domingo, 21 de fevereiro de 2016

LITERATURA E FÍSICA LACANIANA


Qualquer território é um campo de linhas de força

O discurso da universidade criou várias crenças (e até mitos). Ele existe - em seu conluio com a cultura política informacionalis eletrônica – como uma cultura política intelectual universitária mitológica.
Uma das crenças mais persistentes é a de que só os especialistas em teoria literária universitária são competentes para escrever (e falar) sobre a forma romance. Tal mito é o efeito de um golpe de Estado universitário na cultura política intelectual mundial. Tal golpe de Estado universitário permanente significa o monopólio da interpretação literária pelo discurso da universidade. O século XXI assiste o afrouxamento e o estiolamento da hegemonia do discurso da universidade no campo da cultura literária com a gradual ascensão da cultura digitalis em tal campo. Resta agora estipular como uma conjuntura digitalis está transformando a cultura política intelectual mundial.
A física historial lacaniana trabalha a interseção entre literatura e cultura política como tal. Trata-se de um campo quase inexplorado até agora por massas intelectuais. Para estabelecer uma ponte entre ambas é necessário operar também com a teoria literária. Podemos começar a investigação pelo campo da teoria literária não-universitária marxista articulada à física lacaniana na interpretação da ligação da narrativa do livro Doutor Fausto, de Thomas Mann, com a cultura política alemã da era fascista. 
Um primeiro obstáculo da epistemologia política deste campo em tela é a existência da teoria marxista literária como uma simples ideologia. Trata-se do problema da linguagem pilotada por fantasmas (ficção gramatical ou ficção ideológica) a qual Marx conceituou como ideologia. O anverso deste campo ideológico é a linguagem articulada como força de realidade (homóloga à força de lei = princípio da realidade freudiano). Na ideologia literária a relação entre o significante e a significação é movida pela ficção gramatical. Vamos ao exemplo.
A teoria econômica marxista não se tornou uma ideologia, uma religião laica fetichista?
“ O tratamento do fantasmático em o A ideologia alemã anuncia ou confirma o privilégio absoluto que Marx concede à religião, à ideologia como religião, mística ou teológica, em sua análise da ideologia em geral” (Derrida: 236).     
Derrida diz que a própria fenomenologia econômica como tal é a autoilusão de ser exterior à cultura política religiosa: “ a fenomenologia como discurso do valor de uso para não pensar o mercado ou com intenção de tornar-se cega ao valor de troca. Talvez. É enquanto tal que o bom senso fenomenológico ou a fenomenologia da percepção (operando também em Marx quando ele acredita poder falar de um puro e simples valor de uso) pretendem servir às Luzes, uma vez que o valor de uso não tem nada em si de misterioso” (Derrida: 239).
Baudrillard mostrou que o valor de uso é concreto e particular (e forma/objeto) e o valor de troca é abstrato e geral: “ Portanto, o valor de uso não está implicado na lógica própria do valor de troca, que é uma lógica da equivalência” (Baudrillard: 161). Lacan define um discurso do capitalista ou do capitalismo; já a física lacaniana opera com o discurso do capital. Não há cultura política do valor de uso ou trans-subjetivação a partir do valor de uso. Há o processo de trans-subjetivação do capital. O capitalista (e as massas capitalistas) é a personificação do capital através da lógica valor de troca:
“E se chamamos FORMA/OBJETO a esta equivalência abstrata das utilidades, podemos dizer que a forma/objeto não é mais que a forma acabada da forma/mercadoria. Por outras palavras, uma mesma lógica (e um mesmo fetichismo) opera nos dois lados da mercadoria especificados por Marx: valor de uso e valor de troca” (Baudrillard: 166).
A fenomenologia econômica marxista tinha como referente do capitalismo a sociedade de classes e a luta de classes. Althusser definiu o capital como um campo da luta de classes que tem como objeto a produção da mais-valia. Althusser acreditou que os conceitos revolucionários da epistemologia política de Marx suprassumiam os conceitos filosóficos ideológicos no campo da economia política marxista (Althusser: 157). A revolução em um objeto acarreta uma revolução necessária na terminologia:
