sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

BAKHTIN - TRANS-SUBJETIVIDADE CARNAVALESCA


Fazer de Bakhtin a referência de um texto sobre o carnaval tem um motivo muito simples. O livroCultura popular na Idade Média e no Renascimento trabalha com os conceitos de cultura política e trans-subjetivação das massas carnavalescas (cultura política cômica popular pública) e o fenômeno do Renascimento como trans-subjetividade de massas sujeito zero (sem sujeito) de toda uma era histórica. Mostraremos isso mais a frente.
O conceito de cultura política cômica popular é o aspecto dominado na contradialética que tem como aspecto dominante a cultura política séria (oficial) da classe dirigente. O primeiro ilumina a relação das massas camponesas sujeito-zero (sem sujeito) com o campo do poder na Idade Média constituído pela Igreja, o Império, e a societas dos guerreiros feudais. Todavia, tal societas sempre girou na órbita da cultura popular até se transformar em grande societas da corte feudal. 
Sobre a cultura popular, Bakhtin escreve: “Sob o regime feudal existente na Idade Média, esse caráter de festa, ou melhor, a relação da festa com os fins superiores da existência humana, a ressurreição e a renovação, só podia alcançar sua plenitude e sua pureza, sem distorções, no carnaval e em outras festas populares e públicas. Nessa circunstância a festa convertia-se na forma de que se revestia a segunda vida do povo. Este penetrava temporariamente no reino utópico da universalidade, liberdade, igualdade e abundância” (Bakhtin: 17).
A natureza da cultura política popular como cultura política carnavalesca se define, em primeira instância, a partir das saturnais da Antiguidade que originou “uma linguagem própria de grande riqueza, capaz de expressar as formas e os símbolos do carnaval e de transmitir a percepção carnavalesca do mundo, peculiar, porém complexa, do povo” (Idem: 19, 15). A percepção carnavalesca da realidade dos fatos faz pendant com uma autointerpretação das massas festivas da realidade do poder:
“Por isso todas as formas e símbolos da linguagem carnavalesca estão impregnados de lirismo da alternância e da renovação, da consciência da alegre relatividade das verdades e autoridades no poder. Ela caracteriza-se, principalmente, pela lógica original das coisas “ao avesso”, “ao contrário”, das permutações constantes do alto e do baixo (“a roda”), da face e da bunda, e pelas diversas formas de paródia, travestis, degradações, profanações, coroamentos e destronamentos bufões. A segunda vida, o segundo mundo da cultura popular constrói-se de certa forma como paródia da vida ordinária, como um “mundo ao revés. No entanto, é preciso sublinhar que tal paródia carnavalesca permanece distante da paródia moderna puramente negativa e formal. Com efeito, mesmo sendo negação, aquela ressuscita e renova ao mesmo tempo. A negação pura e simples é quase sempre alheia à cultura popular” (Idem: 19).
A cultura política oficial inscrevia a festa séria em um contraponto à festa cômica: “as festas oficiais da Idade Média (as da Igreja e as do Estado) não arrancavam o povo à ordem existente, não criavam essa segunda vida. Ao contrário, apenas contribuíam para consagrar, sancionar, o regime em vigor, para fortificá-lo. O elo com o tempo tornava-se puramente formal, as sucessões e crises totalmente relegadas ao passado. Na prática, a festa oficial olhava apenas para trás, para o passado de que se servia para consagrar a ordem existente” (Idem: 17-18). Neste trecho (como nos outros supracitados) não está liminarmente claro e evidente o caráter político da festa?
O lugar do riso cômico camponês sujeito zero é bem explorado na cultura política como trans-subjetividade popular. Seu choque sobre a cultura política europeia do Renascimento não foi nada desprezível:
“Com o influxo dessa nova combinação, o riso da Idade Média devia sofrer mudanças notáveis nesse grau inédito de progresso. Seu universalismo, seu radicalismo, sua ousadia, sua lucidez, e seu materialismo deviam passar do estágio da existência quase espontânea para um estado de consciência artística, de aspiração a um fim preciso. Em outros termos, o riso da Idade Média, durante o Renascimento, tornou-se a expressão da consciência nova, livre, crítica, e histórica da época” (Bakhtin: 81).
