domingo, 7 de fevereiro de 2016

CARNAVAL, SAMBA, MASSAS, CAMPO DE PODER

"não digo de abrir todas as comportas, mas simplesmente de pensar uma ordem coletiva qualquer em função da satisfação dos desejos. Trata-se por enquanto de saber se podemos ver isso mais claramente do que os outros".
LACAN. O SEMINÁRIO. LIVRO 7: 275. RIO : JORGE ZAHAR EDITOR, 1991  

CARNAVAIS, MASSAS, PODERES

Primeiro era preciso provar que a história dos carnavais só pode ser a história da trans-subjetividade cômica popular revolucionária. Trata-se da trans-subjetividade como um contrapoder no campo das redes de poder hegemônico(http://politicajosepaulobandeira.blogspot.com.br/…/bakhtin-…). Tal trans-subjetividade é aquela do riso carnavalesco que ri dos poderes, mas também de si próprio como contrapoder.
A cultura política carnavalesca das massas camponesas sujeito zero (grau zero do sujeito nas massas) criou uma nova ideia de cômico (conceito realizado na prática carnavalesca). A influente estética do cômico de Hegel foi relida por Marx como comédia histórica vulgar. Já deslocamos o conceito de comédia histórica para a física historial heraclitiana. Assim, desfizemos sua associação com a interpretação/percepção que vê a comédia como fato negativo em contraposição à cultura política do sério.
Hegel diz que a comédia da antiguidade clássica não possuía uma caráter revolucionário: “Como toda arte verdadeira, a comédia deve apresentar o racional, não sob a ameaça de uma destruição mais ou menos catastrófica, mas pelo contrário, como opondo-se vitoriosamente a todos os inconvenientes e a tudo o que há de insensato na realidade. Aristófanes, por exemplo, não ridicularizava a verdadeira moral da vida ateniense, nem a verdadeira crença nos deuses, nem a verdadeira arte dos gregos, mas os produtos malsãos da democracia etc. (...), enfim, tudo que estava em oposição com a verdadeira realidade do Estado, da religião e da arte” (Hegel: 650).
Aristófanes não ria do campo dos poderes e não ri de si próprio. A comédia grega era a trans-subjetividade da classe dirigente da polis que não ria de si por ser escrava do trabalho escravo. Tal concepção do cômico não era um artefato da máquina de guerra estética (da cultura política do sério) da classe dirigente grega? O essencial não é pôr a estética do cômico, do riso carnavalesco no campo das redes de poder como contrapoder?
Não há história dos carnavais brasileiros. A física já fez textos sobre a política brasileira usando o conceito de comédia historial vulgar reformulado. Mas isto não muda o fato de que o carnaval no Brasil é vivido intencionalmente por massas que não se importam de serem massas carnavalesca do capital corporativo eletrônico mundial. Essas massas festivas não são equivalentes às massas teatrais da trans-subjetividade cômica grega. Trata-se de massas que não exercem o riso carnavalesco revolucionário; elas não riem das redes de poder do capital, da Igreja, do Estado, da classe política; o sorriso delas é o sorriso homólogo ao sorriso das jornalistas da tela eletrônica.
Ao contrário, as classes médias carnavalescamente bolivarianas riem da crise econômica, da crise que implode as massas? riem do Zika vírus que implode biologicamente as massas mais pobres, massas da periferia das grandes cidades e da periferia do país. Não se trata do riso carnavalescamente contrarrevolucionário? Trata-se do riso bolivariano contrarrevolucionário no carnaval de rua do Rio e de São Paulo: bloco dos publicitários paulista; invasão do centro do Rio pelo bloco industrial dos bolivarianos Gilberto Gil e Preta Gil. Não vou me estender, pois a lista é equivalente à longa lista das mulheres seduzidas por Don Giovanni.
A trans-subjetividade do carnaval das massas bolivarianas serve ao poder simbólico do capital corporativo eletrônico mundial capitaneado pelo Grupo Globo. O capital corporativo eletrônico transforma o carnaval de rua em imagem eletrônica militarizada. Como? Porquê? A tela eletrônica faz a gestão do campo da afetividade (e do campo anímico) das massas carnavalescas bolivarianas para desviar a energia das massas sujeito zero que está se acumulando em uma escala progressiva em direção a uma explosão celestial.
A trans-subjetividade das massas bolivarianas cariocas e paulistas (que simulam diversão e alegria, quando estão caretas), gera a produção das imagens “carnavalescas” (que são convertidas em imagens eletrônicas que simulam o carnaval de rua) da rua para a gestão contrarrevolucionária eletrônica das massas de todo o país.
O leitor pode verificar se a periferia está brincando o carnaval?
HEGEL. Estética. Lisboa: Guimarães Editora, 1993

