segunda-feira, 23 de novembro de 2015

LACAN/CRISTIANISMO


O discurso do mestre funciona como real, como lógica fáctica=mito (Lacan. S. 18: 25). Ele não para de não se inscrever assim como os outros impossíveis freudianos: psi(analisar), educar, governar. Admitindo o contraconceito de mito como direito ou avesso do ritual na banda de Moebius, ou seja, onde esse direito e avesso estão em continuidade (Lacan. S. 18: 63); considerando que exorcismo como um conjunto de atos e práticas próprias de uma cerimônia ritualística no discurso do mestre religioso para conjurar a possessão demoníaca do corpo do católico (mito=real), então, o mito pode ser associado à lógica fáctica que não para não de se inscrever. Ele só não para de não se inscrever no funcionamento dele como semblante: ele só funciona pela lógica do simulacro de simulação.
A relação da integração da lógica do simulacro ao inconsciente político é um artefato da contraepisteme do discurso do físico que será explicado em um outro lugar. Ao centrar-se como impossível, um discurso, por seu efeito, terá alguma chance de ser um discurso que não fosse semblante (Idem: 21). Como impossível de funcionar no campo simbólico, o discurso do inconsciente advém no real e não funciona pelo simulacro de simulação: realidade-semblante baseada no saber do mestre/escravo. O discurso do físico é uma espécie de discurso do inconsciente, pois tal inconsciente é o inconscientenietzschiano mestiço cuja lógica de funcionamento é natural. Trata-se do real da biologia associada à lógica demográfica. No discurso do físico, a verdade não é uma estrutura simples de ficção (Lacan. S. 16: 186). Trata-se de uma ficção do tipo da estética de Marx (tragédia histórica ou comédia histórica) constitutiva da história e não-mitológica, ficção que funciona pela lógica do contrasignificante que articula a história. Este enunciado não vai de encontro ao axioma lacaniano intransponível, a saber: “A escrita, a letra, está no real, e o significante, no simbólico” (Lacan. S. 18: 114).  
Para além da episteme da psicologia freudiana (episteme sexualis), encontra-se a episteme lacaniana da impossibilidade da relação sexual, pois a relação sexual não encontra a sua escrita na relação de gozo sexual homem/mulher. O que interdita tal gozo sexual é o estado de caos no qual nasce tal fenômeno: gozo mortal. Tal gozo é o da relação da criança com a mãe: “E só se liga à dimensão do sexual ao transpor essa interdição para o corpo da do qual saiu o próprio corpo, ou seja, o corpo da mãe. É somente por aí que se estrutura, que se liga no discurso aquilo que é a única coisa que pode introduzir a lei, a saber, o que se dá no gozo sexual“ (Lacan. S. 18: 101).
O discurso do mestre captura a criança do caos narcísico da relação que se constitui pelo desejo da criança fazer a junção com a mãe. A estrutura remete para a castração como lei (phallus). Isso se daria a nível do inconsciente freudiano. Em uma superposição com este, o inconsciente nietzschiano faz deslizar a relação criança/mãe para a cultura política lacaniana. No lugar da mãe entra o das Ding, a Coisa como Urstaat. O desejo narcísico de junção com a mãe torna-se o processo de identificação do sujeito com o Urstaat. O narcisismo do sujeito significa a imbecilidade dele (Idem: 96) como indivíduo no discurso do mestre na medida em que a identificação narcísica do sujeito como o Urstaat remete para este como semblante de tal discurso. O Urstaat é o semblante da Mãe (Coisa, das Ding). “A estrutura é tal que o homem em si, do modo como ele funciona é castrado”. O homem é uma estrutura (totalidade) enquanto castrado. “A mulher, ela não em nada a ver com a lei”; ela não existe, pois só a lei determina a existência do sujeito (castrado). A mulher é não-todo, multiunidade, ou seja, condição para a não existência do gozo sexual, pois Mulher só pode significa originalmente, arcaicamente, Mãe: gozo mortal. Trata-se do grau zero do sujeito. Ao se constatar que o gozo sexual não pode ser escrito, disso “resulta a multiplicidade estrutural, para começar, a tétrade (Idem; 100), do discurso do mestre. A transformação da junção narcísica da criança/mãe no caos que faz pendant com o inconsciente freudiano em identificação narcísica sujeito/Urstaat no inconsciente nitzschiano não põe e repõe o problema do sentido para além da episteme política da psicologia freudiana? Será que a relação sujeito/Urstaat não é o simulacro de estrutura original, arcana (criança/mãe). Só assim pode-se falar de hiperestrutura, ou seja, da estrutura que é mais estrutural que a própria estrutura! A estrutura arcana é como a linguagem matemática onde o sentido não habita!
