terça-feira, 7 de outubro de 2014

Crise política lacaniana: São Paulo


Este texto opera com uma hipótese: a junção da crise hídrica com a crise brasileira. Ele procura atribuir um sentido positivo à ideia de ficção política. Trata-se de concebê-la como da ordem do lógico-empírico.
I
Habermas assinala que para fazer um diagnóstico do presente há de adotar-se um ponto de vista “evolutivo” de uma explicação de um passado situado no futuro. Jamais esquecendo que a tradição pesa como chumbo no cérebro dos vivos. O diagnóstico só tem sentido em um marco de uma formação discursiva da vontade ilustrada, isto é, em uma argumentação na qual é preciso justificar por que em determinadas situações determinados sujeitos deveriam escolher determinadas estratégias e normas de ação em lugar de outras.
Como ciência do Real, a ciência dialética da política se move na história universal evitando a simples narração ou a teorização da história. A narração intervém na história universal através do significante tradição. Mas só se concebermos a tradição como algo para além do hábito, do costume. É preciso concebê-la como lógica do espectro do passado, como lógica do simulacro político. A ciência política em tela concebe a história universal como a instalação ex nihilo do inconsciente político, de formas de racionalidade e de lógica do simulacro político. O inconsciente político não é criado por um significante-mestre – como no caso do inconsciente do campo freudiano –, ao contrário, ele é instalado ex nihilo, parcialmente, como cadeia de significantes. O inconsciente político é articulado em uma matriz espaço-temporal. Ele tem uma história. O funcionamento da cadeia significante opera pela sobredeterminação. Na história universal, o Urstaat sobredetermina o inconsciente político na aurora da civilização arcaica. Os trabalhos de hidráulica (drenar água de terrenos encharcados, irrigação) são parte da lógica de um aparelho de captura do excedente nos grandes vales aluviais do Egito ou da Mesopotâmia. O significante riqueza (=excedente) está associado diretamente ao Urstaat. Segundo Godelier, este dispositivo se instala quando o aproveitamento de dados naturais impõe a cooperação em grande escala das comunidades particulares com o fim de realizar grandes trabalhos de interesse geral que estão além da capacidade das forças dessas comunidades, tomadas separadamente como indivíduos particulares. Outros significantes vão fazer parte da história universal. Para Marx, a ciência real da economia moderna só começa quando a análise teórica se desloca do processo de circulação para o de produção, quando o capital assume uma forma racional, pois “o capital de juros é também a forma arcaica do capital” (Marx: 388). O capital surge como uma forma econômica irracional. Se o Urstaat opera na história como um significante de conservação do modo de produção (Marx: 381), o capital comercial atua como um significante dissolvente dos modos de produção (Marx: 382). Trata-se ainda de uma forma de capital quase irracional. Na história universal, o inconsciente político é uma cadeia cuja inteligibilidade depende desta dialética do significante. Além do capital dissolvente, outros significantes dissolventes participam de tal dialética, como o estado de guerra freudiano e a anarquia branca. Mas não é só o Urstaat que atua no sentido da conservação e da estabilização da cadeia gerando ordem externa, com o uso da violência sem limite, e ordem interna através da criação do aparelho de Estado psíquico. Neste espaço, ele faz uma junção com o sistema de parentesco. Se há um deslocamento no lugar da sobredeterminação, por exemplo, para o capital comercial, a cadeia passa a funcionar pela dialética negativa dissolvente dos modos de produção. Mas como assinala Marx, esta ação dissolvente depende, antes de mais nada, da solidez e da estrutura interna do antigo modo de produção. Na era moderna, o lugar da sobredeterminação é ocupado pelo modo de produção capitalista que faz pendant entre o capital moderno e o Estado moderno. Fazer pendant significa inscrever no inconsciente político duas formas racionais, como duas metades semelhantes, que vão dominar a política mundial. O Estado moderno é uma forma da história universal que introduz no Estado a ideia e a prática do uso da violência legítima. Se o Urstaat é um poder sem limite, o Estado moderno é o avesso disso, pois ele é um poder com limite, um poder cujo limite é dado pelo discurso do direito moderno. O Urstaat é uma forma de dominação não-legítima, pois ele é uma articulação do discurso do senhor. Este é uma forma de poder despótica que articula, primariamente, a relação senhor-escravo. Trata-se de um poder não-legítimo. Desde a antiguidade arcaica, tal forma de poder despótica existe como um significante da história universal (Marx: 381). O Urstaat é um significante não-periódico da história universal, ele faz o inconsciente político existir como uma cadeia volátil. Na era moderna, ele é o conceito da noção descritiva totalitarismo, por exemplo. A sociologia da dominação concebe três tipos de dominação legítima (tradicional, carismática, racional-legal) e um tipo de dominação não-legítimo (cidade). A falta nesta sociologia é a dominação despótica, dominação não-legítima. No século XXI, tal forma (Urstaat) parece estar despertando em São Paulo. A crise hídrica tem algo a ver com isso?
