sábado, 18 de abril de 2015

FÍSICOS LITERÁRIOS DA POLÍTICA

Psicanálise, Cultura Política, Totalitarismo (PCPT)

Endereço do grupo Psicanálise. Cultura Política, Totalitarismo no  Facebook:  https://www.facebook.com/groups/psicanalise.culturapolitica.totalitarismo/?fref=ts
José Paulo Bandeira e Almir Pereira.
O Grupo PCPT (Psicanálise, Cultura Política, Totalitarismo) é um campo de pensamento transdisciplinar. Trata-se do campo contraciência freudiana da política. Tal campo está aberto às múltiplas e diversas intervenções disciplinares das ciências humanas (sociologia, ciência política, antropologia, direito, economia, historiografia, geografia), das ciências da comunicação, da psicanálise, do marxismo, da psicologia, da metapsicologia, das neurociências, da filosofia e da literatura. Também está aberto às intervenções das ciências ambientais, da biologia e da física. A ideia é articular a história da natureza à história política universal!
O Grupo não aceitará que seja veiculado qualquer tipo de publicidade, seja econômica, seja política ou de cunho ideológico. Espera que seus integrantes não se deixem alienar - em sua participação -, ou pela lógica da mercadoria, ou pela lógica política do simulacro de simulação. Espera também que a reflexão possa ser metabolizada como cultura contratotalitária.

DA TIRANIA/FERNANDO PESSOA
No Brasil, Fernando Pessoa é apenas conhecido, principalmente, por sua poesia. O livro “Ultimatum e páginas de sociologia política” é um livro sobre física da política. É um livro de 1918 escrito por causa da Primeira Guerra Mundial. Esta é concebida como um fato do campo dos instintos, ou seja, do inconsciente político europeu. O conceito de tirania de Fernando Pessoa tem como essência a ideia de força: “Temos, pois, que a tirania é o exercício de força”. A essência da força tirânica é o que nos: “obriga absolutamente a fazer ou deixar de fazer uma cousa, sem que possamos tomar outro partido; ou nos obriga a fazer ou deixar de fazer uma cousa, castigando-nos ou sujeitando-nos a prejuízos e a males vários de tomamos outro partido”. Há três espécies de força: a forca física; o número; o habito (tradição e fantasma do futuro=utopia). Há várias formas de tirania como, por exemplo, as tiranias religiosa e política. Quando rezo, a tirania religiosa é a força aplicada por mim em mim. A Inquisição foi tirania política exercida em nome da religião católica. O homem (mulher ou criança) bomba é tirania política em nome do Islã político.
Uma forma de tirania é a TIRANIA DO DESTINO, a única tirania absoluta. A tirania do destino substitui o acaso pela lei natural, a sorte é tragada pelo determinismo. Quando na política de um país (de um povo) é suprimido o acaso e ele passa a ser regido pelo determinismo da lei natural, isso é a mais totalitária das tiranias: a tirania do destino. Qual força tirânica (como um conjunto de forças que constituem um poder político unitário em um quadro global de forças) constitui-se como uma aplicação global de força que determina o destino do Brasil? A nossa tirania do destino NÃO é ter uma elite impotente para solucionar a CRISE BRASILEIRA? As páginas de Fernando Pessoa (sobre a política como física das forças do inconsciente político e da razão) não podem jogar uma luz sobre a tirania do destino brasileiro? O poeta diz: “Uma ideia expressa é uma força; nunca é demais fazer valer os direitos da Inteligência”! A poesia da física da política não pode ser uma força capaz de reverte a tirania do destino? 

