domingo, 22 de novembro de 2015

LACAN E BAUDRILLARD (SEGUNDA PARTE)


A grande máquina cortesão faz um uso sem limite da violência simbólica com a finalidade de desintegrar o objeto em tela; a pequena máquina cortesã faz um uso limitado da violência simbólica cuja finalidade é diminuir a força mítica do objeto.
O tropos supracitado desfaz o reducionismo freudiano como alta concentração de energia narcísica na psicologia do indivíduo do homo clausus. Ele já remete para o Lacan do RSI (Real/simbólico/Imaginário), da episteme política e da teoria dos 5 discursos. O significante amor cortês não é um objeto do homo clausus na medida em que sua estrutura pode ex-istir como fenômeno em distintas culturas políticas de diferentes geoistórias como acumulação, desacumulação e distribuição da energia mítica narcisismo. O significante constituído como estrutura/fenômeno que fazem laço social por uma lógica do sentido é apresentado como algo possível na história biológica:
“Como explicar a transição entre uma história de tipo “química”, em que se sintetizam moléculas individuais , e uma história “biológica”, em que essas diferentes sínteses se tornam interdependentes, em que as moléculas não são mais apenas estruturas complexas particulares, mas agentes cuja existência remete à atividade de outros agentes e cuja atividade é necessária a existência destes últimos? Como passar da ideia de “condições gerais de síntese”, do tipo que os químicos manipulam, para a de “informação”, para a de “mensagem” que constitui uma molécula para outras moléculas? Como é que que diferentes biomoléculas ganharam sentido umas com relação às outras” (Prigogine/Stengers: 90). O leitor pode observar aqui a articulação do campo freudiano com a física integrada à cultura política intelectual da informação!
Para abordar esta fuga do reducionismo freudiano é prudente abordar a questão do erotismo e da miséria narcísica. Mas antes trataremos da relação do amor em si com o amor cortês.
Com Erasmo, o narcisismo está contido na fórmula: “Não tens quem te elogie? Elogia-te a ti mesmo”: amor por si. No entanto, Platão já definira o amor em si como o desejo da totalidade (Platão: 205). Lacan parece articular Erasmo, Platão e cultura política cristã (São Tomás) para chegar a uma fórmula acabada sobre o narcisismo:
“O primeiro ser de que temos o sentimento, é nosso ser, e tudo que é para o bem do nosso ser será, por isso, gozo do Ser Supremo, quer dizer, Deus. Para dizer tudo, amando a Deus, é a nos mesmos que amamos, e ao nos amarmos primeiro a nós mesmos – caridade bem ordenada, como se diz – fazemos a Deus a homenagem que convém” (Lacan. S. 20: 96). Assim, o narcisismo é o desejo pela totalidade (do Simbólico, do Universal) como espelho do amor de si, amor narcísico em uma determinada cultura política: cristã. Lacan pensa o narcisismo na articulação indivíduo e Grande Outro, isto é, para além do Imaginário. O narcisismo é um laço simbólico indivíduo-sociedade. Por outro lado, desvincular o narcisismo da axiomática sexual e da mitologia sexual freudianas não é ir além do campo freudiano preso a articulação sexo-poder? (Baudrillard: 11, 10). O Lacan tardio não é exterior à cultura política freudiana narcísica do phallus?: “A sexualidade é essa estrutura forte, discriminante, centrada no falo (phallus), a castração, o nome do pai, o recalque” (Idem: 10). A modernidade tem como dominus a cultura narcísica do phallus que articula a comunidade dos neuróticos como centro da política mundial. O homo clausus é o centro estratégico dessa cultura política condensando a energia narcísica que sustenta o laço RSI como episteme política moderna. Em Freud, trata-se da psicanálise como psicologia do indivíduo. Na cultura moderna, trata-se da questão do individualismo. Antes de entrarmos neste deserto, o recalque no indivíduo ex-iste em uma determinada cultura política como articulação entre poder e soberania. A sexualidade é estrutura forte da comunidade dos neuróticos articulada pela cultura política narcísica freudiana. Mas existe a possibilidade de outras culturas políticas não-fálicas? Seria viável uma cultura política intelectual concreta que tenha como centro tático o poder do feminino como sedução? (Idem: 11). Ou uma cultura articulada a partir do grau zero da estrutura neurótica onde não existe feminino ou masculino?