II
Para o diretor metropolitano da Sabesp (Companhia de Saneamento do Estado de São Paulo), Paulo Mossato, a crise da água em 2015 deve ser, pelo menos, igual a de 2014. Segundo a Sabesp os reservatórios têm 93% de probabilidade de chegar ao início do próximo período de estiagem com os mesmos 10% de capacidade de seu volume útil observado em 2014. Para o El Pais, embora Alkcmin siga negando, 31 das 645 cidades paulistas já adotaram o racionamento de água por causa da crise hídrica, segundo o levantamento pelo jornal SPTV no último mês de setembro. E as torneiras também estão secas em diversas outras cidades do estado e em dezenas de bairros da capital paulista, em uma espécie de racionamento branco. Antônio Carlos Zuffo é professor da Unicamp e especialista em hidrologia. Para ele, São Paulo está à beira de um desabastecimento por conta desse permanente gerenciamento de risco que vem sendo feito desde 2014. O governo está agindo irracionalmente, pois deveria estar fazendo um controle chamado Curvas de Aversão a Risco (CAR). Isso significa que o volume mensal do reservatório deveria ser calculado e, baseado nesse volume, o governo deveria estabelecer a quantidade de água que poderia ser retirada para a distribuição (El Pais. 02/10/2014. Política).
O governo de São Paulo não age como um aparelho de um Estado moderno, como um Estado racional. O PSDB - que se apresenta como o partido mais moderno brasileiro- é pautado por um agir irracional. Ele temia que a crise hídrica pudesse acabar com duas décadas de controle do estado. Assim, ele faz um racionamento branco que atinge apenas certas camadas pobres da população. A ficção política projeta um cenário no qual São Paulo pode se tornar um laboratório da história universal no século XXI. Neste cenário, o que aconteceria, especialmente, com a cidade de São Paulo?
A partir de Marx começou a ser possível pensar a história universal como articulação da história da natureza com a história da espécie humana. A reprodução da vida humana está irrevogavelmente vinculada à reprodução material da vida. A história da natureza é a base da história natural da espécie humana. A história natural põe e repõe o velho problema da necessidade humana que uma sociedade moderna possuída pela crença na onipotência da técnica científica tendia a denegar. Na civilização arcaica, o Urstaat estava associado à técnica do controle da água. A água é transformada em uma riqueza como objeto do aparelho de captura do excedente. O Estado é esta forma da história universal que surge na dialética da história da espécie humana com a história da natureza. Trata-se de uma forma técnica, de um significante semirracional que sobredeterminaria a cadeia de significantes do inconsciente político da civilização arcaica. O Urstaat  é esta forma de dominação não-legítima. Trata-se de um poder sem limite no uso da violência, e de um aparelho de captura não legítimo do excedente, da riqueza. Mesmo sendo uma forma que surge baseada em uma lógica do interesse geral, ele é uma articulação do discurso do mestre, de um discurso despótico gerado na relação senhor-escravo. A lógica despótica é a lógica do interesse privado do senhor que transforma o ser humano em escravo, em coisa do mestre. Tal discurso faz a lógica privada do inconsciente político subsumir a lógica pública, a lógica do interesse geral. Trata-se portanto da dominação não-legítima arcaica. Esta figura do Urstaat não emerge na crise hídrica de São Paulo?
