domingo, 22 de novembro de 2015

LACAN E BAUDRILLARD (PRIMEIRA PARTE)

 CONTRACIÊNCIA POLÍTICA LACANIANA
 
Norbert Elias procurou estabelecer uma explicação sociológica para o amor cortês como o Minnesang. Segundo Elias, pode-se distinguir duas fases no processo de feudalização: a da desintegração total e depois a época em que esse movimento se reverte (Elias: 65). Com efeito, é possível pensar tal explicação sociológica a partir contraconceito buraco negro epistêmico? Este traga a episteme  política pré-feudal desfazendo todos os laços que constituem a junção do  Real/Simbólico/Imaginário do Império Romano e libera RSI para fazer novos laços sociais de sentido.
A Minnesang seria laço laico amor cortês que, numa revolução molecular medieval, produziu a mudança da sociedade dos guerreiros para a sociedade de corte. Trata-se da passagem da soberania da grande máquina de guerra feudal para a pequena máquina de guerra cortesã e da troca de motor histórico. O instinto de morte deixa de ser o motor principal sendo substituído pela energia narcísica mítica. Na sociedade dos guerreiros feudais, o poder se define, principalmente, pelo uso da violência sem limite do senhor feudal. O Minnesang introduz o amor cortês como um modo de inibição do poder do guerreiro sobre a sexualidade que tem a Dama como das Ding. Trata-se da substituição da energia mítica instinto de morte pela energia narcísica na articulação da relação do senhor com as mulheres senhorias.
Freud definiu o amor cortês ao lado dos processos sublimatórios civilizacionais na construção da felicidade: “A sublimação do instinto constitui um aspecto particularmente evidente do desenvolvimento cultural; é ela que torna possível às atividades psíquicas superiores, científicas, artísticas ou ideológicas, o desempenho de um papel importante na vida civilizada” (Freud. v. XXI: 118). Ele deduz de um fenômeno empírico – amor cortês – um conceito de amor cujo modelo arquetípico encontra-se na cultura política católica:
“Apesar de tudo, uma pequena maioria de pessoas acha-se capacitada, por sua constituição, a encontrar a felicidade no caminho do amor. Fazem-se necessárias, porém, alterações mentais de grande alcance na função do amor antes que isso possa acontecer. Essas pessoas se tornam independentes da aquiescência de seu objeto, deslocando o que mais valorizam do ser amado para o amar; protegem-se contra a perda do objeto, voltando seu amor, não para objetos isolados, mas para todos os homens, e, do mesmo modo, evitam as incertezas e as decepções do amor genital, desviando-se de seus objetivos sexuais e transformando o instinto num impulso com uma finalidade inibida. Ocasionam assim, nelas mesmas, um estado de sentimento imparcialmente suspenso, constante e afetuoso, que tem pouca semelhança externa com as tempestuosas agitações do amor genital, do qual, não obstante, deriva. Talvez São Francisco de Assis tenha sido quem mais longe foi na utilização do amor para beneficiar um sentimento interno de felicidade” (Idem: 122). O conceito de amor de Freud pode ser suplementado por um contraconceito de amor? A realização da satisfação dos significantes (instinto de morte e energia narcísica) inibidos em sua finalidade é o que permanece do conceito freudiano. A finalidade não é busca de qualquer felicidade. Com efeito, trata-se de criar um equilíbrio de compromisso diante do caos narcísico e da hybris do instinto morte como desintegração física do objeto. O amor cortês é a organização cultural da energia narcísica em uma episteme política poética que está na raiz do mundo moderno. Trata-se, é claro, da subsunção da lógica do instinto de morte à lógica da energia narcísica na constituição do moderno inconsciente nietzschiano europeu ocidental                   
No Seminário 7. A Ética da Psicanálise, Lacan permite que se pense no campo da física freudiana o amor cortês como anamorfose no sentido das artes plásticas. Lacan toma a relação narcísica como estrutura imaginária para falar das relações entre o senhor feudal e o serviço à mulher como anamorfose na função do espelho: “É um espelho para além do qual é apenas por acidente que se projeta o ideal do sujeito. O espelho, num dado momento, pode implicar os mecanismos do narcisismo e, nomeadamente, a diminuição destrutiva, agressiva” (Lacan. S. : 188). O amor cortês é um significante de um campo poético no qual o objeto feminino (a Dama) é esvaziado de toda substância real: “Nunca se fala tanto nos termos mais crus do amor do que quando a pessoa é transformada numa função simbólica”.
Vemos aqui funcionar em estado puro o móvel do lugar ocupado pela visada tendencial na sublimação, ou seja, que aquilo que o homem demanda, em relação ao qual nada pode fazer senão demandar, é ser privado de alguma coisa real. Esse lugar, tal pessoa entre vocês, falando-me do eu tentava mostrar em das Ding, o chamava, e uma maneira bastante bonita, o vacúolo” (Idem: 186). O vacúolo é a coisa no sentido orgânico. Na física freudiana, o dom do amor é associado a uma simbolização primitiva que remete para superposição do inconsciente freudiano com o inconsciente nietzschiano em si: “Com efeito, onde é que o vacúolo é verdadeiramente criado para nós? No centro do sistema de significantes, uma vez que essa demanda derradeira de ser privado de alguma coisa de real é essencialmente ligada à simbolização primitiva que se encontra inteiramente na significação do amor” (Idem: 186). Por mais que Lacan faça um esforço hercúleo para agir no campo do pensamento pelo reducionismo freudiano, o significante amor cortês só alcança toda a sua abertura na superposição do inconsciente freudiano com o inconsciente nietzschiano. O vacúolo (que representa no orgânico das Ding) é a junção da Mãe (Coisa do inconsciente freudiano) com o fantasma do Urstaat (das Ding do inconsciente nietzschiano da história universal).
No contraconceito amor cortês, como ideal do sujeito no espelho, a Dama é metabolização de energia narcísica na cultura política com um desvio da energia instinto de morte para fins poéticos. Tal contraconceito rompe com as barreiras que contem a energia narcísica no conceito de homo clausus da filosofia do sujeito que é o significante do território epistêmico moderno que sustenta o conceito concreto ciência moderna disciplinar, inclusive no campo da psicologia. No Seminário 7, Lacan ainda é prisioneiro do moderno tropos homo clausus, ou seja, ele está orientado em direção à Deus, isto é, se volta para o Deus da filosofia espontânea da psicologia do indivíduo: o homo clausus. Como contraconceito, uma das definições da modernidade pode ser estabelecida como condensação de energia narcísica (que desvia a energia instinto de morte par fins sublimatório) no tropos homo clausus. Lacan só transcendeu a modernidade com os contraconceitos de episteme política {cujo território de pensamento é o (RSI)} e a teoria dos cinco discursos. Nesse Lacan tardio, encontra-se o esboço da física freudiana da história universal.