5] el punto sensible de esta revolución tiene por objeto precisamente la plusvalia. Por no haber pensado en una palabra que fuese el concepto de su objeto, los economistas clásicos se quedaran em la noche, prisioneiros de las palabras que no eran sino los conceptos ideológicos o empíricos de la práctica económica” (Althusser: 160).
O estruturalismo althusseriano exclui o tempo na constituição do significante. O  significante althusseriano é uma estrutura eternamente idêntica a si própria. David Ricardo definiu o capital como coisa. Isto é claramente uma categoria ideológica religiosa laica. Trata-se de um fetiche como imagem conceitual. Marx definiu o capital como relação social (de forças). Trata-se de um campo de poder definido peal relação de força entre o capital e o trabalho. Tal significante é o significante capital moderno, por excelência, do século XIX. No século XX, o significante se metamorfoseou e temos a teoria leninista do capital financeiro nacional   para comprovar tal fenômeno realizado no conceito de imperialismo econômico das potências imperialistas. As nações se transforma em um campo de poder no qual os grandes bancos, os trusts e a política colonial do capital (Lenin. 1977a: 423) redefinem o significante capital moderno de Marx para velho capital do século XIX.  
O capital financeiro é o capital que se encontra a disposição dos bancos e que os industriais utilizam (Lenin. 1977b: 245). Lenin diz: “O que caracteriza o velho capitalismo, no qual dominava plenamente a livre concorrência, era a exportação de mercadorias. O que caracteriza o capitalismo moderno, no qual impera o monopólio, é a exportação de capital” (Lenin. 1977b: 260). E ele elucida o imperialismo econômico assim: “ Descreveremos agora como a “gestão” dos monopólios capitalistas se transforma inevitavelmente, nas condições gerais da produção mercantil e da propriedade privada, na dominação da oligarquia financeira” (Lenin. 1977b: 245).
No século XIX, o capital é a forma privada do capital; no século XX, trata-se da forma do capital articulada ao Estado capitalista: forma público/privada ou capital monopolista de Estado.                    
Na fenomenologia econômica leninista, a sociedade de classes nas nações e a luta de classes ocupam o centro da política mundial. No século XXI, a luta de classes e a sociedade de classes não são mais determinações fundamentais do capital. O capital desterritorializou a sociedade de classes e a luta de classes no território físico e trans-subjetivo nacional. Ao fazer este movimento o capital se metamorfoseou como conceito e significante. O que significa o capital no século XXI?
O capital hoje é a revolução digital objetiva das forças produtivas e a contrarrevolução digitalis da trans-subjetivação do capital permanente na fórmula “tudo o que é sólido desmancha no ar”. O capital é um campo de poder digital e eletrônico no qual a hegemonia no bloco-no-poder mundial é disputada pelo capital corporativo digital mundial com o capital corporativo eletrônico mundial. A estas formas de capital correspondem, respectivamente, o império digitalis informacionais e a ditadura fascista eletrônica informacionalis. No século XXI, a forma paradigmática do capital é a forma capital privado corporativo mundial. Tal metamorfose historial do capital reduziu toda as teorias econômicas marxistas em ideologia econômica e a física econômica lacaniana em algo análogo à “crítica das ideologias econômicas políticas”.
O problema da pesquisa consiste em saber se a, hoje, todas as teorias literárias marxistas são meras ideologias literárias inúteis para estabelecer os laços entre literatura e cultura política. Saberemos disso na pesquisa do Doutor Fausto.
O discurso da universidade estabelece uma relação entre teoria literária e campo de poder institucionalizando as vozes competentes para escrever e falar do romance. Trata-se de um campo de poder no qual a fala competente é a fala daquele que ocupa a mais alta posição na cultura política intelectual literária mundial: o Prêmio Nobel. Na universidade brasileira o professor emérito é o ersatz do Nobel. Trata-se de um campo de poder vertical e hierárquico que é o avesso da obra aberta: “ Neste sentido, portanto, uma obra de arte, forma acabada e fechada em sua perfeição de organismo perfeitamente calibrado, é também aberta, isto é, passível de mil interpretações diferentes, sem que isso redunde em alteração de sua irreproduzível singularidade. Cada fruição é, assim, uma interpretação e uma execução, pois em cada fruição a obra revive dentro de uma perspectiva original” (Eco: 40). Esta concepção anarquista ultraindividualista não é o contraponto ideal da cultura intelectual universitária totalitária?        