O contraconceito é estabelecido pela lógica da contradição, ou seja, escândalo (Lacan. S. 18: 96). Na estrutura arcana, Maria é o semblante e Cristo-criança o pequeno canibal divino que bebe o leite = (carne) da Mãe. Isso é o real, é fáctico, além de ser artefático! Ele é o referente, o real, da linguagem da cultura política cristã, um referente construído (Lacan. S. !8: 43) na relação sujeito/objeto a. Lacan introduziu o conceito de objeto a para designar um objeto desejado pelo sujeito e que se furta a ele a ponto de não ser representável, ou de se tornar um “resto” não simbolizável; conceito de mais-de-gozar associado ao real. Ele aparece como de forma fragmentada através de quatro objetos parciais desligados do corpo: seio (objeto de sucção), as fezes (matéria fecal), e a voz e o olhar, objetos do próprio desejo.  Na física freudiana da história, a relação de objeto articula o mundo externo na superposição do inconsciente freudiano com o inconsciente nietzschiano. Para entendermos isso, é preciso esquecer a ideia de que um objeto pressupõe um sujeito, e por consequência é apenas uma representação (Schopenhauer: 128). E articular a noção de objeto à noção de força ligados a construção dos fenômenos no tempo e no espaço. E no caso da sociedade humana, tal força não tem importância sem a vontade na minha leitura de Schopenhauer: “todo o acto real de nossa vontade, é, ao mesmo tempo, e infalivelmente, um movimento de nosso corpo; nós não podemos querer realmente um acto, sem constatar no mesmo instante, que ele aparece como movimento corporal” (Idem: 133): criança sugando o sei; a relação arcana com o grotesco produzido pelo cheiro da merda; a função escópica do hipergozo narcísico; a voz-sugestão de quem balança o berço.
O sentido dos termos vem depois de sua criação (Lacan. S. 18: 60); ele é feito pelo laço social de massas (cristã).  Na eucar(i)stia ou (eu)car(e)stia, o real é integrado ao inconsciente nietzschiano cristão através de um ritual que é a escritura cristã (mito escrito no Evangelho) da impossibilidade da relação sexual da comunidade cristã com  Cristo-Maria. É preciso ler a estrutura em suas impossibilidades (Idem: 91). O sentido do ato sexual é a castração? Saussure tem razão em qualificar o significante como arbitrário. Na história universal o significante Cristo-Maria é arbitrário. Mas ele adquire pleno sentido no discurso do físico. Em sua história, Foucault parece dissolver a ideia de Cristo como substituto do pai, como interdição: “A pastoral cristã inscreveu, como dever fundamental, a tarefa de fazer passar tudo que se relaciona com o sexo pelo crivo interminável da palavra. A interdição de certas palavras, a decência das expressões, todas as censuras do vocabulário poderiam muito bem ser apenas dispositivos secundários com relação a essa grande sujeição: maneiras de torná-la moralmente aceitável e tecnicamente útil” (Fouacult. 1976. v I: 30). A pastoral cristã procurava produzir efeitos específicos sobre o desejo que seria parte da episteme sexualis ocidental moderna: “mas, sobretudo, focalizou-se o discurso no sexo, através de um dispositivo completo e de efeitos variados que não se pode esgotar na simples relação com uma lei de interdição” (Idem: 32). Tal episteme sexualis moderna se torna no século XVIII um problema “policial”: “Mas no sentido pleno e forte que se atribuía então a essa palavra: não como repressão da desordem e sim como majoração ordenada das forças coletivas e individuais” (Idem: 35). Trata-se da polícia do sexo, isto é, da necessidade de regular o sexo por meios de discursos úteis e públicos e não pelo rigor de uma proibição (Idem: 35). Na conjuntura secular que reinventa a episteme sexualis (atividades para suscitar os discursos sobre o sexo) encontram-se a partir do século XVIII e XIX inicialmente a medicina, depois a psiquiatria (Idem: 42).
