quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

“OS SERTÕES” – Da máquina de guerra freudiana à máquina de guerra euclidiana



Oliveira Vianna pensou Canudos como cultura política. Ele é um eclético da linhagem eclética de Euclides da Cunha. “Os Sertões” é um livro eclético associado à cultura política intelectual romântica, positivista, evolucionista, universal do século XIX. Trata-se de uma cultura política heteróclita universal associada ao inconsciente mestiço nietzschiano. Assim, o livro deve ganhar sua alforria da escravidão intelectual que lhe foi imposta pela interpretação provinciana que o vê como um objeto, por excelência, de uma impossível cultura brasileira como tal.
Na parte intitulada “A Luta”, no capítulo I (Antecedentes), Euclides expõe a visão de mundo republicana que vê os sertões como um estado de guerra permanente de um banditismo secular. O jagunço é o significante cuja significação é a guerra, associada ao banditismo, um conceito paradoxal. Primeiro: “Imaginemos que dentro do arcabouço titânico do vaqueiro estale, de súbito, a vibratilidade incomparável do bandeirante. Teremos o jagunço” (Euclides. 2002: 136). Depois pense uma superfície política mestiça: “são lugares em que se normalizou a desordem esteada no banditismo disciplinado” (idem: 137). O jagunço euclidiano é um conceito paradoxal:
“Porque há, de fato, uma ordem notável entre os jagunços. Vaidosos de seu papel de bravos condutícios e batendo-se lealmente pelo mandão que os chefia, restringem as desordens às minúsculas batalhas em que entram, militarmente, arregimentados” (Idem: 137). O jagunço é uma máquina de guerra narcísica (vaidosa) que não usa a violência sem limite (como a máquina de guerra freudiana); ele é uma máquina de guerra euclidiana pois se define por um uso militarmente limitado da violência. Por isso: “Os saques das povoações que conquistam tem-no como direito de guerra, e neste ponto os absolve a história inteira” (Idem: 137).
Euclides vê a história de uma vasta região do pais como um estado de guerra permanente indisciplinado (“A nossa história tão malsinada de indisciplinados heróis adquiria um de seus mais sombrios atores”), que com o jagunço alcança uma formação política sertaneja disciplinada. Trata-se da disciplina da máquina de guerra euclidiana.
Há em estado prático o conceito de estado de guerra oligárquico: “Quando se tornou urgente pacificar o sertão de Canudos, o governo da Bahia estava a braços com outras insurreições. A cidade de Lençóis fora investida por atrevida malta de facínoras, e as suas incursões alastravam-se pelas Lavras Diamantinas; o povoado de Brito Mendes caíra às mãos de outros turbulentos; e em Jequié se cometia toda sorte de atentados” (Idem: 135). A visão de mundo positivista/evolucionista de Euclides é uma linha de força da cultura política republicana: “O jagunço, saqueador de cidades, sucedeu ao garimpeiro, saqueador da terra. O mandão político substitui o capangueiro decaído” (Idem: 135). A questão é a pacificação de um território físico e trans-subjetivo caracterizado por um estado de insurreição permanente das máquinas de guerra freudianas indisciplinadas e pela máquina de guerra disciplinada euclidiana.
Nesta conjuntura cultural política partido significa máquina de guerra facciosa oligárquica: “Fora disto são raros os casos de roubo que consideram desaire e indigno labéu. O mais frágil positivo pode atravessar inerme e indene, procurando o litoral, aquelas matas e campos, com os piquás atestados de diamantes e pepitas. O forasteiro, alheio às lutas partidárias, atravessa-os igualmente” (idem: 137). A máquina de guerra partidária secular euclidiana não é o modelo das máquinas de guerra partidárias da República de 1988? O estado de guerra oligárquico permanente à quente sertanejo, colonial, não é o modelo do estado de guerra oligárquico à frio da nossa inefável República de 1988? Marina Silva não experimentou na pele a ação das máquinas de guerra euclidianas cortesãs na eleição presidencial de 2014?  A máquina de guerra euclidiana partidária sertaneja do século XIX era movida por uma ética sertaneja perdida para a máquina de guerra partidária euclidiana do século XXI?   
Na visão republicana euclidiana, condensando o Estado, a polícia significa a pacificação do estado de guerra. Ela é o instrumento estatal da paz. A história brasileira é Guerra e Paz:
“Cerca de dez ou oito léguas de Xiquexique demora a sua capital, o arraial de Santo Ignácio, erecto entre montanhas e inacessível até hoje a todas as diligências policiais.
Estas, de ordinário, consegue pacificar os lugares conflagrados, tornando-se interventoras neutras ante as facções combatentes. É uma ação diplomática entre potências.