FÍSICOS LITERÁRIOS DA POLÍTICA/MACHADO DE ASSIS
Já está estabelecido Fernando Pessoa como o maior físico poética da política em língua portuguesa. Agora estabelece-se Machado de Assis como o maior físico literário da “última flor do Lácio, inculta e bela”. O conto em extensão “O Alienista” é um objeto físico-literário, uma obra-prima da interseção da ficção com a cultura política na superfície literária do mundo-da-vida O General Golbery do Couto e Silva foi o gênio da raça política da ditadura militar? Quem disse esta barbaridade? Já Machado de Assis é o gênio da raça universal. “O Alienista” poderia constar no cânone literário ocidental como o conto mais canônico da língua portuguesa ao lado do Hadji Murad, de Tolstoi, o mais canônico dos contos canônicos da literatura ocidental.
A estrutura da superfície da cultura política literária do mundo-da-vida de Itaguaí (Rio de janeiro) faz dessa cidade um objeto que é a junção de uma cidade ficcional com uma cidade real, ou seja, uma cidade mitológica. Com o nosso Machado, Itaguaí torna-se um significante ficcional-real da física da política brasileira. Há um contraconceito de poder nessa física. Ele é um conceito dialético do choque de forças entre a aplicação de violência física-simbólica do poder psiquiátrico sobre a população e a reação da cidade como força autodefensiva (contraforça): “A ideia de meter os loucos na mesma casa (hospício), vivendo em comum, pareceu em si mesma um sintoma de demência, e não faltou quem o insinuasse à própria mulher do médico” (Machado. O. C: 254). Depois a cidade se rebelou contra a Casa Verde: “Morra o Dr. Bacamarte! Morra o tirano! uivaram fora trezentas vozes. Era a rebelião que desembocava na Rua Nova”  (Idem: 271)).  
Para os amantes de Michel Foucault, “O Alienista” pode ser reconstruído pela episteme política microfísica do poder: a cidade com um território geográfico literário ocupado por um dispositivo de saber-poder: a psiquiatria. Para a física da política, Itaguaí é o território físico-literário ocupado por uma máquina de guerra psiquiátrica literária. Trata-se da máquina de guerra psiquiátrica mitológica que teria criado o protótipo literário do hospício Juliano Moreira carioca de Jacarepaguá: o campo de concentração para psicóticos. Os contraconceitos estratégicos do Alienista são: a superfície literária da cultura política como mundo-da-vida; a máquina de guerra psiquiátrica mitológica e a cidade como contrapoder.