Adotando o modelo americano, o discurso da universidade está associado à cultura política eletrônica em uma luta agônica com a cultura política intelectual digitalis pela hegemonia no campo de poder cultural político mundial.
A universidade é ainda uma importante instituição da cultura política mundial em todo o planeta. Assim, ela pode ser o palco de uma revolução intelectual que reduza a presença do discurso da universidade na cultura política universitária. O caminho é estabelecer a aliança com a cultura política intelectual digitalis. Trata-se da passagem na universidade da trans-subjetivação eletrônica para a trans-subjetivação digitalis.
Marx estabeleceu no As teses sobre Feuerbach a diferença entre cultura intelectual e cultura política intelectual. A primeira é a teoria sem prática; a segunda é a teoria de uma prática. Na primeira pensar é contemplar (Labica: 73); na segunda pensar é autotransformação historial: “ A autotransformação é o processo contínuo da revolução, sempre já em andamento na prática (Labica: 88). A cultura política intelectual é um processo revolucionário permanente. A cultura da universidade é pensamento contemplativo até que ele seja transformado em ciência do real: princípio da revolução permanente da cultura política intelectual do capital moderno.
A tese 11 é a seguinte: “Os filósofos apenas interpretam o mundo de forma diferente, o que importa é mudá-lo” (Labica: 35). Uma autointerpretação da realidade dos fatos é a cultura política intelectual do capital moderno como percepção da automudança enquanto prática revolucionária (T. 3). A revolução do capital é a prática da teoria da modernidade como ciência do real. O modelo de tal teoria é a “époché” da ciência objetiva e a epoché em relação a todas as ciências objetivas (Husserl: 154). No entanto, precisamos não de uma fenomenologia transcendental como ciência da subjetividade pré-doadora do mundo (Husserl: 167), mas da física historial lacaniana como ciência da trans-subjetividade das massas sujeito zero (grau zero da subjetividade da sociedade de classes, do Estado-nação, da nação). A cultura política mundial em tela é a cultura das massas intelectuais sujeito zero que são o ersatz de uma classe simbólica que funciona como elite eletrônica em um conluio com o discurso da universidade.
A relação da teoria com as massas na ideologia é delirante. Isso não significa a loucura para as massas: “ Torna-se louco, alguém que, a maioria das vezes, não encontra ninguém para ajudá-lo a tornar real o seu delírio” (Freud: 100). Não é impossível tornar real o delírio psicótico das massas possuídas pelo processo de trans-subjetivação permanente como o bolivariano. Este fenômeno é a própria definição de Real. O delírio psicótico das massas bolivarianas conduz a Venezuela e o Brasil para a autodissolução das formas política, econômica, cultural política.
O delírio ideológico das massas é pilotado por fantasmas que são ficções gramaticais. Isto se aproxima do ter em mente algo do âmbito psíquico, que é também algo privado (Wittgenstein: 122). Há a linguagem privada do indivíduo e a linguagem privatista da mente das massas sujeito zero. A linguagem privada significa a linguagem do homo clauses e da subjetividade biográfica. A linguagem privatista das massas bolivarianas é a ideologia pilotada por ficções gramaticais ou fantasmas literários como classe operária como ersatz de Deus, homem-deus, homem: “Esse delírio aqui? Esses fantasmas aí? Ou a espectralidade em geral? É quase toda a nossa questão e nossa circunspecção” (Derrida: 260).
 Na cultura delirante real das massas bolivarianas a relação do significante com significação priva a palavra da força da realidade, pois, ela não se remete à realidade do real (dos fatos). No entanto, ela possui a força do real que é mais real que o próprio real. O delírio psicótico das massas fascista da Alemanha fazia da Alemanha uma nação mais real que a próprio real nacional. Tal cultura política psicótica conduz os países à autodissolução como forma política da cultura política mundial. No século XXI, o bolivarianismo é a trans-subjetividade (homóloga à trans-subjetividade fascista alemão) que conduz os países da América Latina a própria autodissolução cultural política como populismo.
