terça-feira, 23 de setembro de 2014

Crise brasileira: crítica da razão marxista


A crise brasileira aponta para um problema ressaltado pela teoria política de Poulantzas. Trata-se da crise de hegemonia, quando nenhuma classe ou fração consegue impor sua “liderança” sobre as outras classes ou frações do bloco no poder, seja através de suas organizações políticas, seja por meio da democracia-parlamentar. Isso se relaciona tipicamente à crise geral da hegemonia sobre toda a sociedade (Poulantzas.1974: 78). Tais crises refletem-se na cena política e no sistema estatal. Os seus sintomas incluem: a) uma crise de representação partidária, isto é, uma ruptura entre diferentes classes ou frações de classes e seus partidos; b) o resultado final é a desintegração do significante Estado definido pelo monopólio da violência.
De fato, há um problema brasileiro que pode ser qualificado como crise de hegemonia? Uma mudança significativa e perturbadora é a desintegração da hegemonia da burguesia industrial do sudeste sobre o bloco no poder. Trata-se de um simulacro de burguesia moderna localizada, principalmente, no estado de São Paulo. Ela se capacitava como classe apoio disponível ou correia de transmissão da hegemonia da oligarquia financeira mundial sobre o bloco no poder. Então, existe alguma classe que possa ocupar este lugar hegemônico da burguesia industrial paulista? Como fração mais importante do capitalismo de commodities, a nova oligarquia capitalista rural poderia preencher este buraco no bloco no poder? Ela não inauguraria uma etapa ou de instabilidade hegemônica, ou de incapacidade hegemônica? (Poulantzas. 1974: 79). A partir dela, as relações hegemônicas podem ser reorganizadas? Quais poderiam ser os efeitos da crise do modelo político sobre tal crise hegemônica? Ele poderia aprofundar a crise de hegemonia no bloco no poder levando à crise geral de hegemonia sobre toda a sociedade? O cenário aponta para uma desarticulação de uma dupla lógica - a lógica do político como condensação do econômico e a lógica do político como articulação hegemônica? (Silveira. 2000: 222)
É preciso lembrar o papel do Estado nisso. De fato, ele pode se constituir como fator de unidade política no bloco no poder sob a liderança da classe ou fração hegemônica. Ele constitui o fator de organização hegemônica dessa classe ou fração de forma que seus interesses possam polarizar os interesses das outras classes e frações do bloco no poder (Poulantzas. 1977: 296; 1981: 146). No Brasil, quando evocamos o Estado, trata-se do Estado oligárquico capitalista. Este é impensável sem a articulação política dele pelo discurso do mestre.
A política brasileira se organiza apenas por relações de hegemonia? No caso do bloco no poder isto é um fato consumado? A estrutura oligárquica do capitalismo brasileiro não faz intervir o discurso do mestre na articulação do bloco no poder? Então, a política “burguesa” é uma condensação de hegemonia e discurso do mestre. A passagem para a hegemonia do capitalismo de commodities se fará através da articulação política das frações de classes no bloco no poder pelo discurso do mestre. Com a sua tradição de política antioligárquica, Marina Silva reconhece a necessidade de resolver a crise hegemônica do bloco no poder? O que significa para o país uma oligarquia capitalista rural assumir o lugar hegemônico de classe apoio disponível para o funcionamento da hegemonia da oligarquia financeira mundial? Não significaria aprofundar a transição para a democracia despótica e para a montagem do Urstaat? Marina se transformaria em uma versão suave do PT de Dilma Rousseff? A democracia despótica não é um estado de exceção, mas uma forma de governo na qual o discurso do mestre faz funcionar a hegemonia do bloco no poder sobre a população em geral. Isto sem suprimir as instituições democráticas. Ela é uma forma de democracia equivalente à tirania e à oligarquia porque a lógica privada subsume a lógica pública no inconsciente político. Na forma contemporânea, ela tem no Urstaat um complexo de dispositivos que também faz funcionar o discurso do mestre normativamente. O Urstaat é a verdadeira forma concreta do “estatismo autoritário”. Ele não é nem a forma nova de um verdadeiro Estado de exceção, nem, propriamente, a forma transitória para um tal Estado (Poulantzas. 