O alienista é a narrativa sobre o médico Simão Bacamarte que caminha para atingir sua finalidade em Itaguaí como máquina de guerra psiquiátrica – regulamentada pelo poder legislativo - contra todas as expectativas: “_ Os cálculos não são precisos, disse ele, porque o Dr. Bacamarte não arranja nada. Quem é que viu agora meter todos os doudos dentro da mesma casa? _Enganava-se o digno magistrado; o médico arranjou tudo. Uma vez empossado da licençcomeçou logo a construir a casa” (Idem: 255). A cidade inteira ia sendo encarcerada como louca como um personagem do “Elogio da Loucura”: _ Nada tenho a ver com a ciência; mas se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?” (Idem: 270). Se o Dr. Simão Bacamarte ressuscitasse hoje quem ele encarceraria na Casa Verde: o PCPT ou a classe política brasiliense? Ambos?
DISCURSO DO SENHOR-DE-ENGENHO
No seu livro “Canaviais e Engenhos na vida política do Brasil”, Fernando de Azevedo estabeleceu Gilberto Freyre como o mestre de pensamento que iniciou a elaboração da episteme Engenho cana-de-açúcar. Em meu livro “Oligarquia e Política”, procurei demonstrar que a história do Brasil colonial, imperial e republicano tem como matriz simbólica o discurso do senhor-de- Engenho de cana-de-açúcar. O capitalismo de commodities do café e o atual não são mais do que a continuação por meios capitalistas do Engenho da civilização do açúcar. O conceito mais avançado de capitalismo que o país já viveu (o capitalismo dependente e associado de FHC) teve como matriz simbólica a episteme Engenho, ou seja, ele foi uma repetição capitalista tupiniquim do discurso do senhor-de-Engenho. Este transformou as próprias multinacionais da indústria automotora de São Paulo em Engenho capitalista: autarquia capitalista. Isso é um lado “determinante” da CRISE BRASILEIRA do século XXI. A episteme política Engenho se esgotou como potência e motor da evolução da história brasileira em um choque fatal com o globalismo neoliberal.  
O livro de Fernando de Azevedo é uma contribuição decisiva para a leitura de tal episteme política. Ele pensa o Brasil mergulhado – do Literal ao Sertão – em uma dialética entre o Estado central e os “pequenos Estados” ou Engenhos. Esses pequenos Estados são concebidos como máquinas de guerra dissipadoras fundamentais na construção do Brasil. O Engenho é a máquina de guerra dissipadora matriz do partido máquina de guerra inclusive no século XXI. Se o leitor quiser uma referência empírica, Fernando Henrique Cardoso é um senhor de Engenho político oriundo da USP (a universidade brasileira é articulada na interseção do discurso do senhor-de- engenho com o discurso da universidade tupiniquim) que parece saber agenciar a lógica das máquinas de guerra políticas, entre nós. Ele disse: “Lula não deve sofrer o impeachment”. Já conhecemos o efeito desse dizer. Agora, ele disse: “Dilma não deve sofrer o impeachment”. O efeito desse dizer foi a retirada de potência do movimento das multidões no mundo-da-vida e na sociedade civil. O efeito do dizer de FHC atualizou a estrutura totalitária que mantém uma distância absoluta entre a política institucional (partido, governo, parlamento, judiciário, indústria cultural) e a política no mundo-da-vida (multidão/rua, sociedade civil). FHC é divino e maravilhoso!
Par o leitor não ficar pensando que este texto é fruto somente da minha imaginação sartreana, veja o que escreveu Fernando de Azevedo: “A perseguição aos índios, cujas tribos se dizimavam nas cercanias desses “estados” (Engenhos), por uma política de extermínio, ou eram obrigados a recuar cada vez mais para o interior; e a dureza de tratamento com que se constrangiam os escravos, por uma disciplina de ferro, ao penoso trabalho da lavoura e dos engenhos, não eram mais do que reações naturais, de uma lógica brutal, com que a ordem lutava, a cada instante, contra os fatores de dissolução que trabalhavam para desagregar essas sociedades rurais, estranguladas entre o mar e o sertão”. Este enunciado não é constitutivo da episteme Engenho de cana-de-açúcar? Fernando de Azevedo ao mesmo tempo que ilumina o funcionamento do discurso do senhor-de-Engenho, tece a linha de força simbólica principal da episteme  Engenho. Com a física da política, a episteme Engenho e o discurso do senhor-de-Engenho são apresentados em uma dialética com a contraepisteme mestiça: dialética entre o Litoral e o Sertão (Canudos). Trata-se da dialética inconsciente político ariano versus inconsciente político mestiço!    
BARROCO TOPICAL/AGUALUSA
José Eduardo Agualusa faz do crítico nacionalista da MPB (Música Popular Brasileira) Tinhorão um personagem seu romance “Barroco Tropical”. Ele costuma dizer sobre Angola, Portugal e Brasil: “nos nossos países a realidade tende a ser mais inverossímil do que a ficção”. Tinhorão não é mais ficção que a própria ficção? O romance se passa na Luanda de 2020. Trata-se de uma Luanda fictícia estacionada – como uma espaçonave - sobre a Luanda real? Não conheço Luanda, mas creio que o edifício Termiteira (com futurísticas torres de sessenta andares, o maior edifício do continente, inacabado, em ruínas, onde moram ricos nos andares superiores e o lumpesinato civil e criminal no subsolo) seja a metáfora da ficcional Luanda. O Termiteira é a metáfora espacial do conceito barroco tropical condensado na cultura política totalitária africana? Uma cultura da hybris seja nas práticas festivas e sagradas, seja no mundo prosaico. Existe mundo prosaico em Angola? A guerra e as máquinas de guerra infantil (Sangue Frio), inocente-útil (Humberto Chiteculo torna-se um assassino sob o choque dos banhos de sangue da sua gente assassinada um pouco por toda a cidade) ou lunpenburguesa (Frutuoso Leitão) parecem fazer parte de uma paisagem citadina modelada pela guerra civil que, mesmo depois de encerrada, continua através de um estado de guerra freudiana permanente metaforizado, justamente, no Termiteira. A artista plástica e vizinha do narrador masculino Bartolomeu Falcato consegue resumir o espírito da cultura política barroco tropical _ “Não me interessa ordenar o caos: o que quero ´´e fazê-lo florir”.
Fazer florir como o cego Rato Mickey que faz de conta que vê, pois tem um bom ouvido, conversa muito, e a partir do que escuta é capaz de contar um episódio qualquer como se realmente o tivera visto. Rato Mickey pode ser visto seja como o cidadão da seleção natural angolana, ou seja, o cidadão mais adaptado a cultura barroco tropical, ou, então, como a encarnação do escritor capaz de narrar a cidade da cultura política da guerra. Desenhista de mural de 18 anos, Ramires é a outra personagem sob o efeito do choque do estado de guerra freudiano. Ele não fala com estranhos, e todos, com exceção da irmã de 14 amos, são estranhos. Ela diz: “somos todos estranhos uns em relação aos outros. Podemos usar as mesmas palavras mas não falamos a mesma língua”. O estranho é algo da estética do grotesco articulável como significante do inconsciente político: tão logo acontece realmente em nossas vidas algo que parece confirmar as velhas e rejeitadas crenças, sentimos a sensação do estranho. A compulsão da repetição do estado de guerra freudiana faz emergir o Estranho como um significante do inconsciente político africano? Não há continuidade espacial entre a cultura política barroco tropical e a cultura oligárquica-totalitária brasileira? Ficção e realidade são espaços separados de um modo absoluto?
FIM DA HISTÓRIA?
Na conjuntura política atual, alguns referentes parecem perder a sua luz que guia os três reis magos ao encontro do recém-nascido menino Jesus. Esquerda versus direita deixa de ser a bússola da política desta segunda década do século XXI. Em decorrência disso, o modelo oligarquia política híbrida (contrato do rodízio no poder entre a direita e a esquerda) perdeu a potência para governar as democracias “ocidentais” mais na Europa do que nos USA. Na América Latina, tal modelo só vingou no Chile pós-Pinochet e agora está naufragando. Como hábito-força, a lógica do fantasma do futuro (o comunismo) deixou de ser utópica, de ser uma esperança para o planeta. Além disso, o capitalismo adquiriu a forma de uma máquina de guerra econômica antinacional que instala a lógica do desmoronamento do Estado-nação. O capital parece ter se constituído como uma máquina de guerra política contra a natureza. Trata-se de uma máquina de guerra totalitária que instala um estado de guerra permanente contra a natureza em si e a natureza objetiva. Diante desta lógica do capital-máquina de guerra totalitária, os ambientalistas norte-americanos propõe reservar uma parte do planeta para as espécies não-humanas. No Brasil, a esquerda totalitária se une ao totalitarismo militar para denunciar esta conspiração contra a Floresta Amazônica! Ao contrário, isso não deveria fazer parte de um programa da formação política contratotalitária que está despontando desde as revoltas das multidões como a revolta do indignados espanhóis (15-M)? Largamente inspirada na esquerda marxista heterodoxa e no anarquismo, o movimento dos indignados espanhóis disse que a luta contra o capital-máquina de guerra pressupões uma democracia que combine democracia direta com democracia representativa. A democracia representativa deve ser inibida ao máximo em seu funcionamento pela lógica do simulacro de simulação.
O Brasil parece ser um elo fraco na cadeia política mundial sob dominus do capital-máquina de guerra mundial? O discurso do senhor-de-Engenho e a sua respectiva episteme Engenho cana-de-açúcar resultaram em um capitalismo de Engenho, capitalismo autárquico, que isolou o país em relação ao capitalismo corporativo mundial. Há apenas um fio abstrato que integra o Brasil ao capitalismo mundial. Este fio é a ligação do Brasil às redes do capital fictício mundial - à hegemonia da oligarquia financeira mundial sobre a economia e a política mundiais.
Não há fim da história. Há buracos negros simbólicos que tragam as eras históricas e liberam energia e matéria que constituirão uma nova época. A interrogação correta a fazer é a seguinte. Há um buraco negro estacionado sobre a Terra da política e da economia mundiais? A lógica do desmoronamento dos fenômenos supracitados não são um sintoma deste fato histórico? Então, o que tal buraco negro está liberando? Está liberando máquinas de guerra totalitárias no “ocidente” e no “oriente”; liberando o fim da Guerra Fria no continente americano; a retomada da Guerra Fria por Putin; a necessidade de constituição de novas instituições políticas exteriores à lógica do simulacro de simulação associada a práticas da democracia direta; liberando o 15-M Tal buraco negro também pode estar liberando uma era de caos econômico? Há uma clara linha de força que vai fazer o capitalismo mundial (uma vez que o socialismo deixou de ser uma opção de reorganização econômica do mundo) tornar-se um significante da história econômica universal. Trata-se da ruptura mais avançada em relação à modernidade. O significante material (economia) tem o poder, ainda, de definir toda uma época histórica? Quem deseja brincar com este axioma de Marx?  