A justiça armada parlamenta com os criminosos; balanceia as condições de um ou outro partido; discute; evita os ultimatuns; e acaba ratificando verdadeiros tratados de paz, sancionando a soberania da capangagem impune. Assim os estigmas hereditários da população mestiça se têm fortalecido na própria transigência das leis. Não surpreende que hajam crescido, avassalando todo o Vale do São Francisco, e desbordando para o norte” (Idem: 138). A população mestiça é constituída por massas mestiças sujeito zero (grau zero da subjetividade popular ou oligárquica: jagunçada, capangagem, mandonismo), que na relação com a tolerância das leis mergulha no desvario psicótico da violência sertaneja!    
A polícia é uma máquina de guerra estatal militarizada pacificadora e diplomática; ela imprime na superfície política do sertão a Lei como tolerância ao estado de guerra permanente das máquinas de guerra sertanejas. Por que em relação à Canudos a polícia (e depois o exército republicano) romperam com o padrão supracitado? Tal interrogação não é a chave mestra para a interpretação contrarepublicana de Canudos? Todavia, Euclides é de um realismo desconcertante quando interpreta globalmente Canudos:
“Os cangaceiros nas incursões para o sul, e os jagunços as incursões para o norte, defrontavam-se, sem se unirem, separados pelo valado em declive de Paulo Afonso.
A insurreição da comarca de Monte Santo ia ligá-las.
A campanha de Canudos despontou da convergência espontânea de todas estas forças desvairadas, perdidas nos sertões” (Idem: 138).
Canudos é um território físico e trans-subjetivo de um campo de poder povoado por máquinas de guerra do litoral e do sertão psicóticas e pela contramáquina de guerra mestiça da polis dos homens livres e normais. Trata-se de um campo de forças enlouquecidas (desvairadas), delirantemente psicóticas, máquinas de guerra psicóticas, que usaram uma violência ciclópica sem limite para destruir a polis Canudos dos homens, mulheres e crianças livres e normais. Euclides é o primeiro físico historial lacaniano brasileiro? Ele foi aberta e consistentemente lacaniano antes de Lacan?  
O ecletismo significa um campo de pensamento atravessado e constituído por linhas de força de uma contradialética que não menospreza a loucura na sua epistemologia política. O ecletismo de Marx é um campo de forças desvairado, pois, nele, convivem o totalitarismo paradigmático do comunismo stalinista e a democracia contratotalitária. Tenho mostrado isso nos meus ensaios e livros.
O campo euclidiano de cultura política intelectual é também um campo psicótico. Biograficamente, Euclides lutou contra a estrutura psicótica que agia no sentido de tomar sua subjetividade e se apossar do campo trans-subjetivo euclidiano. O leitor pode observar isso os escritos e em alguns episódios da vida de nosso escritor.
Como discurso, Euclides não se tornou o Schreber freudiano. Na vida biográfica, ele tinha alucinações com um fantasma que o acompanhou ao longo da vida. Nos acampamentos, à noite, Euclides tinha visões de uma mulher vestida de branco, que lhe dizia: “ A estrada do cemitério já chegou à porta da fazenda”.
O império romano psicótico transformou a vida biográfica de Euclides em um campo de poder trans-subjetivo que definiu muitos momentos e circunstâncias de sua vida. Tal império pode ter movido Euclides para o encontro fatal com o cadete Dilermando de Assis, que se tornara amante de Ana Emília Ribeiro da Cunha, filha do general Frederico Sampaio Sólon Ribeiro, um dos líderes da proclamação da República. Dilermando tivera um filho com Ana, a esposa de Euclides.
Muito se tem explorado como uma contradição definitiva de Euclides o seguinte: a condenação que este escritor fez à violência sem limite da máquina de guerra republicana contra Canudos era superficial e inconsistente, pois, ele fez um uso da violência pessoal sem limite para resolver seu problema com Dilermando.
Para a moral da época, o Euclides traído jogava nosso escritor no inferno dos cornos. Nesta conjuntura, a honra não era um significante oco; ele tinha uma força de realidade capaz de convulsionar o cérebro do mais cristão dos cristãos. Euclides não era cristão.
A honra não era uma simples categoria moral; ela era um significante moral da cultura política do litoral e do sertão. A honra era a tradição que significava um pesadelo para o cérebro dos vivos.
Neste campo de poder biográfico como interseção do subjetivo com o trans-subjetivo (cultura política, império psicótico, o choque real de saber da criança produzida por Ana e Dilermando), Euclides cedeu à violência sem limite e se transformou no quê? Ele se transformou na máquina de guerra republicana totalitária terrorista (que desintegrou Canudos), ou se transformou na contramáquina de guerra mestiça canudos com sua violência racionalmente legítima tanto no campo da afetividade como no da superfície do animus?
Condensado na Globo News, o capital eletrônico corporativo mundial quer (através de um golpe de Estado eletrônico na cultura política intelectual mundial) se apossar da vida e da obra de Euclides (em colusão com o discurso da universidade e com o discurso antiquado da Academia Brasileira de Letras) como o autor canônico da cultura brasileira. Porém, a física historial lacaniana resgata Euclides deste provincianismo resiliente e o devolve (como o nosso primeiro físico historial) à superfície da história universal.