O que a criação da poesia cortês faz situa-se no lugar de das Ding. O objeto de tal poesia é desumano, enlouquecedor. A Dama não tem virtudes nem é sábia, ela: “é tão arbitrária quanto possível nas exigências da prova que impõe a seu servidor” (Lacan. S. 7: 187). Lacan pensa o amor cortês como um significante, uma estrutura, habitando uma cultura política: “No nível da economia da referência do sujeito ao objeto de amor há certos parentescos aparentes entre o amor cortês e as experiências místicas estrangeiras, hindu, e até mesmo tibetanas”. (Idem: 185). O parentesco aparente não é suficiente para assinalar a presença do significante - pela física freudiana -  de um modo diferente e lúdico em diferentes culturas políticas?  O segredo como motivo do amor cortês no Ocidente e no Oriente (poesia árabe) confirma que o significante existe em diferentes culturas (Idem: 188). Há um certo limite, algo que não se pode transpor: o espelho? A energia narcísica não pode ser pensada para além do imaginário? O objeto é inacessível e separado do senhor feudal: “o objeto não é absolutamente apenas inacessível, ele está separado daquele que se consome em atingi-lo por todos os tipos de potências maleficentes” (Idem: 188). O amor cortês só faz laço imaginário? Esta presença orgânica do significante remete para a temática da sexualidade em Freud: “É na medida em que se sustenta o prazer de desejar, isto é, para dizer com todo rigor, o prazer de experimentar um desprazer, que podemos falar da valorização sexual dos estados preliminares do ato de amor” (Idem: 189). Uma tradução de Ovídio (Arte de Amar) parece ter capturado no texto original a presença desses estados preliminares pelo significante fútil: “Os espíritos fúteis facilmente por coisa fúteis se deixam cativar” (Ovídio: 33). A tradução quis ver na cultura política romana a presença do significante amor cortês como leviano; “Que tudo sirva de pretexto para mostrares a tua cortesia” (Idem: 33). Isso nos remete para a articulação da questão do significante no espelho (imaginário) com o significante sedução em diferentes culturas políticas.
Mas antes de prosseguir, é preciso estabelecer – novamente  - a solução para o problema da relação entre ficção e sociedade que cria uma antagonismo que torna impossível a integração da psicanálise com a sociologia em um campo de pensamento transdisciplinar. Na teoria dos cinco discursos, o imaginário é o imaginário de um determinado discurso, por exemplo do discurso do mestre em uma determinada cultura política (isso na física freudiana). Mantendo a separação relativa entre ficção e sociedade - que garante o funcionamento da cultura em si separada relativamente da cultura política – o imaginário faz laço social para além do espelho. Ele faz laço social com o real (IR) e o simbólico (IS) e faz a junção IRS. Isso ocorre pelo agir do significante amor cortês (esse é o significante em tela) em uma determinada sociedade – a sociedade de corte – articulada por uma determinada cultura política: a cultura política cortesã. O significante amor cortês tem um motor? A energia narcísica não é o motor que a poesia cortesã organiza como laço social? Trata-se da captura e da articulação de tal energia como sociedade de corte e cultura cortesã em um quadro global de relações de forças condensado na máquina de guerra cortesã. Norbert Elias tem uma visão clara da constituição da sociedade pela poesia cortesã. Mas ele é uma máquina de guerra de pensamento que esboça um projeto transdisciplinar na junção do pensamento de Freud com a sociologia que ele próprio concebe a partir da medicina (Elias. 1991: 42) ligada a tradição da sociologia clássica alemã. (Idem: 49-50).
Na cultura cristã, o amor cortês está associado à ascese que, para Lacan, significa uma organização artificial, artificiosa, de um significante natural da economia psíquica como artefato do processo sublimatório, ou seja, aquilo que o homem demanda - e que em relação a isso nada pode fazer senão demandar – é ser privado de alguma coisa de real. No orgânico esse lugar é o vacúolo que remete para a demanda em relação à Coisa (das Ding). O vacúolo aparece no psiquismo a partir de rodeios e obstáculos a realização do princípio do prazer que projeta uma certa transgressão do desejo. Aqui entra em ação a função ética do erotismo. As técnicas do amor cortês na cultura política (pois elas definem uma certa relação política sexual entre o senhor feudal - que está na origem da articulação da pequena máquina de guerra cortesã - e a Dama num quadro de relações de forças da sociedade da corte) fazem pendant com o que Freud designa como da ordem dos prazeres preliminares: “As técnicas em questão do amor cortês – e elas são bastante precisas para permitirem-nos entrever o que podia, num dado momento, chegar ao fato, daquilo que é da ordem sexual propriamente dita, na inspiração desse erotismo – são técnicas de retenção, de suspensão, do amor interruptus” (Lacan. S. 7: 189). Essa formulação lacaniana não pode ser capturada como um enunciado a ser desenvolvido na física freudiana da história? Mesmo não acreditando que o significante amor cortês ocidental tenha uma ligação, no nível da prática, com a erótica hindu ou tibetana (ou com erotismo da iniciação cátara) – onde se constitui uma ascese da disciplina do prazer, ele admite que a poesia cortês asiática influenciou o amor cortês ocidental: “E, sem chegar a supor uma identidade entre as práticas extraídas de áreas culturais diferentes, acredito que a influência dessa poesia foi para nós decisiva” (Idem: 190).
Lacam tem razão quanto a relação inexistente do amor cortês medieval com a cultura política romana antiga. A tradução que tenho em mãos para o português parece se referir ao amor cortês na cultura romana (Ovídio: 33). No entanto, o texto em latim é claro sobre isso. Para ele, o significante principal é a sedução que é o avesso do amor cortês: “Inde fit ut quae se timuit committe honesto, Vilis in amplexus inferioris eat”. O amplexus inferioris é o amor que significa abraçar o mais baixo, o inferior, que na cadeia de significantes alcança o significante vulgatus e vulgo que é o ofício da prostituição.  A sedução significa abraçar a baixa sexualidade, a sexualidade lumpesinal (Ovídio: 63, 89, 95). Sedução significa degradação da energia narcísica como degradação do objeto amoroso. Baixa acumulação e distribuição da energia narcísica no amor! Um amor prosaico distante do narcisismo como energia mítica. Um modo de escapar, por alguns momentos talvez, da história mitológica e mergulhar no espaço privado laico (burguês), ou seja, de aparência prosaica, não mitológica. Na cultura política romana, o espaço privado ancora-se no significante vulgatus, na baixa cultura. O amor cortês medieval faz da Dama um artefato sublime da alta cultura cristã, ao menos em Mircea Eliade. Para Norbert Elias, o amor cortês está no plano da conduta cortesã e da poética cortesã (Minnesang) que desagua em um alto controle das pulsões e na transformação de desejos elementares nos muitos tipos de prazeres refinados (Elias. V. II: 71). Trata-se de uma versão laica do amor como um artefato simbólico da alta cultura feudal da sociedade de corte. Para Lacan, trata-se de uma poesia sublimatória e de uma prática que se remete para o erotismo.