CONTRACONCEITO DE PODER
A luta de classes é uma categoria criada pelos historiadores burgueses da Revolução Francesa. Marx a concebeu como um conceito através da dialética materialista. No modo de produção especificamente capitalista do século XIX, a luta operária revolucionária surge como um significante especialmente francês. Como pátria do capitalismo moderno, a Inglaterra não é o centro revolucionário da luta de classes. Isso não desautoriza o conceito de luta de classes de Marx. Este pensa a constituição da classe operária como prática revolucionária a partir do exercício do poder do capital sobre os trabalhadores na extração da mais-valia. Isso acontece na grande unidade fabril onde se concentram as massas operárias. Do ponto de vista especificamente capitalista, a luta operária articula-se a partir da aplicação de força do capital sobre a massa operária. O capital é, em última instância, o motor da luta operária. É claro que este campo de forças gira em torno da produção e apropriação (ou expropriação) da RIQUEZA de uma sociedade.
Weber definiu luta como uma relação social “quando as ações se orientam pelo propósito de impor a vontade contra a resistência do ou dos parceiros”. Ele denomina pacíficos aqueles meios de luta que não consistem em violência física efetiva. O poder pode ser pacífico ou despótico. No capítulo do Capital sobre a acumulação primitiva de capital, Marx fala de um poder despótico que captura a população para obriga-la ao trabalho na fábrica. Este poder ainda pode ser entendido pela lógica da subsunção formal do trabalho ao capital. Com a lógica da subsunção real do trabalho ao capital, o poder capitalista deixa de ser uma aplicação de violência física, violência despótica para a extração da mais-valia. A mais-valia torna-se uma energia extraída através de violência técnica-científica, ou seja, violência simbólica. Trata-se da era da mais-valia relativa. Coincidentemente, essa era tornou-se a época da integração institucional da classe operária à ORDEM CAPITALISTA. Na Rússia, a junção do poder despótico feudal com o poder despótico capitalista foi o território político nas relações sociais de produção que funcionou como motor da Revolução Bolchevique. Então, trata-se de relativizar o conceito e poder de Foucault. Para este, onde há poder, há resistência na microfísica do poder. Nem sempre!
O contraconceito de poder parte da interseção dos conceitos de poder de Marx e Weber. O poder é o uso da violência (física ou simbólica) sobre o  SIGNIFICANTE (matéria ou espírito, corpo ou alma). O exercício da violência faz laço social ou desfaz laço social. O laço social sempre está inscrito em um quadro global de forças como redes de significantes. Se o poder se exerce como poder despótico, ou seja, sobre a matéria (o corpo das massas operárias, ou dos cidadãos) a possibilidade de uma ação reativa não-revolucionária é maior se o exercício do poder for feito através da violência simbólica como faz a televisão brasileira ou a dos USA. O poder despótico constitui a massa em luta contra ele (contrapoder), ou seja, ele a articula como laço social (sociedade em luta contra o poder). Estou falando do poder totalitário cujo modelo é o poder capitalista da acumulação primitiva de capital. Este parece ser o modelo de poder de Eduardo Cunha que parece dirigir e protagonizar um filme de Walt Disney; “O aprendiz de feiticeiro”. Eduardo Cunha é o nosso ratinho Mickey, o aprendiz de feiticeiro que recria a luta de massas operárias no Brasil da segunda década do século XXI, quando a luta de classes não existe mais como centro da política mundial. Ele é a condensação do poder despótico capitalista, entre nós! O PCPT passou a ver Eduardo Cunha um possível demiurgo da política brasileira do século XXI. Exagero?

