dialética do esclarecimento. RJ: Jorge Zahar Editor, 1985
BAKHTIN. Estética da criação verbal. SP: Martins Fontes, 1992
BOBBIO, MATTEUCCI, PASQUINO. Dicionário de política. v. 1. Brasília: Edunb, 1992
CARLYLE, Thomas. Os heróis. SP: Edições Melhoramentos, sem data
FOUCAULT, Michel. Les mots et les choses. Paris: Gallimard, 1966
FOUCAULT, Michel. Dits et écrits. 1954-1988. v. 1 (1954-1969). Paris: Gallimard, 1994
FOUCAULT, Michel. Dits et écrits. 1954-1988. v. 3 (1976-1979). Paris: Gallimard, 1994
HUGO, Victor. Do grotesco e do sublime. Tradução do “Prefácio de Cromwell”. SP: Perspectiva, 1988
LAUFER, Roger. Introdução à textologia. SP: Perspectiva, 1980
MARX. Pensadores. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. SP: Abril Cultural, 1974
MARX E ENGELS. Obras Escogidas. Tomos 1 e 2. Madrid: Editorial Fundamentos, 1975
SARTORI, Giovani. Elementos de teoría política. Madrid: Alianza Editorial, 1992  

                               

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