quarta-feira, 14 de maio de 2014

Crime molecular e política


A violência popular é parte abundante do jornalismo de países como México, Argentina, Venezuela e Brasil. A violência molecular dos pobres – agressões, assassinatos, linchamentos, etc. – revela um espaço não pacificado no cotidiano das cidades da América Latina. Os bispos argentinos tomaram a defesa dos pobres ao rechaçarem uma associação primária entre violência e pobreza. Eles acreditam que o crime organizado e a incapacidade do Estado de prover segurança são as causas deste estado de quase guerra civil, ou seja, de guerra molecular.
O crime molecular pode ser observado como um sintoma da realidade contemporânea. O “belo crime” (Tarde: 87) já foi um fenômeno de articulação da opinião pública internacional, quando o jornalismo funcionava como fator de produção de um espírito público nacional. Hoje, a imprensa joga um papel secundário na formação da opinião pública sendo substituída por aparelhos de comunicação como a televisão e o rádio. O que mudou?
O crime molecular é parte substantiva do noticiário do aparelho de comunicação. Este elabora uma opinião eletrônica que já não tem o caráter de espírito público. Ela é uma parcela da besteira (Deleuze: 434) da programação do aparelho de comunicação. A besteira é o princípio basal da lógica do funcionamento deste aparelho. A besteira produz a ilusão de que o mundo e a própria política são indeterminados. Ela é um instrumento da comunicação como aparelho de captura do delírio das massas – uma expropriação da dimensão fantasmática da política das massas. Tal dimensão é um modo de determinação da política das massas na medida em que ela associa as massas com a lógica pública de um inconsciente político. A captura do delírio torna as massas loucas, pois elas deixam de ser capazes de encontrar forças políticas que as ajudem a tornar real o seu delírio. Um louco é alguém que, a maioria das vezes, não encontra ninguém para ajudá-lo a tornar real o seu delírio (Freud: 100). Esta captura do delírio da vida política das massas faz do crime molecular um modo dos pobres fazerem política no lugar do delírio, da fantasia. Isso não permite às massas fazer a travessia do fantasma que as captura pela lógica privada do discurso do mestre oligárquico. Trata-se de uma apropriação privada das massas no espaço político pela estrutura simbólica oligárquica, pelo discurso do Outro. Sobra para elas a revolta popular que revela no espaço político um certo niilismo relativo dos pobres e um certo enlouquecimento! Há, em andamento, a dissolução do supereu como aparelho de Estado psíquico dos pobres liberando o eu para a satisfação das pulsões do instinto de morte (Freud: 147, 148, 156)
O belo crime era determinado. Ele articulava o real – o ato criminal – com o simbólico – a lei nas páginas dos jornais. Um crime significa que um indivíduo ou um grupo de indivíduos estão propondo uma nova ordem. O crime é a oposição do indivíduo à efetividade universal como efetividade especial e como conteúdo peculiar, ou seja, de modo singular. Mas ele pode se tornar um outro mundo – outro direito, outra lei e outros costumes, produzidos no lugar dos presentes –, quando o indivíduo o faz de maneira universal e, portanto, para todos (Hegel: 194). O crime molecular da atualidade tem um caráter universal na medida em que ele propõe a substituição do mundo moderno por um estado no qual a pulsão de morte esteja liberada para a população. Ele seria o simulacro do estado de insurreição permanente republicano, de Sade (Sade: 175). O aparelho de comunicação não irradia esta determinação do crime molecular. No essencial, o objetivo do Urstaat é trabalhar a pulsão de morte da população – principalmente dos pobres – para substituir o Estado moderno por um Estado despótico. No Estado moderno, a lei não é mais a expressão da vontade de uma pequena comunidade – uma casta, ou camada da população ou grupo racial ou grupo religioso –, que se comporta como um indivíduo violento frente a outros agrupamento de pessoas, talvez mais numerosos. No Estado moderno, o resultado final seria um estatuto legal para o qual todos – exceto os incapazes de ingressar na comunidade – contribuiriam com o sacrifício de suas pulsões, e que não deixa ninguém – novamente com a mesma exceção – à mercê da força bruta (Freud: 116). Trata-se da substituição do Estado moderno por um Estado despótico que é o instrumento de uma camada da população: os ricos oligarcas capitalistas. Mais precisamente, trata-se da substituição do Estado moderno por um Estado despótico capitalista.
É preciso prestar atenção redobrada para lógica do Estado despótico capitalista. Nele, a vítima da violência molecular é um excedente retirado da massa da riqueza útil. E ela só pode ser retirada para ser consumida sem lucro e, portanto, destruída para sempre. Ela é, na produção da violência molecular, a parte maldita (Bataille: 97-98) oferecida no consumo violento, principalmente, os pobres. A ameaça de morte pela internet do ministro do STF Joaquim Barbosa feita pelo petista Sérvolo de Oliveira mostra que a ideia do crime molecular na política brasileira é algo imaginado como solução de um conflito entre o PT e o judiciário. Neste diapasão, o crime molecular dos pobres está ligado por um ponto de interseção ao crime imaginado petista na política brasileira. O niilismo seria o ponto de interseção: um espírito destrutivo em relação ao mundo moderno e ao indivíduo moderno.