REVOLUÇÕES E REVOLUÇÃO BRASILEIRA
Revolução é um vocábulo corrente da historiografia brasileira e da linguagem política, entre nós. Muitos são os movimentos políticos do século XIX que se autodesignavam como revolucionários. Talvez a termo tenha se tornado comum na linguagem política brasileira devido aos exemplos da Revolução Americana e da Revolução Francesa. Estas serviram de modelo para o conceito de revolução política. No século XIX, o pensamento conservador brasileiro tentou desfazer o laço simbólico entre as revoluções brasileiras do século XIX e as revoluções liberal e republicana ocidentais. No entanto, o termo seria transformado em um significante concreto ao designar o movimento getulista que tomou o poder em 1930: “Revolução de 30”. Trata-se de uma Revolução política!
O marxismo usou o termo para designar transformações estruturais de uma sociedade tendo como motor uma Classe SUJEITO: a burguesia. Trata-se da revolução burguesa. O caráter social da revolução substituiu o caráter político da revolução. Então, entre nós, o termo revolução política desapareceu da linguagem da ciência política, da historiografia e do jornalismo. Como a revolução – seja ela social ou política – não é um fato mediático, a cultura industrial foi um artefato decisivo para o desaparecimento deste significante na cultura brasileira.
Mas o PT original se dizia um partido revolucionário empenhado em fazer a revolução brasileira. O PT era marxista. Ele tinha o livro “Revolução Brasileira” de Caio Prado Jr como uma bíblia partidária fazendo pendant como o Revolução Burguesa no Brasil de Florestan Fernandes. O livro “Ciclo da Revolução Burguesa” de Octávio Ianni foi um livro que o PCB leu, em vão, e o PT não leu e não gostou! No capítulo “A ideia da revolução burguesa”, Ianni mostra que Sérgio Buarque de Holanda já se referia a uma revolução no Brasil como um fato não de um instante preciso, mas de um processo “demorado e que vem durando pelo menos há três quartos de século. Caio Prado é mais específico e concebe uma revolução capitalista no Brasil. Nelson Werneck Sodré toma a burguesia nacional como sujeito da revolução. Florestan Fernandes chama a atenção para as figuras revolucionárias do fazendeiro capitalista do café e do imigrante, especialmente italiano, que destrói e constrói coisas belas capitalistas em São Paulo. E finalmente, Carlos Nelson Coutinho mostrou o traço “prussiano” (autoritário), da revolução burguesa entre nós. “Assim, entre outras questões, a história da revolução burguesa põe e repõe o problema do Estado forte. A forma “prussiana” da revolução burguesa brasileira diz respeito ao carácter autoritário das diferentes formas adquiridas pelo pode estatal. Há algo de singular nessa revolução – na história dessa revolução – pois se cria e recria um Estado sempre predominante, impositivo”. Carlos Nelson foi, desde a sua juventude, um quadro do PCB que, após a crise deste partido, mudou de mala e cuia para o PT. Ele acreditava que o PT não seria a vanguarda da via “prussiana” da revolução brasileira no século XXI. Ele não acreditava que Luís Inácio Lula da Silva pudesse ser o nosso Bismarck. Mas ele não poderia imaginar ou conceber que o PT e os governos Lula-Dilma Rousseff auxiliam-se a indústria cultural a enterrar bem enterrado o significante REVOLUÇÃO BRASILEIRA. Esta é a grande e talvez maior contribuição do PT à nossa classe dominante: fazer desaparecer das mentes e dos corações o significante revolução. Ao enterrar o significante revolução o PT não cavou a sua própria sepultura?
FÍSICA FREUDIANA DA HISTÓRIA
Se o pensamento de Freud for o modelo de concepção da história, a linguagem, os problemas e solução destes surgem em uma nova roupagem. Com a tradução de Freud para a física da política, a linguagem, os problemas e a solução destes aparecem quase como um mundo de ficção científica para a velha historiografia moderna. Mas para os leitores cansados da velha linguagem, a linguagem da física freudiana da política não é um desafio benfazejo?
Na física freudiana da política, a história tem dois motores: a energia da pulsão de morte e a energia narcísica. Trata-se de duas energias mitológicas. Um mito pode ser remetido para a cultura política grega: o mito de Narciso. Para a física freudiana, este é o mito grego fundador da história política universal. O outro mito sai da cultura política romana pelas mãos de Erasmo de Roterdã: “Plutão, que, no presente como no passado, a um simples gesto, cria, destrói, governa todas as coisas sagradas e profanas”. Erasmo também concebeu a fórmula do narcisismo: “Assim, pois, sigo aquele conhecido provérbio que diz. Não tens quem te elogie? Elogia-te a ti mesmo”. Ele também diz que o narcisismo é da ordem do divino.
Fazendo a leitura da história do Brasil pela física freudiana, concebemos os significantes capitalismo do Engenho de cana-de-açúcar, discurso do senhor do Engenho e episteme do Engenho como uma grande condensação das energias supracitadas. As “entradas” e “bandeiras” foram as primeiras máquinas de guerra freudianas (ou erasmoanas) que articularam ou foram articuladas por uma cultura política oligárquico-totalitária luso-brasileira. Elas são, simultaneamente, as máquinas de guerra mitológicas e históricas da fundação do Brasil. A moderna historiografia brasileira considera-as um lixo político enquanto a episteme do Engenho diz que elas foram uma necessidade histórica gloriosa. Para encurtar o assunto, os significantes supracitados se condensam no conceito concreto ELITE BRASILEIRA. Este é uma imaginável condensação de energia (pulsão de morte e narcisismo) que transforma a democracia em um reino das maquinas de guerra políticas-partidárias (e outras). Trata-se, portanto, de uma democracia despótica representativa que faz dos partidos políticos simulacros de simulação de partidos. Isso “explica” porque a oligarquia política híbrida não vingou na Democracia Populista (1946-1964) e na República Democrática de 1988. A física freudiana da política articula-se em uma  contraepisteme dialeticamente envolvida com a episteme do Engenho. O início dessa contraepisteme aconteceu na década de 1990. Mas isso já é uma outra postagem!       