No século XX, o freudismo não se resume ao discurso sexual, mas em acabar de fabricar a episteme política sexualis da psicologia do indivíduo: homo clausus sexualis. Lacan procurou desfazer tal episteme com a ideia de que a relação sexual não é inscritível. Isso é diferente de ser enunciada na linguagem: “Guarde-se a ideia, por exemplo, de que eu digo que a relação sexual fracassa ao ser enunciada na linguagem. Mas, justamente, o que eu disse não foi enunciada, e sim inscritível. Se digo inscritível é porque o exigível para quase haja função é que, pela linguagem, possa produzir-se algo que seja expressamente a escrita, como tal, da função. Trata-se desse algo que já lhes simbolizei, mais de uma vez, da maneira mais simples, que é esta, F, numa certa relação com x, ou seja, F(x) (Lacan. S. 18: 123). A relação sexual não existe porque não é inscritível não significa que a relação sexuada não exista. Ao enunciar que a linguagem não chega a intersignificação  da relação sexual, o que isso quer dizer? A intersignificação é a inscrição efetiva da relação sexual na medida em que ela relaciona dois polos que se intitulam homem e mulher, sendo esses polos sexos respectivamente especificados pelo masculino e pelo feminino em quem, em quê? “Num ser que fala, ou dito de outra maneira, um ser que, habitando a linguagem, extrai dela um uso que é o da fala” (Lacan. S. 18: 123). A intervenção lacaniana não parece ter desintegrado a episteme sexualis freudiana nem no consultório (dispositivo freudiano) onde deveria funcionar o discurso do analista. O progresso da lógica lacaniana (a via inscrita dela) parece bloqueado no sistema de ficção da cultura política dos países onde a episteme freudiana está mais desenvolvida. Voltaremos a esse tema mais adiante.
Se a verdade progride pela estrutura de ficção (que é a essência mesma da linguagem), o progresso da lógica lacaniana não se inscreveu no sistema de ficção da cultura política onde habita, em última instância, a episteme política sexualis. Para desintegrar a episteme sexualis, a episteme política lacaniana teria que funcionar como fantasia na cultura em si, na cultura universitária e na cultura política eletrônica que atualiza, no século XXI, a episteme da psicologia freudiana do indivíduo. Por quê? Este fenômeno de desintegração do freudismo deve atingir o sujeito da cultura política: “aquele que é divido na fantasia – isto é, na realidade tal como se engendrada por uma estrutura de ficção” (Lacan. S. 18: 125).                              
Na contraepisteme da física freudiana, na estrutura arcana, Cristo é o sujeito arcano (falta de eu) e Maria a Mulher arcana que é a prova de que A Mulher é também uma impossibilidade discursiva como gozo mortal para o sujeito. O mito escrito arcano cristão pode muito bem passar pela inscrição do que acontece com relação sexual: impossível freudiano. A carestia é o ritual-mito da falta de eu na comunidade cristã na medida em que o cristão está integrado ao inconsciente nietzschiano cristão. O eu monádico é um fenômeno do discurso do homo clausus, ele é na sua forma acabada um significante da cultura individualista moderna; é um eu laico. Para a modernidade, ele é biograficamente o centro tático da lógica do sentido. O chiste repousa precisamente sobre o não sentido. Por isso, a episteme da física freudiana não é moderna. Lacan parece desfechar um golpe de misericórdia na episteme sexualis relacionando-a com a estrutura de ficção existente em determinadas culturas política e épocas. A lei sexual no lugar da relação sexual impossível é:
“uma lei que é coerente em todo registro do que se chama desejo e do que se chama proibição. É da própria hiância da proibição inscrita que decorre a junção – ou até a identidade, como ousei enunciar – desse desejo com essa lei. Em termos correlatos, tudo que é da alçada do efeito de linguagem, tudo que instaura a diz-mensão da verdade, coloca-se a partir de uma estrutura de ficção” (Idem: 63). Portanto, a estrutura arcana não é o lugar que habita a vontade-desejo, mas a vontade-ato (Frajman: 225) do animal despótico infantil divino? A identidade de Cristo com Maria é óbvia. A mãe perdoa a criança (a alma) incondicionalmente. O pai é a lei, ele não pode (almar) perdoar incondicionalmente. Ele não pode perdoa a possibilidade da realização do desejo de incesto materno. Cristo alma a humanidade (criança) incondicionalmente e concebe o perdão para os pecadores. Ele não é idêntico ao pai! Ele é das Ding, ele é, no inconsciente do discurso do mestre (inconsciente ariano) o Urstaat que perdoa o desejo de incesto estatal.  O Urstaat não é a lei no sentido de Freud. Ele é essencialmente um aparelho de captura simbólica das massas (para retirá-las do estado de loucura) e o uso da violência sem limite que está para além da episteme da psicologia freudiana. Na episteme da física freudiana da história, ele é a mãe narcísica mortal que quer assassinar o filho ainda na barriga. A igreja católica não teve seus momentos de mãe narcísica mortal ao existir como máquina de guerra psicótica terrorista na era feudal europeia? No Esquecer Foucault, Baudrillard colocou o poder e o sexo na superfície do simulacro de simulação. Eles deixariam de existir como realidade do real na era da cultura política pós-modernista. Agora, entramos na era da cultura política pós-pós-modernista onde sexo e poder são restaurados como contrasignificantes da contraciência lacaniana da política!  
A relação do cristão com o Cristo-Maria não põe e repõe na cultura política cristã a problemática do phallus na eucaristia? A lei do incesto materno diz que o filho não pode habitar sexualmente a cama da mãe (Lacan. S. 18: 148-149). Este é o objeto de Sófocles da transsubjetividade trágica do Édipo Rei. Isso é o contrato social da cultura política associado à superposição inconsciente freudiano/inconsciente nietzschiano. A interdição do incesto encerra na cultura política o gozo absoluto do animal despótico: pai da horda primitiva (Idem: 149); criança divina despótica. O animal despótico é o falo absoluto, o phallus arcano da junção do sujeito com o Urstaat = (animal despótico) que não aparece no mito da fundação da cultura política no Totem e Tabu, mas que é estabelecido como phallus totalitário na física freudiana. Na psicologia de grupo (mito da horda primitiva) o animal despótico é um ser inteiramente mítico; ele não tem mãe; ele surge ex nihiloem relação à natureza humana. Assim, a única possibilidade de incesto é com o Urstaat, incesto estatal como fantasma do futuro do inconsciente ariano.
Na eucaristia, o cristão faz a junção com o Cristo. Este gozo do cristão com o Cristo-Urstaat não significa que a igreja é um aparelho de captura dos cristãos? O Outro = falo= semblante da castração não ex-iste na cultura política cristã (Lacan. S. 18: 143). A cultura política cristã desconhece o mito do Édipo como contrato social da cultura política ocidental. Como garantia da casa real (Estado no sentido de Marx e Engels = aparelho de dominação de classe pela violência sem limite sobre a população), o gozo do povo significa castração do phallus totalitário: “E a castração do Édipo não tem outro objetivo senão pôr fim à peste tebana, isto é, devolver ao povo o gozo de que outros passarão a ser os garantes, o que, é claro, visto de onde parte, não ocorrerá sem algumas peripécias amargas para todos” (Idem: 149). Édipo é a figura do tirano castrado, o rei como grau zero da existência do animal despótico na cultura política grega da politeia. O zoon politicon (homem=animal político) não é o animal despótico (Aristoteles: 778). É bem conhecida a distinção entre o poder real (poder justo ou legítimo) e o poder despótico do tirano: pode injusto, ilegítimo. Como animal político castrado, Édipo é articulação mitológica da cultura política baseada no gozo do povo, que é um gozo recalcado pela lei que estabelece o Outro=phallus=semblante. A castração significa que o povo-grego não deve desejar realizar a satisfação da relação sexual com o Urstaat que está no horizonte da polis como cultura política que articula forma de governos ilegítimos, governos baseados na vontade de domínio (Aristoteles: 770) do phallus totalitário:  tirania, oligarquia e democracia despótica (Idem: 781). Apesar de toda a dramaticidade funcionado na cultura política cristã, a relação do sujeito cristão com o Cristo-Maria (uma cadeia metonímica que parte da Mãe, passa por das Ding, Coisa, e alcança oUrstaat) não se remete para a estética do trágico: “No Cristianismo é como se Deus dissesse ao homem: Não representeis uma tragédia, isto é, não ponhais em cena, na terra, o céu e o inferno. O céu e o inferno são um assunto meu” (Wittgenstein. 