Ao ver o republicanismo como uma força totalitária (máquina de guerra freudiana totalitária) em choque agônico, fatal, com uma Canudos contramáquina de guerra mestiça, Euclides pôs o Brasil na linha de força cultura política da história universal.
A visão realista de mundo do Euclides não se continha na separação e distinção entre um litoral civilizado e um sertão bárbaro. Para ele, são duas superfícies contínuas trans-subjetivamente bárbaras. Sobre a República ele formulou assim: “ Urgia pôr mãos à tarefa. Certo não desfaleceria da minha banda a defesa da legalidade – belo eufemismo destes tempos sem leis” (Euclides. 1995: 201). Ele se sentia “vibrando na psicose convulsiva do medo mal refreado” (Idem: 202). E parte de uma história universal como comédia historial: “ Daí as antinomias que aparecem. Neste enredo de Eurípides, há um contra-regra – Sardou. Os heróis desmandam-se em bufonarias trágicas. Morrem alguns, com um cômico terrível nesta epopeia pelo avesso” (Idem: 203). Por esta visão, Euclides não se aproxima do realismo grotesco capaz de rir de sua própria morte?
A estética de Marx inventou o significante comédia histórica como sendo um passo à frente da estética hegeliana. Trata-se da estética como uma superfície historial. Em um artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, Euclides usa o título “Uma Comédia Histórica”. Trata-se de um modelo historial para a investigação da história do Império português. Ele diz: “Daí o burlesco daquela tentativa de transferir para Lisboa um lampejo de Versalhes, numa grandeza achamboada e informe que era, como todas as paródias, um contraste” (Idem: 150). Entre os mais consistentes historiadores brasileiros, Octávio Tarquínio de Souza aparece como um seguidor desta concepção estética historial euclidiana. Em seguida, faço uma citação longa que é um resumo prático da concepção de comédia historial euclidiana realizada como conceito na biografia de Alexandre de Gusmão:
“ Foi um voltairiano antes de Voltaire: a mesma espiritualidade expansiva, em que pese a uma cultura menor, a mesma mobilidade, os mesmos arrebatamentos, o mesmo sarcasmo diabólico e a mesma emancipação intelectual, revolucionária brilhante.
Não o considerou sob esta feição complexa Oliveira Lima. Que dificílimo fora constringi-los nos três atos de uma comédia.
Fixou-o, porém, por uma de suas faces encantadoras: a adorável complacência de uma alma sobranceira às ruínas de um amor não correspondido e verdadeiramente heroica no amparar o rival feliz que o compartia.
O assunto, como se vê, é profundamente dramático. A índole do protagonista, entretanto, transmudou-se numa comédia” (Idem: 152).
A subjetividade biográfica de Gusmão deve ser compreendida em uma interseção com a trans-subjetividade da conjuntura cultural política lusitana: “ O grande homem pareceu-nos talvez apequenado no tortuoso de uma intriga vulgar, mas traça, cortando uma situação trivialíssima, a linha impressionadora de uma individualidade nova no meio de uma sociedade envelhecida” (Idem: 352). Euclides fez um retrato da societas portuguesa capaz de causar espanto até no leitor do século XXI:
“ A sociedade pecaminosa de D. João V, onde o monstruoso substituía a grandeza, com suas antíteses clamorosas, como os seus lausperenes e as suas devassidões, com o trágico da inquisição e a glorificação de todos os ridículos, com o idiota Cardeal Mota que acabou com as trovoadas riscando-as da folhinha do ano, com o seu místico tenente Santo Antônio, jogralescamente promovido por atos de bravura, e com o cínico Encerrabodes tolerado em todas as salas – o Portugal paraguaio dos  jesuítas com os seus monges, os seus padres, os seus rufiões, a sua patriarcal, a sua escolástica garbosamente fútil e a sua literatura desfalecida, teve no seu primeiro-ministro o seu mais implacável juiz” (Idem: 152).
Este parágrafo é a realização conceitual do significante comédia historial em uma conjuntura paradigmática portuguesa. E toda esta interpretação é um artefato simbólico de uma cultura política intelectual brasileira muito superior à cultura do discurso da universidade, entre nós. Talvez o desenvolvimento da nossa cultura política intelectual digitalis possa retomar esta linha de força interpretativa que foi quebrada pelo discurso da universidade condensado na USP.                                         
O PCPT está apenas começando a releitura de Euclides e de Canudos!   
EUCLIDES DA CUNHA. Obra Completa. v. I. RJ: Nova Aguilar, 1995
 EUCLIDES   DA CUNHA. Os Sertões. SP: Nova Cultural, 2002                                            
                                                             
     

                                       

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