FÍSICA VERSUS EPISTEME DO ENGENHO
A história intelectual biográfica pode ter um sentido público? A física freudiana da política podia ter começado no doutorado de ciências sociais sob a orientação de sociólogo marxista, originário da USP, Octávio Ianni. Ianni fazia um marxismo que tinha a vontade intelectual de se pôr em uma posição capaz de dizer algo favorável aos negros, escravos e índios. Intuitivamente, ele lutava contra a episteme do Engenho. Se Carlos Guilherme Mota pensasse a partir da dialética episteme do Engenho e contraepisteme da física freudiana, o “Ideologia da Cultura Brasileira” poderia ter sido o livro mais importante e consistente sobre a nossa história intelectual. Com efeito, Ianni combatia a episteme por dentro (de dentro) da própria episteme do Engenho. Minha tese de doutorado já era algo que constituía-se como uma leitura da política brasileira pela física freudiana da história. O marxismo de Engenho de Octávio Ianni acabou constituindo-se em um obstáculo intransponível para a consecução da física. Após o doutorado, retomei a contraciência freudiana da política que resultou em muitos textos publicados em várias revistas ao longo da década de 1990. No ano 2000, publiquei o livro seminal da física: “Política brasileira em extensão. Para além da sociedade civil”. Como nenhuma editora quis publicá-lo, fiz uma primorosa Edição de Autor. Neste livro, Lacan é o principal significante na tessitura da contraciência lacaniana da política.  Além de continuar publicando em revistas e em um Site, em 2002, saiu publicado, pela Papel & Virtual, o “Capitalismo corporativo mundial”. Trata-se da primeira aplicação da contraciência global da história tendo como objeto o capitalismo mundial. O livro se dirigia à esquerda, pois ele era basicamente a tentativa de mostrar uma direção para o capitalismo brasileiro diferente do capitalismo de Engenho na versão FHC: “o capitalismo dependente e associado”.
A era Lula-petista gerou um ambiente de interseção totalitária da cultura intelectual marxista com a cultura política de esquerda. Então se desfez completamente a possibilidade de laço simbólico entre a física lacaniana da política e a esquerda, em geral. Fiquei completamente isolado no terreno da cultura política. Como professor da universidade pública fazia parte de um Programa de Pós-graduação em sociologia, antropologia e ciência política. Tratava-se de um programa disciplinar e a física é transdisciplinar. Ai aconteceu a incompatibilidade quase genética entre a física e o Programa de pós-graduação. Uma esperança foi a criação do mestrado de ciência política. Neste, os alunos não se interessaram pela contraciência da política. O mestrado acabou sendo fechado por insuficiência de publicação nas quatro revistas que o MEC definiu como as únicas autorizadas na contabilidade de pontos necessária para a existência do programa. Considerando que a minha produtividade era igual a de hoje; que o mestrado tinha a única possibilidade bastante concreta de criação de uma episteme (contraepisteme) capaz de estabelecer uma dialética concreta e material com a episteme do Engenho. Então posso aventar a hipótese do fechamento do mestrado como um ato deliberado (calculistas da razão científica da cultura política do Engenho) dos barões da episteme do Engenho que controlavam o MEC na área de ciências humanas. Com a CRISE BRASILEIRA (crise da episteme do Engenho, do discurso do mestre do Engenho, do capitalismo do Engenho) uma contraciência global da história universal natural encontrou a sua brecha no tempo histórico do século XXI. Isso só foi possível com o desenvolvimento da cultura-web! A contraciência global da política parece estabelecer, cada vez mais e progressivamente, uma dialética entre a cultura intelectual digital e a cultura política de papel e eletrônica. Quem viver, verá!