A física lacaniana é um campo de pensamento capaz de articular as massas sujeito zero a partir da autointerpretação revolucionária da realidade do real? Ele é capaz de integrar os fatos psicóticos das massas ao inconsciente nietzschiano mundial? Ele cria as condições de possibilidade para a metabolização e simbolização revolucionária da realidade dos fatos? Este acontecimento significa a transição da trans-subjetividade das massas com sujeito (classe, etnia, minorias...) para a trans-subjetivação permanente das massas sujeito zero (grau zero da subjetividade husserlina) como revolução digitalis mundial.
A questão da trans-subjetividade carnavalesca em Bakhtin está desenvolvida no meu texto Bakhtin – trans-subjetividade carnavalesca. O problema da trans-subjetividade do realismo grotesco é um objeto central do A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. A referência a trans-subjetividade burguesa grotesca é o signo da relação entre cultura política burguesa e trans-subjetividade grotesca das massas intelectuais com sujeito: “Vamos deter-nos agora com maior detalhe nessa orientação burguesa do grotesco cômico rabelaisiano” (Bakhtin. 1970: 109). No entanto, a imagem do corpo grotesco popular já nos remete para a trans-subjetividade das massas sujeito zero (grau zero da subjetividade rabelaisiana). Assim: “Pode-se mesmo dizer que a imagem do corpo, no seu aspecto grotesco, dominava parte da cultura popular da festa e criava uma atmosfera corporal específica” (Idem: 229).
A teoria marxista do romance de Bakhtin localiza o romance como um artefato da trans-subjetividade sujeito zero? Se tomarmos o significante concepção do mundo como algo que remete para a trans-subjetividade, a teoria literária em tela inscreve o romance no campo trans-subjetivo: “ Dada a interdependência de todos os elementos, um determinado princípio de estruturação do herói se relaciona com determinado tipo de tema, com uma concepção do mundo e com uma composição romanesca” (Bakhtin. 1992: 223).
Minha leitura da relação do romance de Thomas Mann com a cultura política fascista alemã articulará a biografia subjetiva do herói com a trans-subjetivação das massas sem sujeito totalitária. Este é o verdadeiro ponto de partida da física lacaniana em sua relação com o campo literário. Como estou trabalhando com a tradução para o português do Dr. Fausto se trata de dominar não a língua alemã, mas a língua como cultura política da trans-subjetividade fascista:
“ Quem quer, pois, dizer alguma coisa, deve ter aprendido a dominar uma língua; e é claro que, ao quere falar, não precisa falar. Como também ao querer dançar, não dança” (Wittgenstein: 117). Não é preciso dançar conforme a música fascista!
BIBLIOGRAFIA
ALTHUSSER E BALIBAR. Para leer El capital. Argentina: Siglo XXI, 1974
BAKHITIN, Mikhaïl. L’oeuvre de François  Rabelais e la culture populaire ao Moyan Âge et sous la Renaissance. Pariss: Gallimard, 1970.
BAKHTIN, Mikhaïl. Estética da criação verbal. SP: Martins Fontes, 1992
BAUDRILLARD, Jean. Para uma crítica da economia política do signo. Lisboa: Edições 70, 1981
DERRIDA, Jacques. Spectres de Marx. Paris: Galilée, 1993
ECO, Umberto. Obra aberta. SP: Editora Perspectiva, 1971
FREUD. Obras Psicológicas Completas. v. XXI. Mal-estar na civilização. RJ: Imago, 1974
HUSSERL, Edmund. La crise des sciences européennes et la phénoménologie transcendentale. Paris: Gallimard, 1976
LABICA, Georges. As “teses sobre Feuerbach” de Karl Marx. Rio: Jorge Zahar Editor, 1990
LÊNINE. Oeuvres. Tomo 25. Juin- septembre 1917. Paris/Moscou: Éditions Socialis/ Éditions du Progrés, 1977  
LÊNINE. Oeuvres. Tomo 22. Décembre 1915- juillet 1916. Paris/Moscou: Éditions Socialis/ Éditions du Progrés, 1977
WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações filosóficas. Os Pensadores. v. XLVI. SP: Abril Cultural, 1975  
  
                     
                     
    
                                                                                         
     
                                


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