Por causa da eleição, o PSDB age irracionalmente colocando seu interesse privado de conservar o poder na frente do interesse público racionamento da água. O PSDB agencia a figura do Urstaat no lugar do Estado moderno. Ele não se comporta como um partido moderno, mas como um partido oligárquico-burguês. Ele não é regulado pela lógica do interesse público, mas pela lógica do interesse privado partidário, pela lógica do privatismo oligárquico, ou seja, pela lógica da apropriação privada da riqueza pública (água). O discurso do mestre oligárquico articula o PSDB tornando-o uma repetição burguesa do Brasil colonial. Assim, o PSDB mostra que ele é capaz de governar o Urstaat para enfrentar, se necessário, o estado de guerra freudiano, a anarquia branca, a crise de hegemonia... Ele se torna uma figura do Brasil profundo, do Brasil determinado pelo inconsciente político colonial. E como associação política do século XXI, ele age como o partido burguês brasileiro cuja racionalidade, ou falta de racionalidade, é determinada pela lógica da oligarquia política híbrida.
No plano nacional, o PSDB é o partido que se beneficiou de uma aceleração histórica na construção do Urstaat. No início de setembro, Carlos Montenegro, dono do Ibope, disse que Marina Silva ganharia a eleição de Dilma Rousseff por uma diferença de 20 milhões de votos válidos (UOL). Para ele, Aécio Neves no segundo turno era da ordem do impossível. Ele tinha esquecido que a política brasileira é como nuvem? Setembro foi o mês de uma vasta e intensa operação para “desconstruir” Marina Silva. Formado pelo governo federal, PT, PSDB, Organizações Globo, Folha de São Paulo, Ibope , DataFolha e quejandos, o “comitê central” da oligarquia política híbrida” é o semblante de um fenômeno político que se repete no Brasil: o Príncipe infame. É verdade que, inicialmente, setores ilustrados do aparelho de comunicação se entusiasmaram com o carisma de Marina Silva e uma fração liberal do capital saudou Marina como uma alternativa à vontade de hegemonia do capitalismo de Estado. Esta fração do capital identifica o Urstaat pelo avanço do capitalismo de Estado no Brasil.  No entanto, a lógica do interesse geral da oligarquia política híbrida se impôs avassaladoramente. O Príncipe infame é um significante forjado por uma materialidade política volátil que desencadeou uma campanha infame para aniquilar Marina. A campanha infame repetiu a campanha de Collor contra Lula da eleição de 1989. No entanto, há uma diferença em relação ao Príncipe infame Collor de Mello. Em 2014, o Príncipe infame é uma figura do estado de guerra freudiano na política brasileira. Tal Príncipe significou a defesa, em um momento grave, do interesse geral da oligarquia política híbrida. Ele foi para a batalha para evitar o fim do modelo político em tela. Sua lógica diabólica reflete a lei de todo significante político: a lei da volatilidade. No primeiro turno, PT e PSDB se uniram contra a possibilidade do fim do reinado da oligarquia política híbrida. O interesse geral desta se materializou em uma vontade infame:
Glócester (Ricardo III) – Labor bendito, meu soberano senhor! Se há alguém nesta nobre assembleia que, por um falso informe ou suspeita injusta, me acreditava seu inimigo; se involuntariamente, ou num momento de raiva, cometi alguma ação que ofenda aos que aqui estão presentes, desejo fazer uma amigável conciliação. Ter uma inimizade, é para mim a morte! Odeio isto e desejo o amor de todos os homens de bem. Começo por vós, senhor, e peço-vos uma paz sincera, que pagarei com meu perpétuo serviço (Shakspeare: 602).
A campanha infame consistiu em inculcar na população a queda paulatina de Marina nas pesquisas do Ibope e do DataFolha. Tais institutos trabalhavam a possibilidade de Aécio Neves ir para o segundo turno com Dilma. Por que isso foi um passo gigantesco na construção do Urstaat? A ida de Aécio para o segundo turno significa que as urnas não são livres; que a eleição é dominada, distorcida, pelos dispositivos de poder da oligarquia política híbrida. Dilma venceu com 41, 58% dos votos válidos (43, 2 milhões de leitores); Aécio obteve 33, 56% dos votos (34, 8 milhões); Marina 21, 32% (22,1 milhões de eleitores); 19% se abstiveram. Estes 19% ou são o voto niilista, ou são o voto daqueles que não se inscrevem simbolicamente na política. 88 milhões de eleitores votaram pela continuidade do modelo político. Sua decisão é o motor de uma reprodução ampliada do Urstaat. O discurso do mestre articula o Urstaat através da transformação do eleitor em escravo político de tal discurso. O eleitor tornou-se coisa de um senhor, ou seja, do Urstaat. Este é o comitê da oligarquia política híbrida. No segundo turno, o eleitor-coisa vai decidir quem será o seu senhor nos próximos quatro anos, quem vai dirigir o Urstaat no mergulho em águas profundas da crise brasileira. O eleitor-coisa vai decidir entre duas vias políticas. Ou ele escolhe o simulacro de populismo getulista, ou seja, o populismo oligárquico pós-moderno que é essencialmente a vontade de repetir o capitalismo de Estado como posição hegemônica no bloco no poder. (O populismo petista é uma junção de populismo russo com populismo getulista. O populismo russo é a matriz simbólica do estalinismo. O populismo petista só é inteligível como objeto político pela lógica do simulacro). Ou o eleitor-coisa escolhe a burguesia oligárquica do sudeste: o neoliberalismo autárquico. Tanto o Urstaat populista (estalinista) quanto o Urstaat burguês (neoliberal autárquico) estão sujeitos à metamorfose, ao serem rearticulados como Estado despótico capitalista. 