 CONTRACONCEITO DE MODERNIDADE
Existem alguns conceitos consistente de modernidade. Agora é preciso estabelecer o contraconceito de modernidade. No conceito de weber, a modernidade é uma articulação do discurso científico à uma cultura política moderna, a saber: a cultura política burocrática racional. Lacan associa a modernidade ao discurso do capitalista. Para Weber, a empresa moderna é o modelo da burocracia estatal. O Estado moderno é um Estado capitalista. Mas foi Marx quem primeiro articulou o discurso do capitalista como um artefato simbólico como junção do trabalho assalariado com o capital (máquina de guerra econômica) e com  a ciência moderna. O livro "O Capital não é a fabricação do conceito episteme capitalista como artefato simbólico concreto? Então, o que seria o contraconceito de modernidade?
Desde a civilização arcaica, a história universal é a organização através da cultura política (articulada pelo discurso do mestre) de dupla energia universal mitológica: a pulsão de morte e o narcisismo. O mito é uma energia! A cultura política totalitária tem sido o principal artefato em tal organização da história. Mas se olharmos mais de perto para a história universal, pode-se observar que em alguns momentos dela sociedades tentaram organizar a dupla energia por culturas políticas não-totalitárias. A antiguidade (Grécia e Roma) encontra-se entre as épocas – determinadas espaço-temporalmente – de um trabalho político não-totalitário. Também é o caso da era moderna. Como contraconceito, a modernidade é um artefato ciclópico de construção de uma sociedade e de um Estado voltados para evitar seja a lógica do caos da energia narcísica (o estado permanente de surto narcísico é um significante do inconsciente político), seja a lógica freudiana da pulsão de morte (como energia mitológica a pulsão de morte é um contraconceito associado ao inconsciente político). Desde a idade Média, a história da Europa ocidental é este acontecimento da fabricação de artefatos para controlar a dupla energia supracitada. Como elas são energia míticas, o trabalho da secularização (tendo como vanguarda as máquinas de guerra científicas e o capital moderno) não se traduziu, simplesmente, como desencantamento do mundo em relação ao sagrado da cultura política cristã. O desencantamento é um processo na cultura em si e na cultura política de uma experiência radical de separação do mito. Assim, a modernidade pode ser uma época geoistórica (um significante raro) e também uma atitude. Uma época que quer se separar da história universal mitológica (passagem do mito para a história) e uma atitude de fazer isso acontecer criando fatos, acontecimentos, experiências e artefatos simbólicos capazes de controlar as duas energias supracitadas que são os motores da história universal. Neste sentido, a civilização europeia ocidental é o outro conceito de modernidade. Os USA são a cópia deste conceito concreto de Europa ocidental na América. Eles começam uma outra história da modernidade (pela lógica do simulacro de simulação) como organização racional da dupla energia supracitada. Como cópia (simulacro) da razão europeia, a razão americana tem que extrair sua força seja da ciência, seja do capital, seja do inconsciente político ariano (=mito). Nos USA, a secularização é um processo inacabado por causa do modo de organização (através da cultura política americana do dinheiro) das energias supracitadas pela política e pelo mundo-da-vida americanos. A história americana não é uma linha de força entre as linhas de forças da história universal? O buraco negro simbólico estacionado sobre a Terra não está tragando seja a modernidade europeia, seja a modernidade americana?   