Agora, podemos avançar sobre o conceito marxista de trans-subjetividade em Bakhtin. O riso carnavalesco ocorre como processo de trans-subjetivação das massas sujeito-zero (“patrimônio do povo”). Ele é o cômico trans-subjetivo de tais massas sujeito-zero:
“Explicaremos previamente a natureza complexa do riso carnavalesco. É, antes de tudo, um riso festivo. Não é, portanto, uma reação individual diante de um ou outro fato “cômico” isolado. O riso carnavalesco é em primeiro lugar patrimônio do povo (esse caráter popular, como dissemos, é inerente à própria natureza do carnaval). Todos riem, o riso é “geral”; em segundo lugar, é universal, atinge a todas as coisas e pessoas (inclusive as que participam do carnaval), o mundo inteiro parece cômico e é percebido e considerado no seu aspecto jocoso, no seu alegre relativismo; por uso, o ritmo é ambivalente: alegre e cheio de alvoroço, mas ao mesmo tempo burlador e sarcástico, nega e afirma, amortalha e ressuscita simultaneamente” (Idem: 20).
Não é fácil perceber que a cultura política das massas carnavalescas é o reverso da trans-subjetividade totalitária da cultura política do sério?
O conceito de trans-subjetividade é a lacuna completada que torna a releitura de Bakhitin como um artefato do século XXI. Para interpretar o Renascimento, ele é indispensável. O Renascimento não foi o resultado da cultura intelectual europeia (massas intelectuais restritas ou biografias intelectuais individuais), mas da cultura política intelectual (massas intelectuais ampliadas compreendidas aí também as massas sujeito-zero populares):
“Claro, Burdach está inteiramente com a razão quando se recusa a originar e explicar o Renascimento a partir de fontes eruditas e livrescas, de investigações ideológicas individuais e “esforços intelectuais”. Ele está certo também em afirmar que o Renascimento foi preparado durante a Idade Média (sobretudo no século XII), e que a palavra 'renascimento' não significava absolutamente 'renascimento das ciências e das artes da Antiguidade'. Pois, ele tinha uma significação mais ampla e prenhe de sentido, imerso suas raízes nas profundidades do pensamento ritual e espetacular, metafórico, intelectual e ideológico da humanidade” (Idem: 66) condensado na cultura política carnavalesca das massas sujeito-zero.
Como massas sujeito-zero, a cultura política camponesa carnavalesca faz a interseção do território existencial trans-subjetivo campo/cidade. Farei mais uma citação longa para o leitor que se aventurar a ler Bakhtin poder cotejar a leitura da física historial eraclitiana com o texto original:
“ Já afirmamos que as celebrações carnavalescas ocupavam um importante lugar na vida das povoações medievais, inclusive do ponto de vista da duração: nas grandes cidades se estendiam por três meses por ano no total. A influência da concepção carnavalesca do mundo sobre a visão e o pensamento dos homens era radical: obrigava-os a renegar de certo modo a sua condição social (como monge, clérigo ou erudito) e a contemplar o mundo de uma perspectiva cômica e carnavalesca. Não apenas os escolares e os clérigos, mas também os eclesiásticos da alta hierarquia e os doutos teólogos permitiam-se alegres distorções durante as quais repousavam de sua piedosa gravidade, como nos casos dos “jogos monacais” (Joca monacorum), título de uma das obras mais apreciadas da Idade Média. Nas suas celas de sábios, eles escreviam tratados mais ou menos paródicos e obras cômicas em latim” (Bakhtin: 21-22).