O crime molecular põe em questão a ideia, a prática e a lógica do espaço moderno pacificado tais como foram vistos por Weber, Elias e Freud. O Estado moderno foi o herdeiro desse processo civilizador e possuía o monopólio legítimo da violência física. A ele cabia o papel de garantir o estado de pacificação e a segurança pública. Assistimos em um número crescente de países o fim do espaço pacificado, tomado pelos crimes moleculares que assumem o lugar da luta de classes, que já foi o questionamento da sociedade burguesa pacificada.
A luta de classes não está mais no centro da política mundial e não é mais ela que perturba o processo civilizador da era moderna. São outros fenômenos que emergem como motor do fim do monopólio da violência física pelo Estado e como fator de erosão do espaço pacificado moderno. Conflitos étnicos, conflitos políticos sem conteúdo de classe, crime organizado, narcopoder, as autodefesas mexicanas, agressões físicas no cotidiano das cidades, assassinatos em uma escala perturbadora, linchamentos, revoltas, rebeliões e tentativas de revoluções pós-modernas formam uma cornucópia da vida contemporânea que vai substituindo o mapa dos fenômenos modernos. Em alguns espaços da política mundial, a guerra civil atua no sentido da desintegração dos países, como no caso da Ucrânia.
Quando a violência física é liberada, em geral, o que isso pode nos dizer? A pulsão de morte – como desejo de agredir ou matar o estranho – liberada entre os pobres se explicaria pela revolta com a situação de pobreza? Há um niilismo substancial do pobres como noção plausível e legítima para entendermos a violência popular que parece se tornar avassaladora?
De fato, os dispositivos de dominação legítimos e ilegítimos estão parando de funcionar. O abandono da hegemonia como processo e mecanismo de socialização da população na conjuntura atual pára de funcionar como processo civilizador da política. O resultado será o fim das democracias modernas como vaticina o economicismo historicista da rede de pesquisa de Thomas Piketty? Trata-se da profecia deste que é o Victor Hugo do século XXI.
A associação entre violência molecular e fim da democracia coloca o problema em um caminho mais promissor. Ele evita a articulação entre crise catastrófica do capitalismo e colapso das democracias. O crime molecular esta enlaçado em uma cadeia de fenômenos que são sobredeterminados pelo tipo contemporâneo de capitalismo: o capitalismo oligárquico mundial. Tal capitalismo funciona gerando a desigualdade no interior dos países e entre países, continentes e regiões geoeconômicas. A reprodução ampliada do capital no planeta depende desta lógica para seguir em frente. Então, o que pode acontecer com os indivíduos, grupos sociais, países e continentes neste quadro diabólico? O que pode acontecer com a política mundial na era do capitalismo oligárquico e do Estado despótico capitalista?
A cadeia política mundial não reagirá de um modo homogêneo ao domínio do capitalismo oligárquico mundial. Há muito tempo que se sabe que a política possui uma autonomia relativa em relação ao econômico. De fato, o capitalismo oligárquico mundial subsome a cadeia política mundial. Mas ele não pode ser reduzido a um fenômeno econômico. Na atualidade, só o economicismo lança mão desta operação intelectual, política e ideológica como modelo explicativo do mundo. Em um sentido contrário ao economicismo, observaremos que em determinados elos da cadeia política mundial, a democracia representativa será ajustada para garantir a reprodução ampliada do capitalismo oligárquico mundial e a atuação do Estado despótico capitalista. Mas isso não provocara uma distorção substantiva da democracia. Em outros elos, um Urstaat pós-moderno será erguido como instrumento principal da reprodução do capital. Nestes elos, a democracia sofrerá uma remodelagem intensa – adquirindo a forma de uma democracia perversa – pois ela será sobredeterminada pela lógica do Urstaat. O único afeto possível diante deste quadro que tem como centro o Estado despótico capitalista é algo equivalente ao nojo que a mãe e o tio do desertor do exército alemão, Hans Schnitzler, sentiam pela situação que a guerra nazista oferecia para suas vidas no livro o Anjo Silencioso (Böll: 42, 46).
Nesta perspectiva, os estudos sobre o molecular devem ser articulados ao desenvolvimento da dominação do capitalismo oligárquico mundial e do Estado despótico capitalista. Assim, o livro pode continuar esta discussão do blog, que é necessariamente limitada. A internet deve ser usada como uma ferramenta para retomar, em larga escala, a cultura do livro como dispositivo humanitário (Tarde: 93). A cultura do livro – digital ou impresso – é a ferramenta do front cultural contra a barbárie do capitalismo oligárquico mundial e de seu sucedâneo político, o Urstaat pós-moderno. Continuo esta reflexão no ensaio Estado despótico capitalista, que será editado na forma de livro digital pelo “Publique-se” da Livraria Saraiva em breve.             
      
 BIBLIOGRAFIA
BÖLL. Heinrich. O anjo silencioso. SP: Estação Liberdade. 2004.
BATAILLE. Georges. A parte maldita. A Noção de despesa. RJ: Imago. 1975.
DELEUZE. Gilles. Diferença e repetição. RJ: Graal. 1988.
FREUD. Obras Psicológicas Completas. v. XXI. RJ: Imago. 1974.
HEGEL. Fenomenologia do espírito. Parte I. Petrópolis: Vozes. 1992.
SADE. A filosofia na alcova. SP: Círculo do Livro. Sem data.
TARDE. Gabriel. A opinião e as massas. SP: Martins Fontes. 1992.

               
     


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