1981: 240). Ele representa a repetição do Estado despótico na fase atual do capitalismo. De substantivo, o Urstaat enfraquece o império da lei porque as normas legais são crescentemente modificadas e elaboradas pela administração para lidar com conjunturas, situações e interesses particulares, e porque a formulação inicial delas é agora largamente empreendida pela administração numa competição agônica com o parlamento (Poulantzas. 1981: 252). O direito moderno deixa de ser a fonte da edição de normas gerais, universais e formais. Leis despóticas medram ao lado de juízes que são o instrumento legal da aplicação irracional da lei despótica sobre os cidadãos. Se o direito moderno era um modo de evitar o delírio pela racionalização da esfera jurídica, O Urstaat é o avesso da racionalização e, portanto, um campo fértil para o delírio dos legisladores e dos juízes. O Urstaat tem no pensamento jurídico moderno seus teóricos. Estes defendem que o Estado não pode ser um sujeito de obrigações, que o Estado não pode ser sujeitado ao Direito. Isto significa que no governo os homens que representam o Estado não sejam obrigados por normas jurídicas em sua relação com os cidadãos (Kelsen: 198).   
Deixando de ser a encarnação da vontade geral e da universalidade do povo-nação, o parlamento fica impotente diante do arbítrio real. O Urstaat produzirá outra forma política da população no lugar do povo-nação. De fato, o declínio do império da lei também afeta a esfera política. Um sintoma é a crescente ênfase na militarização das polícias para combater as multidões, os rebeldes, os desviantes e os vândalos que não são submetidos à punição judicial das ofensas por leis claramente definidas. No Brasil, as polícias militarizadas chegam a executar as pessoas nas ruas, ou em caso de conflito aberto, ou em alguns casos sem razão aparente. Uma característica da maneira de pensar do militar é atribuir muito pouco valor a uma vida humana (Kautsky: 48). A militarização das polícias significa a educação e o adestramento dos agentes da burocracia estatal pelo pensamento militar inumano.        
O modelo contemporâneo de política se impõe ao arrepio da ação comunicativa de Habermas. Este concebe uma política livre de mecanismos de dominação. A política articulada em um espaço público racionalizado pelo livre uso da razão, constituída por uma ilustração da vontade política (McCarthy: 34). Como ação comunicativa, a política teria que não ser enredada pelos significantes do inconsciente político. Quando isso será possível?      
Para o homem comum, uma parte invisível da crise ocorre na dimensão econômica. Trata-se da desintegração da indústria. No governo Geisel, a fração industrial dividiu com a oligarquia financeira internacional as funções hegemônicas no bloco no poder. Agora, a instabilidade hegemônica está ocorrendo com a substituição da fração industrial pela fração capitalista oligárquica rural no papel nacional da hegemonia no bloco no poder. A fração industrial se concentrava em São Paulo-Rio de Janeiro. Tendo como base estes estados, o pensamento tecnocrático foi o cimento ideológico (hegemonia) do bloco no poder no período Geisel. Em relação à hegemonia do bloco no poder sobre o conjunto da população, o Sistema Globo de Comunicação, dirigido por Roberto Marinho, atuou como vanguarda de uma rede de dispositivos ideológicos da fração industrial para fazer funcionar tal hegemonia. Agora, a oligarquia capitalista rural pode assumir este duplo papel? Ela pode ser hegemônica em relação as outras frações do bloco no poder e em relação ao conjunto da população?
A hegemonia da oligarquia rural capitalista pode ser a fonte da constituição do Urstaat, do Estado despótico (Marx. 1985: 381). No plano político estrito, tal hegemonia é exercida pela oligarquia política híbrida que dirige todas as frações econômicas do capitalismo no bloco no poder. Ela parece estar modelada pela lógica do insignificante. Tal lógica assinala que a oligarquia política é impotente para dar uma solução para a crise brasileira. De fato, ela é um dos motores da crise brasileira. Esta impotência tornou-se um signo da política a partir do movimento da multidão de junho de 2013. A multidão demandou coisas que a oligarquia política não tem como realizar. Uma delas é a retomada do desenvolvimento do Estado moderno que vai sendo substituído pelo Urstaat.