O CARNAVAL DO RIO

O Cordão da Bola Preta (ou simplesmente Bola Preta), fundado em 1918, é o mais antigo bloco de carnaval do Rio de Janeiro, um dos mais antigos do país e último representante remanescente dos antigos Cordões Carnavalescos que existiam no Rio de Janeiro no início do século XX.
Se auto-intitula "o maior bloco de carnaval do mundo". Isso cria uma intensa rivalidade entre ele e o bloco pernambucano Galo da Madrugada, que desfila pelas ruas de Recife. Uma lenda da Bola Preta é a seguinte. Em 2012, o bloco carioca teria reunido cerca de 2,5 milhões de foliões, superando o rival recifense, segundo estimativas dos estatísticos de rua. O recorde anunciado ainda não figura no Guinness World Records, permanecendo como uma espécie de "título informal" da agremiação do Rio de Janeiro.
Na minha adolescência, fui um folião do carnaval da periferia do Rio. Nesta época, o carnaval era todo na rua, inclusive os desfiles das Escolas de Samba. O carnaval da periferia reunia imensas massas carnavalescas que Elias Cannetti classificaria como massas festivas: “a vida e o prazer estão assegurados enquanto durar a festa”. Na década de 1960, o sexo e a droga faziam parte do cotidiano da juventude: “vida e prazer assegurados durante uma semana de carnaval nos paraísos artificiais baudelairianos".
O Cordão da Bola Preta já existia na forma atual? Ou existia como um pequeno bloco de carnaval? Onde está a história deste Cordão?
Uma hipótese. O um milhão de folião da Bola Preta é algo recente. Provavelmente está associado à decadência do belo carnaval das massas da periferia do Rio. Está associado também à hegemonia do capital corporativo eletrônico sobre o carnaval do Rio. O gozo maior da Bola Preta é sair na tela eletrônica. Tem um cálculo dos chefes do Cordão. A irradiação na tela eletrônica faz crescer, a cada ano, o bolo, ou melhor, as massas da Bola Preta.
As Escolas de Samba desfilavam nas ruas do centro da cidade. Com o populismo de Brizola e Darcy Ribeiro, o samba do povo foi encarcerado no Sambódromo. O samba das escolas era feito pela compositores e poetas das favelas e periferia. Por isso era o samba do crioulo doido. Tratava-se de uma narrativa popular carnavalesca autêntica.
Na era populista, o samba das escolas foi colonizado por um pessoal com ligações com a antropologia do Museu Nacional e professores artistas da EBA (Escola de Belas Artes). A narrativa do samba foi colonizada pelo discurso antropológico e a efusiva estética universitária de Rosa Magalhães. Mas o enredo da escola ficou arrumado, sem alegria, insipidamente universitário.
A ligação do carnaval do Sambódromo com a universidade tinha um terceiro elemento: o capital corporativo eletrônico transnacional que, na década de 1990, adquiriu a forma de capital corporativo eletrônico mundial, condensado no Grupo Globo.
As massas da Bola Preta são mestiças, negras e brancas. Elas são o refluxo do carnaval da periferia. As massas da periferia pulam o carnaval na bola preta. Canetti diria que são massas de inversão? – “Os lobos sempre comeram as ovelhas; será que desta vez as ovelhas comerão os lobos?
A revolução é a situação típica da inversão. No carnaval da periferia da década de 60, a periferia queria fazer uma revolução cômica carnavalesca contra o domínio da cultura séria de Copacabana e Ipanema sobre a vida cultural da cidade. A Bola Preta sempre tem violência. Esta significa uma situação de inversão em relação ao domínio dos brancos da zona sul sobre mestiços e negros e brancos pobres da periferia no Cordão da Bola Preta?
Ao contrário, o Cordão da Bola Preta não é o símbolo carnavalesco de rua da escravização dos mestiços, negros e brancos pobres carnavalescos da periferia ao capital corporativo eletrônico mundial condensado, entre nós, no Grupo Globo?