 BURACO NEGRO SIMBÓLICO
 “Stephen Hawking descreve no artigo que o que existe no buraco negro não é nem o horizonte de eventos nem o "firewall", mas um “horizonte aparente”. Esse fenômeno seria capaz de reter e manter a matéria temporariamente, com a possibilidade de liberá-la posteriormente, porém em um formato totalmente distorcido e "bagunçado".
“O objeto caótico em colapso irá irradiar de forma determinística, porém caótica. Será como a previsão do tempo na Terra. Ela é determinada, mas caótica, então há perda efetiva de informação. Não é possível prever o clima com mais de alguns dias de antecedência”, compara Hawking, na conclusão de seu artigo.
Em entrevista à “Nature”, o físico Don Page, especialista em buracos negros da Universidade de Alberta, no Canadá, afirma que a nova teoria de Hawking é plausível, porém radical ao apresentar a possibilidade de que “qualquer coisa, em princípio, poderia sair de um buraco negro”.
Esta teoria do buraco negro de Stephen de Hawking é o ponto e partida para pensar o contraconceito de buraco negro simbólico da física das máquinas de guerra. O “horizonte aparente” é o centro de gravidade constituído por energia narcísica que atrai a matéria RSI (Real/Simbólico/Imaginário) da história política universal como objeto caótico em colapso que irá irradiar de forma determinística, porém caótica, a liberação  posterior de  máquinas de guerras de várias espécies. Em determinadas épocas históricas, a matéria liberada transforma a terra em um território geostórico caótico onde só existem máquinas de guerra totalitárias e escravos (ou povos a serem escravizados) como a Idade Média Europeia (e o Brasil colonial). Neste tempo geostórico, o significante dominação weberiano é realmente um tipo ideal que raramente se instala na terra.     
Tal episteme totalitária (RSI) age sobre o mundo aplicando força sobre o caos do cérebro constituindo discursos que articulam a história política universal desde a civilização arcaica. O discurso do mestre é o primeiro artefato epistémico na produção de tal história através da articulação de cultura política totalitária e das máquinas de guerra totalitárias derivadas de tal cultura. O buraco negro simbólico é compatível com o contraconceito de repetição  Nietzschiana (eterno retorno do mesmo) para a história política universal. Já a algum tempo, um buraco negro simbólico está atraindo a matéria do RSI {homem (grego), humano (Freud), instituição política (Weber) etc.} e liberando Coisa totalitária na superfície política do mundo-da-vida e na política stricto sensu. No mundo-da-vida, há liberação de nanomáquinas de guerra em escala planetária no lugar da humanidade. Na política stricto sensu, o homem moderno condensado em instituição política (que se define pelo uso inibido de violência) está sendo substituído por cultura política totalitária que articula máquinas de guerra totalitárias que se definem como um polígono. No primeiro lado deste polígono, encontra-se o Urstaat que é liberado pelo buraco negro simbólico - modelo arcaico de toda e qualquer máquina de guerra totalitária. O discurso do mestre é o outro lado do polígono totalitário que libera cultura política que estrutura o mundo a partir da estrutura RSI INJUSTIÇA. Trata-se de um polígono totalitário menor dentro do polígono maior totalitário. Os vários lados da INJUSTIÇA são: a) fazer o mal sem ser punido; b) sofrer o mal sem reparação; c) usar o poder para ajudar os amigos; c) usar o poder para prejudicar os outros (objeto=inimigo). Este é o RSI que está sendo liberado caoticamente pelo buraco negro simbólico estacionado próximo à TERRA. Pura ficção científica?     
                                          
                                 
                                                                                                    
                               


Nenhum comentário:

Postar um comentário