Ministros do STF já falaram sobre a força perturbadora da evolução do estado de guerra freudiano. Este parece ligar movimentos, sociais, multidões políticas, revoltas populares (em favelas, bairros populares e escolas), e rebeliões do lumpesinato na forma do lumpenproletariado e da patuleia. Esta é repetição de um significante imperial, repetição do Brasil do século XIX (Vianna: 236).
 Uma expressão do estado de guerra é a repetição do significante colonial banditismo coletivo (Vianna: 153-154), como “os novos cangaceiros”, que a polícia tenta conter, destruindo-o pelo extermínio físico dos corpos insubmissos. A imagem do cangaço nordestino tecida por Hobsbawm como banditismo social - na figura de Lampião como um herói para sua gente, mas um herói ambíguo (Hobsbawm: 57) – constrói uma visão romântica do sertão que ia ao encontro da associação que o marxismo brasileiro fez entre banditismo e revolta popular. A lenda contada em filme diz que na prisão da Ilha Grande, durante a ditadura militar, os guerrilheiros ministraram curso de guerrilha para os presos (bandidos) comuns. Esta teria sido a origem do “Comando Vermelho”, no Rio de Janeiro.
Como Oliveira Vianna mostrou, o estado de guerra freudiano tem como motor a lógica do discurso do mestre oligárquico. Percebendo o mundo pela boa vontade kantiana, ou seja, pela vontade de agir por dever baseada no imperativo categórico, os ministros do STF têm razão em se preocuparem com os feitos lógicos-práticos do estado de guerra também sobre o aparelho de Estado e sobre o direito moderno que regula a ação de tal aparelho. Os agentes do aparelho tendem a reproduzir a violência do estado de guerra freudiano sobre a população. Isso tudo implode a boa vontade do aparelho de Estado.  
O estado de guerra freudiano é um significante que pode ser encontrado no mundo colonial. Ele se repete no Império e na República não-periodicamente (Vianna: 236). Ele é produzido pela Ordem simbólica oligárquica e está associado à anarquia branca (Vianna: 172). Vianna o associa à sociedade dos guerreiros feudal (Vianna: 173). Norbert Elias leu esta sociedade como expressão do estado de guerra freudiano. O instinto de morte e suas pulsões agressivas se condensam em paixões que se manifestam livremente na guerra entre os feudos. A ausência de um supereu rigoroso e estável para domar tais pulsões ajuda a definir a sociedade dos guerreiros como um estado de guerra freudiano (Elias: 70). De Guimarães Rosas, o romance Grande Sertão: Veredas é o livro que pode funcionar como um espelho literário da sociedade de guerreiros do sertão de Minas Gerais.
“O sertão vai virar mar, e o mar vai virar sertão”. Esta profecia de Antônio Conselheiro parece querer se realizar na política brasileira. O sertão é a fronteira geosimbólica (Weffort: 58-59), ou seja, o ponto extremo simbólico que depois de ultrapassado produz um ponto de não-retorno na política. O sertão significa a impossibilidade de substituir a ética oligárquica (ajudar os amigos e prejudicar os outros) pela ética socrática: não prejudicar ninguém. Esta ética é a coisa mais próxima da transformação da política em razão prática sustentada pelo imperativo categórico: “Agir de tal modo que tal ação possa ser considerada como norma universal”. A propósito da interseção de Freud com a filosofia política moderna, Locke viu o estado de guerra da natureza como a forma do uso da violência para a destruição do outro (Locke: 46). O estado de guerra freudiano faz do instinto de morte (violência) o motor da destruição do outro. Assim, o significante descritivo estado de guerra da natureza torna-se o significante lógico-prático estado de guerra freudiano. Já Hobbes pensa o estado de guerra associado ao homo homini lupus, de Plautus. O estado de guerra é a guerra de todos os homens contra todos os homens ou instinto de morte. A paz é perseguida pelas paixões que fazem os homens tender para ela agenciados pelo medo da morte (Hobbes:75-77). O estado de guerra freudiano é um herdeiro da filosofia política realista antiga e moderna.  