SALVADOR/BAHIA- A ECONOMIA POLÍTICA MÍTICA DO CARNAVAL 
Não é segredo que o carnaval baiano é um negócio subcapitalista, já que nunca ex-sistiu capitalismo no Brasil. Quem iniciou o subcapitalismo carnavalesco? 
A Tropicália de Gil, Caetano e famílias está na origem do bolivarianismo brasileiro. Hoje, Gil e Flora Gil estão associados ao PMDB do Rio de Eduardo Paes e do candidato deste à prefeitura do Rio em 2016. Esta ligação tem como intermediário o Grupo Globo: 
“Eleitora do Rio, Flora fez questão de elogiar ACM e Eduardo Paes. “Eles são parecidos na preocupação com a cidade. “ Sobre as críticas a Pedro Paulo, o candidato de Paes à sua sucessão, ela contemporizou: ‘Acho um pouco exagerado isso. Sou mulher e nem poderia estar falando isso. Mas não deixaria de votar num político que admiro porque ele bateu na mulher. Eu pensaria melhor, mas deixar de votar só por isso acho simplório. Não tenho nada com isso, a mulher é dele’ ”. (http://cultura.estadao.com.br/…/flora-gil-no-2222-virou-mo…/
).
A Tropicália foi uma força cultural que – com outras forças cultural, política e econômica) transformou o carnaval baiano em economia política do carnaval. Saindo de uma situação de baixa economia, Gil, Caetano e Flora Gil (e outros) se tornaram membros da elite econômica baiana. O dinheiro acumulado com o carnaval não é tudo. Os camarotes do carnaval baiano de Flora e Gil são um lugar de formação de redes de amigos oligárquicos: “Passava de 2h da manhã e a boate do camarote ainda estava lotado, com nomes como o stilyst Felipe Veloso, a modelo Lea T e o empresário Pedro Tourinho. A pista ferveu com o hit do carnaval, Metralhadora. Gil, no entanto, dizia pouco antes que essa música ele ainda não ouviu. ‘Assim como no ano do Lepo lepo eu cheguei sem saber, essa provavelmente também vou conhecer aqui’ “.
O carnaval de Salvador é um carnaval carismático. Na leitura do carisma freudiano, Richard Sennett sublinha: “ O sucesso de um Estado carismático, para Freud, está em que o líder não promete bem-estar, mas uma chance de voltar a ser psicologicamente dependente, como se era quando criança” (Sennett: 336). O carisma é uma instituição que não precisa ser necessariamente política. Trata-se de uma instituição que se apoia na crença de uma ilusão apaixonante. Ele é a ligação do líder carismático com o campo de afetos das massas, que se tornam as crianças do líder. Como economia política baiana, a instituição carnaval é carismática; as massas carnavalescas são as crianças de Gil, Caetano e Ivete Sangalo. 
As massas carnavalescas baianas não são capazes de festejar sozinhas; elas precisam de um líder carismático em cima de um Trem Elétrico. Este líder é um cantor/compositor que reúne as massas que pagam a ele para brincar o carnaval. Tal líder é uma personalidade carismática do mundo da classe simbólica musical. Em geral, quanto maior a sua ligação com o Grupo Globo maior o seu carisma. Como o Grupo Globo é condensação do capital corporativo eletrônico mundial, o líder musical é uma personificação da cultura política do capital corporativo eletrônico mundial. Por isso, tais líderes musicais se apresentam na Europa, nos EUA, no Japão corriqueiramente. 
O texto elementar para tratar a formação do grupo carismático é o “Psicologia de grupo e análise do eu” (1921). Os dois grupos artificiais altamente organizados são a Igreja e o Exército. O laço social destes grupos se constitui na ilusão de que há uma cabeça carismática – na Igreja Cristo, no Exército, o comandante em chefe, no carnaval de 2016, Ivete Sangalo – que ama todos os indivíduos do grupo com um amor igual. Tudo depende dessa ilusão (Freud: 120). O carnaval baiano tem na cabeça um chefe carismático (Ivete Sangalo está ocupando a cabeça das massas baianas em 2016), que sustenta a permanência do carnaval. Se a ideia cabeça carismática do carnaval baiano desaparecer, tal carnaval se extinguirá. Tal laço é um laço social mítico que se articula a partir da produção e circulação de um artefato mítico. Trata-se da economia política energética mítica oligárquica baiana.
As massas carnavalescas que estão se expandido no Rio, São Paulo e Belo Horizonte não são massas oligárquicas carismáticas, como a baiana. Elas apontam um caminho carnavalesco para o pais sem ligação com a oligarquia carismática. A física historial lacaniana vê, ouve, lê, percebe o carnaval como um campo de poder onde as massas ditam os caminhos da cultura política brasileira. Gil, Caetano, Ivete Sangalo e os músicos baianos carismático/oligárquicos são membros da classe dirigente (classe simbólica mais classe política bolivariana) que se articulam nacionalmente através do Grupo Globo. Tal classe simbólica é a classe dirigente do capital corporativo eletrônico mundial. 
FREUD. Obras Completas. v. XVIII. Rio: Imago, 1976
SENNETT, Richard. O declínio do homem público. As tiranias da intimidade. SP: Companhia das Letras, 1988