A crise brasileira do século XXI pode produzir uma transformação na matriz simbólica espaço-temporal. Pode ocorrer um deslocamento histórico-temporal na política com a transição do Brasil colonial para o Brasil do século XIX. Neste século, o principal problema político foi a conservação da unidade do país, ou seja, evitar a desintegração do Império. Pedro II foi o significante individual que arquitetou a autoconstrução do Urstaat imperial com o sentido claro de evitar a lógica do pior. A desintegração geopolítica do Brasil foi o que caracterizou a crise brasileira do século XIX. A crise brasileira do século XXI põe e repõe (repetição) o problema da unidade do país. A produção do contemporâneo brasileiro se caracteriza pela virtual desintegração da República.
Se Marina não partir para a construção da Rede Sustentabilidade, o espartaquismo marinista (rebelião dos escravos) deixará de ser uma alternativa à oligarquia política híbrida na crise brasileira. O caminho para a construção do partido luxemburguista pós-moderno não é uma linha reta!
III
O Estado, o capital, a guerra, o estado de guerra freudiano, o aparelho de Estado psíquico e a anarquia branca são significantes materiais da história universal. O Estado despótico (Urstaat) é um aparelho de captura do excedente e um poder sem limite que sobredetermina a cadeia destes significantes na aurora da civilização arcaica. Ele é uma dominação não-legítima. A questão da legitimidade do Estado é uma obra esboçada na Atenas da época clássica. Nesta, o discurso da filosofia se institucionaliza na cidade-estado. Com ele são postas sistematicamente em questão e submetidas a exame a pretensão de legitimidade das interpretações míticas e religiosas do mundo. No entanto, a cidade-estado é determinada, em última instância, pelo modo de produção escravista. Esta determinação significa a articulação dela pelo discurso do mestre. A cidade-estado é determinada, em última instância, pelo inconsciente político da antiguidade clássica. Para Freud, o Estado romano não foi uma obra fundada no amor – no discurso do mestre – embora a religião fosse do interesse do Estado e este se achasse impregnado dela (Freud: 137). A República romana é uma forma racional de Estado impregnado pela religião, ou seja, uma forma racional que faz pendant com a lógica do credo quia absurdum. Na era moderna, ocorre a institucionalização de discursos nos quais se supunha que deviam ser postas continuamente em questão e submetidas a exame as pretensões de legitimidade vinculadas a questões práticas e decisões políticas. Neste momento, na Inglaterra do século XVII e depois no continente e nos EUA (com precursores, certamente, nas cidades renascentistas do Norte da Itália), emergiu o espaço público burguês e em conexão com ele as formas representativas de governo – a democracia burguesa. Como um poder com limite, ou seja, articulado pelo direito moderno, o Estado é o uma obra da época moderna. Ele é o significante Estado como monopólio legítimo do uso da força. Weber fez uma sociologia sobre a gênese do Estado moderno. Mas o guia mais seguro para concebê-lo é certamente a crítica da economia política. Nesta, o modo de produção capitalista é uma produção ex nihilo. Se desconsiderarmos a lógica teleológica da burguesia como classe-Sujeito da história moderna, o capital moderno é uma produção ex nihilo. O Estado moderno também é uma produção ex nihilo. O método de Marx é a chave para compreender a produção da cadeia de significantes, em geral.