As leis antiterroristas dormindo no Congresso acabarão definitivamente com a boa vontade do Estado em relação à população e significam o sertão da política brasileira. Elas são a ponta do iceberg da substituição do ordenamento jurídico moderno por um ordenamento jurídico despótico capaz de fazer funcionar o Urstaat como o único caminho para a crise brasileira. Estas redes de causalidades dos fenômenos, fatos e acontecimentos podem produzir uma mudança irrevogável na democracia instalada pela Constituição de 1988. O despotismo democrático do Urstaat petista já parece sustentar uma democracia despótica como forma de governo que altera substancialmente a Constituição de 1988. Esta articula como discurso do direito a política brasileira do século XXI.
II
O PT (Partido dos Trabalhadores) foi criado em 1980 pelas CEBS (Comunidades Eclesiais de Base), pelo “novo sindicalismo” (Secco: 49) e por grupos marxistas. A história do partido pode ser observada como um “processo” de lutas internas de transformação do partido de seita em Igreja, da transição de um partido mergulhado na pequena política para um aparelho voltado para a grande política. A seita deve ser concebida como uma comunidade de pessoas crentes e redimidas (Weber. 1981:102), e somente preocupadas com a pureza ideológica (Secco: 47, 72, 73, 188). A Igreja deve ser pensada como uma instituição com a vontade de tornar-se universal e com uma ideologia política capaz de expressar a vontade da maioria do povo. A seita é a lógica política da fragmentação e a Igreja da unidade do aparelho acima das tendências. Quando o partido esteve dominado pelo espírito de seita, o anátema foi o significante que resolvia os problemas oriundos dos conflitos “religiosos” – políticos e ideológicos – internos. Durante uma parte de sua história, o PT não foi um partido pacificado, “civilizado”, como os grandes partidos modernos ou tradicionais da oligarquia brasileira, como o PSDB, o PFL e o PMDB. O partido só se civilizou ao se transformar em Igreja no governo de Lula. A tomada e conservação do poder de Estado transformou o partido em Igreja. A força do lulismo foi um fator determinante na substancialização do partido de seita para Igreja (Singer: 101). Na eleição de 2002, a “Carta ao Povo Brasileiro” é o significante que dá início ao que o governo Lula completou – a dissolução do PT como espectro do comunismo. Tal espectro fazia do PT um saco de seitas das mais variadas cores ideológicas.
O lulismo surgiu com o Manifesto de 1983 da tendência Articulação. Desde o início, José Dirceu foi um dos principais dirigentes desta tendência (Secco: 93-95). Dirceu e Rui Falcão formaram o núcleo estalinista do partido que, em uma fusão com o lulismo, transformaria o partido em um aparelho weberiano: “Quem pratica a política reclama poder” (Weber. 1999: 526). José Genuíno seria cooptado para o núcleo estalinista-lulista pelo sindicalista Djalma Bom (Secco: 119, 127). O PT foi ao longo de sua história saindo da órbita do pensamento de Gramsci (Secco: 105), abandonando a ilusão de ser o Príncipe moderno da política brasileira. O Príncipe moderno tem como objetivo a transformação das estruturas de um país. Mas nas décadas de 1980 e 1990, o partido criou o modo petista de fazer política orientado por uma ética res publicana em um contraponto à cultura política oligárquica. Na eleição em 1989, Lula se definiu como um candidato presidencial em luta contra a oligarquia brasileira, representada por Collor de Mello. No governo, Lula não só se transformou em amigo de Collor como declarou que não existia “essa tal de oligarquia brasileira”. O lulismo no poder foi a força que transformou o PT no partido dirigente da oligarquia política híbrida. Sobre a ideologia política do partido, é preciso considerar que o socialismo foi subsumido pelo lulismo. Como Príncipe moderno, o PT jamais foi comunista, a não ser como espectro no imaginário político brasileiro. No entanto, alguns acontecimentos alimentaram a imagem do partido como espectro do comunismo (Secco: 140). O caso do sequestro do empresário Abílio Diniz – por um grupo comunista latino-americano – na eleição de 1989 merece ser citado.