O SAMBA E A MISERÁVEL REPÚBLICA

Um samba cuja o autor são as massas negras (e mestiças) foi registrado por Ismael Silva como de sua propriedade. Assim, o samba foi deixando de ser algo essencialmente ligado a trans-subjetividade da população negra (e mestiça) para se tornar um artefato musical associado à subjetividade das biografias individuais; nasceu o compositor e cantor de samba.
Os letrados e doutos em samba criaram a lenda de que o samba articula (e articula-se) a identidade nacional assim como o carnaval. No carnaval de 2016, ninguém fala mais nisso. Associá-lo à cultura brasileira já é outra coisa.
Gilberto Freyre articulou o conceito Cultura Brasileira mestiça popular. Trata-se de uma cultura sincrética civil e religiosa negra, indígena e portuguesa. Tal cultura seria o império do espírito mestiço brasileiro. Trata-se de uma cultura política intelectual das massas populares. Belo, muito belo! Na ditadura militar, Gilberto Freyre se ligou a este regime odiado; passou a ser odiado. Aí, sua bela e utópica teoria de uma trans-subjetividade popular mestiça fundando e articulando a história do país virou fumos, apenas fumos, não os fumos machadianos que existem como espectro do passado articulando a vida brasileira do presente.
O samba não aparece para as redes de poder da República como uma ameaça análoga à Canudos e ao Contestado? Negro, mestiço, ou branco pobre, o popular sempre foi o inimigo da república oligárquica, entre nós. Ao se tornar biográfico individual, a carga potencial trans-subjetiva de revolta popular do samba esvaiu-se? A polícia prendia os sambistas negros e mestiços por portarem tamborim. Os instrumentos musicais continuaram sendo o símbolo de que as massas negras e mestiças se constituíam (como o samba) como um contrapoder no campo de poder republicano. Miséria republicana, miserável República brasileira!
Hoje, o carnaval de rua se tornou mais importante do que o carnaval das Escolas de Samba. Em São Paulo, há um bloco que só toca músicas dos Beatles em ritmo de samba. Carreiras biográficas individuais de compositores e cantores de samba estão circunscritas à tela eletrônica menor da TV paga por assinatura. Tais autores de samba são um epifenômeno do capital corporativo eletrônico mundial, que tem o domínio formal (campo do direto) e real (técnica eletrônica) da tela eletrônica. Todavia, sambas antigos são cantados pelas massas carnavalescas. As biografias individuais tornaram-se fumos machadianos ou apenas fumos de cigarro de palha?
O carnaval (e o samba) não desapareceu por ser um artefato RSI (Real/Simbólico/Imaginário) da trans-subjetivação das massas não só no Brasil. Tal trans-subjetivação de rua sempre desponta como um contrapoder no campo do poder mundial sob o tacão do capital corporativo mundial eletrônico.
A tela eletrônica quer transformar as imagens sonoras, visuais e táteis em imagem da sociedade do espetáculo eletrônico mundial. As letras das músicas das massas de inversão revolucionariamente carnavalescas (com insultos, palavrões, grosserias, blasfêmias, seios nus etc.) não compõe a imagem eletrônica “carnavalesca” evangélica da Globo News. O carnaval evangélico civil eletrônico da Globo News é a ideologia dominante do carnaval brasileiro. Trata-se da ideologia carnavalesca do capital corporativo eletrônico mundial!  Tal ideologia foraclui o deliciosamente beijo carnavalesco da história do carnaval de todos os tempos; ele é censurado como imagem eletrônica. A violência carnavalesca das massas é tratada como coisa de vândalos. (O carnaval é uma contramáquina de violência mestiça freudiana em ato de rua). É o mesmo tratamento dado à violência das massas associada aos últimos movimentos de massas, entre nós, que começaram em junho de 2013. 
O Rio de Janeiro é reconhecido no pais como o território existencial do carnaval, por excelência. Nele, se instala o campo de poder carnavalesco como o poder do capital corporativo eletrônico mundia - condensado na Globo News - em colusão com o poder do prefeito Eduardo Paes. Mais uma vez o Grupo Globo tenta relançar o prefeito do Rio à presidência da República em 2018.       