Na era moderna, o Estado emerge como um fenômeno de pacificação da sociedade ocidental, como um fenômeno do “processo civilizatório”. Ele aparece como uma técnica capaz de jogar para a periferia da cadeia de significantes o estado  de guerra freudiano e extirpar da cadeia de significantes a anarquia branca. O Estado moderno também não produz o aparelho de Estado psíquico. A civilização moderna tem que se articular no espaço psíquico com o supereu cultural freudiano. O discurso do mestre é substituído pela hegemonia. Para Hegel, a era moderna se define pela emergência do Estado-ético ou Estado-hegemônico, um Estado regulado pelo uso da razão. Ele representa o fim da história política universal. Em algum momento do século XX, o fim da história universal chegou ao fim. O totalitarismo é a emergência do inconsciente político na política moderna. Ele transforma o Estado racional em um fenômeno da lógica do insignificante. Em algum momento da história do século XX, a história da natureza objetiva lança o planeta em direção ao reino da necessidade. No início, o ecologismo foi uma vontade de potência de um discurso que foi institucionalizado amplamente, inclusive, no âmbito do capital,  dos governos, das instituições multilaterais, das universidades, etc. Um discurso que introduziu uma racionalidade no tratamento da questão ambiental. Mas acabou saturando a política mundial ao tornar-se um discurso milenarista. Com ele, o fim da história retorna como fim da vida na Terra. Félix Guattari confessou seu medo de que a ecosofia fosse transformada em uma ideologia degradadora da natureza, do socius, da psique (Guattari: 15, 28). Para evitar isso, a ecosofia deveria, em cada foco existencial parcial, fazer da práxis ecológica um esforço para detectar os vetores potenciais de subjetivação e de singularização. Então, como ela se transformou em uma ideologia milenarista saturando a estrutura de comunicação mundial? É preciso entender o fenômeno da ecosofia ideológica no sentido de Baudrillard. Para ele, cada fato - político, histórico, cultural - está dotado de uma energia cinética que o arranca de seu espaço e o projeta no hiperespaço. Neste, os fatos supracitados perdem todo o sentido, uma vez que jamais regressarão. A sociedade em rede digital é um acelerador de partículas que quebram definitivamente a órbita referencial das coisas (Baudrillard: 9). Baudrillard não foi capaz de conceber a perda de sentido como objeto a (objeto da pulsão). Isso jogaria o pensamento de Baudrillar para a órbita lacaniana. Assim seria possível pensar o pós-modernismo com a crise política lacaniana. Esta permite pensar o poder que produz a ausência de sentido como um agenciamento de pulsões (objeto a), como um significante material que desarticula o RSI (Real/Simbólico/Imaginário) a partir subsunção dele ao Real. O mecanismo básico do capitalismo mundial – Capitalismo Mundial Integrado (CMI) – é a foraclusão da lógica do sentido como articulação da política mundial. Com o CMI a política pode se transformar em uma categoria do Real. Assim a política se revela como fenômeno não integrado ao inconsciente político. Trata-se da política para além do inconsciente político.
No “Ocidente” do século XXI, São Paulo surge como uma possível fusão da história da natureza com a história da espécie humana na crise política lacaniana. Na concepção tecnicista da natureza, esta deve ser o objeto da realização das pulsões e vontades humanas. Trata-se da natureza objetivada pelo trabalho social; da natureza sob domínio da razão instrumental. O ecologismo é uma luta sem quartel contra tal concepção de natureza. Mas ao cair no milenarismo, ele acabou funcionado como um discurso capaz de domar na espécie humana o medo do fim da vida na Terra, de acostumar a espécie humana com a ideia de queda, com a imagem do abismo. Em relação à crise ambiental, a política mundial é inercial.