Qual a relação entre axiomática sexual, narcisismo e amor cortês? Para Lacan, o amor cortês é uma maneira inteiramente refinada de suprir a ausência de relação sexual, fingindo que somos nós que lhe pomos obstáculo. O fingimento é a solução narcísica do amar a Dama como espelho do amor por si no campo do grande Outro (discurso do mestre, Deus na cultura cristã). Na elaboração de Lacan, isso é quase claro, pois é preciso observar o amor cortês: “como ele se enraíza no discurso da fieldade, da fidelidade à pessoa. Este último termo, a pessoa, é sempre o discurso do Senhor, do Mestre. O amor cortês é, para o homem, cuja dama era inteiramente, no sentido mais servil, a sujeita, a única maneira de se sair com elegância da ausência da relação sexual” (Lacan. S. 20: 94). Por que fingir que a cultura política é o que opõe o obstáculo a realização da satisfação do desejo sexual para suprir a ausência de relação sexual? Esta não faz laço social e existe como um modo do senhor feudal realizar o instinto de morte sobre o corpo feminino senhorial? A problematização lacaniana da ausência de relação sexual é estratégica para retirar o campo lacaniano da episteme política freudiana centrada na axiomática sexual e na mitologia sexual: “Que não haja relação sexual, isso eu já fixei sob a forma de que não há nenhum modo de escrevê-la, atualmente” (Lacan. S. 18: 77). 
 Para pensar a episteme da psicologia freudiana do indivíduo em um contexto concreto, a cultura industrial de massas dos USA apresenta-se como um tipo ideal de cultura política freudiana narcísica em choque com uma fração da cultura política cinematográfica da comunidade dos psicóticos divinos de Hollywood. Há dois polos (Deuses) entre a comunidade dos psicóticos. O ser da significância - que como ser tem como lugar o lugar do Outro (A maiúsculo) - é onde se inscreve a função do pai que remete para a castração (um Deus como todo). Mas ex-iste o gozo da mulher como não-todo, gozo que está mais além do gozo fálico. Na cultura cristã, inventou-se um Deus tal que é ele que goza. O gozo místico está além do gozo fálico (Idem: 102). A cultura política que se articula pelo desejo da totalidade não define o amor como uma coisa da comunidade dos neuróticos? O desejo pelo não-todo não articula o amor (laço social) que põe a sociedade na via da ex-istência na medida em que a face de Deus (face do Outro) é suportada pelo gozo feminino? (Idem; 103). Aqui, a sedução substitui o amor cortês como laço social e desfaz o dominus da máquina de guerra cortesã sobre a política em si e sobre a política do mundo-da-vida?
Como o amor cortês a sedução faz laço social? O amor cortês como fieldade, fidelidade à pessoa – sendo a pessoa o discurso do Senhor, do Mestre – remete para a relação geral do amor com o discurso do mestre, “a transferência, no que ela não se distingue do amor, com a fórmula o sujeito suposto saber”. Ou seja: Aquele a quem eu suponho o saber, eu o amo” (Lacan. S. 20: 90). O ódio é a des-suposição do saber do discurso do mestre (Idem: 92), e, portanto, de qualquer saber que se encontre em uma posição homóloga ao discurso do mestre: sujeito suposto saber. A relação com o sujeito suposto saber é articulada como crença e ela é, neste sentido, equivalente ao conceito de dominação racional weberiana ou de qualquer dominação, pois toda dominação é sustentada na crença. Na rede metonímica de significantes onde encontra-se a crença, a fé religiosa e o mito fazem pendant com ela (Dicionário Houaiss: 865). Assim, é melhor o leitor ver com seus próprios olhos: “Por fim, a dominação em virtude de “legalidade”, da crença na validade de estatutos legais e da competência objetiva, fundamentada em regras racionalmente criadas, isto é, em virtude da disposição de obediência ao cumprimento de deveres fixados nos estatutos: uma dominação como a exercem o moderno “servidor público” e todos aqueles portadores de poder que com ele se parecem neste aspecto” (Weber. v. II: 526).     