No entanto, Lacan parece ser prisioneiro do campo gravitacional narcísico do homo clausus que sustenta o conceito de aparelho psíquico da psicologia freudiana do indivíduo. Assim, o amor cortês é um problema da dialética princípio do prazer versus princípio da realidade. O prazer é interrompido (princípio da realidade) como desprazer que sustenta o prazer cortês. Trata-se do prazer como artifício. Isso já está além do homo clausus, pois depende dos recursos da cultura em si e da cultura política cristão, no caso medieval ocidental. O amor cortês é uma prática (atitude, conduta e poesia) que implica um liame social que seja um tropos. Trata-se de uma poesia e de uma conduta orientados em direção a Deus, que se volta para Deus. Se Deus é o campo simbólico, o amor cortês se orienta como processo sublimatório, ou seja, processo que eleva (em direção a Deus) o senhor feudal. Aqui, estamos no plano da cultura política medieval que usa a energia narcísica para desviar a violência física sem limite da sociedade de guerreiros do objeto amoroso. Trata-se da transformação da grande máquina de guerra freudiana em grande ou pequena máquina de guerra cortesã; passagem da sociedade de guerreiros para a sociedade cortesão. A grande máquina cortesão faz um uso sem limite da violência simbólica com a finalidade de desintegrar o objeto em tela; a pequena máquina cortesã faz um uso limitado da violência simbólica cuja finalidade é diminuir a força mítica do objeto.

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