No poder, o PT fez um percurso tortuoso até se transformar no motor da formação da oligarquia política híbrida. José Dirceu foi o principal responsável pela aliança do PT com o PMDB e pela atração de um grupo de partidos da direita ou indiferentes que constituíram com a oposição de direita – representada pelo PSDB – a oligarquia política híbrida.
A face oligárquica do partido deve ser procurada na lógica dos significantes autarquia (engenho, fazenda, nação) e privatismo (apropriação privada da riqueza pública) que enredam o PT no discurso do mestre colonial. Tal lógica impediu que o partido através do governo Lula pensasse a possibilidade de inserir o país nas redes do capitalismo corporativo mundial. A crise brasileira deriva desta oportunidade perdida nos governos do PSDB e do PT, ou seja, nos governos da oligarquia política híbrida. Tal fenômeno - que as elites não conseguem simbolizar na segunda década do século XXI -  parece constituir o Real da política brasileira que significa a foraclusão do significante crise brasileira. A ciência dialética da política é um discurso que pela lógica toca no Real ao encontrá-lo como o impossível de ser simbolizado; ela é a ciência do que não para de não se inscrever no simbólico. Ela eleva a lógica a sua potência extrema como ciência do real (Lacan: 449). 
Marina Silva enfrenta a eleição de 2014 como São Pedro com sua pesca maravilhosa. Sem partido próprio, ela parece não possuir um pensamento político que indique um caminho para a simbolização da crise brasileira. Ela não parece perceber que é possível articular a política a partir do discurso do analista da política brasileira. Ela não é capaz de entender que o eleitor quer um candidato que enfrente o estado de guerra freudiano com uma solução que não seja o Urstaat. Nem perceber que a crise brasileira requer a solução para a instabilidade hegemônica no bloco no poder gerada pela possível substituição do capitalismo moderno pela oligarquia capitalista rural no lugar da hegemonia nacional. A incompreensão da política é um ponto fraco da campanha de Marina Silva. Não é preciso ser pós-moderno para saber que a política é um amálgama de razão, lógica do simulacro e inconsciente político. A campanha que trabalhar com esta ideia de política será capaz de agenciar o imaginário político das massas povoado por simulacros, pulsões-significantes do inconsciente político e gotículas de racionalidade.
O PT também não trabalha neste sentido acima. A montagem do Urstaat – que tomou um grande impulso a partir das jornadas de junho de 2013 – é fruto também do pânico que a multidão produziu na oligarquia política híbrida, inclusive nos aparelhos ideológicos de Estado. Mas é preciso não esquecer o cinismo e o preconceito de tais aparelhos em relação à rua, em relação às massas. Há um gozo de tais aparelhos em domar e desarticular as massas. É o gozo urstaat de tais aparelhos. A montagem do Urstaat se acelerou com os projetos de leis antiterrorista, com a lei da organização criminosa, com a recriação do famigerado serviço secreto do Exército, com a militarização da Guarda Municipal, com o exercício despótico de juízes. Definitivamente com o Urstaat, o PT transforma-se em um aparelho político de Estado, ultrapassando a fronteira sociológica do partido weberiano. Era a conclusão lógica para José Dirceu que previu que o partido iria se desenvolver ao abandonar a identidade com o socialismo real, aquele “cadáver insepulto” (Secco: 145). Como Igreja política, o partido passou a ser regulado do exterior pelo discurso do mestre. Isto não impediu que ele criasse o Foro de São Paulo como um instrumento para sua influência sobre a esquerda latino-americana (Secco: 150).