1980: 30). A relação da criança com mãe não é uma tragédia, assim como também não o é a relação do sujeito político com o Urstaat. O incesto materno e o incesto estatal não se constituem como significantes possíveis de serem abduzidos pelo trágico! O laço do RSI feito pelo Nome-do-Pai (metáfora patena) está além do mito de Sófocles. Ele seria a possibilidade da polis como comunidade de homens livres. Esta estrutura já não se contém no laço freudiano da psicologia do indivíduo do RSI que articula as comunidades neurótica, psicótica e perversa. Estas comunidades existem em função de uma superposição entre o inconsciente freudiano e o inconsciente nietzschiano. Tais comunidades são comunidades políticas articuladas como pathos, pois são criadores de máquinas de guerra psicóticas e articuláveis e articuladoras da cultura política totalitária. A investigação sobre a possibilidade histórica de comunidade normal [Aristóteles a pensou partir da ética da cidade-estado (ethos) ou polis (politeia)] está na primeira fundação do campo da física lacaniana da história. De qualquer modo, a comunidade normal é a comunidade dos homens livres como concebeu Bakunin: “Toda educação racional nada mais é, no fundo, do que a imolação progressiva da autoridade em proveito da liberdade, onde esta educação tem como objetivo final formar homens livres, cheios de respeito e de amor pela liberdade alheia” (Bakunin: 44).  
Na Espanha existiu uma comunidade de homens livres e normais que fez o laço RSI do Nome-do-Pai que se desintegrou na crise espanhola na qual a máquina de psicótica franquista tomou o poder: “Al provocar aquellos luctuosos sucesos, los provocadores se habían propuesto confirmar el grado de impunidad de sus futuras ofensivas contrarrevolucionarias. La racción entre los militantes anarquistas nacía del presentimento que tenían de un descenso vertiginoso de su influencia como Movimento. Efectivamente, lo que siguió desde el mes de mayo de 1937 es una demolición sistemática delas posiciones anarquistas heroicamente conquistadas al 19 de julio” (Peirats: 307). A ideia de homem livre e normal já se encontra em Platão que associa sua possibilidade ao conceito da polis livre constituída por homens livres e normais (o homem “senhor de si”) que é o avesso do homem escravo de si mesmo e um intemperante. Este homem só ex-iste na polis como cidade senhora de si mesma, se as palavras “temperança” e “autodomínio” realmente expressarem realmente o domínio da parte melhor da polis sobre a pior. Platão (Sócrates) pensa a razão e o campo dos afetos como aliados para dominar o instinto de morte e ahybris narcísica no indivíduo e na cidade; “- Ao passo que os afetos mais simples e moderados, aqueles que a razão guia com sensatez e critério, são encontrados em alguns poucos, que são os de melhor índole e educação. E não vês que ambas essas coisas existem também na cidade, onde os apetites mais baixos de muitos são sujeitados pelos desejos virtuosos e pela sabedoria dos poucos? Só há pois, uma cidade a que se possa chamar senhora de seus apetites e desejos, e senhora de si mesma, é a nossa que com justiça merece tais títulos” (Platão: 149). Tal polis ex-iste como uma comunidade de homens livres e normais, pois homem é um efeito do dizer da cidade, pois o sujeito é o efeito do dizer do discurso da politeia (Lacan, 2003: 473); ele é um artefato como laço Nome-do-Pai do RSI. A física lacaniana da história pensa tal homem grego e tal polis como possibilidade de uma comunidade passar do mito (dominus das energias instinto de morte e narcisismo em uma história mitológica)) para a história em si. Isso é possível se concebermos a razão e o campo dos afetos dominando as energias pulsionais da superposição do inconsciente freudiano com o inconsciente nietzschiano, ou seja, político.