Em ato de rua, o carnaval é as massas instalando-se como contrapoder em um país onde a república é um poder espectral miserável como uma alma penada. Mas este contrapoder articula (e articula-se à) outra coisa (das ding) diferente da identidade nacional ou da cultura brasileira de Gilberto Freyre. Nas ruas das cidades brasileiras, a trans-subjetivação carnavalesca pode ser um conceito prático de contrapoder em realização condensado em uma cultura política do futuro no presente. Este ovo da serpente é o ovo da kundaline?


BAKHTIN - TRANS-SUBJETIVIDADE CARNAVALESCA


Fazer de Bakhtin a referência de um texto sobre o carnaval tem um motivo muito simples. O livroCultura popular na Idade Média e no Renascimento trabalha com os conceitos de cultura política e trans-subjetivação das massas carnavalescas (cultura política cômica popular pública) e o fenômeno do Renascimento como trans-subjetividade de massas sujeito zero (sem sujeito) de toda uma era histórica. Mostraremos isso mais a frente.
O conceito de cultura política cômica popular é o aspecto dominado na contradialética que tem como aspecto dominante a cultura política séria (oficial) da classe dirigente. O primeiro ilumina a relação das massas camponesas sujeito-zero (sem sujeito) com o campo do poder na Idade Média constituído pela Igreja, o Império, e a societas dos guerreiros feudais. Todavia, tal societas sempre girou na órbita da cultura popular até se transformar em grande societas da corte feudal. 
Sobre a cultura popular, Bakhtin escreve: “Sob o regime feudal existente na Idade Média, esse caráter de festa, ou melhor, a relação da festa com os fins superiores da existência humana, a ressurreição e a renovação, só podia alcançar sua plenitude e sua pureza, sem distorções, no carnaval e em outras festas populares e públicas. Nessa circunstância a festa convertia-se na forma de que se revestia a segunda vida do povo. Este penetrava temporariamente no reino utópico da universalidade, liberdade, igualdade e abundância” (Bakhtin: 17).
A natureza da cultura política popular como cultura política carnavalesca se define, em primeira instância, a partir das saturnais da Antiguidade que originou “uma linguagem própria de grande riqueza, capaz de expressar as formas e os símbolos do carnaval e de transmitir a percepção carnavalesca do mundo, peculiar, porém complexa, do povo” (Idem: 19, 15). A percepção carnavalesca da realidade dos fatos faz pendant com uma autointerpretação das massas festivas da realidade do poder:
“Por isso todas as formas e símbolos da linguagem carnavalesca estão impregnados de lirismo da alternância e da renovação, da consciência da alegre relatividade das verdades e autoridades no poder. Ela caracteriza-se, principalmente, pela lógica original das coisas “ao avesso”, “ao contrário”, das permutações constantes do alto e do baixo (“a roda”), da face e da bunda, e pelas diversas formas de paródia, travestis, degradações, profanações, coroamentos e destronamentos bufões. A segunda vida, o segundo mundo da cultura popular constrói-se de certa forma como paródia da vida ordinária, como um “mundo ao revés. No entanto, é preciso sublinhar que tal paródia carnavalesca permanece distante da paródia moderna puramente negativa e formal. Com efeito, mesmo sendo negação, aquela ressuscita e renova ao mesmo tempo. A negação pura e simples é quase sempre alheia à cultura popular” (Idem: 19).
A cultura política oficial inscrevia a festa séria em um contraponto à festa cômica: “as festas oficiais da Idade Média (as da Igreja e as do Estado) não arrancavam o povo à ordem existente, não criavam essa segunda vida. Ao contrário, apenas contribuíam para consagrar, sancionar, o regime em vigor, para fortificá-lo. O elo com o tempo tornava-se puramente formal, as sucessões e crises totalmente relegadas ao passado. Na prática, a festa oficial olhava apenas para trás, para o passado de que se servia para consagrar a ordem existente” (Idem: 17-18). Neste trecho (como nos outros supracitados) não está liminarmente claro e evidente o caráter político da festa?