O início de tal transformação começa com Lula substituindo Luís Gushiken na presidência do partido. O Primeiro Congresso do Partido dos Trabalhadores renegou qualquer forma de ditadura, inclusive a do proletariado (Secco: 154). O Partido deixou de pensar a política a partir de Lenin? Para este, todo Estado é uma ditadura de classe, a organização da violência para domar uma classe determinada (Lénine:436). Note-se que o grande pensador da revolução russa não se refere a um limite para o poder do Estado.  Trata-se da versão do marxismo oriental para a construção do Urstaat moderno no socialismo realmente existente. Percebendo o rumo da revolução russa fundada no pensamento leninista, Kautsky escreveu: “Como forma de governo, a ditadura típica é a ditadura pessoal. Uma ditadura de classe como forma de governo é um contrasentido. Um regime de classe não se compreende sem leis (kautsky: 29). O estalinismo é um passo além na concepção teórico-prática da política como credo quia absurdum (“Creio porque é absurdo”). O Urstaat bebe nesta fonte.
O marxismo brasileiro possui diversas correntes, inclusive uma ligada à escola de Frankfurt. Só com a escola de Frankfurt o marxismo ocidental deixou de ser leninista e, até, de ser comunista. Mas dentro dele pelo menos um grupo poderoso, o althusseriano, conservou uma nítida vontade de manter estrita fidelidade ao Partido Comunista (Merquior: 14). O PT namorou o marxismo ocidental através de Gramsci. Este teria concebido a ideia do Estado-hegemônico (Estado-ético) como uma solução para a revolução no Ocidente e na Rússia. O Estado-gramsciniano seria o avesso do Urstaat leninista. O mais influente pensador da direita brasileira até sua morte, José Guilherme Merquior parecia aprovar o Estado-ético (Merquior: 144-145). No PT, o pensamento de Gramsci foi bloqueado por uma ideologia feita de aço: o marxismo-leninismo. A última geração do marxismo brasileiro ainda não se livrou do economicismo ao tratar com o Estado. “O Estado, tal qual se apresenta na atualidade, não foi uma forma de organização política em sociedades anteriores da história. Sua manifestação é especificamente moderna, capitalista” (Mascaro: 17). Fazer a distinção entre forma política estatal e “Estado” significa perder o essencial da teoria do Estado de Marx (Mascaro: 56). Para Marx, o Estado é uma forma da história universal. Ele surge como Estado despótico no modo de produção asiático. Tal Estado despótico é um aparelho de captura do excedente e um poder sem limite. A repetição desta forma no mundo moderno – Estado leninista – joga uma luz que clareia o significante Urstaat de Marx. Como as velhas gerações de marxistas, a nova geração está completamente cega pelo próprio marxismo para entender o Estado no curso da história universal contemporânea no Brasil e na política mundial.              
Ao ter que enfrentar o estado de guerra freudiano, o PT passou a usar a ideia do Estado leninista -  colocada em prática no período do “terror vermelho” - de um poder sem limite. Tal Estado foi plenamente desenvolvido no período estalinista. O Urstaat brasileiro do século XXI é uma produção da oligarquia política híbrida. Ele é a repetição do Urstaat colonial com cimento do marxismo-leninista (estalinismo).