Certamente é preciso dissolver (esquecer), então, o homo clausus (axioma da episteme moderna) da psicologia do indivíduo. Platão não diz que o aparelho psíquico é normal, mas que é possível a existência do homem e da polis senhores de si, senhores da alma agitada, permanentemente, seja pelo inconsciente freudiano, seja pelo inconsciente nietzschiano. Assim, a crítica de Lacan ao significante normal só atinge a episteme moderna da psicologia do homo clausus; “O triste é que o psicólogo, por não alicerçar seu setor senão na teologia, quer que o psíquico seja normal, mediante o que elabora aquilo que o suprimiria” (Idem: 455). É possível conceber o normal da física da história a partir do normal da física teórica: “Longe de poder se assimilada a um comportamento irregular, a epilepsia caracteriza-se, pelo contrário, por uma “regularidade” grande demais da atividade cerebral...A “desordem mental” apareceria, deste ponto de vista, como a situação fisiologicamente normal” (Prigogine & Stengers1992: 88). Na polis, o normal é a comunidade de homens livres e normais!
Na história da episteme da psicologia do indivíduo, a comunidade dos neuróticos tornou-se soberana. Ela assume o semblante de uma comunidade de homens livres e normalizados. Como isso é possível, se o neurótico se define pela invenção de meios para evitar a castração? A castração é o que permite a relação sexual. Trata-se do parceiro como aquele que responde no lugar do falo (Lacan. S. 18: 163). Os indivíduos fazem sexo, mas isso é impossível de ser simbolizado: “Eu insistia, antes, em que die Bedeutung des Phallus é, na realidade, um pleonasmo. Não há na linguagem outra Bedeutung senão o falo. A linguagem, em sua função de existente, só conota, em última análise, a impossibilidade de simbolizar a relação sexual nos seres que habitam essa linguagem, em razão de ser a partir desse habitat que eles sustentam a fala” (Idem: 139). Falar significa a divisão irremediável entre o gozo e o semblante. O semidito da verdade é gozar de fazer semblante (Idem: 141). Lacan pensa a episteme sexualis sustentando a ex-istência da relação sexual como articuladora de laço social? Ela sustenta essa aparência para que a comunidade dos neuróticos se apodere do semidito da verdade que é gozar de fazer semblante com a relação sexual. Para a comunidade dos neuróticos, evitar a castração passa pelo acontecimento de que a relação sexual pode ser simbolizada através da lógica do simulacro de simulação. Tal comunidade não pode ser articulada como uma comunidade de homens livres e normais, mas também não é concebida como miséria sexual, simplesmente. O falo-semblante é a lei que articula o sujeito na cultura política onde a relação sexual (junção do sujeito com das Ding ou Coisa) entre a criança e a mãe é bloqueada no inconsciente freudiano como impossível de ser simbolizada; onde a junção do sujeito com o Urstaat é bloqueada, pois ela é impossível de ser simbolizada. O falo-semblante é a lei da articulação do laço social de uma comunidade de homens livres do real (fáctico) que significa a impossibilidade de simbolizar a relação sexual.