O lugar do riso cômico camponês sujeito zero é bem explorado na cultura política como trans-subjetividade popular. Seu choque sobre a cultura política europeia do Renascimento não foi nada desprezível:
“Com o influxo dessa nova combinação, o riso da Idade Média devia sofrer mudanças notáveis nesse grau inédito de progresso. Seu universalismo, seu radicalismo, sua ousadia, sua lucidez, e seu materialismo deviam passar do estágio da existência quase espontânea para um estado de consciência artística, de aspiração a um fim preciso. Em outros termos, o riso da Idade Média, durante o Renascimento, tornou-se a expressão da consciência nova, livre, crítica, e histórica da época” (Bakhtin: 81).
Agora, podemos avançar sobre o conceito marxista de trans-subjetividade em Bakhtin. O riso carnavalesco ocorre como processo de trans-subjetivação das massas sujeito-zero (“patrimônio do povo”). Ele é o cômico trans-subjetivo de tais massas sujeito-zero:
“Explicaremos previamente a natureza complexa do riso carnavalesco. É, antes de tudo, um riso festivo. Não é, portanto, uma reação individual diante de um ou outro fato “cômico” isolado. O riso carnavalesco é em primeiro lugar patrimônio do povo (esse caráter popular, como dissemos, é inerente à própria natureza do carnaval). Todos riem, o riso é “geral”; em segundo lugar, é universal, atinge a todas as coisas e pessoas (inclusive as que participam do carnaval), o mundo inteiro parece cômico e é percebido e considerado no seu aspecto jocoso, no seu alegre relativismo; por uso, o ritmo é ambivalente: alegre e cheio de alvoroço, mas ao mesmo tempo burlador e sarcástico, nega e afirma, amortalha e ressuscita simultaneamente” (Idem: 20).
Não é fácil perceber que a cultura política das massas carnavalescas é o reverso da trans-subjetividade totalitária da cultura política do sério?
O conceito de trans-subjetividade é a lacuna completada que torna a releitura de Bakhitin como um artefato do século XXI. Para interpretar o Renascimento, ele é indispensável. O Renascimento não foi o resultado da cultura intelectual europeia (massas intelectuais restritas ou biografias intelectuais individuais), mas da cultura política intelectual (massas intelectuais ampliadas compreendidas aí também as massas sujeito-zero populares):
“Claro, Burdach está inteiramente com a razão quando se recusa a originar e explicar o Renascimento a partir de fontes eruditas e livrescas, de investigações ideológicas individuais e “esforços intelectuais”. Ele está certo também em afirmar que o Renascimento foi preparado durante a Idade Média (sobretudo no século XII), e que a palavra 'renascimento' não significava absolutamente 'renascimento das ciências e das artes da Antiguidade'. Pois, ele tinha uma significação mais ampla e prenhe de sentido, imerso suas raízes nas profundidades do pensamento ritual e espetacular, metafórico, intelectual e ideológico da humanidade” (Idem: 66) condensado na cultura política carnavalesca das massas sujeito-zero.
Como massas sujeito-zero, a cultura política camponesa carnavalesca faz a interseção do território existencial trans-subjetivo campo/cidade. Farei mais uma citação longa para o leitor que se aventurar a ler Bakhtin poder cotejar a leitura da física historial eraclitiana com o texto original:
“ Já afirmamos que as celebrações carnavalescas ocupavam um importante lugar na vida das povoações medievais, inclusive do ponto de vista da duração: nas grandes cidades se estendiam por três meses por ano no total. A influência da concepção carnavalesca do mundo sobre a visão e o pensamento dos homens era radical: obrigava-os a renegar de certo modo a sua condição social (como monge, clérigo ou erudito) e a contemplar o mundo de uma perspectiva cômica e carnavalesca. Não apenas os escolares e os clérigos, mas também os eclesiásticos da alta hierarquia e os doutos teólogos permitiam-se alegres distorções durante as quais repousavam de sua piedosa gravidade, como nos casos dos “jogos monacais” (Joca monacorum), título de uma das obras mais apreciadas da Idade Média. Nas suas celas de sábios, eles escreviam tratados mais ou menos paródicos e obras cômicas em latim” (Bakhtin: 21-22).