São Paulo está à beira do abismo? Os jornais e especialistas na questão hídrica dizem que sim. O governador do PSDB – reeleito com 57, 3% de votos válidos- diz que não. O eleitor confiou na palavra do governador. Para ele, o ato de fala de Alckmin é verdadeiro. Não se trata de uma ação estratégica guiada pela mentira, pelo engodo, pelo despistar, pela manipulação, pelo pacto de silêncio mafioso. Uma estratégia para ganhar a eleição no primeiro turno. No debate do dia 30/09/2014, o candidato da FIESP/PMDB Paulo Skaf declarou: “o problema não é a falta de água, é a falta de obras. Com obras não falta água nem em áreas do deserto”. Este ato de fala não sugere que a política paulista de 2014 aponta para a foraclusão do significante crise paulista? Trata-se de uma  articulação da crise hídrica com a crise brasileira (Silveira. 2014). A crise política lacaniana é a foraclusão do significante crise brasileira na política - local ou nacional. A crise é o Real que não para de se não se inscrever no Simbólico. Ela faz do governo um dos impossíveis freudianos. Ela é a ausência do significante capaz de submeter o inconsciente político ao uso da razão ilustrada. Única via para evitar a lógica do pior. No Camboja, o Kmer Vermelho evacuou Phnom Pehn em nome do comunismo. A cidade era uma árvore de corrupção capitalista que deveria ser arrancada pela raiz. Na “marcha da morte” para o interior do país, uma parcela substancial da população morreu. O Kmer Vermelho foi a versão asiática e “comunista” do Príncipe infame. A crise paulista não pode tomar de assalto o lugar do Kmer Vermelho? O Kmer Vermelho não pode significar para São Paulo a crise do Estado, a desintegração da cidade? A junção da crise paulista com a crise brasileira pode tornar o Estado um aparelho ineficaz no enfrentamento com o estado de guerra freudiano e com a anarquia branca que emergirão por causa da crise política lacaniana. O reino da necessidade pode desintegrar o estado.
Quando a anarquia se instalou na Rússia depois da revolução bolchevique, o governo de Lenin instalou o “terror vermelho”. Tratou-se do primeiro esboço de Urstaat socialista, do Estado como um poder sem limite. Tal poder funcionava através dos tribunais revolucionários e das comissões extraordinárias – acima dos sovietes –, julgando sumariamente e fuzilando, inclusive, os intelectuais. Trata-se de uma época sob o domínio do estado de guerra freudiano (o lumpesinato tomou de assalto as grandes cidades, inclusive realizando um atentado quase letal contra Lênin); sob o choque da guerra civil de classe; sob o choque do banditismo coletivo. Era do Exército insurgente anarquista de Makhno e da revolução quase anarquista de Kronstad; dos Exécitos brancos de Deniken, Kolchak e quejandos. O Urstaat planificado construído por Stalin bebeu nesta fonte leninista do terror vermelho, quando a necessidade histórica exigiu a destruição dos camponeses. Se São Paulo for assolada por condições históricas com a mesma potência destruidora da Rússia bolchevique, causa empírica do Urstaat leninista, como o Estado paulista vai reagir? Ao enfrentar a multidão de junho de 2013, o governo paulista agiu como esboço de Urstaat.
São Paulo é um momento da crise brasileira como junção da história da natureza com a história da espécie humana. Mas trata-se também da forma geopolítica da crise política lacaniana que torna o ato de governar impossível. O governo reage à crise como uma figura irracional do inconsciente político regulado pelo discurso do mestre. Ao lidar com a natureza objetiva, um partido moderno (PSDB) fracassa como política pautada pela racionalidade. Ele funciona como  sinthoma da crise política lacaniana. No poder federal, o PSDB vai enfrentar a crise brasileira como um partido moderno ou como um partido regulado pelo discurso do mestre? Ele vai conceber o Urstaat burguês como a única via política para dobrar a crise brasileira? Ele vai adotar a tecnologia desenvolvida pela oligarquia no Brasil colonial que tratava a política pelo agenciamento do Real? Ele vai usar as pulsões do inconsciente político da população como a pedra angular de uma política agenciada pelo discurso do mestre? Ele vai acabar com o fluxo, cada vez mais fraco, de racionalidade que ainda sustenta a possibilidade ou do Estado-hegemônico, ou do Estado moderno? As pulsões da população não inscritas no simbólico são os significantes foracluídos do grande Outro. A foraclusão é a rejeição de um significante primordial para fora do universo simbólico do sujeito-população. O Nome-do-Pai é o conceito da função paterna, o significante fundamental, justamente aquele que fica foracluído na psicose. Ele não é integrado no inconsciente como no recalque. A psicose  mergulha a cadeia de significantes no  Real. Se os significantes da cadeia simbólica retornam no Real sem serem integrados no inconsciente político, isso quer dizer que o Real se confunde com um alhures do sujeito político. Nesta situação política, no lugar do ato de fala racional, a política passa a ser o império que se exprime através de gestos, alucinações, delírios, sugestão, funções e ritos fáticos (Malinovski) etc. Na estrutura da comunicação do espaço público, a lógica do credo quia absurdum faz do discurso do mestre o dispositivo de articulação da política. A lógica foi descrita por Freud de um modo simples. Escreve Freud  - Acho que agora posso ouvir uma voz (objeto a, ou objeto parcial da pulsão) solene me repreendendo: “É precisamente porque teu próximo não é digno de amor, mas, pelo contrário, é teu inimigo, que deves amá-lo como a ti mesmo” (Freud: 132).    