Em 1993, a resolução do VII Encontro Nacional do PT mostrou que os estalinistas e os lulistas haviam perdido o poder no partido para a esquerda (Secco:161). Mas na eleição de 1994 para a presidência da República, a campanha ficou dividida entre uma direção supostamente à esquerda e um comando eleitoral autônomo. A Articulação perdeu o comando da máquina, mas se impôs com a candidatura de Lula (Secco: 172). A eleição e reeleições de José Dirceu para a presidência do partido fizeram o estalinismo-lulismo retornar ao poder da instituição através das alianças como outras tendências (Secco: 188, 193). Na década de 1990, o partido deixou de ser um movimento da sociedade civil nas ruas e instituições, na cidade e no campo, para se tornar um partido profissionalizado sob a direção, no período eleitoral, dos publicitários (Secco: 182-183). Isso funcionou para definir a estabilização do estalinismo-lulismo na direção do aparato. Na eleição de 2002, sob o comando do publicitário Duda Mendonça, Lula e a máquina de funcionários do partido obtiveram a presidência da República. Na década de 1990, o PT se transformara em um aparelho oligárquico moderno, em uma burocracia política (Michels), instrumental para o grupo dirigente. Tal metamorfose foi fundamental para a instalação da oligarquia política híbrida nos anos 2000. Em 1999, a transformação da Articulação em Campo Majoritário (bolchevismo) assinala a subjetivação ampliada do estalinismo pelo partido. No entanto, nem sempre tudo foram flores no campo estalinista-lulista. Na eleição de 2002, houve um choque entre o estalinismo e o lulismo em torno do nome para a candidatura presidencial. Em uma prévia interna, Lula se impôs aos estalinistas. Em algum momento, Lula declarou que “José Dirceu não tinha amigos”. Mas apesar do conflito com Dirceu, Lula sempre o considerou uma figura decisiva na vida do PT. Dirceu se tornou o chefe da Casa Civil do governo Lula, uma espécie de primeiro-ministro. Ao sair da presidência do PT, Dirceu deixou José Genuíno em seu lugar (Secco: 210) para completar sua obra. Dirceu instalou no partido o centralismo burocrático, a cultura política hierárquica e verticalista marxista-leninista que dominou o partido no século XXI (Secco: 199-200).
Eleito em 2002, o governo Lula foi jogado no estado de graça pela conjuntura econômica internacional muito favorável a expansão do capitalismo mundial. Lula fez uma aliança com a fração industrial local através de seu vice-presidente José de Alencar, um industrial de Minas Gerais. O governo Lula pode intervir no bloco no poder aumentando o poder do capital industrial local e diminuindo o poder hegemônico da oligarquia financeira mundial. Mas a “era Lula” foi um momento no qual o capital financeiro obteve grandes lucros no Brasil. A era Lula deve ser entendida como uma evolução política – completada no governo Dilma – que tem como eixo a crise do capitalismo industrial. Trata-se de uma época que vai assistir a substituição no bloco no poder da hegemonia compartilhada entre tal capitalismo e a oligarquia financeira mundial pela hegemonia da oligarquia financeira mundial com a oligarquia capitalista rural, a fração dominante do capitalismo de commodities. A nova hegemonia é o motor socioeconômico da instalação de uma espécie de Estado oligárquico capitalista, de um Estado despótico capitalista no Brasil. Este é o caminho que o país trilhará no caso da vitória do PT com Dilma Rousseff em 2014. O PT já declarou que vai lançar Lula na eleição presidencial de 2018.
A crítica da razão marxista significa, em última instância, uma mudança na dialética fenomênica que parece substituir a rede de significantes pilotada pelo significante-mestre hegemonia pela “articulação hegemônica” da totalidade política pilotada pelo discurso do mestre. O Urstaat e a oligarquia política híbrida são os dois fenômenos através dos quais uma outra “articulação hegemônica” da totalidade política se realizará a partir do discurso do mestre. Talvez, Gabriel Garcia Marques se torne o verdadeiro espelho literário de tal história. O “Outono do Patriarca” parece apropriado como leitura para uma era de foraclusão da crise brasileira.