Em última instância, o amor cortês faz laço social porque estabelece a relação do senhor feudal como o sujeito suposto saber do discurso do mestre. Trata-se da cultura política cortês (música e poesia e conduta cortesãs) que articula a sociedade cortês como lugar da máquina de guerra cortesã. Como des-suposição do saber, o ódio é aquela violência simbólica sem limite (realização da satisfação sem limite do instinto de morte) que desfaz o laço social permanentemente criado e recriado pelo amor. Este é o centro de acumulação e distribuição da energia narcísica mítica da cultura política cortesã que substituirá a cultura política feudal em si, cultura política da sociedade de guerreiros. Como laço social, o amor, em geral, estabelece uma dialética com o ódio inteligível como dialética do inconsciente nietzschiano. A sedução pode ser vista como um significante do de tal inconsciente? Não há como separar de um modo absoluto o amor e o ódio da dimensão mitológica do sujeito suposto saber. Baudrillard crê que a sedução está desvinculada do mito?
A episteme política sexualis começa a ser montada por Platão e Aristóteles. Por exemplo, os termos ativo e passivo dominam tudo que foi cogitado sobre a relação da forma coma matéria. A ideia de Deus que remete para a ética aristotélica do ser supremo como Bem se situa no lugar opaco do gozo do Outro, desse Outro no que ele poderia ser, se ela existisse, a mulher, que está situado esse Ser supremo:
“É na medida em que seu gozo é radicalmente Outro que a mulher tem mais relação com Deus do que tudo que se pôde dizer na especulação antiga, ao se seguir a via do que só se articula manifestamente como o bem do homem” (Lacan. S. 20: 111).  
A episteme sexualis se apoia em uma ética do ser supremo, do Bem, que faz da amizade um liame de amor homossexual (Idem: 114). A alma suporta a episteme sexualis como efeito do amor que faz o liame social sexual. Se o discurso é aquilo que determina uma forma de liame social (Idem: 110), e a relação sexual é o que não para de não se inscrever no campo simbólico, qual a função da episteme  sexualis? A forma do discurso é a cultura política! A contingência da relação sexual que para de não se inscrever como laço social é da ordem da emergência da fantasia, da crença (mito) na cultura política de que o amor sexual faz laço social. Tal cultura política intelectual começa a ser articulada na antiguidade grega e se constitui como forma acabada com Freud. Como efeito do amor não-sexual, a alma faz necessariamente laço social; a relação sexual não ama, ele não é alma. Eu almo, tu almas, ele alma. Até Lacan, o amor cortês tinha restado um enigma. Ele aparece no ponto em que o divertimento sexual (liame de amor entre dois seres) havia caído na suprema decadência, nessa espécie de mau sonho dito impossível do feudalismo (Idem: 115). Trata-se de um nível de degenerescência na cultura política que foraclui a amizade como ética do ser supremo do liame feudal. A sociedade feudal se volta para a mulher senhorial na invenção de um amor sexual que faça laço social na medida em que o gozo da mulher é radicalmente Outro e, por isso, tem relação com Deus. O significante amor cortês é um funcionamento da episteme sexualis como poesia e conduta que constitui o laço social sociedade de corte no lugar da sociedade de guerreiros feudais sustentada pela ética da amizade aristotélica. Na constituição da sociedade, a episteme sexualis ex-siste como simulacro de simulação na sociedade moderna, como ética da amizade (amor homossexual) na cultura política grega ou como poesia concreta do amor cortês na cultura política feudal. Isso tudo é da ordem da axiomática sexual que funciona como mitologia sexual pela lógica da fantasia de que a relação sexual faz laço de almor, isto é, laço social.

A física desfaz o enigma lacaniano do amor cortês, ao mostrar que ele articula a sociedade de corte como cultura política intelectual que cultiva as máquinas de guerra cortesãs no lugar das máquinas de guerra feudais: cavaleiros medievais, guerreiros feudais. A episteme sexualis trabalha com o mito da ex-istência da relação sexual como constitutiva da sociedade para além de sua função de reprodução biológica. Inscreve a relação sexual para além da história natural da espécie humana, isto é, na história política universal (como história mitológica) sob o dominus do inconsciente nietzschiano ariano. No entanto, é possível fazer da sexualidade um outro ponto de partida. Ela seria o liame social natural da história do modo de produção do inconsciente nietzschiano mestiço: biologia genética. Então, teríamos de falar do almor sexual como laço social. Neste ponto a história natural da espécie humana faz junção com a história política universal até o momento que a subsumirá. Neste momento, a história deixará de ser uma farsa (Lacan.  S. 20: 116), uma história mitológica subsumida ao mitológico inconsciente ariano!  A história recomeçara como história natural segundo a lógica do inconsciente mestiço. 

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