Peter Burke é um estudioso da cultura popular moderna da universidade britânica. Seu livroCultura popular na Idade Moderna foi um best-seller na universidade brasileira. Tal livro foi a obra de uma máquina de guerra de pensamento inglesa (do discurso da universidade) para domesticar e capturar para a cultura política intelectual mundial o discurso da contramáquina de guerra de pensamento marxista russa bakhtinana. A operação consistiu em quebrar o laço social ente as massas camponesas sujeito zero e o carnaval revolucionário. Ou seja, a operação consistiu em negar o carnaval como cultura política popular revolucionária. Isso ele faz com a problematização do carnaval assim: “Controle social ou protesto social” (Burke: 223-228). Porém, Peter reconhece a natureza trans-subjetiva das massas sujeito zero carnavalescas: “Nas grandes festas urbanas, as multidões se engrossavam com os camponeses locais, que vinham à cidade para não perder as diversões” (Burke: 203).
Da era da ditadura militar, a influente (na cultura jornalística de papel e na tela eletrônica) teoria antropológica dos carnavais, malandros e heróis brasileiros é também uma máquina de guerra de pensamento contrarrevolucionária que, mesmo se alinhando com a sociologia e a antropologia ecléticas de Oliveira Vianna e Gilberto Freyre, não consegui perceber o essencial da realidade brasileira. Trata-se da articulação do carnaval brasileiro como cultura política popular cômica em uma Banda de Moebius com o envesso da cultura política oligárquica e de seu permanente estado de guerra oligárquico.           
Olhar para o carnaval como uma festa revolucionária das massas sujeito-zero da história universal não é algo absurdo ou irreal. Isto serve para começar a discussão sobre a contemporaneidade do século XXI. Peter Burke trabalha com a ideia de que o carnaval popular é um simulacro de revolução (protesto popular). Ao contrário, as massas populares sujeito zero não se coaduna à lógica do simulacro. Também ao contrário da visão corrente, as massas sujeito zero não são uma potência (um contrapoder) contraditória de contraditórios. Ela não é algo da dialética da contradição ontológica platônica. Ela é o se pensa e o se pensou em ato. Ela ex-siste em ato na conjuntura. Na física aristotélica, o sol é eterno, pois não morre; é incorruptível. O sujeito zero é incorruptível, pois é parte da contradialética da história universal do discurso do mestre. Hoje, se sabe que o sol é corruptível; mas as massas sujeito-zero são incorruptíveis enquanto a história for a história do discurso do senhor.
Lendo o sujeito zero por Aristóteles, isto ilumina o campo da  trans-subjetividade pós-pós-modernista. Nesta a forma é ato, ou seja, realidade do real. Aristóteles fala de uma lógica na qual existiriam ideias mais sábias que a Ciência em si (ciência dos múltiplos sentidos do ser). Existiria alguma coisa muito mais móbil que o próprio Movimento em si, pois estas coisas seriam mais atos que a Ciência em si e que o Movimento em si, que são somente potências (Aristote: 517). O sujeito zero é a trans(subjetividade) mais subjetiva do que o próprio subjetivo.  A trans-subjetividade é mais ato do que o próprio ato. As massas revolucionárias sujeito zero instituem a lógica pós-pós-modernista por serem a forma que é ato mais que a própria forma. Na cultura política revolucionária cômica, as massas sujeito zero não se autoiludem sobre a sua constituição revolucionária em forma política, ao contrário das massas burguesa e proletárias. Retomarei este problema em um novo texto em produção!  
A física historial lacaniana dá um passo à frente sem precisar dar, em seguida, dois passos atrás!
ARISTOTE. La Métaphysique. Tomo II. Paris: Librairie Philosophique J. Vrin, 1986
BAKHTIN, Mikhaïl. L’Oeuvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Âge et sous la Renaissance. Paris: Gallimard, 1970
BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna. SP: Companhia das Letras, 1995     

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