Peter Burke é um estudioso da cultura popular moderna da universidade britânica. Seu livroCultura popular na Idade Moderna foi um best-seller na universidade brasileira. Tal livro foi a obra de uma máquina de guerra de pensamento inglesa (do discurso da universidade) para domesticar e capturar para a cultura política intelectual mundial o discurso da contramáquina de guerra de pensamento marxista russa bakhtinana. A operação consistiu em quebrar o laço social ente as massas camponesas sujeito zero e o carnaval revolucionário. Ou seja, a operação consistiu em negar o carnaval como cultura política popular revolucionária. Isso ele faz com a problematização do carnaval assim: “Controle social ou protesto social” (Burke: 223-228). Porém, Peter reconhece a natureza trans-subjetiva das massas sujeito zero carnavalescas: “Nas grandes festas urbanas, as multidões se engrossavam com os camponeses locais, que vinham à cidade para não perder as diversões” (Burke: 203).
Da era da ditadura militar, a influente (na cultura jornalística de papel e na tela eletrônica) teoria antropológica dos carnavais, malandros e heróis brasileiros é também uma máquina de guerra de pensamento contrarrevolucionária que, mesmo se alinhando com a sociologia e a antropologia ecléticas de Oliveira Vianna e Gilberto Freyre, não consegui perceber o essencial da realidade brasileira. Trata-se da articulação do carnaval brasileiro como cultura política popular cômica em uma Banda de Moebius com o envesso da cultura política oligárquica e de seu permanente estado de guerra oligárquico.           
Olhar para o carnaval como uma festa revolucionária das massas sujeito-zero da história universal não é algo absurdo ou irreal. Isto serve para começar a discussão sobre a contemporaneidade do século XXI. Peter Burke trabalha com a ideia de que o carnaval popular é um simulacro de revolução (protesto popular). Ao contrário, as massas populares sujeito zero não se coaduna à lógica do simulacro. Também ao contrário da visão corrente, as massas sujeito zero não são uma potência (um contrapoder) contraditória de contraditórios. Ela não é algo da dialética da contradição ontológica platônica. Ela é o se pensa e o se pensou em ato. Ela ex-siste em ato na conjuntura. Na física aristotélica, o sol é eterno, pois não morre; é incorruptível. O sujeito zero é incorruptível, pois é parte da contradialética da história universal do discurso do mestre. Hoje, se sabe que o sol é corruptível; mas as massas sujeito-zero são incorruptíveis enquanto a história for a história do discurso do senhor.
Lendo o sujeito zero por Aristóteles, isto ilumina o campo da  trans-subjetividade pós-pós-modernista. Nesta a forma é ato, ou seja, realidade do real. Aristóteles fala de uma lógica na qual existiriam ideias mais sábias que a Ciência em si (ciência dos múltiplos sentidos do ser). Existiria alguma coisa muito mais móbil que o próprio Movimento em si, pois estas coisas seriam mais atos que a Ciência em si e que o Movimento em si, que são somente potências (Aristote: 517). O sujeito zero é a trans(subjetividade) mais subjetiva do que o próprio subjetivo.  A trans-subjetividade é mais ato do que o próprio ato. As massas revolucionárias sujeito zero instituem a lógica pós-pós-modernista por serem a forma que é ato mais que a própria forma. Na cultura política revolucionária cômica, as massas sujeito zero não se autoiludem sobre a sua constituição revolucionária em forma política, ao contrário das massas burguesa e proletárias. Retomarei este problema em um novo texto em produção!  
A física historial lacaniana dá um passo à frente sem precisar dar, em seguida, dois passos atrás!
ARISTOTE. La Métaphysique. Tomo II. Paris: Librairie Philosophique J. Vrin, 1986
BAKHTIN, Mikhaïl. L’Oeuvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Âge et sous la Renaissance. Paris: Gallimard, 1970
BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna. SP: Companhia das Letras, 1995     
                         

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