Até agora, o significante-mestre do discurso analítico é o Nome-do-Pai. Nele, o pai é o nome que implica essencialmente a lei. Ele concebe que a reprodução da espécie humana se produz sem nenhuma forma de intervenção designada sob o nome de Nome-do-Pai (Idem: 161). A relação sexual não sustenta a história da comunidade neurótica como história natural. Ela não faz esse laço RSI.  Se a episteme sexualis faz da ex-istência da relação sexual um simulacro de simulação, o dominus da comunidade dos neuróticos na história universal é da ordem artificial. A ex-istência da relação sexual não é um axioma que faz da história moderna uma história mitológica? Assim, a episteme sexualis não se torna um dispositivo de saber/poder que liga a comunidade dos neuróticos ao dominus do inconsciente ariano sobre a história moderna? Esses são os modos realmente existentes da comunidade dos neuróticos evitar a castração, evitar que ela seja articulada pela lei Nome-do-Pai! O essencial é articular o Nome-do-Pai nas culturas políticas. Lacan faz a articulação dele na cultura política judaica. Heidegger concebe que a metafísica “nunca consegue nem mesmo apenas estabelecer uma decisão quanto a Deus” (Heidegger.2000: 108), mas Lacan pensa Deus na relação com o Nome-do-Pai na realidade do real da cultura política: “que pouco a pouco habituei vocês a ouvir, a saber, que um Deus, isso se encontra no real” (Lacan. 2005: 78). O Nome-do-Pai como um significante da cultura política remete, portanto para a história mitológica hebraica: “O Deus que se anunciou a Abraão, Isaac e Jacó o fez sob um nome pelo qual o Eloim, da sarça ardente, o chama, e que escrevi no quadro. Isso se lê El Shaddaí” (Idem: 78). Este seria o nome para o ente mais elevado, ente primeiro, ente originário, a coisa-originária (causa)? O ente que condiciona todo ente em seu ser? Se visitarmos o cristianismo, Θεός (Deus) é o nome para o ente mais elevado. O ente significa algo presente, pro-duzido. Deus é o ente primeiro, o ente-originário, a coisa-originária (causa/REAL); o ente que condiciona todo ente em seu ser.  A concepção cristã da criação introduz-se então na interpretação pré-configurada e demiúrgica do ente (artesanal e produtora) “e esta concepção é com isto transportada para a entidade enquanto subjetividade” (Heidegger. 2000: 110), isto é, como um artefato da cultura política cristã.
A cultura política hebraica é a superação, pela comunidade, da episteme metafísica-sexual do discurso do mestre sagrado que se inclina para a junção do sujeito com das Ding, coisa-originária, ente originário, , Θεός (Deus)? Lacan acredita que sim:
“Marca-se aqui o gume da faca entre o gozo de Deus e o que, nessa tradição, presentifica-se como seu desejo. Aquilo de que se trata de provocar a queda é a origem biológica. Aí está a chave do mistério, em que se lê a aversão da tradição judaica a respeito do que existe por todo lado. O hebraico odeia a prática dos ritos metafísico-sexuais que na festa, unem a comunidade ao gozo de Deus. Valoriza, ao contrário, a hiância, que separa desejo e gozo!” (Lacan. Nomes do Pai. 2005: 85). O leitor pode usar a eucaristia para pensar a diferenciação entre as culturas políticas judaica e cristã. As duas constituem a história mitológica ocidental com uma clara bifurcação. A comunidade judaica não é uma comunidade religiosa como versão da comunidade laica de homens livres e normais?
Lacan não avançou da subjetividade para a transsubjetividade. Marx a pensou na introdução do Manifesto do Partido Comunista com o conceito de fantasma na fórmula “Um espectro ronda a Europa, o espectro do comunismo”. O fantasma comunista liga a subjetividade da biografia individual à transsubjetividade das massas comunistas. Ele é uma forma-força que passa do estado de vapor para sólido em uma conjuntura histórica mundial. Em 1848, o comunismo é o fantasma a partir do qual se pode ver a revolução do século XIX. Tal revolução é a prática do fantasma do futuro: sociedade comunista.

Em 2015, o fantasma mundial é o islã político. Ele é um die sache ameaçador, ele agencia o medo do ocidental. O fantasma do comunismo na França de 1848 serviu como alavanca para a constituição do bonapartismo. Este desfechou um golpe de Estado destruindo a República Democrática e que construiu o Império bonapartista. Em novembro 2015, o fantasma islâmico (terror do Estado Islâmico) foi a causa imediata da implantação do estado de exceção na França governada pelo Partido Socialista. Um novo tipo de Estado aparece no horizonte da atual conjuntura mundial associada à transsubjetividade islâmica. Trata-se do Urstaat-Okhrana mundial!      

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