Em 2005, o Partido dos Trabalhadores mergulhou em uma crise ética cujo principal sintoma foi o mensalão. Tal crise revelou para o país um partido que se transformara em um aparelho político de Estado, aparelho guiado pela lógica do significante oligárquico. Um aparelho político sob o efeito das pulsões do inconsciente político colonial. Enquanto crescia no país o movimento pelo impeachment de Lula, FHC bloqueou tal fato por considerar nocivo à democracia a destruição do primeiro líder operário a assumir a presidência da República? De fato, FHC apenas defendeu a conservação do modelo político brasileiro, ou seja, o modelo baseado no domínio da oligarquia política híbrida. FHC sempre foi o ideólogo da oligarquia política híbrida. Trata-se de um momento capital da história política do século XXI. Neste momento, FHC foi o animal vocal do discurso do mestre na política brasileira. Só o mestre poderia defender com tanta clareza e determinação a sobrevivência de uma política que havia apodrecido dramaticamente. Assim como na vida privada se diferencia o que um indivíduo pensa e diz de si mesmo do que ele realmente é e pratica, nas lutas políticas deve-se distinguir mais ainda as frases e fantasias do político de sua formação real e de seus interesses reais, a ideia que fazem de si do que são na realidade (Marx. 1974: 355). Em 2006, o bom desempenho do governo e o carisma material de Lula garantiram a reeleição deste. Em 2010, contrariando uma “lei” da ciência política positivista (=carisma não se transfere), Lula elegeu um “poste”, ou seja, sua ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Um fenômeno barroco na política brasileira (Silveira: 2014), Dilma parece encarnar com sua subjetividade forjada na juventude com a luta armada o espírito político que despertou o Urstaat no Brasil. Seria o momento da terceira alma do PT? (Singer: 84). Na luta armada, Dilma tinha fé em guiar a insurreição do povo contra a ditadura militar, assim como os populistas russos tinham uma fé ilimitada na insurreição camponesa contra o Estado despótico russo (Tvardovskaia: 210). Mesmo crendo na importância de uma insurreição camponesa, os narodovoltsy viam a força hegemônica no partido, não no povo. Eles atribuíam ao partido funções não só de organizador e de guia, como também de principal destacamento de assalto da insurreição (Tvardovskaia: 211). Por outro lado, a função da minoria organizada era considerada importante também para a criação de um vasto movimento popular. Graças a revolução política e à conquista do poder, o partido teria posto em movimento as forças populares, liberado a iniciativa do povo, transformado as massas populares em uma força política consciente. O narodovolets V. Zhebunev escreveu em 1881: “A consciência popular não tem ideia dos meios de luta que permitiriam arrancar concessões da forma mais eficaz para lutar ativamente contra o mal que a rodeia. O povo está permanentemente a espera de algo, de uma força que atue fora de seu ser” (Tvardovskaia: 212). Pondo suas esperanças em uma conspiração da minoria revolucionária, o blanquismo admitia a possibilidade de provocar uma insurreição antes que as massas se dessem conta de sua necessidade, e de atuar sem esperar que a maioria do povo adotasse posições revolucionárias. O francês Auguste Blanqui escreveu sobre a tática revolucionária nas Instructions pour une prise d’armes (1868): “Faltam quadros para formar um exército? Não! Se formarão no campo de batalha, no fogo da ação!” (Tvardovskaia: 214). E confiava a sorte da insurreição à minoria revolucionária, cuja organização e sentido de disciplina determinariam a vitória. A estratégia insurrecional blanquista se baseava em sociedades secretas. A concepção da política se baseava em três pilares: ela deveria ser ultra secreta; a luta exploraria as contradições do aparelho de Estado, provocando uma crise no poder; o povo se somaria em massa aos insurretos, quando a sublevação tomasse corpo (Bernstein: 3). A alma blanquista do populismo russo tem no terror um método de luta que a liga ao terror do hebertismo que representava para Blanqui a consciência e o coração da Revolução francesa (Bernstein: 290). Em 1871, Marx condenou tal método de luta (kautsky: 44-45), retomado pelos bolcheviques no período do “terror vermelho”. Com o Urstaat leninista, o terror adquiriu a forma de um poder despótico moderno na era estalinista. O estalinismo faz do terror um instrumento do Urstaat. Se em Marx, a teoria da práxis é a condição de possibilidade da auto emancipação do proletariado (Bermudo: 23), a esquerda brasileira que lançou mão do terror para combater a ditadura se destacou pela ausência de teoria marxista na sua prática. Trata-se de um momento do marxismo brasileiro subsumido ao blanquismo. Esta alma blanquista chegou ao poder em 2010, e, em 2013, se transformou na alma do Urstaat.
BIBLIOGRAFIA 
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