A crise brasileira é o significante fundamental foracluído do inconsciente político brasileiro. Ele é o significante do campo da ciência política lacaniana homólogo ao significante Nome-do-Pai do campo freudiano. Por que isso é fundamental? Porque a sua simbolização torna possível o governo como uso da razão ilustrada. Isso evita o domínio da política pelo inconsciente político ou, simplesmente, pelo Real. A foraclusão do significante crise brasileira – ele não é integrado ao inconsciente político, retornado no Real – determina que governar é impossível. Trata-se da  política subsumida ao Real das alucinações, dos delírios e do credo quia absurdum; da política que usa o objeto a para tapar o buraco no grande Outro; da política articulada pelo discurso do mestre, articulada pela voz e o olhar do mestre. O objeto a tapa o buraco no Simbólico, tal objeto se realiza como vida das pulsões que faz a desarticulação do RSI. A crise política lacaniana é o Real como desarticulação do RSI. Gilberto Freyre concebeu a história brasileira marcada pelo supereu do Pai oligárquico. Isso significa um fio de racionalidade. Mas a desarticulação do RSI sustenta o poder despótico do discurso do mestre como um poder sem limite, um poder não-legítimo. Trata-se de uma situação que pode ser caracterizada por uma montagem que significa a ausência de lógica racional. A crise lacaniana pode ser definida pelo deslocamento dos significantes dissolventes – estado de guerra freudiano, anarquia branca, crise hídrica, crise econômica orgânica, crise de hegemonia etc. – para um ponto de condensação ou fusão - a foraclusão do significante crise brasileira da estrutura de comunicação pública. A rejeição do significante crise brasileira equivale em termos de potência de desintegração da República à rejeição dissolvente do Nome-do-Pai no inconsciente freudiano.
A crise política lacaniana ou crise brasileira tem sua raiz na era FHC. Possuído pelo neoliberalismo autárquico, FHC não entendeu que a única saída para o Brasil era o encaixe do país no capitalismo corporativo mundial. Para completar tal quadro desalentador, a desintegração do capitalismo moderno autárquico no século XXI significa a perda de uma forma racional de capitalismo que ocupava uma posição hegemônica no bloco no poder. Trata-se de uma forma de racionalidade antinômica ao domínio da estrutura simbólica pelo discurso do mestre oligárquico na crise brasileira republicana.
Um espectro do passado ronda São Paulo e o Brasil. O espectro da crise de desintegração do Império do século XIX. Tal tradição pesa como chumbo na política brasileira do século XXI. Ela quer se repetir pela lógica do simulacro. Para São Paulo, a lógica do espectro significa a desintegração do estado. Para o país, ela significa a desintegração da República.
A crise política lacaniana está instalada na política mundial pela foraclusão da lógica dos espectros do futuro. Ao foracluir irreversivelmente a luta de classes do centro da política mundial, o capitalismo oligárquico mundial foi além da modernidade. Ele produziu a rejeição da razão ilustrada no inconsciente político dos povos. Trata-se da foraclusão de toda e qualquer emancipação? Esta tornou-se uma categoria do Real?
BIBLIOGRAFIA
BAUDRILLARD, Jean. A ilusão do fim. A greve dos acontecimentos. Portugal: Terramar. 1992
GUATTARI, Félix. As três ecologias. Campinas: Papirus. 1991
FREUD. Obras completas. O mal-estar na civilização. RJ: Imago. 1974
MARX. O capital. Livro 3. v. V. Cap. XX. Observações históricas sobre o capital mercantil. SP: Difel. 1985
SHAKESPEARE. Obras completas. v. III. Ricardo III.RJ: Nova Aguilar. 1988
SILVEIRA. http://politicajosepaulobandeira.blogspot.com.br/2014/09/crise-brasileira-critica-da-razao.html 

Nenhum comentário:

Postar um comentário